Fernando Nogueira da Costa: O Baile das Civilizações

Tempo de leitura: 7 min
Ilustração feita pelo ChatGPT (IA) com instruções de Fernando Nogueira da Costa

Por Fernando Nogueira da Costa*

Um apólogo sobre China dos clãs, Europa das corporações, Sociedade de Advogados da América, Estado de Engenheiros da China e uma intrusa chamada Índia das Castas.

Um problema para toda a humanidade é compreender a nova geografia da prosperidade. Necessita comparar as trajetórias históricas da Europa, América, China e Índia e, no presente, o contraste entre o “Estado de Engenharia” chinês e a “Sociedade de Advogados” norte-americana.

Naquela noite, o salão de danças Globo Terrestre estava lotado.

Na entrada, um letreiro luminoso anunciava:

GRANDE BAILE DA PROSPERIDADE — descubra quem inventou o melhor caminho para o progresso

O convite era provocador. Afinal, cada convidado chegava convencido de já conhecer a resposta: EU! Um dizia EUA…

Primeira dança: a Europa das Corporações e a China dos Clãs

A primeira a se apresentar foi uma senhora muito elegante, coberta de medalhas antigas.

— Europa das Corporações, muito prazer. Universidades, cidades autônomas, guildas, ordens religiosas, sociedades científicas, parlamentos… Tenho um currículo de mil anos.

Logo atrás chegou um senhor de idade ainda mais difícil de calcular.

— Sou o China dos Clãs. Minha família também tem larga experiência histórica.

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— Família? — perguntou Europa.

— Exatamente. Família. Só.

China explicou: durante séculos, sua sociedade organizara a cooperação através de linhagens patrilineares. Parentes ajudavam parentes, reverenciavam ancestrais e respeitavam os mais velhos.

Europa sorriu:

— É familiar. Na Europa, a partir do início da Idade Média, a Igreja Católica combateu ativamente as estruturas de parentesco estendido, proibindo casamentos consanguíneos, poligamia etc. Resultou na prevalência da família nuclear. Isso estimulou um sistema moral universalista, facilitando normas de conduta e cooperação entre estranhos.

E abriu seu leque:

— Guildas juntaram artesãos. Universidades reuniram estudiosos. Cidades conquistaram autonomia. Comerciantes criaram contratos. Reis necessitando de impostos, para pagar mercenários e guerrear, tiveram de negociar com essas corporações sociais. Daí vieram representação, consentimento, parlamentos e Estado de Direito.

Era uma diferença histórica: na China, clãs e linhagens organizaram a cooperação por parentesco; na Europa, associações formais reuniram pessoas sem vínculos familiares, como guildas, universidades, fraternidades e cidades autônomas.

China dos Clãs respondeu:

— Enquanto vocês perdiam tempo com brigas entre feudos, reis, nobres, bispos e cidades, nós tínhamos um Império. A China era tudo sob o céu!

— Nós chamamos essa “briga” de pluralismo democrático.

— Nós chamávamos de bagunça.

— E nós chamávamos o seu sistema de autocracia.

— Nós chamávamos de ordem imperial.

O garçom percebeu ser prudente retirar as taças de cristal da mesa.

A velha discussão sobre quem inventou o progresso

Europa continuou:

— Minha fragmentação política permitiu ao inovador, caso fosse perseguido por um rei, atravessar a fronteira e ir para outro reino. Minhas universidades e sociedades científicas fizeram circular ideias. Juntei o sábio ao fabricante. E então…

Fez uma pausa teatral.

— Revolução Industrial!

China dos Clãs pigarreou:

— Minha cara senhora, por volta do ano 1000, quando eu já possuía elevada capacidade estatal e avanços tecnológicos, você ainda estava tentando descobrir quem mandava em cada feudo.

A música parou.

Esse era um golpe baixo, porque era historicamente pertinente. Durante a Dinastia Song, a China estava à frente da Europa em tecnologia, renda e capacidade estatal; séculos depois, ocorreu a inversão dessa história, denominada de Grande Reversão, acompanhada por uma Grande Bifurcação institucional entre as duas civilizações.

Europa recompôs-se:

— Mas quem chegou primeiro à Revolução Industrial?

— Você.

— Portanto…

— Portanto nada. Uma fotografia do século XVIII não explica um filme de mil anos.

Europa fechou o leque. Aquela China sabia discutir com a sabedoria confuciana.

Segunda dança: a Sociedade dos Advogados e o Estado de Engenharia

De repente, surgiu outro personagem histórico. Entrou apressado, tendo usado trem-bala, um chinês jovem carregando uma planta de metrô em uma mão e uma maquete de usina na outra.

— Com licença. Vou ampliar a roda da história da prosperidade no salão.

— Quem autorizou?! — gritou imediatamente um advogado americano.

Vestia terno formal, como vivesse em uma Corte Suprema, e carregava uma pasta contendo licenças, recursos, pareceres, normas ambientais… e uma ação judicial preventiva contra a ampliação dos participantes do salão Globo Terrestre.

— Sociedade dos Advogados, Estados Unidos da América.

O chinês apresentou-se:

— Estado de Engenharia.

— O senhor possui licença para construir?

— Já construí.

O americano olhou pela janela. Havia uma estação ferroviária nova para trem-bala.

— Mas eu ainda nem terminei o estudo de impacto ambiental!

— Também fiz a maior ponte suspensa do mundo.

— Ponte?!

— E energias renováveis, veículos elétricos, robótica e inteligência artificial.

— Vou processá-lo!

— Enquanto isso, construiremos outra fábrica robótica.

Era a caricatura perfeita da oposição entre a China contemporânea como Estado de Engenharia, governado por tecnocratas concentrados em execução física e infraestrutura, diante dos Estados Unidos como Sociedade de Advogados, marcada por procedimentos, litígios, regulamentação e vetos capazes de retardar projetos.

O americano ergueu o indicador:

— Direitos individuais!

O engenheiro baixou o capacete:

— Capacidade de execução!

— Devido processo legal!

— Trem de alta velocidade!

— Avaliação ambiental!

— Painéis solares!

— Audiência pública!

— Porto novo!

— Recurso judicial!

— Cidade nova!

— Liminar!

O DJ interrompeu a música:

— Senhores, desse jeito ninguém dança.

Quando construir demais também quebra coisas

A velha China dos Clãs chamou discretamente o jovem engenheiro.

— Meu descendente, menos entusiasmo. Nossa família já aprendeu uma coisa sobre excesso de confiança.

O Estado de Engenharia não gostou.

— Mas construímos mais rápido!

— Sim. E às vezes construímos coisas desnecessárias.

— Temos escala!

— E dívidas.

— Planejamento!

— E decisões erradas em grande escala.

— Engenharia social!

A velha China arregalou os olhos:

— Aí é justamente onde você deve tomar cuidado.

A velha China Imperial ressalta os dois lados para o jovem: a capacidade chinesa de mobilização produz infraestrutura em grande escala, mas também gera endividamento, projetos inúteis e controles sociais rígidos. A velocidade capaz de “quebrar imobilidade” pode igualmente “quebrar pessoas”.

O americano aproveitou:

— Viu? Por isso existem advogados.

O engenheiro retrucou:

— E quem protege vocês dos próprios advogados?

Silêncio.

Europa cochichou:

— Boa pergunta.

A intrusa no salão

Foi quando o porteiro apareceu aflito.

— Temos um problema.

— Outro engenheiro? — perguntou o americano.

— Outra civilização.

Uma jovem acabara de entrar pela porta dos fundos. Usava um vestido formado por tecidos de muitas regiões, falava inglês com desenvoltura, carregava uma Constituição enorme debaixo do braço e equilibrava no outro um pacote com infraestrutura digital, exploração espacial e serviços de software.

— Quem é você? — perguntaram todos.

— Índia das Castas.

— Seu nome não estava na lista! — protestou a Europa.

— Esse é justamente o problema das listas feitas por eurocêntricos.

A Sociedade dos Advogados aproximou-se:

— A senhora possui credencial?

— Sou a maior democracia do baile.

— Isso não responde à pergunta.

— Ah, entendo como funciona mal sua sociedade com uma democracia eleitoral onde o mais votado nem sempre se elege: em vez de cada eleitor, um voto, é cada estado um punhado de votos…

O Estado de Engenharia perguntou:

— E onde estão suas grandes obras?

— Algumas chegaram. Outras estão presas no trânsito.

China dos Clãs sorriu:

— Finalmente, apareceu alguém cuja sociedade também preservou organizações baseadas em pertencimento comunitário.

— Calma, vovô. Minhas castas tiveram historicamente natureza ocupacional, mas minha trajetória não é uma cópia da sua.

A jovem Índia explicou: alcançara a independência diante do Império britânico, em 1947, sendo muito pobre, extremamente diversa, dividida por línguas, religiões, regiões, comunidades e castas — e, apesar disso, escolhera precocemente eleições competitivas e democracia de massas.

— Fiz uma coisa considerada improvável: comecei a democratizar antes de enriquecer.

Europa ergueu a sobrancelha:

— E prosperou?!

— Ainda estou dançando.

— Isso não é resposta.

— Para civilizações, menos de cem anos também não são resposta.

O espelho etnocêntrico

Índia então percebeu um enorme espelho dourado no centro do salão.

Acima dele estava escrito:

MODELO UNIVERSAL DE CIVILIZAÇÃO BEM-SUCEDIDA.

Europa correu primeiro para diante dele.

— Naturalmente sou eu.

Índia riu:

— Eurocentrismo…

A Sociedade dos Advogados ocupou o lugar:

— Agora sou eu.

— Americocentrismo…

O Estado de Engenharia afastou ambos:

— O futuro sou eu.

A jovem balançou a cabeça:

— Sinocentrismo…

A velha China dos Clãs ficou constrangida.

Conhecia aquela palavra. Durante séculos, lembrou ela, o Império se imaginara como “Tudo sob o Céu”. Seu governante era o Filho do Céu. A civilização chinesa imaginava ocupar o centro simbólico do mundo e daí os povos externos à sua esfera cultural eram vistos como bárbaros.

— Confesso — disse China. — Já tivemos nossa fase de achar o mapa-múndi em volta de nós não ter nada de interesse para os chineses autossuficientes.

Europa tossiu discretamente.

— Algum problema? — perguntou Índia.

— Poeira colonial. Até hoje sofro com ela, devido às Independências nacionais…

— Imaginei.

Sua advertência contra o etnocentrismo critica a tendência eurocêntrica de converter a experiência europeia em padrão universal e estende a advertência ao americocentrismo. Dada sua má experiência, a China deveria evitar a mesma tendência de sinocentrismo ao julgar outras sociedades tomando a própria experiência como referência superior.

A dança impossível

Índia subiu ao palco.

— Vocês cometeram o mesmo erro a noite inteira.

— Qual? — perguntaram os quatro.

— Confundiram trajetória histórica com receita universal.

Apontou para Europa:

— Você, de início, mostrou a força das corporações, das regras impessoais e da circulação descentralizada do conhecimento.

Para China dos Clãs:

— Você tinha mostrado a força da confiança comunitária, da continuidade histórica e da coordenação.

Para o americano:

— Você mostrou o valor dos direitos individuais, do pluralismo e dos freios ao poder.

Para o engenheiro chinês:

— E você mostrou a importância da capacidade de fazer, construir, fabricar e transformar conhecimento em coisas reais.

Os quatro sorriram. Finalmente, alguém reconhecia a superioridade de cada um.

Mas Índia completou:

— E todos mostraram também seus defeitos.

Os sorrisos desapareceram.

— Corporações viraram privilégios exclusivistas. Clãs excluíram quaisquer estranhos. Sociedade de Advogados transformou garantias legais em paralisia da infraestrutura. Estado de Engenheiros trata pessoas como peças de uma máquina.

— E as castas? — perguntou Europa.

Índia respirou fundo:

— Podem transformar ocupações herdadas em hierarquias sociais duradouras. Eu não disse ter vindo aqui ensinar perfeição. Vim ensinar comparação.

O DJ aproximou-se:

— Então qual música devo tocar?

Índia respondeu:

— Nenhuma dança solo.

— Valsa?

— Coevolução.

— Nunca ouvi.

— Ninguém ouviu direito ainda. Por isso precisamos aprender os passos.

Europa ofereceu a mão à China dos Clãs. A Sociedade dos Advogados, desconfiada, aceitou dançar com o Estado de Engenharia — depois de fazê-lo assinar um termo de responsabilidade. Índia dançou com todos.

Naturalmente, pisaram várias vezes nos pés uns dos outros.

Era o Globo Terrestre, afinal.

Antes de sair, a jovem Índia virou o grande espelho dourado. No verso havia uma frase escrita havia séculos, embora ninguém soubesse por quem:

“Quem se considera o centro do mundo acaba confundindo a própria trajetória com o destino da humanidade.”

Ela acrescentou embaixo, com batom:

“Errar é histórico. Repetir o erro é burrice.”

Moral da estória: O progresso não possui uma única coreografia. Clãs, corporações, mercados, Estados, democracias, burocracias, engenheiros e advogados são configurações históricas, capazes de gerar capacidades e também bloqueios. O erro começa quando uma civilização transforma seu êxito temporário em prova de superioridade permanente.

O etnocentrismo alimenta a ilusão da autossuficiência: deixa-se de aprender justamente quando os outros começam a inovar. Aconteceu a decadência da Europa quando se imaginou centro definitivo da civilização. Hoje, os Estados Unidos confundem liderança histórica com supremacia permanente. É igualmente um risco para a China novamente poderosa se ela transformar sua ascensão em novo sinocentrismo.

No Salão Globo Terrestre, portanto, a civilização mais capaz de permanecer próspera não é aquela com a cara de pau de proclamar ter inventado a melhor dança, definitivamente, mas sim aquela capaz de observar os passos alheios, reconhecer os próprios tropeços e aprender novas coreografias sem deixar de ser ela mesma.

*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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