André Uzêda: ‘Golpes do Master e Ueno só ocorreram com conivência política’, diz opositor paraguaio
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Em 2023, Efraín Alegre disputou eleição com Santiago Peña, presidente que renunciou após crise bancária no país sul-americano
Por André Uzêda, no ICL Notícias
A crise bancária no Paraguai provocou nesta quinta-feira (5) a renúncia do presidente Santiago Peña, do Partido Colorado. Eleito em 2023 e com mandato previsto até 2028, Peña era alvo de um processo de impeachment aberto na Câmara dos Deputados.
A acusação que pairava sobre ele era de ter sido conivente com a quebra do banco digital Ueno, responsável por deixar mais de 3 milhões de clientes paraguaios sem acesso às suas contas. Santiago Peña foi acionista do Grupo Vázquez — o conglomerado que controla a holding do Ueno — até março de 2025, quando já havia sido empossado para o cargo máximo do país. Com a renúncia, o vice Pedro Alliana assume a cadeira.
“Essa grande crise bancária põe em risco o que o Paraguai tem de mais valioso nos últimos anos: equilíbrio dos seus números financeiros e a sua macroeconomia”, diz Efraín Alegre, advogado e ex-senador, que disputou a presidência da República contra Peña, em abril de 2023.
Em entrevista exclusiva ao ICL Notícias, Alegre falou diretamente de Assunção, capital do Paraguai, por chamada de vídeo. O oposicionista estabeleceu semelhanças entre a crise financeira que vive hoje o Paraguai e o caso do Banco Master, no Brasil. Alegre também enalteceu a importância da reeleição do presidente Lula (PT) na América Latina e como os paraguaios devem se organizar para finalmente derrotar o Partido Colorado, que governa o país de forma quase ininterrupta desde 1947.

Santiago Penã anuncia renúncia Foto: Reprodução
ICL Notícias – Como fica a situação política do Paraguai agora com a renúncia do presidente Santiago Peña?
Efraín Alegre – Primeiro lugar, é importante dizer que estamos vivendo uma crise financeira muito grande no Paraguai. Uma crise financeira construída dentro do poder. Por que o Banco Ueno não era um banco. Era uma instituição financeira que se tornou banco em 2023, no mesmo ano que Santiago Peña assumiu a presidência. E esse banco passa imediatamente a receber fundos públicos. Em quatro meses, se constitui um banco digital. E aí começa um processo de captação de fundos, mediante diversas bonificações que as leis paraguaias passam a ser alteradas para favorecê-lo.
E, bem, agora já se sabe, Santiago Peña era acionista deste banco, acionista do mesmo grupo que controlava o banco. E esse grupo captou quase meio bilhão de dólares de fundos públicos, sobretudo da Previdência Social, além de ter também ramificações em fundos privados. Por isso, essa crise é tão grave. Por que provoca impacto direto na vida da população paraguaia. Está afetando mais de 3 milhões de pessoas. No espectro político, não podemos deixar de falar de Horacio Cartes (ex-presidente do país, entre 2013 e 2018), atualmente presidente do Partido Colorado, acusado de ser o chefe principal de máfia internacional e tráfico de fronteira, que atua inclusive no Brasil. Bem, Horacio Cartes articulou a renúncia de Santiago Peña para manter Pedro Alliana, vice-presidente, no poder e, consequentemente, o Partido Colorado controlando o Paraguai.
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A oposição pensa em pedir a convocação de novas eleições antes de 2028?
A oposição está reclamando. Pois nós consideramos que é fundamental não apenas a destituição de Santiago Peña, mas de toda a chapa, incluindo o vice Alliana. São parte da mesma equipe. O crescimento do banco Ueno só foi possível com a cumplicidade dos grupos políticos que estavam no poder, incluindo presidente, vice e Banco Central. Por isso, pedimos a destituição de ambos e que o Congresso designe o próximo presidente.
Então, essa grande crise bancária põe em risco o que o Paraguai tem de mais valioso nos últimos anos: equilíbrio dos seus números financeiros e a sua macroeconomia. Esse ainda é um país com forte presença da pobreza, mas seus números macroeconômicos são bons, com baixa inflação, de apenas um dígito. Mas, hoje, com essa crise produzida pelo Banco Ueno, nossa macroeconomia está em perigo.
O senhor acompanhou a crise que o Brasil viveu com o Banco Master? Consegue encontrar similaridades entre os dois casos?
O caso do Banco Master e do Ueno são muito parecidos. E creio que ambos nos deixam uma lição importante para prevenir no futuro. Afinal, os golpes do Master e do Ueno só aconteceram com conivência política. E essa cumplicidade vem desde mudanças de leis, alteração de dispositivos legais para facilitar a atuação destas instituições financeiras. Nos dois casos, tem também atuação direta do Banco Central para dirigir e validar todas essas operações ilegais. Ou seja, é a participação direta do poder político para favorecer o poder privado. Por isso, estou convencido de que as penas devem ser aplicadas de forma exemplar aos envolvidos, os processando e prendendo. Até que se obrigue que devolvam o dinheiro tomado das pessoas.
Como está a situação dos clientes do Banco Ueno neste momento? Há algum amparo legal por parte do estado?
O Paraguai tem um sistema anti-crise que instituímos na década de 1990, quando tivemos uma crise bancária similar a essa. Temos os Fundos de Garantia, que vão proteger os pequenos acionistas. O governo vai gastar 228 milhões de Guaranis (moeda oficial do país) para proteger quem perdeu dinheiro. Agora, antes de renunciar, o presidente Peña teve a cara de pau de propor a criação de outro Fundo de Garantia, como se fosse a solução possível para resolver a crise. Foram 30 anos de aporte do povo paraguaio investindo neste fundo de reserva e este delinquente pleiteou a criação de outro fundo para cobrir o rombo do Ueno Bank.
O senhor foi o principal opositor de Santiago Peña nas últimas eleições. Pensa em ser candidato novamente agora que o projeto dele claramente fracassou?
Já estamos trabalhando com muitos amigos para a construção de uma proposta para 2028. Acreditamos que a oposição deve ter apenas um candidato, porque a divisão de candidaturas da oposição só favorece que o mesmo grupo (o Partido Colorado) se mantenha no poder por tanto tempo. Então, estamos articulando isso. Queremos consolidar uma só proposta para ter um só candidato da continuidade e um só candidato da oposição. Não há espaço para um terceiro. Apenas dois. Porque esta é uma estratégia do Partido Colorado: financiar a divisão na oposição para evitar a unidade. Porque se estamos divididos, eles vencem.
O que a reeleição do presidente Lula no Brasil pode ensinar ao Paraguai para vencer o domínio de Donald Trump na América Latina?
A verdade é que essa eleição foi um grande alívio. Estávamos realmente preocupados, porque ele é uma referência histórica importante para nossa região. E se Trump tomasse o Brasil, toda a região, praticamente, seria tomada. A vitória de Lula abre uma grande esperança. Assim como o resultado das eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, com vitória dos Democratas. Isso abre possibilidade para uma América Latina mais ampla, sem controle completo da extrema direita. Porque é isso que sonhamos para nosso país: amplo, respeitado e onde a prática e valores da extrema direita, com ódio à imigração e o racismo, não se instalem na política do nosso tempo.
Pode-se dizer que o Partido Colorado está diretamente alinhado com a extrema direita internacional ou ainda mantém um modelo de uma direita mais clássica?
No Paraguai, o Partido Colorado representa precisamente a extrema direita. Eles claramente defendem os interesses dos Estados Unidos, Taiwan e Israel. Isso permitiu que o presidente Peña liderasse os interesses de Horacio Cartes frente aos EUA. Por isso, a eleição de Lula é tão importante. Teremos eleições em 2028 e esperamos derrotar a extrema direita, assim como espero que a Argentina também derrote. Organizados e unidos poderemos derrotar essas forças e o risco que a extrema direita representa na América Latina.
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