Fernando Nogueira da Costa: Apólogo II — O Pragmático da Geração X e a Democracia Restabelecida
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Da Nova República ao Plano Real — 1985-2000
Por Fernando Nogueira da Costa*
Em um bar, na Avenida Paulista tomada por uma multidão vestida de vermelho, empunhando bandeiras brasileiras e cartazes em defesa da democracia e da reeleição de Lula, um ex-professor encontra com ex-alunos de diversas gerações.
O ex-aluno da Geração X, nascido em 1972, pediu outra caipirinha. O preço dela estava estável.
— Professor, minha geração recebeu uma democracia recém-nascida, uma economia com inflação altíssima e a promessa de que o mundo seria melhor depois da Guerra Fria.
— Vocês herdaram uma democracia em construção e uma economia em crise. Não foi exatamente um presente de aniversário…
— Quando entrei na universidade, o Brasil já tinha Constituição democrática, mas ainda sofria com o regime de alta inflação e a desigualdade social.
— A Constituição de 1988 foi uma conquista extraordinária — respondeu o professor. — Reconheceu direitos civis, políticos e sociais. Mas escrever direitos no papel é diferente de criar as condições materiais para exercê-los.
— O senhor sempre dizia: “o Estado de Direito precisava ser também um Estado de Bem-Estar Social”.
— E continuo dizendo! A liberdade de votar é indispensável. Mas quem passa fome, não tem atendimento médico ou educação de qualidade enfrenta limitações concretas para exercer sua cidadania.
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O X recordou os anos de hiperinflação.
— Meu pai e minha mãe corriam ao supermercado logo após receber o salário. Os preços mudavam antes de chegarmos ao caixa.
— Era uma economia onde o dinheiro perdia rapidamente sua função de reserva de valor. Os correntistas tinham de o manter aplicado em correção monetária ou overnight. Os mais pobres sofriam mais, porque muitos não tinham acesso aos instrumentos financeiros de proteção. Havia os “sem terra”, os “sem tetos” e os “sem conta”.
— Vieram Cruzado, Bresser, Verão, Collor…
— Uma coleção de planos de estabilização com tentativas e erros! Se fossem álbuns de figurinhas, ninguém conseguiria completar, porque sempre faltava a principal: estabilidade inflacionária!
O X riu.
— O Plano Collor ainda confiscou temporariamente parte dos depósitos financeiros. Depois vieram os caras-pintadas e o impeachment de 1992.
— Aquele episódio demonstrou a capacidade das instituições democráticas de responsabilizar um presidente. Foi uma experiência importante, apesar das crises.
O professor mudou de assunto.
— Enquanto isso, o mundo também mudava. Em 1989, caiu o Muro de Berlim. Em 1991, desapareceu a União Soviética. Alguns intelectuais anunciaram o fim da História porque o capitalismo teria triunfado eternamente sem competição.
— Parece a História não ter recebido o comunicado! — ironizou o X.
— Exatamente! O capitalismo venceu a disputa geopolítica da Guerra Fria, mas não eliminou suas contradições. Desigualdade, crises financeiras, guerras e conflitos sociais continuaram existindo.
O X lembrou Nelson Mandela.
— Em 1994, a África do Sul elegeu seu primeiro presidente negro após o apartheid.
— Um exemplo de transformação política pela mobilização social e pela negociação institucional. Mandela compreendeu a necessidade de evitar a perpetuação da guerra civil.
— E aqui o aumento da reserva cambial permitiu fixar a taxa de câmbio e controlar a inflação com o Plano Real.
— Uma conquista histórica à custa de um grande déficit comercial com uma moeda valorizada artificialmente retirando competitividade das exportações. Mas a estabilização monetária beneficiou os trabalhadores, antes incapazes de proteger seus salários da inflação. Infelizmente, a estabilização não levou automaticamente ao desenvolvimento.
— O senhor criticava os juros elevados e a abertura comercial acelerada.
— Criticava a ideia de o mercado resolver sozinho todos os problemas nacionais. A abertura, as privatizações e a globalização aumentaram a concorrência e modernizaram algumas atividades, mas também expuseram os segmentos industriais brasileiros a dificuldades e não eliminaram nossa dependência tecnológica.
— Foi quando a internet chegou!
— Chegou para mudar a comunicação, os negócios e a política. Vocês conheceram o mundo já com os computadores pessoais, a internet, o telefone celular e a urna eletrônica.
— Lembro do barulho do modem conectando. Era o som da modernidade pedindo licença para entrar!
O professor observou:
— A Geração X foi uma ponte entre o mundo analógico e o digital. Aprendeu a lidar com mudanças permanentes, mas também descobriu a modernização tecnológica não garantir, por si só, progresso social.
O X ergueu seu copo:
— Então nosso pragmatismo não era cinismo?
— Não, era capacidade de adaptação. Mas o pragmatismo sem princípios corre o risco de se transformar em oportunismo.
— E os princípios sem pragmatismo?
— Viram discursos belíssimos incapazes de governar! Vejam os partidos “puros”, seja de extrema-esquerda, seja de extrema-direita, oferecem apenas ideologia e não recebem votos para superar as cláusulas de barreira.
— Para não perderem o acesso ao fundo partidário e ao tempo de TV, partidos como o PSOL também devem se federar com todos os da esquerda. Agora, essas alianças pragmáticas, para a sobrevivência institucional dessas siglas no Congresso, necessitam se estender, distanciando-as do conceito de pureza isolada.
Moral da estória: A democracia precisa de instituições duradouras, estabilidade econômica e direitos sociais efetivos. A modernização dos mercados e das tecnologias não substitui a construção política de uma sociedade mais justa.
Amanhã, 31/10, o Apólogo III: O Millennial e a Esperança de Inclusão Social
*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.




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