Luis Felipe Miguel: Do que eu gosto no Lula

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Foto: Reprodução

Sempre critiquei os governos de Lula. Mas não é possível ignorar suas enormes qualidades, tanto políticas quanto humanas.

Por Luis Felipe Miguel*, no Substack

Nunca fui lulista. Tendo construído as bases da minha visão da política no velho PCB, sempre fui reticente em relação ao PT – nem sempre, hoje sou capaz de reconhecer, por bons motivos.

Votei em Lula pela primeira vez no segundo turno de 1989 e continuei a fazê-lo pelas eleições seguintes. Mas sempre fui crítico dos limites dos seus governos, de sua preferência por evitar os conflitos, de sua aposta em soluções mágicas que seriam capazes de beneficiar os pobres sem atingir os interesses dos ricos.

Talvez por isso, por nunca ter sido lulista, não amargo o sentimento de decepção que faz com que algumas pessoas da esquerda resistam a apoiá-lo. Pessoas que o idolatravam, que projetaram em Lula algo que provavelmente Lula nunca foi e que se sentiram traídas depois.

Vejo em Lula o maior líder popular da nossa história, alguém que teve uma importância enorme para afirmar que o trabalhador tem lugar na política desse país, que pode e deve ocupar esse lugar. A importância disto é maiúscula, não importa quais sejam os reparos que se possa fazer às políticas do lulismo.

E Lula possui um conjunto de qualidades que não é fácil ver combinadas. Possui um tirocínio político ímpar, que explica porque ele é uma figura central da vida brasileira há 50 anos.

Apesar do que gostam de dizer seus adversários, é um político de honestidade comprovada – foram décadas de esforço incessante para enredá-lo em alguma coisa, sempre em vão. Mais do que honesto, é íntegro. A grandeza moral com que encarou 580 dias de prisão injusta não é coisa pouca.

Lula é um democrata autêntico, que nunca titubeou na defesa da democracia no Brasil.

É um grande comunicador. Sim, ele está velho, sua agilidade não é a mesma de antes, e encontra alguma dificuldade para entrar na sintonia dos mais jovens. Acontece com todos nós. Quem está em sala de aula há décadas e diz que não percebe isso ou está mentindo ou está delirante. Mas, ainda hoje, Lula mostra uma invejável capacidade de envolver com seu discurso. Quando está inspirado, como aconteceu na entrevista do Flow, é imbatível.

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A gente ouve quando ele fala e mesmo se discorda fica com vontade de aplaudir!

Mas as duas principais qualidades que eu louvo no Lula são outras.

A primeira é que ele genuinamente gosta de gente. O clipe (mais abaixo) usado por sua campanha eleitoral, com a música de Caetano Veloso, é emocionante porque é verdadeiro.

Lula tem empatia, uma vontade real de mitigar o sofrimento das pessoas. Um compromisso verdadeiro, íntimo, com bandeiras como o combate à miséria, que ele revelou ao longo de toda a sua trajetória. Ele gosta de dizer, com orgulho indisfarçado, que tirou duas vezes o Brasil do mapa da fome. É um orgulho justificado. É um feito que, por si só, já desculparia muitos erros de seu governo.

O contraste com seu adversário não poderia ser mais gritante. Flavio é o legítimo herdeiro daquele que zombava das pessoas que morriam asfixiadas por culpa da inépcia de seu próprio governo. Flavio confraterniza com matadores de aluguel, afaga a cabeça de assassinos de crianças.

A outra grande qualidade é que Lula montou um partido. No sistema político em que vivemos é difícil, para não dizer impossível, escapar do personalismo. Lula não é imune a isso. Mas, quando decidiu entrar na política institucional, seu esforço foi para criar um partido, uma organização coletiva. Não uma legenda, uma mera fechada para concorrer a eleições, mas um partido de verdade. O PT se transformou muito ao longo dos anos, nem sempre para melhor, mas continua sendo, sob muitos aspectos, o único partido que existe no Brasil.

Tem a ver com as circunstâncias, com o espírito do tempo, mas hoje até os que batem no peito e se dizem os mais revolucionários estão mais interessados em garantir seus espaços pessoais, como influencers ou como candidatos, do que construir a organização coletiva.

Lula não é perfeito, nenhum de nós é. Mas é, com suas imperfeições e suas contradições, um dos melhores políticos que o Brasil já produziu.

Contamos nos dedos de uma mão os políticos de expressão nacional, líderes de primeiro plano, com essa dignidade, sejam mais à esquerda ou mais conservadores. Além de Lula, Brizola, Tancredo, quem mais?

Não eram santos, claro. Eram algo muito mais difícil do que ser santo: políticos íntegros.

Já seu adversário é o que a nossa escória tem de pior. Despreparado, amoral e arrogante. Que grande parte da nossa elite se disponha a apoiá-lo diz muito sobre o que ela é.

Reeleger Lula não resolve automaticamente nada, mas renova nossa esperança de salvar o Brasil dessa elite.

Amanhã é 13.

*Luis Felipe Miguel é professor titular de Ciência Política na Universidade de Brasília (UnB). Autor, entre outros livros, de Democracia na periferia capitalista: impasses do Brasil (Autêntica)

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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