Lelê Teles: O que sobrou do mais lindo córrego da minha aldeia
Tempo de leitura: 3 minPor Lelê Teles
“Meu quintal é maior do que o mundo.”, manoel de barros
Por Lelê Teles*
o córrego crispim, o mais bonito do gama, era uma entidade hídrica que corria livre a três ruas da minha casa.
margeado por uma exuberante mata ciliar, ele nos recebia sempre alegre, permitindo-nos fazer cócegas em seu corpo úmido, formado por águas frescas e cristalinas.
no seu fundo, que era mais ou menos raso, pisávamos em suas areias finas e brancas, como as areias das praias.
formavam-se mesmo algumas prainhas ao longo do leito.
aqui e acolá surgiam pequenas cachoeiras e, em uma de suas curvas, havia uma corredeira de pedras lisas que fazia a alegria das crianças.
pelas manhãs, manhosas, as mulheres desciam com suas trouxas de roupa suja na cabeça, sempre cantarolando alguma coisa, ou fazendo gracejos umas com as outras.
as crianças lhes faziam companhia.
em uma das margens do córrego tinha uma lavanderia pública, de alvenaria, cujo uso era compartilhado pela comunidade.
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algumas lavadeiras, como a minha mãe, preferiam lavar as roupas dentro do córrego, batendo-as sobre as pedras.
aquilo se parecia mais uma diversão que um trabalho.
enquanto as vizinhas animadamente lavavam, torciam e esfregavam, a meninada nadava, dava cambalhotas, mergulhos ou se embrenhava no cerrado.
eu gostava das duas coisas.
a liberdade era tamanha, que as mães nos permitiam desaparecer de vista, embora só tivéssemos apenas oito, nove, dez anos.
com a turma, meninos e meninas, entrávamos na mata virgem para conversar com os passarinhos: araras, tucanos, inhambus e sanhaços, papagaios e canarinhos, gaviões-rei e coleirinhas, papa-capins e curiós, pombas-rolas, pássaros-pretos, codornas, canários-belgas, pintassilgos…
como eles nos conheciam e sabiam que estávamos ali para bater papo, todos se punham a cantar.
a gente assoviava, com os dedos na boca, tentando imitá-los, eles pareciam compreender.
enquanto isso, colhíamos frutas: cajuzinhos do cerrado, sangue-de-cristo, ingás, jatobás e os cheirosos araticuns.
aqui e ali, ouvíamos o piar das seriemas.
gostávamos também de correr atrás de tatus, que se metiam em buracos profundos para se esconder.
vez ou outra, alguém anunciava o avistamento de um lobo guará, que era um cachorrão vermelho e assustado.
tamanduás nunca apareceram para as crianças, mas os adultos sempre contavam curiosas histórias de encontros.
o córrego e a mata virgem faziam parte da nossa comunidade, era lugar de asseio, trabalho e lazer.
ah, poxa, já ia me esquecendo de mencionar os buritizeiros, essas palmeiras magras e de cabeleiras desgrenhadas que emergem dos charcos.
delas, as mulheres colhiam os frutos e faziam compotas, doces, sucos.
a garotada usava as folhas para fazer os esqueletos das pipas, as armações de buritis eram cobertas com folhas coloridas de papel de seda.
no meio da mata, onde havia clareiras, os adolescentes abriam campinhos de futebol.
nos finais de semana, os adultos desciam com as famílias para um clube, chamado prainha, que tinha uma enorme piscina pública, alimentada pelas águas correntes do crispim.
os piqueniques das famílias eram sempre fartos e divertidos.
até que um dia instalaram, bem na entrada da cidade, uma grande fábrica de cerveja.
tudo o que era rejeitado na fabricação da bebida era despejado diretamente dentro do córrego, ninguém pensou em colocar a fábrica no final da cidade, nem em tratar os seus rejeitos.
quando chegou o asfalto, colocaram manilhas de esgotos debaixo das ruas, e todos os dejetos da cidade passaram a ser jogados diretamente dentro do córrego.
ninguém mais podia banhar nem lavar roupas.
fecharam a lavanderia, o clube foi desativado.
era o progresso chegando.
surgiu uma modinha de fazer xaxins de fibra de buritis, usados como vasos naturais, plantavam-se neles samambaias e orquídeas.
todo mundo queria ter um em casa.
então, homens começaram a entrar na mata com seus machados e passaram a derrubar os buritizeiros para fazer xaxins.
pouco a pouco, as palmeiras foram sumindo da paisagem.
em pouco tempo não havia um único pé de buriti nas margens do crispim.
um dia, eu estava na escola quando ouvi o barulho de tratores do outro lado do córrego.
na saída da aula, vimos a destruição.
com correntões, acoplados às máquinas, arrancaram toda a mata do cerrado.
alegaram que ali iria surgir outra cidade, de nome santa maria.
mas dez anos antes da tal cidade, aquilo virou um fazendão, um pasto enorme para criação de vacas.
adeus passarinhos.
visitei minha quebrada há pouco tempo.
o córrego, agora, é apenas uma fina língua d’água fedorenta.
não há árvores e nem aves.
ouvi uns três ou quatro cantos de pássaros, eram cantos de tristeza e de saudade.
assoviei de volta.
voltou-me apenas o silêncio.
*Lelê Teles é jornalista, roteirista e mestre em Cinema e Narrativas Sociais pela Universidade Federal de Sergipe (UFS)
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.
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Lelê Teles
Lelê Teles é jornalista, roteirista e mestre em Cinema e Narrativas Sociais pela Universidade Federal de Sergipe (UFS).




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