18/8/2013 10h00 – São Paulo
Jogadores de vôlei criticam mudanças no regulamento
por Manuela Azenha, na Fox Sports
Dentre as novas medidas foi decidido que as Superligas Masculina e Feminina terão sets com 21 pontos
Uma importante mudança nas Superligas Masculina e Feminina foi anunciada nesta quarta-feira, 14 de agosto, em plenária com representantes da Confederação Brasileira de Voleibol (CBV), dos clubes participantes e da Comissão de Atletas masculina. Nesta temporada, os campeonatos terão sets de 21 pontos, em vez de 25. As paradas técnicas ocorrerão a sete e a 14 pontos. Para atletas e treinadores, isso significa uma drástica diminuição de tempo de partida e a criação de uma nova estratégia de jogo.
A opinião dos jogadores e gestores se divide, mas todos concordam que a iniciativa foi uma demanda da televisão, sem a qual o esporte não sobrevive. Em 2000, foi eliminada a vantagem no saque para diminuir o tempo de jogo. Agora, com o mesmo intuito, diminuiu-se o número de pontos de cada set.
Além disso, foi decidido que as equipes da Superliga poderão completar a lista de inscritos com jogadores de clubes eliminados na Superliga B e que os delegados de arbitragem de jogo passarão a ser neutros, indicados pela CBV, e não mais pelas federações.
Por meio de nota oficial, Renato D’Ávila, superintendente da CBV, disse que o novo formato trará mais agilidade ao jogo e já tem demonstrado resultados positivos nos primeiros jogos realizados no Campeonato Paulista. Ainda em nota, a CBV diz que a expectativa é de que “o jogo ganhe ainda mais dinamismo, ganhando em emoção para o espectador”.
José Montanaro, ex-jogador da chamada “seleção de prata” dos anos 80, é gestor do time de vôlei do Sesi-SP e participou das plenárias. Alguns meses antes, segundo ele, funcionários de marketing dos clubes e a CBV estiveram em reunião com a televisão para aprovar a diminuição do número de pontos de cada set: “O martelo já foi batido ali”. Ainda de acordo com Montanaro, o assessor da Federação Internacional de Voleibol, organização que deu aval para as alterações, foi diretor de esportes de televisão durante anos. “Ele conhece profundamente o vôlei e pensa no esporte do ponto de vista do jornalista e do espectador. É como um filme, você não quer assistir a um filme de 2h30”. Para o ex-jogador, o esporte ficará mais intenso e interessante. “É uma mudança quase cultural, muda o timing completamente”.
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O central Gustavo, do Canoas Vôlei, foi representante da Comissão de Atletas na plenária e declarou que ainda não tem uma opinião formada sobre a nova regra: “Prefiro jogar com os 21 pontos para depois avaliar. Não teve uma votação, fomos comunicados de que foi uma exigência da televisão”.
Jogadores que já testaram a nova regra no Campeonato Paulista disseram que a medida transforma completamente a dinâmica do jogo. Para Vini, central do Brasil Kirin, os jogadores tem de ficar atentos a esse tipo de mudança. “Diminuíram o tempo da partida e também do saque. Não temos tempo para pensar na jogada e nossa margem de erro é quase nula. A Comissão de Atletas tem que ter muito cuidado e preservar a essência do esporte. A interferência da televisão não pode descaracterizar o esporte.”
Sandro, levantador e capitão do time do Sesi-SP, acha que a mudança não é prejudicial ao esporte e que os jogadores brasileiros não devem ter dificuldade de adaptação. “As pessoas acham que não faz diferença, mas faz. Você não pode deixar a equipe adversária abrir vantagem, porque fica muito mais difícil de recuperar agora. Mas não acho que o Brasil terá dificuldade em se adaptar. Mudou porque fica melhor para a televisão e não é a primeira vez que isso acontece. Essa mudança em particular não muda a essência do jogo, então acho válida”.
Fabio, gestor do Canoas Vôlei, esteve presente na reunião e diz que o clube não tem nenhuma posição a respeito da nova regra. “A proposta atende aos interesses da televisão, nossa opinião não foi perguntada. Tecnicamente não podemos avaliar se é benéfica ou não porque ainda não testamos. Se nos dará mais transmissões, mais patrocínio, é mais receita para os clubes. Os interesses da televisão devem ser casados aos do esporte. Torcemos por isso”.
Os veteranos da década de 80 foram os primeiros jogadores de vôlei a se tornarem celebridades esportivas no Brasil e conhecem a importância da cobertura televisiva. Em 1983, a Seleção Brasileira enfrentou a União Soviética diante de mais de 95 mil pessoas no Maracanã – o maior público da história do vôlei. A partir daí, o esporte consolidou o interesse da imprensa e tornou-se febre nacional. Em 1984, o Brasil ficou em segundo lugar nos Jogos de Los Angeles e conseguiu a primeira medalha olímpica no vôlei.
Para William Carvalho, companheiro de Montanaro na “seleção de prata” e um dos responsáveis por popularizar o saque “Viagem ao Fundo do Mar”, a diminuição de pontos dos sets mudará muito o jogo. “Essa influência da televisão sobre o esporte é ruim às vezes para os jogadores, mas precisamos nos adaptar porque dependemos da exposição e é o que acontece para conseguirmos um espaço”.
Montanaro diz que o desenvolvimento do esporte no Brasil depende de exposição midiática. “Em 81, conquistamos a primeira medalha no vôlei brasileiro e, quando voltei para o Brasil, só tinha minha família me esperando no aeroporto. Ninguém ficou sabendo. Em 83, com a transmissão do jogo e narração do Luciano do Valle, o esporte se transformou num espetáculo. A televisão não tem o interesse de desconfigurar o esporte, mas é uma empresa que visa o lucro e nós temos que nos tornar um produto comercialmente viável para ela”.
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