Reynaldo Aragon: Washington não vai desistir. O Brasil precisa resistir
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Em crise de hegemonia, os Estados Unidos intensificam a disputa pelo controle da América Latina. O Brasil tornou-se peça central de uma confrontação que ultrapassa Trump e o MAGA
Por Reynaldo Aragon*, no Código Aberto
A reeleição de Lula não encerrou o conflito. Para preservar sua posição no mundo, Washington busca assegurar influência sobre as riquezas, os mercados, as rotas comerciais, as finanças, as tecnologias e as estruturas militares do continente. Trata-se de uma disputa de poder que atravessa governos democratas e republicanos e ameaça a capacidade dos povos de decidir seu próprio destino. Este artigo investiga as razões históricas dessa ofensiva, os mecanismos de dominação que a sustentam, os riscos para a soberania brasileira e os limites de um poder confrontado por países que carregam séculos de resistência anticolonial e anti-imperialista.
O império não começa em Trump

Ilustração: Código Aberto/IA
A política norte-americana de limitar a autonomia latino-americana não começou com Donald Trump e dificilmente terminará quando ele deixar a Casa Branca. O MAGA tornou a linguagem mais ostensiva, mas o problema atravessa partidos, instituições, interesses empresariais e doutrinas de segurança. Reduzi-lo à personalidade de um presidente seria confundir uma mudança de método com a origem do conflito.
Em 1823, James Monroe advertiu as monarquias europeias contra novas intervenções coloniais nas Américas. A declaração não concedia aos Estados Unidos o direito de tutelar seus vizinhos. Essa pretensão ganhou forma explícita em 1904, quando Theodore Roosevelt reivindicou um poder de polícia regional, inclusive para assegurar obrigações financeiras. A defesa do continente contra a ingerência europeia acabava convertida em justificativa para a ingerência de Washington.
Os efeitos não ficaram nos documentos. Em 1954, a CIA organizou a operação que contribuiu para derrubar Jacobo Árbenz, na Guatemala, recorrendo a propaganda, pressão diplomática, ação clandestina e apoio a forças insurgentes. Em 1964, o governo de Lyndon Johnson preparou a Operação Brother Sam para auxiliar os militares que depuseram João Goulart. A força-tarefa não foi utilizada como previsto, mas sua preparação está documentada. Governos republicanos e democratas apoiaram rupturas em momentos distintos, articulados a grupos nacionais interessados em preservar suas posições de poder.
As intervenções resultam dessa convergência entre cálculos estratégicos externos e disputas internas de classe. As elites locais não são simples executoras de ordens estrangeiras; podem identificar na intervenção uma oportunidade de conservar privilégios. Desconsiderar essa participação seria ignorar parte do mecanismo de dominação e subestimar a responsabilidade das forças políticas de cada país.
Os métodos variam. A estratégia de Joe Biden, em 2022, tratava o hemisfério como região de impacto direto sobre a segurança norte-americana e privilegiava a linguagem das parcerias. A de Trump, em 2025, passou a defender expressamente a restauração da preeminência dos Estados Unidos e a contenção de concorrentes em ativos regionais. A diferença importa para avaliar os riscos imediatos. A continuidade da ambição hemisférica importa para compreender por que eles não desaparecem a cada eleição norte-americana.
Por que a América Latina se tornou vital
Os Estados Unidos continuam sendo a principal potência militar do planeta e conservam enorme influência financeira. O dólar respondia por 56,7% das reservas cambiais internacionais no segundo trimestre de 2026. A mudança está na capacidade de outros centros econômicos, especialmente a China, de oferecer mercados, financiamento e tecnologia a países antes submetidos a um conjunto mais estreito de alternativas. Quanto mais disputada a influência de Washington no mundo, mais precioso se torna o controle de seu entorno.
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A América Latina concentra recursos indispensáveis à transformação industrial contemporânea. Segundo a Agência Internacional de Energia, respondeu, em 2025, por aproximadamente 40% da extração mundial de cobre e um quarto da produção de lítio. Redes elétricas, baterias, equipamentos industriais e sistemas militares dependem dessas cadeias. Energia, alimentos, água, terras agricultáveis e posições geográficas estratégicas completam um mapa que interessa a qualquer potência empenhada em sustentar sua capacidade produtiva.
O continente, porém, já não comercializa exclusivamente com seus antigos parceiros. De janeiro a setembro de 2026, a China recebeu 29,75% das exportações brasileiras, contra 9,65% destinadas aos Estados Unidos, segundo dados oficiais brasileiros. Essa mudança amplia a margem de negociação do Brasil, embora não elimine dependências tecnológicas e financeiras. A situação é desigual. O México permanece profundamente integrado à produção norte-americana; grande parte da América do Sul ampliou suas conexões comerciais com a Ásia.
Há uma segunda disputa dentro da primeira. A Agência Internacional de Energia estimou que, em 2025, a América Latina refinou, em média, somente 20% dos principais minerais energéticos que extraiu, excluído o lítio. Vender minério gera divisas, mas o maior poder econômico frequentemente se concentra no processamento avançado, nos componentes industriais, nas patentes e no domínio das tecnologias. O país que exporta sua riqueza bruta pode continuar dependendo de quem transforma essa riqueza em produtos de alto valor.
Washington tem motivos materiais para tentar preservar influência sobre compradores, financiadores e cadeias industriais. Uma América Latina capaz de escolher parceiros e desenvolver sua própria produção restringe o espaço para imposições externas. Essa é uma disputa por riqueza e, sobretudo, pela autoridade de decidir o que fazer com ela.
O controle sem ocupação
Uma potência pode reduzir a liberdade de outro Estado sem ocupar um único quilômetro de seu território. Contratos amarram a produção futura, financiamentos condicionam investimentos, padrões tecnológicos criam dependências e tarifas transferem o custo de divergências políticas para empresas e trabalhadores. A bandeira e as instituições nacionais permanecem; as decisões passam a ser tomadas sob restrições estabelecidas fora do país.
A Estratégia de Segurança Nacional norte-americana de 2025 descreve uma articulação direta entre diplomacia, negócios e segurança. Orienta representantes do governo a identificar oportunidades comerciais, prevê apoio financeiro a empresas dos Estados Unidos e defende fornecedores exclusivos em países sobre os quais Washington detém maior poder de negociação. A disputa por infraestrutura regional também aparece expressamente. O Estado não atua apenas como árbitro de mercados. Ajuda a organizá-los em favor de interesses estratégicos próprios.
Em Minaçu, Goiás, o caso Serra Verde permite acompanhar esse mecanismo. A produtora de terras raras firmou um acordo de quinze anos para fornecer a produção de sua primeira fase a uma estrutura de compra vinculada aos Estados Unidos. Em agosto de 2026, o Departamento de Guerra anunciou US$ 750 milhões para apoiar, por meio de uma empresa norte-americana, essa estrutura de aquisição de carbonatos de terras raras processados no Brasil. Em setembro, foi concluída a combinação societária com a USA Rare Earth. O contrato oferece preços mínimos e previsibilidade, vantagens reais para o empreendimento, mas também vincula parcela relevante de sua produção a uma cadeia de demanda estruturada no exterior.
O Brasil já realiza processamento mineral nessa operação. Separação de elementos, metalização e fabricação de ímãs, entretanto, envolvem outras etapas industriais, nas quais se concentram tecnologia e poder de mercado. Não basta conhecer o volume do investimento. É preciso saber quem decide o destino da produção, controla as etapas seguintes e pode renegociar os compromissos. Em maio, o Cade abriu apuração sobre aspectos dos acordos societários e de fornecimento; a investigação, por si, não comprova irregularidade.
A coerção comercial oferece outro exemplo. Em julho de 2026, o governo norte-americano impôs tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros, com exceções, após investigação que incluiu comércio digital, pagamentos eletrônicos e propriedade intelectual. Washington apresentou justificativas comerciais. O resultado foi impor custos a exportadores brasileiros em torno de decisões regulatórias tomadas pelo próprio Brasil. O acesso a um mercado importante tornou-se instrumento de pressão sobre escolhas nacionais.
Contratos privados, crédito público e decisões comerciais possuem regras diferentes e nem sempre obedecem a um comando único. Podem, ainda assim, reforçar a mesma assimetria. A Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, sancionada em setembro, criou instrumentos para ampliar o processamento nacional e examinar operações sensíveis. Sua eficácia dependerá de fiscalização, investimento e capacidade de fazer valer decisões públicas diante de interesses poderosos.
A disputa pelas consciências
A pressão material alcança os preços, o emprego e as expectativas de futuro. A interpretação dessas dificuldades, porém, é objeto de disputa. Uma crise pode ser apresentada como consequência de escolhas econômicas, como prova de incapacidade das instituições ou como ameaça atribuída a um inimigo político. Operações de influência exploram medo, indignação e identidade coletiva para alterar a maneira como grupos percebem os acontecimentos e julgam a legitimidade democrática.
A psicologia ajuda a explicar por que uma acusação repetida pode ganhar aparência de verdade. Em Systematic Review and Meta-analysis of the Evidence for an Illusory Truth Effect and Its Determinants, publicado na Nature Communications em 2026, Steeven Ye e colaboradores reuniram 182 estudos, com mais de 31 mil participantes. A repetição elevou, em média, a percepção de veracidade das afirmações, embora os efeitos variassem conforme o contexto. Familiaridade não constitui prova, mas pode ser confundida com ela.
Killian McLoughlin e colaboradores demonstraram outro mecanismo em Misinformation Exploits Outrage to Spread Online, publicado na Science em 2024. Usando dados de plataformas digitais e experimentos comportamentais, encontraram associação entre desinformação, indignação moral e disposição a compartilhar conteúdos, inclusive sem leitura prévia. O gesto de divulgar uma acusação pode funcionar como declaração de pertencimento ao grupo, mesmo quando sua veracidade não foi examinada.
Patrícia Rossini, Antonis Kalogeropoulos e Camila Mont’Alverne investigaram a experiência brasileira em Amplifying Division: Electoral Misinformation and Political Intolerance in Brazil, publicado em 2026 na Social Media + Society. Identificaram associação entre crença em alegações falsas de fraude na eleição de 2022 e intolerância política. Em Disrupting Democracy: How Informational Pathways and Misinformation Shape Trust in Election Results, examinaram relações entre consumo de informação, desinformação eleitoral e confiança nos resultados. Essas pesquisas não autorizam atribuir todo comportamento político a uma campanha organizada. Demonstram a importância das condições em que as pessoas recebem, interpretam e compartilham informações.
Em 28 de outubro de 2026, o Tribunal Superior Eleitoral desmentiu um suposto relatório pericial independente que alegava fraude na eleição presidencial. O documento confundia horários de votação, encerramento das seções e totalização. Seu formato procurava dar aparência técnica a conclusões não sustentadas pelos dados. Poucos dias antes, Gabriel Stargardter revelara na Reuters, com base em relatos de dez autoridades norte-americanas atuais e antigas, iniciativas de Darren Beattie e Ricardo Pita, funcionários do Departamento de Estado, para favorecer politicamente a família Bolsonaro. A reportagem não demonstrou qualquer ligação desses agentes com o falso relatório eleitoral. Confundir os episódios seria reproduzir o método de associação sem provas que a própria investigação critica.
Uma sociedade não precisa acreditar integralmente numa mentira para sofrer suas consequências. Basta que grupos relevantes deixem de reconhecer critérios comuns de prova e passem a enxergar o adversário como inimigo ilegítimo. Por isso, jornalismo verificável, educação crítica e instituições transparentes são componentes da segurança democrática, tão necessários à soberania quanto a proteção de seus recursos.
Por que o Brasil está no centro?
O Brasil reúne capacidades que nenhum outro país sul-americano possui na mesma escala. Tem o maior território e a maior economia da região, um mercado de mais de 214 milhões de habitantes, indústria diversificada e centros de pesquisa. Sua posição na Amazônia, no Atlântico Sul e nas principais bacias hidrográficas permite conectar países e sistemas produtivos que a história colonial manteve voltados prioritariamente para o exterior. Essa geografia oferece poder potencial; realizá-lo exige escolhas de longo prazo.
O Programa Rotas de Integração Sul-Americana, formalizado em 2026, organiza cinco corredores e 190 iniciativas de infraestrutura. A Rota Bioceânica de Capricórnio, que liga o Centro-Oeste ao Paraguai, à Argentina e ao Chile, pode aproximar produtores brasileiros dos portos do Pacífico e estimular cadeias regionais. Obras pendentes, custos logísticos e diferenças entre governos dificultam a execução. Ainda assim, cada ligação efetiva amplia a possibilidade de o continente circular mercadorias e produzir riqueza por caminhos menos dependentes de centros externos.
Essa integração não se sustenta apenas com estradas. O BNDES e a Finep anunciaram, em junho, R$ 140 bilhões disponíveis até dezembro de 2026 para a Nova Indústria Brasil. O volume expressa uma escolha de política industrial, não uma garantia de resultados. Transformar crédito em tecnologias próprias, empregos qualificados e produção de maior valor exige enfrentar obstáculos fiscais, juros elevados, concentração de renda e deficiências de formação profissional. Nos doze meses encerrados em setembro, os juros nominais do setor público alcançaram 8,99% do PIB, indicador do peso financeiro que limita as escolhas orçamentárias. Uma economia incapaz de sustentar investimentos estratégicos reduz a força de sua diplomacia.
Nos BRICS, o Brasil defende reformas da governança financeira, o fortalecimento do Novo Banco de Desenvolvimento e maior espaço para operações em moedas locais. A Declaração do Rio de Janeiro de 2025 registrou essas prioridades. Ainda estão longe de constituir uma ordem internacional substituta, e não devem ser tratadas como tal. Importam porque ampliam opções de financiamento e negociação, sem exigir que o Brasil troque a dependência de Washington por outra dependência.
A reeleição de Lula em 25 de outubro, com 51,79% dos votos válidos, preservou no governo uma orientação favorável à integração regional, à política industrial e ao multilateralismo. Não resolveu as divisões políticas brasileiras nem as divergências entre governos vizinhos. Manteve, contudo, um país continental fora do alinhamento automático exigido por Washington em questões estratégicas. É essa possibilidade de articular produção, infraestrutura e diplomacia que torna o Brasil especialmente importante na disputa hemisférica. Sua autonomia abre espaço de manobra para os vizinhos; seu constrangimento o reduz.
O cerco e seus limites
O risco militar deixou de ser uma abstração no entorno brasileiro. A Estratégia de Defesa Nacional dos Estados Unidos, de janeiro de 2026, estabeleceu como prioridade restaurar sua dominância no hemisfério e preservar acesso a posições estratégicas. O Escudo das Américas deu expressão regional a essa orientação, reunindo governos em torno de segurança, economia e coordenação política. O Brasil não integra a coalizão. Isso não o protege automaticamente das consequências de decisões tomadas ao longo de suas fronteiras e das rotas marítimas de que depende.
A geografia torna o problema incontornável. Na Amazônia, as fronteiras com Guiana, Venezuela, Colômbia e Peru atravessam áreas de grande valor ambiental, mineral, energético e militar. Em 21 de outubro, Washington e Georgetown assinaram uma declaração para aprofundar a cooperação de defesa, com treinamento multidomínio, exercícios conjuntos e vigilância aérea. A Guiana faz fronteira com o Brasil em Roraima, na região próxima ao encontro territorial entre Brasil, Guiana e Venezuela. Ao sul, a tríplice fronteira com Paraguai e Argentina combina circulação comercial intensa, cooperação policial e interesses de segurança distintos. O acordo com a Guiana não prova preparação para atacar o Brasil, nem transforma um vizinho em inimigo. A expansão de capacidades sob liderança de uma potência externa, entretanto, altera o ambiente de qualquer crise futura.
O mar expõe vulnerabilidades igualmente graves. O Comando Sul norte-americano atua na América do Sul e em águas adjacentes por estruturas que incluem a Quarta Frota. Sua área operacional não lhe concede soberania sobre o mar territorial brasileiro, tampouco elimina os direitos do país na zona econômica exclusiva. Mas a concentração de meios navais no entorno do Atlântico Sul interessa diretamente à defesa da Amazônia Azul, das plataformas petrolíferas, dos cabos submarinos e das rotas por onde circula parte fundamental da riqueza nacional. Fernando de Noronha integra essa geografia. Interceptações coercitivas, bloqueios ou perturbações ao comércio marítimo precisam estar nos exercícios de planejamento do Estado brasileiro.
Há precedentes recentes de emprego efetivo da força. Desde setembro de 2025, militares norte-americanos atacaram embarcações suspeitas de narcotráfico no Caribe e no Pacífico. No estudo Killing “Narco-Terrorists” at Sea, publicado em setembro de 2026, o relator especial das Nações Unidas Ben Saul contabilizou pelo menos 223 mortos e contestou a legalidade das operações, classificando-as como incompatíveis com as exigências do direito internacional aplicável à proteção da vida. Washington invoca combate ao narcoterrorismo e legítima defesa. A suspeita de tráfico, entretanto, não confere por si mesma autorização para matar pessoas no mar. A gravidade dos fatos não depende de especular sobre suas consequências.
O petróleo também entrou nessa disputa. Em dezembro de 2025, forças norte-americanas apreenderam o petroleiro Skipper, ligado ao comércio de petróleo venezuelano. Em fevereiro, o Departamento de Justiça pediu judicialmente o confisco da embarcação e de 1,8 milhão de barris. Em outubro, a Reuters informou sobre a chegada ao Texas de um milhão de barris de petróleo venezuelano sob acordo de natureza distinta, envolvendo interesses empresariais e acesso privilegiado dos Estados Unidos à produção. Não se deve confundir apreensão judicial contestável com cada operação comercial posterior. Em conjunto, os episódios mostram o peso dos instrumentos navais, jurídicos e econômicos de Washington sobre fluxos estratégicos da região.
O Escudo das Américas adiciona um risco político específico. Na declaração de setembro, os governos participantes incluíram o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho entre 24 organizações tratadas como ameaças transnacionais, sem participação do Brasil. Em outubro, Celso Amorim descreveu a iniciativa como um cerco ao país e criticou o enquadramento do crime organizado como terrorismo internacional. Após a reeleição de Lula, interpretou o resultado como um revés para a estratégia regional dos Estados Unidos. Essa é a avaliação pública de um dos principais formuladores da política externa brasileira, não prova de que exista um plano formal de agressão. Seu fundamento merece atenção: mecanismos de segurança criados sem Brasília podem produzir pressões diretamente sobre decisões brasileiras.
A hipótese mais perigosa é a escalada provocada por um incidente de fronteira, uma ação marítima coercitiva ou uma acusação de narcoterrorismo. Também cabe aos órgãos competentes examinar, em exercícios prospectivos, a possibilidade de provocações deliberadas atribuídas a terceiros, as chamadas operações de falsa bandeira. Não há evidência pública de que os Estados Unidos estejam preparando uma ação dessa natureza contra o Brasil. A preparação responsável exige reconhecer riscos sem apresentá-los como fatos consumados.
Os Estados Unidos não vão desistir espontaneamente da primazia hemisférica porque Lula venceu. Podem negociar, mudar instrumentos ou recuar de uma operação específica; os objetivos formulados em seus documentos estratégicos não desaparecem com esses movimentos. Isso não equivale a poder ilimitado. No referendo de novembro de 2025, 60,82% dos eleitores equatorianos rejeitaram a retirada da proibição constitucional de bases militares estrangeiras. Divergências entre aliados, direito internacional, custos econômicos e resistência social impõem restrições. A segurança brasileira depende de conhecer essas limitações, fortalecer suas próprias capacidades e evitar que sua defesa fique subordinada à avaliação de outra potência.
A história de quem sabe resistir
A América Latina conhece o preço da dominação. Colonização, escravidão, expropriação de terras e intervenções estrangeiras moldaram suas instituições e a distribuição de riquezas. A resistência nasceu dentro dessa violência, organizada por indígenas, africanos escravizados, trabalhadores, camponeses e movimentos políticos que desafiaram poderes aparentemente impossíveis de enfrentar.
Palmares sustentou, por gerações, formas próprias de organização econômica e política, resistindo a expedições destinadas a destruí-las. No Haiti, a revolução conduzida por pessoas escravizadas derrotou o domínio francês e proclamou a independência em 1804. A vitória não encerrou a coerção. A indenização posteriormente imposta pela França comprometeu por décadas a economia haitiana. O controle do território havia mudado de mãos, mas a violência das relações internacionais continuava presente nas finanças.
Na Guiné-Bissau, a luta organizada pelo PAIGC, sob a liderança histórica de Amílcar Cabral, levou à proclamação da independência em 1973, reconhecida por Portugal no ano seguinte. Cabral compreendeu a libertação como tarefa militar, política e cultural, inseparável da participação popular. A experiência demonstrou a potência dessa organização e também a dificuldade de superar, depois da independência, desigualdades e estruturas herdadas do colonialismo.
A Nicarágua enfrentou os Estados Unidos também no terreno jurídico. Em 1986, a Corte Internacional de Justiça concluiu que Washington violara obrigações internacionais ao apoiar atividades militares e paramilitares e ao promover ações contra portos nicaraguenses. A sentença não encerrou as pressões sobre o país. Estabeleceu, porém, um registro jurídico de valor duradouro: a força militar não transforma automaticamente a intervenção em direito.
No Brasil, as Diretas Já não conseguiram aprovar a emenda que restauraria imediatamente o voto direto para presidente. A mobilização contribuiu para isolar a ditadura e ampliar as forças da redemocratização. Trabalhadores, movimentos negros, organizações populares e lideranças indígenas participaram das lutas que se refletiram na Constituição de 1988. A organização social produziu conquistas reais, embora incompletas e permanentemente disputadas.
Essa história também é feita de massacres, derrotas e oportunidades perdidas. Não fornece garantia de vitória nem desculpa para improvisação. Ensina que soberania não resiste apenas na retórica governamental. Precisa de instituições, base econômica, capacidade política e povo organizado. Quando essas dimensões se enfraquecem, a independência formal pode conviver com relações profundas de subordinação.
Os próximos movimentos
A preparação brasileira precisa ser permanente, não improvisada a cada crise. Os documentos estratégicos norte-americanos de 2025 e 2026 colocam a primazia hemisférica entre suas prioridades. A avaliação de risco deve partir dessa continuidade, sem confundir intenção declarada de influência com decisão comprovada de usar força contra o Brasil. Vigilância séria exige medir capacidades, precedentes, incentivos e custos.
O cenário mais imediato é o desgaste econômico. Tarifas adicionais, restrições a tecnologias, disputas regulatórias e pressões financeiras podem encarecer políticas brasileiras e desorganizar setores produtivos. O sinal relevante não será cada decisão isolada, mas a convergência de medidas sobre cadeias estratégicas, crédito e investimentos. O Brasil precisa acompanhar essas mudanças com dados integrados e dispor de mercados e fontes de financiamento alternativos antes de uma emergência.
Nas fronteiras, a atenção deve recair sobre novos acordos militares, sistemas de vigilância, exercícios, acesso logístico e mudanças de presença operacional. A parceria assinada entre Estados Unidos e Guiana em outubro é um dado a acompanhar, não autorização para tratar a Guiana como adversária. O interesse nacional brasileiro está em conhecer movimentos em seu entorno, manter canais diplomáticos ativos e evitar que disputas externas convertam zonas de cooperação em áreas de tensão permanente.
No mar, o cenário grave inclui incidentes com navios, interceptações coercitivas ou tentativas de justificar operações armadas por acusações de tráfico e terrorismo. A experiência recente no Caribe obriga a considerar essa possibilidade sem afirmar sua ocorrência futura no Atlântico Sul. Exercícios de contingência devem prever respostas proporcionais, documentação de evidências, acionamento do direito internacional e proteção de instalações estratégicas. Hipóteses de provocações e falsas bandeiras pertencem ao planejamento preventivo, não ao noticiário como fatos estabelecidos.
Também haverá espaço para negociação. Interesses empresariais divergentes, resistências regionais, reação de aliados e custos diplomáticos podem limitar medidas de Washington. Dialogar não significa aceitar tutela. É conservar interlocução enquanto se amplia a margem real de escolha. Uma economia sem alternativas comerciais e tecnológicas negocia sob constrangimento; outra, com instrumentos próprios, pode recusar condições incompatíveis com seus interesses.
A Estratégia Nacional de Defesa brasileira já aponta capacidades que precisam deixar de ser tratadas como projetos descontínuos. O Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras, o Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul, a defesa cibernética e os programas espaciais exigem manutenção, integração de inteligência, pessoal preparado e orçamento estável. A dissuasão não depende de equiparar cada navio ou aeronave norte-americana. Depende de reduzir vulnerabilidades e elevar os custos militares, políticos e diplomáticos de qualquer coerção.
Na economia, é urgente proteger infraestrutura crítica, desenvolver o processamento industrial de recursos nacionais, formar quadros técnicos e diversificar cadeias de abastecimento. A política de defesa precisa conversar com a industrial, a científica e a energética. Não existe autonomia militar sustentável onde faltam peças, tecnologia, comunicações seguras ou capacidade de financiar operações prolongadas.
A articulação sul-americana e o diálogo com a África atlântica devem proteger rotas marítimas, ampliar a cooperação e fortalecer a defesa do direito internacional. O combate ao crime transnacional precisa ser efetivo e respeitar a autoridade dos Estados envolvidos. O Brasil tem razões para cooperar com Washington em áreas de interesse comum e razões igualmente fortes para recusar que essa cooperação se converta em autorização para intervenções unilaterais.
Preparar-se também exige uma sociedade capaz de reconhecer ameaças reais sem ceder à fabricação de inimigos internos. Transparência, fiscalização democrática das políticas de segurança, imprensa independente e debate público informado são parte da resistência. Criticar um governo não é atacar a soberania; manipular informações para destruir a confiança nas regras coletivas pode enfraquecê-la por dentro.
A América Latina não decide o que Washington ambiciona. Pode disputar, entretanto, o alcance de suas ações. O Brasil dispõe de território, conhecimento, recursos, instituições e experiência histórica para defender suas escolhas. Nada disso atua sozinho. A reeleição de Lula preservou uma orientação política; não substitui indústria, diplomacia, inteligência, defesa e organização social. Washington não vai desistir de seus interesses. O Brasil precisa estar preparado para defender os seus.
*Reynaldo Aragon é jornalista especializado em geopolítica da informação e da tecnologia, com foco nas relações entre tecnologia, cognição e comportamento. Editor do codigoaberto.net . É pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação (NEECCC – INCT DSI) e integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberania Informacional (INCT DSI), onde investiga os impactos da tecnopolítica sobre os processos cognitivos e as dinâmicas sociais no Sul Global.
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.
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