VIOMUNDO

Diário da Resistência


Eliara Santana: Entrevista medíocre no Roda Viva escancara conivência com desmandos da Lava Jato
Reprodução de vídeo e Agência Brasil
Desnudando a mídia

Eliara Santana: Entrevista medíocre no Roda Viva escancara conivência com desmandos da Lava Jato


03/09/2019 - 14h04

por Eliara Santana*

Na noite de segunda-feira, 02 de setembro, boa parte do Brasil seguramente parou excitada para assistir ao programa Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo.

No centro, o jornalista Glenn Greenwald, diretor do Intercept e responsável por uma sacudida sem precedentes na operação Lava Jato e no jornalismo brasileiro.

Comecei a assistir já prevendo um forte enviesamento na entrevista, pois o Roda Viva já não faz bom jornalismo há bastante tempo.

Mas tudo superou em muito minhas expectativas, e não apenas pela defesa escancarada da Lava Jato, mas, sobretudo, pela mediocridade dos “jornalistas” entrevistadores (com, talvez, duas exceções: o jornalista de O Globo – que começou na linha morolover e anti-PT, mas viu que podia fazer melhor – e o jornalista do portal JOTA).

E mediocridade aqui nada tem a ver com o posicionamento ideológico – há muitos bons jornalistas no Brasil à direita -, tem a ver com o processo que tomou boa parte do jornalismo brasileiro em sua subserviência sem questionamento e acrítica às instâncias de poder dominantes.

É a tal da “neutralidade” elevada ao cubo no jornalismo, como se houvesse algum sujeito histórico que pode ser neutro diante da complexidade da realidade. Todo sujeito histórico é ideológico, gostem ou não os tais “jornalistas”.

A entrevista poderia ser uma oportunidade de ouro para se promover um debate decente sobre as denúncias trazidas por Glenn e pelo The Intercept – se a bancada fosse composta por bons jornalistas, teria sido um momento histórico, sem dúvida, levando ao público brasileiro questões relevantes.

No entanto, a formatação parece ter sido deliberadamente orquestrada para levar ao público um espetáculo pobre e irrelevante.

Pois bem, o que vimos então, no Roda Viva, foi um show de mediocridade, que não pode nunca ser confundido com a realização de uma entrevista contundente e questionadora – o próprio Glenn fez isso quando entrevistou Lula na prisão, abordando vários aspectos incômodos e de certa forma duros. A BBC fez isso na entrevista também com Lula.

No Roda Viva, os jornalistas tentaram se portar como inquisidores – tentaram, porque, de tão medíocres e sem condições de uma abordagem ampla e contextualizada, caíram no vazio da reprodução de polêmicas das redes sociais e questões pessoais.

Tentaram constranger Glenn, mas foi Glenn quem os enquadrou e expôs a mediocridade de parte da imprensa brasileira. Alguns aspectos são interessantes:

1. Defesa inquestionável da Lava Jato, de Sergio Moro e seus procedimentos nada republicanos. Nenhuma pergunta expôs os bastidores da Lava Jato, nenhuma pergunta colocou em xeque as ações de Moro e Dallagnol.

Todos reproduziram a ideia – difundida por Moro e Dallagnol e Rede Globo – de que o material era ilegal porque foi obtido por uma ação ilegal de um hacker.

Todos questionaram isso todo o tempo, esquecendo-se dos vazamentos convenientes que a mídia fez no auge da Lava Jato.

Glenn respondeu tranquilamente afirmando que o dever do jornalismo é expor as denúncias e lembrando que, quando ele divulgou o material sobre Snowden e a NSA, nenhum veículo brasileiro questionou a origem.

2. Perguntas em torno de um mesmo tema, com raríssimas exceções.

Não avançaram em momento nenhum, não trouxeram questões relevantes sobre o processo, sobre a decisão de publicar, sobre a repercussão no exterior, sobre a repercussão para a justiça brasileira. Nada. Tinham um script fechado.

3. Tentativa de intimidação do entrevistado – a tônica era mostrar que Glenn agiu de maneira ilegal ao divulgar o material com as denúncias.

A ideia fixa era tão determinante que a jornalista do Portal Metrópoles, lá pelas tantas, afirmou com ares de indignação que “era melhor então demitir todos os jornalistas e contratar meia dúzia de hackers”.

Glenn ficou tão estupefato que disse “desculpe, eu não entendi”. Realmente, é incompreensível. É um raciocínio tosco e torpe, idiota, restrito, estúpido.

Ela demonstrou não ter a menor noção do que significa o bom jornalismo investigativo. E o que é o trabalho de um hacker. Talvez devesse conhecer Lisbeth Salander…

4. A velha tática de trazer à tona questões pessoais como se fossem assuntos triviais que devessem ser tratados.

Não apontaram, tampouco questionaram, os ataques que Glenn vem sofrendo (acho que houve uma pergunta citando isso e indagando a Glenn se procediam).

5. Reproduziram a concepção das fake news difundidas contra Glenn – questionaram sua ligação suposta com Lula e até a aberração de que ele fez filme pornô!

6. Reproduziram sem questionar o senso comum de que a punição aos procuradores e os questionamentos sobre os métodos da Lava Jato podem liberar muitos criminosos (esse é um dos aspectos que merecia ser debatido, não apenas reproduzido como as redes sociais morolovers vêm fazendo)

7. Os tais jornalistas mostraram desconhecer como deveria ser o funcionamento de uma sociedade democrática, em que instâncias de poder devem ter têm certa independência e devem levar ao público o que é de interesse público.

E é absolutamente de interesse da sociedade brasileira saber que procuradores da República agiram às margens da lei para criminalizar sem chance de defesa determinado grupo político, deixando outros agirem livremente.

Enfim, essa entrevista do Roda Viva merece ser vista e revista e debatida para compreendermos que a Lava Jato, sem o colo e o suporte inquestionável, acrítico, de parte da imprensa brasileira jamais teria chegado aonde chegou. Jamais.

*Eliara Santana é jornalista e doutoranda em Estudos Linguísticos pela PUC Minas/Capes

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10 comentários

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Dan

04 de setembro de 2019 às 11h41

Os jornalistas que entrevistaram o Glenn são uma amostra da mutação que sofrem indivíduos dessa espécie em tempos sombrios: mimetizan a voz do seu dono e a espinha tanto se curva que sua lingua, atrofiada e servil, serve apenas para lustrar botas.

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Andre Fontana

04 de setembro de 2019 às 09h31

Vocês perdem tempo ainda com esses tipos de jornalismo do tempo da galochinha que não agrega nada para o povo brasileiro.

Responder

Álvaro Sabença

04 de setembro de 2019 às 08h55

Na realidade a Lava Jato foi um erro histórico.
Se havia países onde não existia CORRUPÇÃO era no Brasil.
😂😁😂 👏👏👏

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    Jessé Nascimento

    04 de setembro de 2019 às 21h38

    Pois é Álvaro, daqui a pouco estaremos prendendo a polícia por crime de investigação e juízes por crime de condenação…

Aristóteles Jefferson

04 de setembro de 2019 às 00h33

Eliana Santana perfeito .
só resta um comentário: Se o Supremo se acovardar… matam o Glenn e nós tamo fu_ _ _ _ _!!!

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Celso Aldo

04 de setembro de 2019 às 00h00

São pessoas mais preocupadas com seus empregos de jornalista e em puxar o saco do patrão do que com a verdade. Pra eles não tem importância que milhões de pessoas perderam o emprego por causa do LJ e suas muitas mentiras.
Tem gente que ainda não percebeu que foi enganada pela LJ e pela Globo.
Jornalista ganhou muito dinheiro sendo municiado pelo MPF e seus vazamentos a jato quentinho do forno. A LJ foi muito rentável para mídia PIG.
É foda qdo a gente é passado pra trás e só descobre anos depois.
Todo mundo celebridade que agitou e se candidatou conseguiu se eleger. Agora, o povo o que será que ganhou com isso. Inflação menor pq ninguém compra nada caro.

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Zé Maria

03 de setembro de 2019 às 18h52

https://youtu.be/0zMSZuTPJB4?t=4646
Ola só a Presunção de uma Funcionária
de um tal Metrópoles, ex-Menina do Jô:

No meio da Aula de Jornalismo do Glenn,
se atravessou com a pérola:

“E se Fôssemos nós os invadidos” ?!?

O Jornalista educadamente prosseguiu
dando a Lição de Ética e Jornalismo, e
nem deu importância à boçalidade.
Mas por certo deve ter pensado em dizer:

“Se fossem as suas mensagens, com certeza,
não teriam o menor valor, para fins Jornalísticos” …

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Zé Maria

03 de setembro de 2019 às 17h14

Greenwald sobre ‘candidatura’ de Moro à presidência:
“Se Bolsonaro pôde ganhar a eleição, qualquer um pode”

https://br.sputniknews.com/brasil/2019090314471568-greenwald-sobre-candidatura-de-moro-a-presidencia-se-bolsonaro-pode-ganhar-qualquer-um-pode/

Praticamente [email protected] @s [email protected] para compor a Bancada
de interrogadores do Jornalista Glenn Greenwald no Roda Viva
trabalharam ou ainda trabalham para o Jornal O Globo e para
os Jornais Tradicionais da Mídia Fasci-Paulista.

É impressionante como Rio e São Paulo produziram – sobretudo,
mas não apenas (vide Lacerda, no RJ, e Frias e Mesquita, em SP),
na Última Geração – uma Penca de “jornalistas” Fascistas e Alienados.

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Zé Maria

03 de setembro de 2019 às 16h50

#RodaVivaGreenwald

“impressionante o nível mamadeira de piroca dos jornalistas ontem no roda morta.
antigamente jornais tradicionais contratavam calhordas mais preparados.
hoje o baixo nível moral se equivale ao baixo nível intelectual.”

https://twitter.com/bichogoiabaazul/status/1168866827293855745

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Zé Maria

03 de setembro de 2019 às 16h11

A impressão que a maioria dos pseudo-jornalistas,
senão a totalidade, foi convocada pelos Jornais
para os quais trabalham, ou, pior, pelos Patifes
da FTLJ e pela PF [leia-se Moro] para investigar
o Jornalista Glenn Greenwald, e fazer com ele
revelasse o nome da fonte e se foi pago ou não.
Em nenhum momento da Entrevista vieram
à tona os Crimes praticados pelos Procuradores
do MPF e pelo então juiz Sergio Moro, quais
sejam, o Conluio entre juiz e acusação, o uso
da fama da Operação para obter vantagens
pessoais, sobretudo financeiras, além da
promiscuidade entre as investigações e os
interesses políticos diretos dos Agentes
que forjaram um impeachment de Presidente
e manipularam o resultado de uma Eleição.

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