Por Marcelo Zero*
Em geral, os presidentes dos EUA que não vão bem nas midterms acabam concentrando boa parte de seus esforços políticos finais na política externa.
É natural. Com apoio político interno enfraquecido, ou, como no caso de Trump, praticamente destruído, os presidentes nessa situação buscam, na área externa, formas de realizar conquistas que os redimam e de alcançar um legado que os recoloque, ou seus partidos, em um novo nível de competição política.
Como bem recordam Daniel W. Drezner e Elizabeth N. Saunders, em seu recente artigo na Foreign Affairs, intitulado “Os perigos de um Trump em fim de mandato”, alguns presidentes tentaram investir na paz e nas negociações; outros na guerra.
Clinton, por exemplo, tentou intermediar um acordo de paz entre israelenses e palestinos e organizar uma viagem presidencial à Coreia do Norte, no final de seu segundo mandato.
Já Barack Obama, após sofrer uma derrota nas midterms, em 2014, muito mais branda do que a que sofreu Trump, chegou a concluir um acordo nuclear com o Irã (praticamente o mesmo que o Brasil e a Turquia tinham obtido poucos anos antes, mas que ele tinha vetado, sem motivos consistentes) e investiu numa relativa normalização das relações bilaterais com Cuba.
De outro lado, George H.W. Bush interveio na Somália, no final de 1992 com uma missão limitada para aliviar a fome. Em 2007, George W. Bush (o filho) enviou reforço de tropas para estabilizar o Iraque, após uma eleição de meio de mandato desfavorável, na qual os eleitores já tinham manifestado uma opinião desfavorável àquela guerra.
Muito embora Trump ainda esteja obcecado em ganhar o Prêmio Nobel da Paz e tenha prometido, em sua campanha, “acabar com as guerras infindáveis” (promessa não cumprida), é pouco provável que, agora, com seu capital político praticamente destruído e isolado internacionalmente, ele tenha condições de negociar o término de algum conflito significativo.
A guerra na Ucrânia, por exemplo, jamais terminará sem que Kiev aceite os termos básicos exigidos pela Rússia, como o reconhecimento da soberania russa dos territórios já conquistados, principalmente o Donbass e a Crimeia, e a neutralidade geopolítica da Ucrânia. Não acreditamos que o que foi tentado quando Trump tinha muito capital político possa funcionar agora.
O mesmo se aplica à questão de Taiwan, outro conflito potencial de extrema gravidade. Beijing jamais aceitará quaisquer arranhões em sua soberania sobre essa ilha, algo que já foi negociado entre os EUA e a China na década de 1970. Taiwan é território chinês. Ponto final. Qualquer coisa diferente disso é guerra.
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Em relação ao conflito israelo-palestino, apesar de Trump ter negociado com Netanyahu a extinção do apoio financeiro de US$ 4 bilhões anuais a Tel Aviv, a profusa venda de armas a Israel continuará, assim como a ação estadunidense contra seus inimigos, como Hamas, Hezbolah, Houthis etc.
Mesmo com os grandes protestos da juventude estadunidense contra o genocídio em Gaza e na Cisjordânia, nada deverá mudar, de modo significativo, nesse aspecto. Na realidade, com o predomínio dos Democratas moderados no Congresso, é provável até que o apoio a Israel cresça.
Restam conflitos como o da Caxemira (que envolve Paquistão e a Índia) e o do Sudão do Sul, em guerra com o Sudão, e que enfrenta fome extrema e o maior número de deslocados internos do mundo (quase 8 milhões de pessoas sofrem lá com fome aguda).
Não obstante, o apetite e a índole natural de Trump provavelmente o impulsionarão para a agressão e a guerra.
Muito enfraquecido e disposto a enfrentar os Democratas no âmbito interno com seu poder de veto e os poderes executivos que ainda mantém, Trump talvez se incline para ações pirotécnicas e agressivas, no âmbito externo.
As vítimas mais óbvias, nas atuais circunstâncias, seriam o Irã e Cuba.
Trump sabe que um dos motivos pelos quais perdeu a eleição foi a guerra com o Irã, estimulada por Netanyahu.
Trump sabe também que esta guerra fracassada o faz ser visto como um “perdedor”, algo que ele detesta profundamente. Em sua visão, ele não pode sair do governo com essa imensa mácula em sua imagem.
Não seria muito improvável, por conseguinte, que ele tentasse novas ações no Irã, com o intuito de conseguir uma “saída honrosa” que lhe permitisse afirmar, de alguma forma, que venceu o “regime iraniano” ou que, pelo menos, arrancou concessões significativas de Teerã, principalmente no que tange ao programa nuclear.
Contudo, uma empreitada dessas seria muito arriscada e demandaria volumosos recursos que o novo Congresso provavelmente vetaria. Por isso, seria algo a ser feito antes de janeiro, quando o Congresso “azul” começa a funcionar.
Cuba, em tese, seria um alvo mais fácil. Reafirmaria a Doutrina Donroe e, ao mesmo tempo, retiraria uma das principais bandeiras de Marco Rubio, que agora emerge como um rival de Trump para o domínio do Partido Republicano e do MAGA.
Uma coisa é certa. Trump, derrotado, humilhado e ameaçado pela enxurrada de investigações que o Partido Democrata pretende iniciar contra ele, em especial no que tange à sua evidente e escandalosa corrupção, não ficará passivo.
Acuado e sem nada a perder, provavelmente fará o que sempre fez: partir para a ofensiva.
No plano interno, a ofensiva é muito difícil. Porém, no plano externo, há vítimas frágeis que podem ser exploradas.
A América Latina, que já se tornou, em grande parte, um conjunto de países vassalos de Trump, pode ser o alvo preferencial de ofensivas políticas e militares de Trump.
“Países rebeldes”, habitados por potenciais imigrantes ilegais e por traficantes de drogas, “narcoterroristas”, poderão sofrer com a fúria e a frustração do sociopata imperial.
Até mesmo o Brasil precisa estar atento.
*Marcelo Zero é sociólogo e especialista em Relações Internacionais
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo




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