Luis Felipe Miguel: Também os mortos não estarão seguros

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Foto: Arquivo Nacional

Nos 41 anos da publicação de Brasil: nunca mais, lembremos que o combate por um país democrático e justo se faz em nome também de todos os que tombaram lutando por ele.

Por Luis Felipe Miguel, no blog Amanhã não existe ainda

Hoje se completam 41 anos da publicação de Brasil: nunca mais.

Não é uma data redonda, mas vale a lembrança neste momento pré-eleitoral, em que estamos, uma vez mais, diante de nostálgicos da ditadura e adoradores de torturadores.

São esses os nossos adversários, aqueles que, se bobearmos, voltarão à presidência da República, para um mandato que, não tenhamos ilusões, será muito mais destrutivo ainda do que o anterior.

O Brasil: nunca mais apresentou ao país as evidências dos abusos cometidos durante a ditadura, a tortura nos seus porões, tudo isso a partir de documentos oficiais do próprio governo autoritário. Autos de inquéritos policial-militares, que o regime muitas vezes encenava, incluíam denúncias relatadas pelos advogados de defesa.

O material foi copiado e arquivado no calor da hora, enquanto a repressão continuava fazendo suas vítimas, num projeto de enorme audácia e inteligência – como narrado no livro do jornalista estadunidense Lawrence Weschler, Um milagre, um universo, que foi publicado em português pela Companhia das Letras, em 1990, mas infelizmente está esgotado há muito tempo.

É chocante que a gente tenha hoje que brigar com quem quer voltar aos tempos da ditadura, quem apresenta um psicopata como Brilhante Ustra com o seu ídolo, quem defende, de cara limpa, que o arbítrio e a brutalidade são a solução.

Não só no Brasil. É uma epidemia. Nossa vizinha Argentina foi, por muito tempo, vista como um exemplo. O país que colocou os generais na cadeia. O país que mantinha viva a memória dos anos de chumbo, que seguia, não 100%, mas muito mais do que nós, a cartilha do que era necessário fazer para não voltar a acontecer.

Ainda assim, os argentinos colocaram no poder um sujeito como Javier Milei, tão tosco quanto qualquer Bolsonaro e mais doido do que eles, que também inclui em seu programa a reabilitação da ditadura.

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É difícil defender a democracia em abstrato, quando ela se mostra cronicamente incapaz de promover a igualdade, de distribuir a riqueza, de garantir melhores condições de vida para as maiorias.

Os saudosos da ditadura estão entre aqueles que fazem o possível e o impossível para impedir que a democracia cumpra suas promessas igualitárias. E depois usam a frustração com a democracia para angariar apoio a seus projetos autoritários.

Ao mesmo tempo, milênios de cristianismo com seu discurso de “amor ao próximo”, séculos de humanismo secular com a doutrina da dignidade inata de cada pessoa, nada disso parece ter feito com que ideias de direitos humanos se entranhem nas consciências.

A direita é o que é; com raras exceções, toda ela tirou a máscara ao abraçar os extremistas.

Mas não nos enganemos. No nosso lado, na esquerda, não faltam aqueles que empunham o discurso da democracia e dos direitos de forma meramente instrumental e oportunista. Estão prontos a aplaudir regimes e governantes autoritários, com violações sistemáticas dos direitos, segundo as conveniências.

Acham, como falou celebremente um propagandista local do governo de Pequim, que a pena de morte deve ser proibida no Brasil, mas as execuções em massa na China estão ok. Batem no peito dizendo que o problema de Stálin foi que “matou poucos”. Quando se sentem “empoderados”, pensam que liberdade de expressão é uma frescura e não hesitam em bradar por censura, quando não por prisão, de quem discorda de suas cartilhas. Esse tipo de coisa.

Estão agora do nosso lado, mas não devemos ter receio de afirmar nossas diferenças em relação a eles. E saber que, se por uma desgraça do destino um dia eles alcançarem o poder, nós estaremos entre as suas vítimas.

Walter Benjamin, na sexta de suas teses sobre a história, escreve: “Também os mortos não estarão seguros diante do inimigo, se ele for vitorioso. E esse inimigo não tem cessado de vencer”.

São palavras que falam diretamente a nós. Precisamos derrotar a extrema-direita em nome do presente, é óbvio. Em nome das nossas liberdades, em nome da dignidade do povo brasileiro, em nome de nossa segurança.

Também precisamos derrotá-la em nome do futuro. Um novo quadriênio dos Bolsonaro no poder significará uma nova e ampliada carga de retrocessos, que comprometerão muitas gerações de brasileiros – na questão ambiental, na soberania nacional, na educação e na saúde, nos direitos da classe trabalhadora, na igualdade de gênero e racial, em tudo.

Mas esta batalha se trava também em nome do passado, pela memória de todos aqueles que sacrificaram suas vidas lutando contra a ditadura, enfrentando a perseguição, o cárcere, o exílio, a tortura, a morte, perseguindo o projeto de um país melhor. Tanta luta, tanto sofrimento, não podem ter servido para fazer com que os herdeiros dos ditadores voltassem a controlar o país.

Nunca mais.

*Luis Felipe Miguel é professor de Ciência Política da Universidade de Brasília e coodenador do Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê).

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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