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Eliara Santana: JN destaca voto de Gilmar, rifa Moro, se afasta da Lava Jato, mas não faz mea culpa
Fotos: Reprodução e Lula Marques
Desnudando a mídia

Eliara Santana: JN destaca voto de Gilmar, rifa Moro, se afasta da Lava Jato, mas não faz mea culpa


10/03/2021 - 15h45

BOLETIM DO JN 9/3: JN destaca voto de Gilmar, rifa Moro e se afasta da Lava Jato, mas não faz mea culpa

Um dia muito quente numa semana que já vinha quente e que marca bastante os rumos de 2022. JN rifa Moro, mas não faz mea culpa

Por Eliara Santana, em seu blog

A edição do JN de 9 de março, quando a 2ª turma do STF julgou a parcialidade do ex-juiz Sérgio Moro, um dia depois de o ministro Edson Fachin anular as condenações de Lula sinalizou algumas mudanças estratégicas na cobertura jornalística. Se essas mudanças vão se manter, é uma incógnita, mas foi interessante observar o reposicionamento.

Vamos à edição e à sua principal notícia.

Para quem esperava muita emoção e fundos vermelhos, foi mais uma decepção – o JN manteve o tom neutro, sóbrio, que vinha adotando desde a decisão de Fachin sobre Lula.

A cobertura do julgamento de suspeição de Sergio Moro deu um enorme destaque ao voto histórico do ministro Gilmar Mendes. Histórico porque ele apontou o dedo para Sergio Moro e detalhou, um a um, os desvios, as trapaças, as ações autoritárias do ex-juiz e ex-ministro. E a edição do JN mostrou o voto com riqueza de detalhes.

De novo, William Bonner e Renata Vasconcelos atuaram como apresentadores bastante neutros, sem manifestação – apenas em um momento houve a fala de Bonner.

Ao longo da cobertura, as imagens de Moro foram pontuais, quase frias, e ele não falou, não se manifestou. E as imagens de Lula foram positivas. Não apareceu, em nenhum momento, a velha imagem vermelha com o cano carcomido por onde escorre dinheiro.

Parece que o JN está abandonando o carro alegórico da Lava Jato. Foi uma cobertura bem interessante e reveladora de passos futuros, como eu vinha adiantando.

A edição começou com Renata explicando a retomada da votação de suspeição de Moro e mencionando que a votação se dava 24 horas depois de o ministro Edson Fachin anular as condenações de Lula pela justiça federal do Paraná. Tudo com muita sobriedade, sem emoção.

Entra então a reportagem, recapitulando a decisão de Fachin e dizendo que ele havia tentado adiar a sessão, mas que Gilmar Mendes teve outro entendimento. Houve destaque para a argumentação e Fachin e também espaço para a alegação da defesa de Lula e para as avaliações dos outros ministros sobre a necessidade da votação naquele momento.

E o grande destaque da cobertura da votação de suspeição foi sem dúvida o voto de Gilmar Mendes.

O JN podia ter feito uma cobertura protocolar, sem jogar luz, como já fez de outras várias vezes em relação ao próprio Gilmar, mas optou por dar um grande destaque ao voto do ministro.

Foram quase 20 minutos da edição, no primeiro bloco, para as falas de Gilmar Mendes, que bateu muito pesado em Moro e na Lava Jato. Nem a crítica à imprensa foi deixada de lado (claro que houve arranjos, mas a crítica apareceu).

Bonner e Renata estavam no papel de apresentadores, mediadores qualificados da fala do ministro, mas sem interpelações ou interpretações emotivas (como já fizeram de outras vezes). Houve apenas um momento de justificativa de Bonner a uma fala do ministro.

Houve destaque para os pontos cruciais (eu digo porque havia acompanhado o voto) e até para a crítica à parceria da mídia com a Lava Jato (claro, sem mencionar os nomes de jornalistas globais – Vladimir Neto, por exemplo – que Gilmar citou mais de uma vez).

Foi Bonner quem anunciou o voto de Gilmar Mendes, informando que o ministro havia começado a leitura do voto fazendo um “histórico crítico da atuação de Sergio Moro durante o julgamento do caso Banestado, em 2003. Lembrou que na ocasião, Moro já tinha sido considerado parcial pela própria Segunda Turma do STF. Segundo Gilmar, esse retrospecto mostra as ações arbitrárias que Moro levou para a Operação Lava Jato, como prisões provisórias e preventivas prolongadas. No voto, Gilmar considerou esses aspectos como uma conduta autoritária”.

E entra então o ministro falando que “a história recente do poder judiciário ficará marcada por um experimento de um projeto populista de poder político, cuja tônica assentava-se na instrumentalização do processo penal, na deturpação dos valores jurídicos e na elevação mítica de um juiz subserviente a um ideal feroz de violência às garantias constitucionais do contraditório, da ampla defesa, da presunção de inocência e principalmente da dignidade da pessoa humana”.

Portanto, essa fala introdutória da reportagem marca o tom que seria dado e, sobretudo, marca a postura de distanciamento do JN em relação ao antes pupilo e herói Sergio Moro.

A reportagem prosseguiu nessa linha, com Renata anunciando na sequência os “desacertos da Lava Jato” apontados por Gilmar já em 2016, num evento no Senado.

E os dois alternaram as aberturas dos trechos do voto de Gilmar, destacando inclusive as gravações apreendidas pela operação Spoofing – questão para a qual o jornal não dava nenhum destaque, fingia que não existia – e as pesadas críticas feitas à imprensa.

Segundo Bonner, “o ministro citou mensagens da Spoofing sobre atos da Lava Jato que poderia produzir noticias e atacou a imprensa, dizendo que havia uma cumplicidade de jornalistas com procuradores”.

Entra na sequência trecho do voto de Gilmar lendo a mensagem e falando da cumplicidade, da complacência da mídia. Bonner entra logo em seguida dando uma justificativa para isso:

“Em relação ao jornalismo da Globo é preciso dizer que aqui nós nos dedicamos a registrar os fatos, suas repercussões e seus desdobramentos. Como estamos fazendo agora no julgamento da suspeição do ex-juiz Sergio Moro”.

Tudo muito equilibrado, apenas uma justificativa, sem partir para o embate, sem de fato rebater a fala, sem polemizar. E mantendo o afastamento em relação a Moro – como se dissesse: naquele momento, dávamos espaço porque era notícia, fato importante.

A reportagem prosseguiu com essa conduta e dando todos os destaques para o voto do ministro.

Houve ainda bom destaque para o voto do ministro Lewandowski, que foi bastante técnico, e espaço bem menor, sem problematizar nada, para o pedido de vistas do ministro Nunes Marques.

Quero centrar os comentários da edição em dois pontos que acho essenciais para pensarmos os movimentos e agora e o futuro:

1. O JN SE REPOSICIONA E PROJETA UM NOVO ETHOS

O que é o tal ethos? É a imagem no discurso – a imagem que o sujeito (histórico) constrói e projeta para o outro (ou outros) em determinado discurso.

Então, qual é agora essa imagem que esse ator JN quer projetar? A de um sujeito (histórico) que faz jornalismo imparcial, isento, que “mostra todos os fatos” e que até traz em destaque quem fala mal da imprensa.

Portanto, uma projeção que busca credibilidade a ressaltar a imagem de comprometimento com os fatos (mesmo que eles sejam incômodos), não atrelamento a qualquer grupo, espaço para todas as vozes, proximidade com os interesses dos brasileiros.

É a projeção de uma nova imagem com vistas ao futuro (realinhamento da pauta neoliberal) e ao que pode vir.

2. O JN RIFA MORO, MAS NÃO FAZ MEA CULPA

Rifar um super aliado que caiu em extrema desgraça faz parte do jogo. E ao projetar a imagem, o ethos de idoneidade e jornalismo sério, comprometido com “os fatos”, o JN quer se afastar da Lava Jato, que agora cai em desgraça, e rifa o amigo herói Sergio Moro.

Mas isso não implica fazer mea culpa. De forma alguma. Eles se afastam sob a alegação de que “reportavam os fatos” e, portanto, nunca tomaram partido.

Haverá com certeza muitas emoções ate 2022. Mas nós sabemos, agora de modo muito claro, o que eles fizeram no verão passado…

*Eliara Santana é jornalista e doutora em linguística pela PUC/MG





6 comentários

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Zé Maria

10 de março de 2021 às 22h56

https://pbs.twimg.com/media/EwJC0zAXMAETupv?format=jpg

‘No álbum do Huck só tem figurinha queimada:
Aécio, [Joesley,] Bolsonaro et caterva…’

https://twitter.com/rvianna/status/1369730714304995336

Responder

Haroldo Cantanhede

10 de março de 2021 às 20h03

O jornalnacional é porta-voz do GOLPISMO e trabalha contra o Brasil e o povo brasileiro.

Responder

Rubens Nelson

10 de março de 2021 às 20h00

Ainda tem 3 votos num total de 5.
Vai que Cármen Lúcida resolve pintar o cabelo. Quebra a internet se ela aparecer loira igual a Rosa.
Cantar v it ór ia
Antes do tempo é meio infantil. Coisa de moleque de 18 anos.
Nada de nada mudou.
Política não é torcida.
Um gol no Maraca não muda nossa vida. Talvez só mude a vida do Sávio.
Muito mulequev já deu o no no velho general.

Responder

Lewis Preston Harris

10 de março de 2021 às 18h46

Remember 2016.

(malandro não para. Malandro dá um tempo).

Mero recuo estratégico. Que o PT não seja ingênuo novamente.

Responder

Zé Maria

10 de março de 2021 às 16h39

“Globo reconhece que Lula é Candidato,
mas agora faz Terrorismo de Mercado”

Paulo Pimenta
https://twitter.com/DeputadoFederal/status/1369234899627085825

O jornal O Globo, dos irmãos Marinho, que fez campanha pelo golpe de 2016
contra a ex-presidente Dilma Rousseff, e pela prisão política do ex-presidente Lula,
tornando-se cúmplice da ascensão do fascismo e da destruição de milhões de
empregos no Brasil, inaugurou nesta terça-feira sua nova linha de comunicação,
diante da volta de Lula ao jogo político, com a anulação de suas condenações
pelo Supremo Tribunal Federal.

Em editorial publicado nesta terça-feira, o Globo admite que Lula está de volta
ao jogo, mas diz que a principal consequência seria o derretimento dos “mercados”.

O Globo, no entanto, não informa que Lula já governou durante oito anos e foi
o melhor presidente do Brasil para os “mercados”.
Tanto o ‘mercadinho do seu Zé e da Dona Maria’, uma vez que o poder de consumo
interno dos brasileiros explodiu, como o mercado financeiro, uma vez que o dólar
caiu pela metade e a bolsa de valores subiu 555% durante seu mandato.

Ou seja: a Globo segue jogando sujo contra Lula e contra a democracia no Brasil.

Canal da Resistência: (https://t.co/HU5xpgvmtD)
.
.

Responder

    Zé Maria

    10 de março de 2021 às 17h34

    .
    .
    “Pegue manchetes d 1989 e as de hoje.
    São as mesmas. Risco Lula. Bolsa cai com Lula.
    Proteja seus investimentos etc etc.
    A banca encheu o toba de $$$ em 2 govs Lula
    e mesmo assim as chamadas da mídia ñ mudam.
    E olhe q s/ Lula o país saiu d 6a p/ 12a economia do mundo.
    O q explica?”
    https://twitter.com/XicoSa/status/1369233453296783362
    .
    E quem disse que o Lula nunca fez Palestras?
    .

    Lula faz Palestra para Banqueiros e Investidores

    | Reportagem: Tatiana Farah | O Globo | 02/05/2011 / Atualizado em 03/11/2011 |

    SÃO PAULO. Depois de anos de queda-de-braço com bancos estrangeiros,
    com direito a alfinetadas internacionais e à criação de um “lulômetro”
    para medir os riscos econômicos do país caso fosse eleito, o ex-presidente
    Luiz Inácio Lula da Silva vai ganhar dinheiro para fazer uma palestra a banqueiros
    e investidores.
    Na quarta-feira, o petista será o palestrante do encontro marcado pelo Bank of
    America Merrill Lynch para comemorar a autorização do Banco Central para
    atuar no Brasil como banco múltiplo.

    O ex-presidente, segundo sua assessoria, deverá traçar um cenário otimista
    para investimentos estrangeiros, falando de avanços econômicos e de estabilidade. Lula deverá receber R$ 200 mil pela palestra.

    A relação de Lula com os bancos americanos sempre foi tumultuada.

    Ele mesmo diz ter sido perseguido pelo chamado “risco Lula” desde sua primeira
    campanha presidencial, em 1989.

    Em 2002, o Goldman Sachs chegou a criar o “lulômetro”, um índice que elevava
    o risco de investimentos no Brasil de acordo com as chances do então candidato
    petista vencer sua primeira eleição.

    Em 2009, o mesmo banco elogiou o desempenho do presidente na crise
    econômica global.

    O próprio Merrill Lynch chegou a rebaixar a recomendação de investimentos no Brasil às vésperas das eleições de 2002, quando as pesquisas apontavam para a vitória de Lula.

    O ex-presidente, por sua vez, nunca deixou de ocupar as tribunas internacionais para criticar os banqueiros e a “especulação internacional”. Em 2008, no início da crise econômica nos Estados Unidos, criticou publicamente o então presidente George Bush pelo socorro de US$ 700 bilhões ao sistema financeiro.

    Embora tenha feito uma política interna que favoreceu os bancos _ tanto nacionais como estrangeiros_ o ex-presidente sempre adotou um tom crítico em relação aos bancos dos países desenvolvidos, responsabilizando-os pela crise. Disse que os “brancos de olhos azuis” eram responsáveis pela crise mundial, citando países ricos e bancos. E ironizou os banqueiros que falavam em “risco Lula”, mas que acabaram falindo.

    https://oglobo.globo.com/politica/lula-faz-palestra-para-banqueiros-2775081


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