Eliara Santana: O velho padrão Globo de entrevistar Lula

Tempo de leitura: 4 min
O presidente Lula durante entrevista ao Jornal Nacional Foto: Ricardo Stuckert

‘JN’ transformou a sabatina em um interrogatório marcado por constrangimento e ausências deliberadas

Por Eliara Santana*, em Carta Capital

A proposta de sabatina/entrevista realizada pelo Jornal Nacional com o presidente Lula, ontem, 27/08, em muito se assemelhou à tomada de depoimento de um acusado.

Não somente pelo teor das perguntas, mas também pelo encadeamento dos temas e a condução dos entrevistadores. A pergunta inicial foi, obviamente, sobre as investigações envolvendo o filho do presidente, Fabio Luiz Lula da Silva, que a imprensa chama de “Lulinha”.

Pergunta dura feita por César Tralli, à qual Lula respondeu; o apresentador insistiu no mesmo tema com um outro viés, desdobrando a pergunta em outra provocação; Lula respondeu; o apresentador retomou o tema; depois, Renata Vasconcelos inquiriu sobre o mesmo assunto – o tema corrupção, no início da entrevista, tomou mais de quatro minutos dos 40 disponíveis para o evento, ou seja, mais de 10% do tempo do candidato foram gastos num único tema, que continha apenas provocação e intimidação.

Na verdade, o que estava ali em cena era novamente o uso do repertório corrupção – lembrando que repertórios são temas norteadores da construção da notícia, do noticiário –, que foi deflagrado desde 2014 pelo JN; à época, com os requintes simbólicos do fundo vermelho e um duto enferrujado por onde escorria dinheiro. O interrogatório ao presidente Lula, embalado no formato de entrevista, estava no mesmo molde.

É claro que uma entrevista com candidatos em momento eleitoral decisivo deve explorar todos os temas e realmente questionar aquele candidato sobre propostas, pautas inquietantes, o que ele fez na vida pública, quais são seus projetos.

Mas questionamento não é inquérito, esse é o primeiro ponto importante nesta reflexão. O segundo ponto é que a estratégia do uso da corrupção tem um fim muito específico há bastante tempo no sistema midiático em relação a Lula, sobretudo no sistema Globo – ela é um elemento para provocar desestabilização.

Não é somente um tema que precisa ser abordado, é um instrumento midiático de constrangimento, um modo de fazer com que aquele personagem fique acuado e não consiga se articular para responder às outras perguntas. Não é aleatório, portanto, é técnica, é algo como “padrão Globo de entrevista com Lula”.

E um terceiro ponto refere-se às ausências propositais. Se uma entrevista/sabatina tem por objetivo mostrar ao eleitor quem é o candidato, quais são suas propostas, o que ele fez na vida pública e apresentar um conjunto robusto de perguntas pelos entrevistadores para avaliar o conhecimento daquele candidato sobre os temas pertinentes, o evento protagonizado pelo Jornal Nacional em nada se assemelha a isso.

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Lula foi questionado em relação à investigação sobre um filho que não é candidato – investigação sobre a qual pesam denúncias de vazamento seletivo –, foi questionado sobre os problemas de segurança pública do estado da Bahia, do qual ele não é o governador, foi arguido de novo sobre investigações que ele não domina, como no caso do assessor Marcola.

Nada se falou sobre o que ele fez, como tirar o país do Mapa da Fome pela segunda vez, ou sobre o que pretende fazer em relação às bets, que estão destruindo o Brasil e fazem propaganda no intervalo de jornais e novelas da Globo.

A entrevista foi muito mal conduzida – Tralli e Renata pareciam aqueles professores em bancas de avaliação que não estão nem um pouco interessados no trabalho apresentado, mas querem mesmo é mostrar que sabem um monte de coisas.

Arrogância e despreparo, uma combinação bem perigosa. Mesmo assim, a entrevista teve até momentos bem divertidos e bastante esclarecedores. Por exemplo, quando Lula disse que não havia esquecido o powerpoint: “A imprensa brasileira sabe que ela produziu um monstro mentiroso chamado Moro, chamado Dallagnol. Eu não esqueço do powerpoint mentiroso contra mim. Eu não esqueço”.

O presidente se referia à nefasta apresentação de Deltan Dallagnol ligando o então ex-presidente a toda uma trama de corrupção. César Tralli, ao melhor estilo “vestir a camisa da empresa”, correu a justificar a tática da Organização e respondeu: “O senhor falou do PowerPoint. Eu só quero dizer ao senhor, por favor, em relação a essa questão do PowerPoint: nos nossos princípios editoriais, nós fizemos a devida retratação sobre esse assunto. Então, eu peço que a gente siga com a entrevista”.

Ele fazia menção a outro powerpoint super tendencioso contra Lula (que foi apresentado por Andrea Sadi na GloboNews ligando Lula ao caso Master). Foi quase uma confissão de culpa mesmo.

A mediocridade midiática, fruto da intolerância da imprensa com Lula ao longo de décadas, se mostrou, mais uma vez, na entrevista/sabatina do JN. Em alguns momentos, um inquérito; em outros, um debate entre candidatos, dada a postura arrogante dos apresentadores.

Esse tipo de entrevista não é e não pode ser uma conversa entre comadres, de fato. Mas tampouco pode ser transformada num interrogatório em que os jornalistas são advogados de acusação e juízes, ao vivo, em horário nobre na emissora de maior audiência do país.

Por fim, Lula soube se safar das inúmeras tentativas de acuá-lo e de constrangê-lo. Não podemos abusar da euforia e dizer que ele arrasou, tirou de letra etc. Mas é possível dizer que o presidente, atirado à cova dos leões, soube se livrar e achar a saída.

*Esse artigo faz parte do projeto Observatório das Eleições.

*Eliara Santana é jornalista, com pós-doutorado em Estudos da Desinformação pelo Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp, doutora e mestre em Linguística e Língua Portuguesa. É pesquisadora do Observatório das Eleições. Sua tese de doutorado sobre o Jornal Nacional discute as estratégias de construção da narrativa do telejornal do impeachment de Dilma Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro. Organizou e coordenou, com Leonardo Avritzer, o livro “Eleições 2022 e a reconstrução da democracia no Brasil” (Autêntica). Em 2024, com Avritzer e Marisa Von Büllow, organizou o livro “Democracy Under Attack” (Editora Springer).

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Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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