Fernando Nogueira da Costa: O Neofascista, o Fanático e o Conciliador

Tempo de leitura: 7 min
Ilustração feita pelo ChatGPT (IA) com instruções de Fernando Nogueira da Costa

Ou como as terras raras fizeram três brasileiros descobrirem uma causa comum

Por Fernando Nogueira da Costa*

A rede social chamava-se Fora da Bolha. Diferentemente das demais plataformas, seu algoritmo tinha uma qualidade incomum: mostrava aos usuários opiniões das quais discordavam.

Não recomendava apenas aquilo desejado por cada um ouvir. Pelo contrário, exigia a leitura do argumento adversário antes de permitir uma resposta.

Seu lema era: “Aqui, ninguém tem sempre razão — nem mesmo você.”

Em uma manhã de sábado, três brasileiros entraram na mesma sala virtual, intitulada “O Brasil tem dono?”.

O primeiro usava o pseudônimo Capitão Ordem, um neofascista de camiseta verde-amarela, admirador de governos fortes, anticomunista anacrônico e defensor de um líder capaz de dispensar o Congresso quando este atrapalhasse.

O segundo chamava-se Verdade Absoluta, um fanático político-religioso, convicto de possuir respostas divinas para todas as questões humanas. Discordar dele era, no mínimo, um pecado; insistir na discordância, uma conspiração capaz de levar à excomunhão.

O terceiro atendia por Doutor Diálogo, um conciliador social-desenvolvimentista. Tinha a paciência de um professor universitário, a experiência de um sindicalista e o hábito inconveniente de perguntar antes de responder.

O Capitão Ordem começou:

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— O Brasil precisa de um homem forte! Chega de conversa, negociação e Congresso cheio de partidos! Precisamos de ordem, disciplina e autoridade de um ex-militar!

Verdade Absoluta concordou imediatamente:

— Amém! E esse homem forte precisa governar segundo a vontade de Deus! Quem discorda está contra a verdade!

Doutor Diálogo digitou:

— Interessante. Então vocês dois concordam em entregar o poder absoluto a uma única pessoa?

— Exatamente! — respondeu o Capitão.

— Caso seja escolhida por Deus! — corrigiu o Fanático.

— E quem decide se a pessoa foi escolhida por Deus? — perguntou o Conciliador.

— Meu pastor! — respondeu Verdade Absoluta.

O Capitão Ordem hesitou:

— Seu pastor?! Alto lá! O comandante tem de ser um militar patriota!

— Um militar sem orientação espiritual pode ser instrumento do demônio!

— E um pastor mandando nas Forças Armadas seria uma fragilidade nacional!

Doutor Diálogo sorriu diante da tela.

— Vejam só. Bastou perguntar quem manda para a unanimidade acabar. Vocês concordam com a autoridade absoluta, mas discordam sobre quem deve exercê-la.

O algoritmo da plataforma publicou uma mensagem automática: “Parabéns! Primeira divergência detectada entre usuários antes se considerando perfeitamente iguais.”

O Capitão resmungou: — Esse algoritmo deve ser comunista.

— Ou ateu! — acrescentou Verdade Absoluta.

Naquele momento, surgiu uma notícia acompanhada de uma caricatura: Donald Trump aparecia sentado em um trono dourado, no novo salão de festas (ou salão de baile) na Ala Leste da Casa Branca, com uma coroa improvisada, segurando um globo terrestre e apontando para o mapa do Brasil.

A manchete dizia: “O Imperador das Terras Raras: Washington quer acesso privilegiado aos minerais estratégicos brasileiros.”

Tratava-se de uma sátira sobre pressões geopolíticas e interesses econômicos em minerais críticos – e ainda não uma proclamação oficial de anexação.

Capitão Ordem reagiu entusiasmado:

— Grande Trump! Finalmente um líder capaz de colocar ordem no mundo! Se ele quiser investir nas nossas terras raras, devemos agradecer!

Verdade Absoluta respondeu:

— Ele defende os valores cristãos! É um instrumento da Providência contra o globalismo!

Doutor Diálogo perguntou:

— Muito bem. Mas vocês sabem por qual razão as terras raras são estratégicas?

— Porque são raras, ora! — disse o Capitão.

— Porque Deus as colocou na terra! — respondeu o Fanático.

— Também colocou petróleo, água e florestas — observou o Conciliador. — Mas não nos entregou um manual de política industrial. As terras raras são importantes para ímãs de alto desempenho, motores elétricos, equipamentos eletrônicos e aplicações militares. A questão não é apenas extraí-las. É dominar o processamento, a tecnologia e a cadeia de valor.

O Capitão ficou pensativo.

— Quer dizer podermos vender o minério e depois comprar o produto industrializado por um preço muito maior?

— Exatamente. Podemos continuar exportando recursos naturais e importando tecnologia, ou negociar investimentos capazes de desenvolverem capacidades produtivas no Brasil.

Verdade Absoluta interrompeu:

— Mas Trump é nosso aliado espiritual!

— Aliado espiritual ou comprador interessado? — perguntou o Conciliador. — Uma coisa não exclui a outra, mas não convém confundi-las. Os Estados Unidos possuem interesses nacionais próprios. O Brasil também deveria possuir os seus.

O Capitão Ordem bateu na mesa:

— Espere aí! O Brasil acima de tudo! Não podemos entregar nossas riquezas a estrangeiros!

O Fanático reagiu:

— Mas o presidente americano combate nossos inimigos ideológicos!

— E daí?! — explodiu o Capitão. — Se quiser mandar nas nossas minas, terá de enfrentar os patriotas!

Doutor Diálogo aproveitou:

— Então vocês admitem um líder estrangeiro defender valores parecidos com os seus e, simultaneamente, possuir interesses econômicos contrários aos interesses brasileiros?

O Capitão respondeu:

— Admito. Patriotismo não é submissão!

O Fanático hesitou:

— Mas e a aliança contra o comunismo?

— Uma aliança não é um cheque em branco — respondeu o Conciliador. — Nem uma autorização para transformar o Brasil em fornecedor subordinado de matérias-primas.

A plataforma anunciou: “Segunda divergência detectada: admiração por um líder estrangeiro versus defesa da soberania nacional.”

O Doutor Diálogo decidiu avançar.

— Proponho uma experiência. Em vez de discutirmos quem deve governar o mundo, vamos discutir o aceitável para o Brasil.

— Não aceito socialismo! — advertiu o Capitão.

— Não aceito perseguição aos cristãos! — declarou o Fanático.

— E eu não aceito ditadura, censura ou clericalismo com perseguição religiosa — respondeu o Conciliador. — Ótimo. Já temos limites. Agora, podemos negociar interesses?

Abriu uma enquete com cinco propostas:

1. Preservar a soberania brasileira sobre seus recursos minerais, respeitando a Constituição e a legislação.

2. Negociar investimentos estrangeiros com transferência tecnológica, processamento industrial e formação de trabalhadores brasileiros.

3. Exigir proteção ambiental, respeito às comunidades originárias atingidas e fiscalização pública.

4. Impedir contratos secretos, favorecimentos corruptos e privilégios concedidos por razões ideológicas.

5. Defender eleições livres, oposição legítima e alternância de poder, independentemente de quem governe.

O Capitão Ordem examinou a tela.

— Concordo com as quatro primeiras. A quinta depende de quem ganhar…

— Então não é alternância de poder — observou o Conciliador. — É alternância condicionada à sua vitória.

Verdade Absoluta surpreendeu os dois:

— Discordo do Capitão! Não quero um governante com poder para fechar igrejas ou perseguir fiéis só porque perdeu uma eleição. Se entregarmos poder ilimitado ao nosso líder, amanhã outro poderá utilizá-lo contra nós.

O Capitão respondeu:

— Mas precisamos de autoridade!

— Autoridade não é poder ilimitado — replicou o Fanático, pela primeira vez sem invocar uma revelação divina.

Doutor Diálogo completou:

— A Constituição protege justamente quem está fora do governo. Hoje protege você contra seus adversários. Amanhã poderá proteger seus adversários contra você.

O Capitão ficou em silêncio.

Afinal, não gostava de imaginar seu inimigo político comandando um Estado sem limites.

— Está bem. Aceito a quinta, caso todos respeitem as regras.

A plataforma publicou: “Resultado da enquete: cinco propostas aprovadas por três participantes. Nenhuma conversão ideológica registrada.”

Mas o Conciliador ainda tinha uma provocação.

— Vocês perceberam este acontecimento?

— Derrotamos o imperialismo! — anunciou o Capitão.

— Encontramos a verdade! — proclamou o Fanático.

— Não exatamente. Descobrimos vocês dois não pensarem igual. A aliança entre vocês era sustentada mais pela criação de um artificial inimigo comum em lugar de ser por um programa comum.

— Está querendo nos dividir? — perguntou o Capitão.

— Estou tentando mostrar: vocês já eram diferentes. O algoritmo das antigas redes sociais escondia isso, porque recompensava a repetição das mesmas palavras de ordem.

— Mas agora estamos unidos! — protestou Verdade Absoluta.

— Sim, porém de outra maneira. Não pela obediência a um chefe, nem pela imposição de uma verdade. Vocês chegaram a um acordo limitado, verificável e sujeito a revisão.

O Capitão coçou a cabeça:

— Então você criou uma divergência para conseguir uma conciliação?

— A divergência já existia. Eu apenas fiz perguntas para torná-la visível. Depois procuramos interesses compartilhados.

— E qual é o nome dessa estratégia? — perguntou o Fanático.

— Política democrática.

O Capitão fez uma careta:

— Nome pouco empolgante.

— Mas costuma sair mais barato diante de uma guerra civil — respondeu o Conciliador.

A discussão nesta rede social fora da “câmara de eco” ganhou milhares de seguidores. Alguns entraram esperando insultos, outros aguardavam uma briga entre comunistas e anticomunistas, sem saber bem o que são esses seres do passado.

Em vez disso, encontraram três brasileiros discordando sobre quase tudo e concordando sobre algumas condições essenciais de convivência.

Um empresário comentou:

— Quero investir no processamento das terras raras no Brasil, mas preciso de regras estáveis.

Uma trabalhadora escreveu:

— Quero empregos qualificados, salários dignos e proteção ambiental.

Um pesquisador acrescentou:

— Sem ciência, engenharia e domínio tecnológico, continuaremos dependentes.

Uma liderança indígena advertiu:

— E o território não é um espaço vazio à espera de mineração.

O Capitão Ordem respondeu:

— Tudo bem, mas o Brasil precisa mandar em seu próprio destino!

Verdade Absoluta acrescentou:

— E ninguém deve ser perseguido por sua fé!

Doutor Diálogo concluiu:

— Pronto. A soberania nacional pode ser uma causa compartilhada, caso não sirva de desculpa para retirar direitos de brasileiros. A unidade nacional não exige uniformidade ideológica.

A plataforma abriu outra votação: “É possível defender os interesses nacionais sem transformar adversários políticos em inimigos da pátria?”

A maioria respondeu positivamente: sim!

O Capitão Ordem permaneceu nacionalista e autoritário em muitas convicções. Verdade Absoluta continuou profundamente dogmático. Doutor Diálogo não abandonou suas posições social-desenvolvimentistas.

Ninguém mudou de identidade da noite para o dia. Mas os três descobriram não precisarem concordar sobre Deus, capitalismo ou socialismo para estabelecer regras comuns sobre soberania, democracia e desenvolvimento nacional.

Na despedida, o Capitão anunciou:

— Continuo desconfiando de você, professor!

— E eu continuo rezando pela sua conversão! — disse o Fanático.

Doutor Diálogo respondeu:

— Podem desconfiar e rezar à vontade. Só não tentem obrigar o resto do país a fazer o mesmo.

A última mensagem veio do algoritmo: “Atenção: nesta conversa, ninguém venceu completamente. Por isso, talvez a democracia tenha ganhado alguma coisa.”

Moral da estória: O fanático acredita possuir toda a verdade. O neofascista deseja concentrar todo o poder. O conciliador democrático reconhece ninguém possuir sozinho a verdade nem deve concentrar sozinho o poder.

A conciliação não nasce necessariamente da eliminação das divergências, mas do reconhecimento de interesses distintos poderem coexistir sob regras comuns.

Diante de pressões externas sobre riquezas estratégicas, o patriotismo democrático começa quando os brasileiros compreendem o país não pertencer a um líder, a uma igreja, a um partido, a uma empresa estrangeira ou a um imperador de fantasia. Pertence aos seus cidadãos, inclusive àqueles discordantes entre si!

A soberania nacional pode unir adversários. A democracia impede essa união se transforme em uma nova tirania!

Ilustração feita pelo ChatGPT (IA) com instruções de Fernando Nogueira da Costa

*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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