VIOMUNDO

Diário da Resistência


Festa estranha
Alfredo Volpi (14/04/1896 - 28/05/1988)
Amor Nos Tempos de Cólera 03/06/2017 - 16h40

Festa estranha


Por Marco Aurélio Mello

Alfredo Volpi
(14/04/1896 – 28/05/1988)

por Marco Aurélio Mello

Acabo de vir de uma festa junina antecipada para o primeiro fim de semana de Junho.

Numa sociedade de consumo o que vale é ser o primeiro em tudo, certo?

O evento foi organizado num sítio por um escola infantil particular.

Contei entre os cerca de 300 presentes apenas quatro negros, uma babá e um chapeiro, portanto, apenas dois pais de alunos.

Meu filho quis saber qual era o problema nesta constatação.

Respondi que num país em que pelo menos metade da população é negra isto é um retrato mais do que acabado de racismo.

Fez lembrar uma passagem que ouvi dia desses.

O filho branco sai à noite com amigos e a mãe exclama: — filho, não esqueça o agasalho!

Naquela mesma noite o filho negro também sai com amigos e a mãe aconselha: — filho, se você encontrar um policial, abaixe a cabeça, obedeça, responda baixo, com respeito…

Quer dizer que, enquanto a mãe branca se preocupa com o frio, a mãe negra está preocupada é com a sobrevivência.

De volta à festa, estamos diante de uma das manifestações mais genuínas da cultura popular brasileira, folclórica, onde todos os elementos clássicos imperam, ou melhor, deveriam imperar.

Só que “novos símbolos” foram agregados sem nenhum constrangimento.

Afinal, somos um povo cordial, amigável, receptivo, antropofágico…

A música era sertaneja do tipo country até que, lá pelas tantas, começa um forró de pé de serra ao vivo, com zabumba, sanfona e triângulo.

sim, comemorei.

Pela primeira vez a banda era boa e o volume aceitável.

Pena que durou pouco.

As brincadeiras eram as de sempre: bola de meia na boca do palhaço, pescaria, roleta, chute em pirâmide de lata de óleo, arremesso de frango de borracha na panela…

A comida — dizia o cartaz — era “típica”.

Vejamos: pastel, hot dog, espetinho, sanduíche de pernil ou linguiça com vinagrete e cheddar… hã?

Nada de milho, curau, pamonha…

Também não tinha pé de moleque, canjica, quentão, vinho quente, outros clássicos.

O refrigerante e a cerveja (drogas lícitas) custavam o mesmo preço: cinco reais!

Um escândalo, num país onde se varre para o lixo usuários de drogas ilícitas, quase todos pretos.

Um detalhe: papais e vovôs bebuns sairão de lá dirigindo seus carrões pela estrada.

E não haverá esculacho, comando, nem bafômetro.

Mesmo porque o policial militar está de folga fazendo bico no estacionamento da festa.

Lá dentro a fila para retirar fichas de consumo é enorme.

Depois de uma longa espera o homem à minha frente, acompanhado do filho adulto jovem, pede míseros 150 reais em fichas.

Antes de terminar a compra, ele acena para um sexagenário que, sem nenhum constrangimento, toma a dianteira e faz seu pedido.

Estranho… é uma gente tão privilegiada que, para eles, fila é uma questão de ser mais ou menos oportunista, ou melhor, mais ou menos esperto.

Enquanto isso, uma mulher de uns trinta e poucos anos encosta ao lado deles como que parecendo ser da família.

Os homens se afastam e ela anuncia: — me dê 50 em fichas.

Não acredito, olho para ela fixamente, pasmo.

A mulher acaba de furar a fila e não está nem aí!

Ignora não só a mim, mas todos os outros atrás de nós.

Estou estático, não consigo reagir.

Não sei se tenho vergonha dela ou do meu silêncio.

Sinto como se fosse eu o errado.

É uma situação horrível, num local em que a regra deveria ser a cordialidade, o gesto civilizatório.

Vai ver foi por isso que resolvi deixar quieto.

O homem do caixa também não reagiu, talvez não tenha reparado na malandragem, ou preferiu se fazer de morto.

É quando o sujeito logo atrás de mim, barba branca como eu, comenta: — é por isso que nosso país está assim.

Exato, eu digo, são estes pequenos gestos oportunistas que mostram o quão corruptos somos.

Ela se afasta indiferente.

Despeço-me do colega de fila, compro minhas fichas e penso: são esses que querem acabar com a corrupção?

São esses os irmãos que vão ajudar a construir um país melhor para os nossos filhos que estudam juntos?

Eu duvido.

Quero crer que esses aí que nós desprezam, “eles passarão, eu passarinho”…

Só o amor, minha gente.

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6 comentários

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Fábio

04 de junho de 2017 às 17h06 Responder

    Marco Aurélio

    05 de junho de 2017 às 12h08

    Excelente!

Lukas

03 de junho de 2017 às 22h15

Ainda bem que nas periferias as pessoas não furam a fila, não dirigem bêbadas e são culturalmente engajadas.

Responder

Lukas

03 de junho de 2017 às 21h31

Você é branco. Do que você tem medo quando seu filho branco sai à noite?

Responder

    Marco Aurélio

    05 de junho de 2017 às 12h07

    Eu não tenho.

    Lukas

    05 de junho de 2017 às 13h14

    Que sorte, posso garantir que é terrível.


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