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Cartas de Minas
Cartas de Minas

Almoço de Domingo

12 de março de 2018 às 14h20

por Marco Aurélio Mello

Ontem caminhei com meus filhos pelo bairro onde moro em São Paulo.

Fomos almoçar comida de boteco boa e barata.

Aqueles pratões, que o individual dá para dois e o de dois dá para três e ainda sobra.

Trata-se da região central da cidade, onde tudo acontece ao mesmo tempo.

Tem ruído, música alta, poluição atmosférica, sujeira…

Tem comércio, serviços, ambulantes…

E tem gente, muita gente, das classes médias e pobres.

Tem moradia digna, indigna, tem ocupação e tem muita, muita especulação.

Prédios inteiros vazios esperando a chamada revitalização chegar.

Revitalização como se não houvesse vida de sobra…

Na minha rua, por exemplo, não tem mais um fio da rede elétrica exposto.

Só árvores.

Ficou uma beleza!

Mas o que tem aumentado mesmo ultimamente são moradores em situação de rua.

Excluídos, refugiados, despejados, esquecidos…

Eles ficam por ali por quê?

Porque se sentem protegidos.

Porque são abrigados e acolhidos.

E principalmente porque não passam fome.

Se queres tirar a dignidade de um homem deixe-o sem comer.

E, neste quesito, salve, sempre tem alguém disposto a ajudar.

Estes sim verdadeiros cristãos.

Em contrapartida, vira-e-mexe temos aquelas campanhas que dizem para a gente não dar esmola.

Hipócritas!

Ajudar é o nosso “agir localmente”.

É claro que ninguém gosta de ver um dependente químico jogado na rua durante o dia.

Assim como ninguém gosta de ver lixo esparramado nas calçadas.

Mas se o Estado é incapaz de prover justiça e assistência social como fazer?

Cruzar os braços?

Nos bairros ricos do entorno as pessoas encontraram uma saída: aumentaram a segurança.

Homens de preto com rádios comunicadores expulsam o povo pobre de lá.

Trata-se de uma escolha, como varrer a sujeira para debaixo do tapete.

Uma hora a franja aparece.

E pensar que por trás de tudo isso estão estes canalhas que controlam os meios de comunicação, o consumo e os poderes.

Nossa resistência é pacífica, mas não é silenciosa.

É só uma questão de tempo.

Uma hora a massa faminta vai acordar.

Porque nossa vitória é líquida e certa.

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Patrícia de Oliveira Cardoso

13/03/2018 - 22h45

Meu almoço de domingo foi um pouco mais burguês, na região da Paulista, cinema na Augusta, meu Deus que cidade incrível, muito Rock in Roll, muita música africana, muito artesanato, muita arte, gente de todo o tipo e sim muitas pessoas em situação de rua, que denunciam a falta e o desmonte de políticas públicas. Seu texto me lembrou uma imagem que vi hoje na t.v., um pobre trabalhador jogando água numa pessoa em situação de rua, “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor.” Paulo Freire. Sigo acreditando no ser humano, que retomaremos o poder, que nossas crianças terão uma cidade acolhedora e um Brasil muito melhor! Parabéns Marco Aurélio!

Responder

Edgar Rocha

12/03/2018 - 17h24

Mais uma excelente reflexão!
Só discordo do finalzinho: “uma hora a massa faminta vai acordar”.
A massa faminta é insone, Marco Aurélio. Quem tem que acordar são os que estão incluídos de alguma forma e não se dão conta de que a exclusão do outro é a derrota de todos.
Tem um carinha, popularmente chamado de nóia, entre tantos que existem no meu pedaço aqui no Parque do Carmo. Vou ser sincero, eu tinha uma puta raiva dele no começo. Não que ele tivesse feito algo a mim. Era preconceito, mesmo. Daqueles preconceitos que só gente com alguma pretensa “leitura” acima da média pode ter. Olhava pra ele e ficava revoltado. Na primeira vez que o vi puxando um cachimbo de crack na minha porta fiquei perplexo. O moleque parecia um principezinho. Tinha pinta de menino de classe média alta: loiro, belo rosto, branco… “Puta que pariu!” – pensei comigo. O que que este playboyzinho tá fazendo nesta quebrada?! Um menino negro, lascado, lá da favela, que leva surra da vida o tempo todo pode ter seus motivos. Mas, este sujeito?
Descobri depois, que ele era filho de uma ex-colega de escola. Sua mãe – pasme! – havia sido esfaqueada no rosto dentro de uma van, depois de dar um fora num sujeito (linda moça, por sinal). Seu pai foi morto pela polícia. E seu tio, este eu vi morrer, tentando socorrê-lo após uma chacina defronte a minha casa. Não era bandido, apenas estava no lugar errado e na hora errada. Quando descobri quem ele era, fiquei muito envergonhado. Ele foi presa fácil pros aliciadores – os da quebrada e os de farda! O rapaz não é ladrão nem bandido. É viciado e só. Passa a madrugada na rua, servindo de aviãozinho pra poder pagar a droga. Quando entrou nesta onda, deveria ter um 15 anos. Hoje, anda feito um velhinho, pálido feito cera e sem um dente na boca. Deve ter uns 22 anos, com aparência de 60! Muitas pessoas, em especial os familiares, tentaram dissuadi-lo. “Tem jeito, não”, diz ele. “Sou um caso perdido”. A auto estima é a mais baixa possível, embora a educação seja polida com todos e nunca tenha causado dano algum a não ser a si próprio. É de fazer chorar.
E são tantos na mesma situação. Maioria de negros e pardos. Maioria de favelados. Alguns, aderem ao crime propriamente dito. Depois de levarem uma coça da polícia, passam a trabalhar pra eles pra não ser guardado. Tem que pagar pra ficar solto por causa de uma bosta de um baseado, uma pedra de crack ou até mesmo uma noite de farra na rua. Eu não chamo a polícia pra eles jamais. Por mais reprovável que seja o que fizerem na rua de madrugada. Hoje eu prefiro sair e conversar. Com a droga na cabeça, vez por outra me mandam ir tomar naquele lugar e nada se resolve. Não sem um pedido de desculpas no dia seguinte. Não sei se é certo falar que tenho pena. Aprendi a não me colocar acima destas pessoas jamais. Afinal, o que eu faria de minha vida se tivesse passado pelo que passaram desde a infância? Por muito menos, sou cheio de grilos! Mas, bate o desespero ao saber que não chegarão aos quarenta como eu pra contar a história. E não serei eu a piorar as coisas. Quando possível, me aproximo. Quando dá (e quando deixam) faço algo que possa ao menos fazê-los sentirem-se respeitados ou dignos de respeito. Funciona? Sei não. Quem sabe?
Certa vez o loirinho me pediu um cigarro. Ele andava de muletas depois de uma queda num escadão durante um momento de brisa. Estava melhor que de costume, mais gordinho, com uma cor mais saudável. Ficou feliz pra caramba de eu ter reparado. Sentamos na calçada e fumamos (cigarro) juntos. O papo rolou por uns bons minutos. E não é que o moleque sabe conversar? Não dei sermão, não julguei, nem cobrei.
Por este dias, nos vimos de novo. Tinha um carro na rua, com um funk tunado da porra, passando e me tirando o sono. O esquema é pra avisar que tá passando a droga. Uma espécie de pregão da meia noite. Carregam pouca quantidade do bagulho pra ninguém enquadrar como traficante, caso seja pego. Um vai e vem a noite toda. Um inferno. Fui à varanda espairecer, como faço sempre. Lá veio ele. Me fez um sinal com a mão, sem dar um pio, me pedindo um cigarro. Joguei pra ele. “Valeu, chegado!”. Continuou andando, feito um velho agitado. Estava na fissura, pelo jeito. Estaca zero. Quem sabe, na próxima? Com a proteção de seu pai e seu tio. Tudo que espero é que não se repita o mesmo destino de seus familiares.
Meus respeitos, Marco Aurélio.

Responder

    Patrícia de Oliveira Cardoso

    13/03/2018 - 21h50

    Gostei do seu texto e de sua capacidade de colocar-se no lugar do outro, algo tão raro hoje em dia!

    Marco Aurélio

    19/03/2018 - 15h54

    Muito obrigado.

    Marco Aurélio

    19/03/2018 - 15h56

    Comovente relato. Obrigado.

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