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Eugênio Aragão: Justiça brasileira dorme ou é velocista, para manter Lula preso
Wilson Dias/Agência Brasil
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Eugênio Aragão: Justiça brasileira dorme ou é velocista, para manter Lula preso


24/06/2018 - 10h01

Wilson Dias/Agência Brasil

Contra a chicana jurisdicional

por Eugenio Aragão*, via whatsapp

O Brasil foi ontem surpreendido com uma repentina guinada processual no calvário imposto ao Presidente Lula por conta da quimera do Guarujá.

Estava, o tribunal regional federal da 4.ª Região, há mais de cinquenta dias, a atrasar o juízo de admissibilidade sobre os recursos especial e extraordinário, interpostos ao STJ e ao STF, respectivamente, do julgamento fulminante da apelação em janeiro passado.

Só com muita grita, o presidente daquela corte resolveu, depois de mais de quarenta dias com a papelada dormitando em seu disco virtual, abri-la ao ministério público para seu óbvio parecer, pela recusa do seguimento dos recursos, é claro.

E, agora, já pautado pedido cautelar na 2.ª Turma do STF, para antecipar o longevo juízo de admissibilidade, a vice-presidente do TRF resolve acordar de seu longo sono de bela-adormecida e, ainda bocejante, proferir sumário despacho de não admissão do recurso extraordinário.

O recurso especial, é verdade, foi admitido, pois, no STJ, ao qual se destina, a mesma cautelar de antecipação do juízo de admissibilidade havia sido já barrada monocraticamente pelo relator.

Mas aí que está a esperteza, o ardil desleal.

Diferentemente do que ocorreu no STJ, no STF, o relator, ainda que tenha negado a liminar para conferir efeito suspensivo ao recurso extraordinário, submeteu o pedido à Turma.

O pedido cautelar estava para ser julgado na próxima terça feira, dia 26 de junho.

Não há como deixar de constatar que o repentino despertar do tribunal convenientemente dorminhoco do sul se deveu unicamente ao intento de frustrar o julgamento da cautelar.

É evidente que, para bloquear o caminho do pedido, que se prendia ao prospectivo julgamento do recurso extraordinário, esse recurso não foi admitido.

Mais uma vez, a defesa do Presidente Lula é obrigada a segurar na brocha, com a escada fechada em última hora pela matreira jurisdição.

Impressionam essas andanças do TRF.

Em janeiro, às carreiras, em pleno recesso das cortes superiores que pudessem exercer alguma ação disciplinadora, o tribunal resolve pautar a apelação da sentença condenatória, proferida sem qualquer prova robusta, no já famigerado caso do Tríplex do Guarujá.

Passa o processo à frente de algumas dezenas de outros, sugerindo que o interesse público demandaria fosse o feito julgado sem delonga.

Acertados os votos dos julgadores na turma – tão ajustados que, no dizer do jornalista Luís Nassif, pareceriam jogral dos três sobrinhos do Pato Donald – agravou-se a pena do Presidente Lula.

Houve embargos. Houve pedidos às cortes superiores para impedir a quase certa prisão. Houve ouvidos moucos.

Ninguém queria ou ousava impedir essa prisão, calcada numa agressão evidente à Constituição, que determina a presunção de inocência até o esgotamento de todos os recursos.

E, como era prevista, a prisão se deu a toque de caixa, tão logo rejeitados os embargos e antes mesmo de sua publicação. No melhor estilo bá-buf!

Depois… ah, depois! Depois veio o longo inverno.

O Presidente Lula, preso já há mais de sessenta dias, indicado candidato à Presidência da República por seu partido e na “pole position” em todas as pesquisas eleitorais, é impedido de se articular, dar entrevistas, participar de debates com seus concorrentes, submetido à desvantagem compulsória por juízes caprichosos.

Atrás do palco, ouvem-se vozes jurisdicionais a ameaçarem-no com inusitado indeferimento liminar do registro de sua candidatura se ousar querer concorrer. E ninguém tem pressa agora.

Não querem adentrar o mérito da condenação engendrada antes das eleições.

Sabem-no inocente, sabem que a quimera do Guarujá não se sustenta à luz do quadro probatório, sabem que foi julgado por um juiz tagarela, parcialíssimo, mas mantêm-no preso para não participar das eleições.

O TRF esticou a corda ao máximo.

Segurou o juízo de admissibilidade pelo tempo que pôde e só soltou a rapadura quando se abriu a perspectiva de o STF tomar a si a competência.

Aí, novamente, como menino travesso, o tribunal a quo aumentou o ritmo para não levar bronca do professor.

Enquanto isso, o dito professor tem se portado com espantosa leniência.

A presidente do STF não se fez de rogada e declarou, em convescote empresarial, que não se podia dar ao Presidente Lula tratamento diferenciado.

Logo, não haveria qualquer consideração urgente de seu caso. Ora, ora!

Tratamento diferenciado é o que sempre lhe deram, com a imprensa no pescoço.

O interlúdio da pressa oportunista e do vagar maroto para impedir qualquer atuação eficiente da defesa, as declarações públicas de juízes e procuradores sobre seu caso, os pré-julgamentos lançados na mídia por alguns que ainda poderão dizer sobre sua situação jurídica, tudo isso denota, sim, um tratamento completamente fora do padrão.

Mais ainda: a própria presidente do STF esmerou-se à vista de todos em não pautar ações declaratórias de constitucionalidade que pudessem reestabelecer o primado do princípio da presunção de inocência.

E o fez claramente para que o Presidente Lula não pudesse se beneficiar de eventual reposicionamento jurisprudencial.

Quando anunciaram que a 2.ª Turma do STF poderia vir a reexaminar a prisão do Presidente Lula ao julgar o pedido cautelar de antecipação do efeito suspensivo do recurso extraordinário interposto, a maioria de brasileiras e brasileiros com discernimento, leigos ou não, reagiram com muito cuidado, com medo de demonstrar esperança, pois, num quadro em que o judiciário se porta de forma tão tortuosa, a decepção era quase certa.

E foi: em pouco mais de quarenta minutos depois de vir a público o despacho da vice-presidente do TRF, negando admissão ao recurso extraordinário, solta-se despacho do relator do pedido cautelar, julgando-o prejudicado e frustrando seu conhecimento pela 2.ª Turma do STF, já pautado para terça feira próxima.

Como conseguem ser tão previsíveis nas suas manigâncias!

O timing do despacho que extingue o pedido cautelar sugere que o jogo foi combinado.

Afastaram dos ministros do STF um amargo cálice.

Na undécima hora, preservaram-nos de terem que decidir se soltassem o Presidente Lula ou não. Ninguém disfarça.

E, no entanto, a extinção do pedido cautelar não é um corolário necessário da decisão que deixou de admitir o recurso extraordinário.

O próprio STF tem decidido que, proferido o juízo de admissibilidade, positivo ou negativo, instaura-se a instância ad quem.

Diante da evidente manobra do TRF, deveria o STF reagir e manter a pauta, pois magistrados finórios não merecem ser homenageados com a retração da instância que lhes pode colocar freios.

E, para manter a pauta, bastava se socorrer do princípio da fungibilidade dos meios recursais, prevalente em nosso processo penal, e receber o pedido cautelar já como agravo de instrumento, para forçar a subida do recurso extraordinário.

Poderia dar prazo de até vinte e quatro horas para a defesa se manifestar e garantir o julgamento na terça feira.

É o mínimo que se esperaria de um Tribunal Supremo a quem incumbe zelar pelo respeito aos direitos fundamentais, notadamente o do devido processo legal, o do julgamento justo e o da duração razoável do processo, pois, do contrário, ao se frustrar a pauta, qualquer nova decisão sobre a admissibilidade ficará para agosto, depois do recesso judicial.

Até lá, prolongar-se-á o calvário do Presidente Lula, preso em afronta à Constituição.

Ainda é tempo.

Pode e deve a defesa pedir reconsideração para manter a pauta, mas a pergunta que não quer calar é: o STF se dobrará à chicana ou colocará ordem no processo para devolver a respeitabilidade à tão abalada justiça brasileira?

As próximas horas o dirão.

*É ex-ministro da Justiça do governo Dilma

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5 comentários

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Ronaldo Martins

29 de junho de 2018 às 07h51

A ordem para libertar Lula virá de fora do país. Claro, depois das eleições. Depois da entrega do resto que o PSDB é o Temer ainda não conseguiram entregar. Todo o pré-sal, as refinarias, toda a água, as terras boas a Eletrobrás, todos os grandes aeroportos, o espaço aéreo, a Embraer, a base de Alcântara e a privatização de todo o sistema penitenciário. E, como só nos sobrará a conta dos impostos serão privatizadas a Receita Federal do Brasil é o Banco Central. Dizem que o Brasil vai acabar. Se regredíssemos ao ano de 1500 ainda seria mais vantajoso porque em se plantando tudo dava e hoje o que plantamos tudo nos tomam. Nossa sorte depende de algum desastre no hemisfério norte.

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Maria Telma

24 de junho de 2018 às 18h46

É o toma lá da ca. O judiciário ainda não percebeu que só os muito ricos mesmo o apoiam, o resto do povo, inclusive a classe média já torce o nariz contra a atitude da justiça. Enquanto isso continuam a ganhar auxílios moradia, livro, paletó etc etc etc. Uma vergonha.
O povo precisa da tutela do judiciário para votar.

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Julio Silveira

24 de junho de 2018 às 15h59

A elite juridico politica que comanda o tal judiciario “isento e independente”, culturalmente é inimiga de odio de todo e qualquer politico popular que produza questionamentos sociais, e que coloquem em riscos a estrutura montada para privilegiar as oligarquias que os constituiram e os ajudam a constituirem privilegios e beneficios totalmente em desacordo com o padrão universal civilizado para o sistema. Apesar de usarem, como tradicional das elites nacionais, os exemplos estrangeiros do países que costumam utilizar como exemplo, em sua falaciosa hipocrisia.

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