Salem Nasser: De Karbala a nossos dias

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Para entender o Irã de hoje (e o Hezbollah) é preciso entender o que aconteceu em Karbala, Iraque, em 580 E.C., 61 H…

Por Salem Nasser*, no Substack

A Revolução de Hussein

Durante os primeiros dez dias do ano 61 do calendário islâmico (outubro de 680 E.C.), Hussein, neto do Profeta Muhammad, terceiro Imã do Islã Xiita, ensaiou uma revolução contra o que considerava ser um poder despótico.

No décimo dia, todos, à exceção de um jovem homem e das mulheres e crianças, morreram para que a revolução continuasse viva.

O jovem sobreviveu porque estava doente e não podia lutar, ainda que tenha tentado fazê-lo e implorado por permissão para o combate. Implorou, no caso, ao próprio pai, Hussein. Como resposta, ouviu que segundo a sharia, estava liberado do dever de luta, e, também, que a ele caberia dar continuidade à linhagem da família do Profeta e do Imamato Xiita. O nome dele era Ali Zayn Al Abidin e ele foi o quarto dos Imãs.

Você estranhou que justamente o filho do homem tivesse sobrevivido? Será que sacrificava os demais enquanto protegia os seus?

A verdade é que não. Um relato da batalha ocorrida em Karbala, uma cidade iraquiana à beira do Eufrates, traz uma lista dos 23 familiares de Hussein que pereceram nesse dia, incluindo dois de seus filhos, um deles bebê de poucos meses.

Uma outra lista enumera 68 companheiros que, somados aos parentes e ao próprio Hussein, constituíam a totalidade do seu contingente de combatentes.

Todos morreram. Alguns em combates coletivos, nos primeiros ataques desferidos pelo exército que os sitiava, contando 20.000 homens, outros combatendo sozinhos as forças inimigas, depois de, um a um, pedirem permissão a Hussein para fazerem a luta que os tornaria mártires.

Dos familiares de Hussein, ou seja, dos 23 membros da família do Profeta que morreram nesse dia, além dos dois filhos de Hussein, havia 5 de seus irmãos, 6 de seus sobrinhos, 1 tio e vários primos.

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Dos sobrinhos, 2 eram filhos de sua irmã, Zaynab, que estava com ele e que depois foi levada ao Califa como prisioneira, e 4 eram filhos de seu irmão mais velho, Hassan, o segundo Imã do Islã Xiita.

Os relatos tradicionais dos eventos de “Ashura”, o nome dado a esses dez dias críticos da vida do Islã, contém detalhes que parecem inevitavelmente exagerados, míticos, aos olhos do ocidental e do não-muçulmano.

Mas basta que uma coisa seja verdade, e isto é facilmente comprovado: que naquele dia, todos os companheiros do neto do Profeta que podiam lutar morreram em combate desesperançado, condenados de antemão, em nome de uma revolução contra a injustiça que enxergavam num governo despótico e ilegítimo.

Contexto histórico e político

O contexto histórico é este, essencialmente. Com a morte do Profeta, tinha-se instalado uma disputa pela sucessão. Uma parte dos crentes considerou que Ali, primo e genro do Profeta, tinha sido escolhido pelo próprio como seu sucessor. A despeito disso, ele é preterido por três vezes na escolha dos Califas primeiros. Ele será o quarto Califa e, quando da sua morte, as terras do Islã são agora muito mais extensas e há governadores de províncias que concorrem em poder com o centro em Medina.

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O governador de Damasco, que vai reclamar para si o califado, Mu’awia, descendente de um antigo adversário do clã do Profeta, consegue que Hassan, filho mais velho de Ali, seu sucessor pretendido, segundo Imã Xiita, se mantenha numa oposição quietista, discreta, apesar da qual será envenenado e morto.

Alguns dias antes do começo do ano de 61 H. e da batalha de Karbala, Mu’awia morreu e nomeou como sucessor seu filho Yazid, tido em tudo como um mau muçulmano e um governante ímpio.

Hussein então, enquanto sucessor do irmão e do pai, teria recebido inúmeros chamados dos habitantes de Koufa, no Iraque, para se dirigir até eles e liderar uma revolução contra Yazid. Tendo recebido confirmação de seus próprios enviados a Koufa, sobre as intenções dos habitantes, ele inicia a viagem com toda a sua família e seus companheiros.

A caravana é interceptada em Karbala pelos exércitos de Yazid que estavam instruídos a levarem de volta uma de duas coisas: o juramento de fidelidade de Hussein ou a sua cabeça.

Os dias de Ashura que antecedem o décimo, do desenlace final, são dias de negociação e de enfrentamento. A partir do sétimo dia, o acesso da comitiva de Hussein à água é completamente cortado.

O drama e a mensagem

A sede que se abate sobre todos no décimo dia é central ao drama: Hussein suplica por água para seu filho cujo leite da mãe já tinha secado e seu filho é morto em seus braços; cada um dos combatentes pede por água antes de morrer e recebe como resposta a promessa de que o Profeta lhe dará de beber no paraíso; Abbas, o mais fiel dos irmãos de Hussein consegue chegar à água, mas se recusa a beber enquanto não tivesse matado a sede das crianças e, em seu caminho de volta é morto de modo terrível…

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Ao longo dos dias, Hussein se pronuncia várias vezes, dirigindo-se aos companheiros e também aos adversários. Os árabes daquele tempo tinham a retórica e a riqueza da língua como centrais à sua cultura e Hussein, como seu pai Ali era, e como sua irmã Zainab e seu filho Ali Zayn Al Abidin provarão ser na sequência, era um grande orador.

Todos os seus discursos podem ser essencialmente reduzidos a uma ideia fundamental: ele não poderia se submeter à corrupção dos homens se isso o fizesse contrariar a vontade divina.

Numa frase central que traduzo livremente, ele diz:

Me oferecem a escolha entre a espada (a morte) e a humilhação da indignidade. Nunca a indignidade!

Hussein percebeu muito rápido que morreria ali e que o mesmo aconteceria com quem ficasse consigo. Ele liberou os companheiros para que se salvassem. Ninguém aceita ir embora. Alguns do exército contrário mudam de lado para morrer ao seu lado.

Não se tratava apenas de recusar a indignidade. Hussein acreditava que a sobrevida do Islã verdadeiro, da mensagem pela qual vivia, da religião que tem em seu centro a luta contra a injustiça e a opressão, passava pelo seu sacrifício. A sua morte salva a mensagem.

O mesmo é verdade para os demais. A morte de cada um, terrível na sua hora e aos olhos de Hussein, que chora cada um dos companheiros e familiares, e aos olhos de crianças e mulheres que sobrevivem aos maridos, pais, filhos, é vista como um presente na vida eterna que é reservada aos mártires.

As cabeças dos mortos são decepadas e distribuídas entre os exércitos. A de Hussein é levada a Koufa, junto com os prisioneiros, entre os quais estão seu filho ainda adoentado e sua irmã Zaynab. Mais tarde, cabeças e prisioneiros serão levados a Yazid, em Damasco.

Lembrar essa história e suas mensagens nos permite entender melhor o comportamento, as ações, os discursos, as decisões, na guerra e na paz, da República Islâmica do Irã e do Hezbollah… ambos se dizem “Karbalitas”, “Husseinitas”, ambos recusam a indignidade e aceitam o martírio pelo que a seus olhos é a boa causa.

Veja-se a reação ao assassinato dos líderes máximos do Irã e do Hezbollah no curso desta guerra que testemunhamos.

Para tentar incorporar melhor o espírito que inspirava Hussein e os seus, menciono uma fala famosa de Zaynab, sua irmã. O representante de Yazid em Koufa, o principal responsável pela campanha militar em Karbala, lhe pergunta, irônico e cruel:

Como viu o que se fez com seu irmão?

Referia-se ao fato de que tinha sido decapitado e seu corpo pisoteado pelos cavalos, suas roupas arrancadas…

Ela respondeu então:

Não vi senão o belo!

*Salem Nasser é professor de Direito Internacional

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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