Rogério Tomaz Jr, sobre a escalada de ódio entre Argentina e Brasil: É preciso dar um jeito, amigo!
Tempo de leitura: 3 min
SOBRE A RECENTE ESCALADA DE ÓDIO ENTRE ARGENTINA E BRASIL
Por Rogério Tomaz Jr*, em perfil de rede social (@rogeriotomazjrl)
1. O único – absolutamente ÚNICO – setor da sociedade que ganha com o ódio correndo solto de lado a lado é a extrema direita de Bolsonaro e Milei.
2. A Argentina acumula reiterados casos graves de racismo em estádios de futebol e outros espaços públicos, envolvendo não apenas o Brasil (México, França, Portugal, Espanha…) e outros países.
3. Pôr inúmeros fatores, históricos, culturais e conjunturais, a sociedade argentina se recusa a reconhecer o tema e também se recusa a fazer um debate sério sobre isso. E o governo Milei estimula e promove o racismo e a xenofobia e usa o ódio como política de governo. O objetivo é dividir, fragmentar e balcanizar a sociedade argentina, que já vive uma polarização intensa há mais de 10 anos.
3. Por outro lado, muita gente no Brasil e outros países (estimulados por gasolina jogada pelas milícias de Milei, Vox, Trump & caterva da ultradireita global), diante dessa inação e da falta de sanções aos racistas, passou a tratar o país como uma sociedade majoritária ou totalmente racista (por disposição ou por omissão), o que é uma xenofobia escancarada. ENFATIZO: esse movimento foi estimulado pelas milícias digitais de Milei e seus aliados.
4. Agora temos argentinos linchados na Espanha, espancados pela policia no Brasil, apedrejados em Búzios e outras cidades, bem como temos argentinos se envolvendo ou provocando brigas e agressões a brasileiros em vários locais do país.
5. E hoje, justamente no Dia do Amigo, temos estudantes e profissionais brasileiros que vivem na Argentina recebendo ameaças de morte e sendo expostos e LINCHADOS digitalmente, além de terem a deportação pedida até em meios importantes – como a irresponsável @CronicaTV – de grande audiência.
6. Do governo Milei não esperem QUALQUER gesto para desescalar essa situação. Ao contrário, podem esperar que ele vai jogar mais gasolina na fogueira a qualquer momento. Isso lhe interessa porque ele sabe que os peronistas talvez tentem apaziguar essa situação e ele vai aproveitar para chamá-los de traidores da pátria.
7. No Brasil, que encara a eleição presidencial daqui a 10 semanas, a situação é inversa: Lula é quem poderia tentar conter os ânimos, pela postura dialoguista que ele sempre teve. Mas, nesse momento, se ele der algum sinal nessa direção, poderá ser apontado pela extrema direita de traidor e amigo dos nossos “inimigos”.
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8. Aos meus amigos da Argentina, repito o que venho dizendo há tempos: assumam que o debate sobre o racismo precisa avançar muito no país, inclusive e sobretudo com relação aos povos originários e com a necessidade urgente de estabelecer punições para gestos/atos racistas em espaços públicos, inclusive e especialmente para esses tipos de atos que se enquadram no racismo recreativo.
9. Às pessoas queridas no Brasil: parem de julgar um país de 47 milhões de habitantes pelas atitudes de torcedores de futebol e turistas, por mais sórdidas que elas sejam. O racismo na Argentina não é maior ou pior do que o do Brasil (ou do Chile, ou da Bolívia, ou da Colômbia etc.).
A diferença é que eles não possuem um arcabouço jurídico efetivo para garantir punição ao racismo e eles também não possuem um letramento racial suficiente para levar o problema a sério – exatamente a situação que o Brasil vivia até o final dos ano 1990. Lembre que até hoje tem torcedor do Fluminense (meu time, aliás) que chama flamenguistas de mulambada e a torcida tricolor cantava até outro dia “silêncio na favela” para atacar os rubro-negros.
É PRECISO DAR UM JEITO, MEU AMIGO.
Gostem ou não, somos povos irmãos!
*Rogério Tomaz Jr. é jornalista e brasileiro que viveu e estudou na Argentina
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.
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Comentários
Nelson
Excelente texto, Rogério.
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Nessas horas de disputas futebolísticas, há uma montoeira de gente que dispensa o bom senso, a racionalidade, e se deixa dominar pelo fanatismo.
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A seguir ao fanatismo, a coisa só pode piorar e se torna corriqueiro um erro do qual até mesmo muita gente da esquerda não consegue se esquivar: a generalização.
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Coloca-se todo mundo “dentro de um saco”, todos são racistas em “um país de 47 milhões de habitantes”. Todos são arrogantes e imperialistas num país de 340 milhões de pessoas, como os EUA, entre incontáveis outras generalizações.
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Ora, assim como o Brasil. a Argentina atual também é resultado de uma miscelânea de povos e há nesse país uma grande quantidade de descendentes dos povos originários.
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Daí que, se substituirmos o fanatismo pela racionalidade e o bom senso, vamos, facilmente, nos dar conta de que, uma vez que esses descendentes sofrem bastante com a discriminação e o racismo, certamente vai soar como um absurdo completo se os incluirmos no bloco dos racistas.
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Em boa medida, é uma situação idêntica a afirmarmos que todo o povo gaúcho é racista assim como todo o povo catarinense também.
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Existem racistas no meu Estado e também no vizinho, mas, não constituem a totalidade da população. Eu não saberia mensurar, mas é bem possível até que os racistas não sejam maioria em nenhum do dois Estados.
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De resto, é preciso que nos convençamos, de uma vez por todas, que, como afirma Rogério, “somos povos irmãos”, o brasileiro e o argentino, e, a partir daí, passarmos a construir a tão sonhada “Pátria Grande” de Simón Bolívar, única forma de garantirmos a liberdade de cada povo da “Nuestra América”.