Por Nelice Pompeu
Por Nelice Pompeu*
Imagine acordar amanhã e descobrir que homens não podem mais votar.
Imagine ouvir que eles são emocionais demais para decidir os rumos do país. Que votam mal. Que deveriam apenas acompanhar a escolha política de suas esposas. Que sua participação nas eleições prejudica a democracia.
A reação seria imediata. Haveria indignação nacional. Editorial de jornais. Pronunciamentos de autoridades. Notas de repúdio. Afinal, retirar ou desqualificar o direito ao voto de qualquer grupo significa atacar a própria democracia.
Então por que alguns insistem em tratar como simples “opinião” quando alguém afirma que mulher não sabe votar?
Essa fala jamais poderia ter sido feita, nem em tom de brincadeira.
Quando alguém diz que mulheres não sabem votar, não está apenas desrespeitando metade da população brasileira.
Está atacando a democracia.
Está tentando nos empurrar para um passado que jamais pode voltar.
O direito ao voto feminino nunca foi um presente.
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Foi conquistado com organização, coragem e luta.
Durante séculos disseram que mulheres não tinham inteligência suficiente para estudar. Depois afirmaram que não tinham capacidade para administrar patrimônio, trabalhar sem autorização do marido ou participar da vida pública.
Quando essas barreiras caíram, passaram a dizer que mulheres não serviam para governar.
Agora querem dizer que não sabem votar.
O discurso muda.
O objetivo permanece o mesmo.
Controlar mulheres.
Silenciar mulheres.
Reduzir mulheres ao papel que o patriarcado considera conveniente.
Simone de Beauvoir deixou um alerta que continua assustadoramente atual: “Basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados”.
Esse alerta nunca fez tanto sentido.
Olhemos para o Afeganistão.
As mulheres perderam o direito de estudar, foram expulsas de diversos espaços públicos, tiveram sua voz silenciada e sua liberdade reduzida drasticamente.
Nenhum direito é permanente.
Toda conquista pode ser perdida quando a sociedade decide normalizar discursos de ódio.
Os retrocessos nunca começam de uma vez.
Começam quando alguém diz que foi apenas uma piada.
Depois dizem que é apenas uma opinião.
Depois afirmam que é liberdade de expressão.
Quando percebemos, direitos começam a desaparecer.
Por isso, não podemos naturalizar.
Não podemos relativizar.
Não podemos aceitar.
As mulheres brasileiras conquistaram o direito ao voto em 1932.
Foi resultado da luta de mulheres extraordinárias como Almerinda Farias Gama e tantas outras que desafiaram uma sociedade profundamente machista.
Décadas depois, a igualdade no exercício desse direito foi consolidada.
Nada aconteceu porque homens decidiram ser generosos.
Aconteceu porque mulheres lutaram.
Cada direito conquistado pelas mulheres tem a mesma origem.
A luta.
Foi assim com o direito à educação.
Ao trabalho.
Ao divórcio.
À licença maternidade.
À Lei Maria da Penha.
À tipificação do feminicídio.
Ao combate à violência psicológica.
À criminalização da importunação sexual.
Cada avanço encontrou resistência.
Sempre havia alguém dizendo que não era prioridade.
Que era exagero.
Que as coisas estavam boas como estavam.
A história das mulheres é a história de quem ouviu “não” e respondeu seguindo em frente.
Hoje, as mulheres representam mais de 52% do eleitorado brasileiro.
Somos maioria entre quem decide as eleições.
Mas ocupamos apenas cerca de 18% das cadeiras do Congresso Nacional.
Eles querem nossos votos.
Mas não querem nossas candidaturas.
Não querem nossas lideranças.
Não querem mulheres ocupando espaços de poder.
Agora alguns demonstram que nem nossos votos desejam.
Isso explica por que o voto feminino incomoda tanto.
As mulheres sempre estiveram na linha de frente das grandes transformações sociais.
Quando mulheres entram na política, entram também temas que historicamente foram invisibilizados.
Violência doméstica.
Creches.
Saúde pública.
Educação.
Combate ao assédio.
Igualdade salarial.
Proteção à infância.
Direitos humanos.
Não é o voto das mulheres que incomoda.
É aquilo que ele transforma.
Não por acaso cresce também a violência política de gênero.
Mulheres são interrompidas, humilhadas, ameaçadas e desacreditadas diariamente apenas porque decidiram disputar espaços de poder.
Tentam calar nossas vozes porque sabem da força que elas têm.
Tentar calar e desqualificar mulheres na política não é debate.
É misoginia.
Por isso, é urgente a aprovação do PL da Misoginia.
A democracia não pode aceitar que mulheres sejam atacadas simplesmente por serem mulheres.
Nossa voz incomoda porque transforma.
Nosso voto incomoda porque decide.
Não aceitaremos nenhum passo atrás.
Também precisamos lembrar da campanha Ele Não, que reuniu milhões de brasileiras em defesa da democracia e dos direitos das mulheres.
Ela mostrou que mulheres organizadas mudam eleições.
E é exatamente por isso que surgem discursos tentando desqualificar nosso voto.
As mulheres decidirão as próximas eleições.
Talvez esse seja o verdadeiro medo daqueles que insistem em afirmar que mulher não sabe votar.
Quem teme o voto feminino sabe exatamente o tamanho da nossa força.
Mas também aprendemos uma lição importante.
Não basta votar em mulheres.
É preciso votar em mulheres comprometidas com os direitos das mulheres.
Infelizmente, também existem mulheres que reproduzem o machismo, a misoginia e a violência política de gênero.
Representatividade sem compromisso com a igualdade não transforma a realidade.
Outra obra ajuda a compreender este momento.
Em O Conto da Aia, Margaret Atwood imaginou uma sociedade onde mulheres perderam autonomia sobre seus corpos, suas escolhas e sua participação na vida pública.
Quando o livro foi lançado parecia uma distopia.
Hoje ele funciona como um alerta.
Os direitos das mulheres não desaparecem de um dia para outro.
Eles são corroídos lentamente, até que o absurdo passe a parecer normal.
Não podemos permitir isso.
Também não podemos ignorar a realidade brasileira.
Enquanto alguns discutem se mulheres sabem votar, milhares continuam sendo vítimas da violência.
Somente nos cinco primeiros meses deste ano, São Paulo registrou mais de 154 mil mulheres vítimas de violência, crescimento dos feminicídios, aumento da violência psicológica, dos crimes sexuais e do descumprimento de medidas protetivas.
São números que revelam o fracasso das políticas de proteção às mulheres.
Esse deveria ser o verdadeiro debate nacional.
Não o direito das mulheres de participar da democracia.
Ao longo dos últimos anos assistimos a uma sucessão de declarações e atitudes que banalizaram a violência contra mulheres, estimularam o machismo e enfraqueceram políticas públicas voltadas à igualdade.
Palavras importam.
Elas legitimam comportamentos.
Comportamentos produzem violência.
Violência mata.
É por isso que nenhuma declaração misógina pode ser tratada como algo menor.
Ela faz parte de uma cultura que tenta retirar das mulheres sua voz, sua autonomia e seu lugar na política.
Esta não é a primeira vez que escrevo sobre isso no Viomundo.
Na coluna “Mais que nunca precisamos votar em mulheres que defendem outras mulheres”, defendi que a democracia precisa da participação feminina para enfrentar as desigualdades.
Em “Mulherar a política vai além da conquista do direito de votar”, sustentei que nossa luta não termina na urna.
Ela continua na ocupação dos espaços de poder.
Continuo acreditando exatamente nisso.
Precisamos honrar as mulheres que nos antecederam e defender os direitos das que ainda virão.
Cada voto depositado por uma mulher carrega décadas de coragem, resistência e organização.
Nossa geração recebeu esse direito.
Tem a obrigação de protegê lo.
E de ampliá lo.
As mulheres decidirão as próximas eleições.
Quem tenta desqualificar nosso voto demonstra apenas o medo da força política das mulheres.
Nossa resposta precisa ser dada nas urnas.
Com participação.
Com organização.
Com consciência.
Eles, não.
Elas.
Elas, sim.
Lugar de mulher é onde ela quiser.
Na universidade.
Na empresa.
No sindicato.
Nos movimentos sociais.
Na ciência.
No Judiciário.
No Parlamento.
Na Presidência da República.
E, sobretudo, decidindo os rumos do país por meio do voto.
Nossa luta não começou conosco.
Também não terminará em nós.
Seguiremos honrando as mulheres que vieram antes e defendendo aquelas que ainda virão.
Porque nenhuma conquista feminina é definitiva.
Toda geração tem o dever de proteger os direitos conquistados pela anterior e abrir novos caminhos para a próxima.
Nossa voz transforma.
Nosso voto decide.
E ninguém nos fará voltar para trás.
*Nelice Pompeu é professora e integra o Movimento Escolas em Luta.
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.
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Nelice Pompeu
Professora da rede pública municipal da cidade de São Paulo. Integra o Movimento Escolas em Luta.



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