Cunca Bocayuva: Gramsci e a política num Brasil em risco extremo

Tempo de leitura: 2 min
Donald Trump e Gramsci, em desenhos de Cunca Bocayuva

Por Pedro Cláudio Cunca Bocayuva*

O que acham de escrever um pequemo livro voltado para a questão da “catarse“, ou “Gramsci no tempo do agora”, como uma espécie de “manifesto” para viver as agonias e tensões deste ano reagindo ao modo como a direita usou o pensador da hegemonia?

O comunista humanista integral que inspirou parte do “giro cultural” para repensar o partido e a revolução no século XX não pode ficar refém da contrarrevolução em marcha, que o usa para justificar sua antipolitica e a perversidade genocida na batalha dos afetos.

Parece que precisamos sair da defensiva colocando uma carga de nitidez e vontade na busca do sentido coletivo, na retomada da paixão pela transformação que acompanhe o programa da democracia brasileira esboçado nos artigos 5 e 6 de nossa Constituição.

O poder constituinte que vem sendo destruído na lógica da guerra contra as populações e na crise da desglobalização tem neste 2026 o ano de uma decisão sobre o que fazer com o que resta.

O que nos força a buscar mais nitidez política. Um paradoxo histórico se repete: como unificar forças diversas ao mesmo tempo avançando na via da emancipação?

Num país que vive uma crise orgânica os limites do empate vem extinguindo o que nos sobrou de paciência.

As reservas de energia são indispensáveis para um processo de reformas de sentido radicalmente democrático, como via nacional de uma refundação do projeto de nação num mundo que arde.

A dialética negativa de Adorno e Horkheimer vem servindo de bagagem crítica, que reflexivamente interage com a insurgência das lutas de movimentos sociais cotidianos, que vem sustentando o que resta de esperança.

Mas muitas muralhas e casamatas impedem que se saia do quadro de crueldade e incerteza reforçado pelas metamorfoses da colonialidade, do endividamento, dos regimes de guerra e da destruição do planeta.

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O que mais uma vez se manifesta como fascistização e imperialismo pelas lógicas autoritárias, narcisistas e capitalistas, fascistas, racistas e sexistas como as do trumpismo e do bolsonarismo e companhia.

A noção de Gramsci lido na chave do método de “contraponto” se tornou um verdadeiro projeto em situação para podemos lidar com o sentido de urgência desta era das catástrofes que se sucedem.

O pessimismo da razão não permite um otimismo da vontade, mas exige uma tomada de posição para o agir político mais nítido. Falar desta necessidade se tornou uma tarefa decisiva para mobilizar energias e realizar engajamentos que coloquem a grande política no posto de comando.

*Pedro Claudio Cunca Bocayuva é professor do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas em Direitos Humanos da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), coordenador do Laboratório do Direito à Cidade e Território e membro do Grupo Gramsci e a Modernidade.

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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