Fernando Nogueira da Costa: O Petista e o Evangélico

Tempo de leitura: 5 min
Ilustração feita pelo ChatGPT (IA) com instruções de Fernando Nogueira da Costa

Apólogo sobre a conversa entre dois eleitores, na fila da urna para votar, sobre suas diferenças e suas semelhanças

Por Fernando Nogueira da Costa*

A fila da seção eleitoral estava grande.

Na frente de um homem de camiseta vermelha havia outro com uma Bíblia debaixo do braço.

O primeiro olhou para a fila, olhou para o relógio e resolveu fazer aquilo considerado imprudente em dia de eleição:

— Podemos falar de política?

O outro respondeu:

— Se você não tentar me converter.

— Combinado.

O evangélico ergueu a Bíblia:

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— Converter é mais a minha especialidade.

Os dois riram. A conversa começara melhor diante do padrão nacional.

— Posso perguntar uma coisa? — disse o petista. — Por que tantos evangélicos se aproximaram do conservadorismo?

— Família, aborto, costumes, religião. Muita gente sente os valores importantes para nós estarem sendo ameaçados. A aproximação de parcelas expressivas do eleitorado e de lideranças evangélicas com a extrema direita foi efetivamente associada à agenda conservadora de costumes, ao antipetismo e à defesa da família tradicional. Mas o universo evangélico nunca constituiu bloco eleitoral homogêneo.

— Entendo — respondeu o petista. — Mas liberdade individual vale só para a economia?

— Como assim?

— Se defendemos o indivíduo ter liberdade de escolher profissão, empreendimento, religião e maneira de ganhar a vida, essa liberdade termina quando entram decisões pessoais sobre corpo, sexualidade ou família?

O evangélico pensou.

— Porque para mim existe uma diferença. Liberdade não significa ausência de valores morais.

— Concordo. A questão democrática é outra: meu valor moral pode virar obrigação legal para você?

— E a sua concepção de liberdade pode obrigar minha igreja a abandonar a dela?

O petista sorriu:

— Concordamos a respeito da liberdade mútua.

— Empatia funciona nos dois sentidos.

O “terrivelmente evangélico”

O evangélico lembrou:

— O ex-presidente pelo menos prometeu um ministro “terrivelmente evangélico” no Supremo e indicou dois.

— Isso aconteceu — reconheceu o petista. — Mas o ministro deve decidir pela Bíblia ou pela Constituição?

— Pela Constituição.

— Então estamos de acordo outra vez. Isso está ficando preocupante… Os juízes, durante o processo de aceitação de sua indicação, procuraram distinguir suas convicções religiosas de sua função constitucional. Entretanto, mostrou partis pris em decisões favoráveis à associação entre Banco Master e Igreja Lagoinha…

— Meu receio — contrapôs o evangélico — é a esquerda restringir nossa liberdade religiosa.

— E o meu é o Estado privilegiar determinada religião. A solução é justamente o Estado laico: você pode ser profundamente religioso sem obrigar o Estado a ser evangélico; eu posso não compartilhar sua fé mas não vou querer impedir você de exercê-la.

— Separar Igreja e Estado para proteger ambos?

— Inclusive a Igreja do governante de plantão.

— Estamos novamente de acordo. Por qual razão você é ateu?

— Por não acreditar em um ser sobrenatural ao mesmo tempo onipresente, onipotente e onisciente. É ilógico: se ele anunciar o futuro, sendo onisciente, deixará de ser onipotente, porque perderá o poder de alterar o futuro…

Pastores e ovelhas

O petista resolveu entrar em terreno perigoso:

— E quando um grande pastor diz em quem seus fiéis devem votar?

— Não somos ovelhas passivas, nem rebanho, nem gado!

— Concordo: cada eleitor deve pensar pela própria cabeça.

— Inclusive petista?

— Principalmente petista!

O evangélico riu. Grandes lideranças evangélicas efetivamente apoiaram o ex-presidente preso por tentativa de golpe no resultado eleitoral, mas pesquisas sobre as eleições mostram também resistência e heterogeneidade interna, inclusive entre mulheres evangélicas contra o armamentismo porque aumentou o feminicídio.

— Pastor pode ter opinião política — disse o crente.

— Evidentemente.

— Então qual é o problema?

— Para mim, começa quando autoridade espiritual e autoridade política se confundem. Se discordar do pastor ser pregado como uma discordância de Deus, o voto deixa de ser inteiramente livre.

— Mas partido também cria identidade.

— Perfeito. Se discordar do partido virar traição ao centralismo democrático, aparece o mesmo problema.

Os dois ficaram em silêncio.

Desta vez nenhum tinha piada pronta.

Direita e esquerda entram na fila

— Acho você muito igualitarista — disse o evangélico.

— Sou.

— Eu valorizo mais liberdade individual, responsabilidade e meritocracia.

— Também valorizo. Só pergunto: mérito medido a partir de qual linha de partida?

O evangélico franziu a testa.

— Explique.

— Imagine uma corrida. Um nasce cem metros na frente: descendente de família rica tem boa escola, saúde, rede de contatos valiosos e patrimônio como herança. Outro nasce cem metros atrás.

— E você quer colocar todos na mesma linha?

— Quero pelo menos reduzir a distância inicial.

— Para fazer isso, você impedirá quem está na frente de correr?

— Aí teremos igualdade sem liberdade. A ideia é executar políticas públicas compensatórias como política de cotas em universidades públicas de excelência.

— E se eu simplesmente der a largada?

— Teremos liberdade formal com oportunidades muito desiguais.

O evangélico ficou pensativo.

— Então você teme desigualdade sem liberdade substantiva.

— E você teme igualdade imposta sem liberdade individual.

— Finalmente descobrimos alguma coisa.

— O quê?

— Por qual razão direita e esquerda discutem há duzentos anos.

O pobre empreendedor

Restavam três eleitores antes da urna.

O petista mudou de assunto:

— Há outra coisa necessária de nós da esquerda compreendermos melhor sobre as igrejas evangélicas.

— O quê?

— Pertencimento.

O evangélico ficou interessado.

— Um trabalhador perde o emprego — continuou o petista. — Vira motorista de Uber, vendedor ambulante, cabeleireiro, cozinheiro, entregador, e se apresenta como microempreendedor. Quem conversa com ele toda semana?

— A igreja.

— Quem visita quando adoece?

— A comunidade.

— Quem indica cliente?

— Um irmão.

— Quem ajuda quando falta dinheiro?

— Às vezes fazemos uma vaquinha.

— Quem oferece identidade e reconhecimento quando ele se sente invisível?

O evangélico apontou para si mesmo.

— Nós.

— Pois é. Se os políticos enxergam apenas “o eleitor evangélico conservador”, mas não enxergam a rede comunitária existente em torno daquele cidadão, não entendem essa realidade brasileira.

O evangélico sorriu:

— E se a igreja enxerga apenas “o esquerdista como fosse inimigo da família”, também não entendeu você.

A boca da urna

Chegara a vez deles.

O petista estendeu a mão:

— Continuo petista.

O evangélico apertou-a:

— Continuo evangélico.

— Não consegui converter você…

— Nem eu você.

— Conversa fracassada?

— Pelo contrário.

O mesário interrompeu:

— Próximo!

Antes de entrar, o evangélico virou-se:

— Sabe qual foi a coisa mais diferente?

— Qual?

— Durante meia hora você tentou entender por que penso como penso.

— E você fez o mesmo.

— E nenhum de nós precisou chamar o outro de fascista, comunista, herege ou idiota.

O mesário suspirou:

— Senhores, por favor. Há uma fila enorme esperando essa eleição democrática.

Cada um entrou sozinho na cabine.

Nenhum perguntou ao outro em quem votaria. Quando saíram, tomaram caminhos diferentes, mas antes se despediram como dois cidadãos capazes de conviver no mesmo país. O evangélico sussurrou para o petista: votei no Lula!

Moral da estória: democracia não exige o petista deixar de ser de esquerda nem o evangélico deixar de ser conservador. Exige algo simultaneamente mais modesto e mais difícil: reconhecer no adversário político um cidadão moralmente autônomo, e não um inimigo a ser convertido, silenciado ou eliminado.

A empatia não acaba com o conflito entre igualdade e liberdade, progressismo e tradição, Estado e mercado, secularismo e religião. Ela faz algo talvez mais importante: transforma inimigos em adversários — e adversários em pessoas capazes de continuar na mesma fila e conversar para adquirir conhecimento do próximo.

*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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