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Diário da Resistência


Crime de lesa-humanidade: Gilead barra acesso a genérico contra hepatite C e deixa 15 mil brasileiros sem tratamento
Abia
Blog da Saúde

Crime de lesa-humanidade: Gilead barra acesso a genérico contra hepatite C e deixa 15 mil brasileiros sem tratamento


23/12/2018 - 15h24

As patentes da Gilead e crime de lesa-humanidade

por Fernando Pigatto, Jorge Bermudez e Ronald Ferreira dos Santos*, site da Fenafar

A voracidade da indústria farmacêutica não reconhece limites e a manutenção de monopólios ignora o impacto que essas estratégias representam na opção entre vida ou morte daqueles que precisam ter acesso a medicamentos.

Estamos diante do maior imbróglio político-jurídico dos últimos tempos, com a Gilead tentando a qualquer custo manter o monopólio do fornecimento de Sofosbuvir ao SUS e impedindo a aquisição de uma versão genérica desenvolvida, estritamente dentro da legalidade, por Farmanguinhos e o Consórcio BMK, registrada na Anvisa e ofertada a um preço inferior ao que vem sendo praticado pela Gilead.

Inicialmente, houve toda uma polêmica gerada pela expectativa de patente (de 126 solicitações de proteção patentária reduzidas a 13 e depois a apenas 2), que estabeleceu um monopólio de fato, não de direito, pois a patente ainda não havia sido concedida.

Essa estratégia acarretou toda uma mobilização da sociedade civil junto ao INPI e a própria Gilead pleiteando o indeferimento das patentes, em nome do direito à saúde e na defesa dos pacientes antes das patentes.

O deferimento da patente PI 0410846-9, intermediário utilizado pela Gilead no processo de desenvolvimento e produção do Sofosbuvir, levou a uma nova onda de mobilização, gerada pelo receio dessa patente poder bloquear a produção pública do medicamento.

Logo se verificou que essa patente, ao não ser parte da rota de síntese do Sofosbuvir desenvolvido no contexto da cooperação de Farmanguinhos com o Consórcio BMK, não impediria a aquisição do produto pelo SUS.

Entretanto, santa inocência pensar que a empresa norte-americana não iria utilizar todas as manobras possíveis para impedir qualquer concorrência.

Inicialmente questionando que um Acordo de Cooperação Técnica havia sido transformado em PDP sem base legal, tentaram impugnar as compras pelo Ministério da Saúde, semeando a discórdia, mostrando que os aspectos econômicos e o lucro representam para a indústria interesses acima dos interesses sociais.

Não fosse isso suficiente, a imprensa nos mostra que, utilizando a pressão e conseguindo uma liminar, pela via judicial conseguiram paralisar doze caminhões carregados da versão genérica e mais barata do Sofosbuvir às portas dos almoxarifados, deixando 15 mil pessoas simplesmente sem tratamento no Brasil.

Pela imprensa, a Gilead se recusa a comentar o fato em mais esta etapa da queda de braço entre interesses individuais/ comerciais e os interesses coletivos/ sociais.

A alegação da Gilead, de acordo com as notícias da imprensa, foi de que o preço ofertado pela Blanver, empresa concorrente, seria “inexequível”.

Esqueceu a Gilead de mencionar que, logo depois de lançar o produto em escala mundial ao custo de 84.000 dólares e ser questionada pelos países centrais, sublicenciou 11 companhias farmacêuticas indianas a produzir e comercializar ao preço de 840 dólares pelo curso de 12 semanas de tratamento, mas para eles esse preço seria “exequível”.

Acabamos de completar 70 anos da Declaração Universal de Direitos Humanos!

Acabamos de ler o Relatório do Painel de Alto Nível em acesso a medicamentos do Secretário-geral das Nações Unidas.

O Conselho Nacional de Saúde, junto com a Fiocruz e outros parceiros, acaba de aprovar a Carta do Rio de Janeiro por ocasião da mobilização de mais de 700 pessoas em dez seminários regionais e o 8o Simpósio Nacional de Ciência, Tecnologia e Assistência Farmacêutica.

Mas, que importa tudo isso para essa indústria que coloca o lucro acima de qualquer outro interesse?

Se o governo brasileiro propõe um “crime de lesa-Pátria” ao tentar empurrar o denominado Deferimento Sumário de patentes sem exame do mérito, certamente podemos afirmar que, ao colocar o interesse econômico acima da saúde das nossas populações, ao judicializar um pleito político e de interesse corporativo, na contramão das discussões mundiais, a indústria farmacêutica, neste caso a Gilead com a insistência intransigente do monopólio, está cometendo e deve ser responsabilizada pelo crime de “lesa-Humanidade”!

Com a palavra, nossos juristas e a defesa da Saúde como direito de todos e dever do Estado.

Brasília, 21 de dezembro de 2018

*Fernando Pigato -presidente do Conselho Nacional de Saúde (CNS); Jorge Bermudez – pesquisador do Departamento de Políticas de Medicamentos e Assistência Farmacêutica (NAF), da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz; e Ronald Ferreira dos Santos – presidente da Federação Nacional dos Farmacêuticos (Fenafar).

Hoje no Brasil, um único comprimido do sofosbuvir da Gilead custa R$190, o tratamento completo para uma pessoa chega a R$16 mil. Um consórcio nacional formado pelo laboratório público Farmanguinhos/Fiocruz e empresas privadas desenvolveu o medicamento genérico com preço total do tratamento em R$ 2.750, quase seis vezes menos do que o valor da multinacional. O produto já foi aprovado pela Anvisa, mas só poderá ser utilizado se o INPI negar o pedido de patente da empresa. “Hepatite c tem cura, mas a ganância mata”, afirma Jorge Beloqui, membro do Grupo de Incentivo à Vida.

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4 comentários

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jose serafini

26 de dezembro de 2018 às 11h33

Num país sério o destino dos maléficos seria “el paredon”!

Responder

Nelson

25 de dezembro de 2018 às 22h31

Apenas uma mostra a mais do que nos reserva o maravilhoso mundo que nos prometem os liberais, ou neoliberais.

O mundo em que uma tal de “mão invisível”, de um tal “deus” Mercado, regularia tudo e garantiria, a cada indivíduo, aquilo que lhe é de direito mediante o seu mérito.

A quem, supostamente, não demonstrar ou comprovar mérito, restará a “raspa da mandioca”, restarão as sobras, se houverem.

É a esse mundo, em que “interesses individuais/ comerciais” se sobreporão completamente aos “interesses coletivos/ sociais”, que seremos levados com as privatizações e a destruição de tudo o que é público/estatal.

Com todas as falhas e defeitos que possam ter, as instituições públicas/estatais ainda atuam compromissadas com o conjunto da população.

Cabe ao povo brasileiro – a outros povos vale a mesma recomendação – inteirar-se, cientificar-se, do quão importante para si são essas instituições públicas/estatais e, a partir daí, defendê-las com unhas e dentes, impedindo as privatizações.

Os planejadores do golpe deram a Temer a tarefa de iniciar a conclusão da destruição neoliberal que Fernando Henrique Cardoso iniciou e não conseguiu concluir.

A Bolsonaro e sua camarilha os planejadores do golpe reservam a tarefa de completar essa destruição. Se eles conseguirem implementar o projeto golpista, não teremos mais país em 2022.

Na Argentina, foi entregue a Macri a tarefa de, primeiramente, liquidar com o pouco do setor público/estatal que foi recuperado pelos Kirchner. A seguir, ele deverá concluir a destruição iniciada pela última ditadura militar e os governos neoliberais subsequentes, o de Menem, notadamente.

O setor público/estatal é o que dá sustentação para que o nosso Brasil ainda seja o que é hoje. Destruído este setor, nosso país transformar-se-á em algo como um “João Bobo”, que não sabe para onde ou para que lado vai.

O objetivo do golpe é nos jogar à era pré-Getúlio Vargas. Lá deveremos ficar pelo resto dos tempos, querem os arquitetos do golpe.

É preciso eliminar qualquer possibilidade de o nosso país vir a ter capacidade de discernir-se ou seja, eliminar a capacidade de o povo brasileiro autodeterminar-se, de definir o rumo que quer seguir.

O quadro pintado pelos articulistas é o que estará inteiramente disseminado pelo Brasil se Bolsonaro e sua camarilha cumprirem sua tarefa.

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Zé Maria

25 de dezembro de 2018 às 15h19

[O laboratório Farmacêutico Norte-Americano]
“utilizando a pressão e conseguindo uma liminar,
pela via judicial”

O Judiciário de Mercado sempre cometendo injustiças.

Se o doente não tem condições financeiras para adquirir
o remédio de que necessita, o Estado deve fornecer gratuitamente o medicamento para o Tratamento.

https://basilenassin.jusbrasil.com.br/artigos/112198579/direito-da-saude-o-estado-tem-o-dever-de-fornecer-tratamento

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Jossimar

25 de dezembro de 2018 às 12h59

“Estamos diante do maior imbróglio político-jurídico dos últimos tempos, com a Gilead tentando a qualquer custo manter o monopólio do fornecimento de Sofosbuvir ao SUS e impedindo a aquisição de uma versão genérica desenvolvida, estritamente dentro da legalidade, por Farmanguinhos e o Consórcio BMK, registrada na Anvisa e ofertada a um preço inferior ao que vem sendo praticado pela Gilead.”

Quem sabe a Carmém Lúcia possa ajudar?
Perguntem a ela sobre uma pendenga com as farmacêuticas multinacionais que está na gaveta dela há uns seis anos.

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