Por Gerson Carneiro*
Éramos crianças caladas na época da ditadura militar. Roubaram nossos sorrisos.
Morávamos em Itinga, município no interior da Bahia. Um lugar menor que qualquer quarteirão de qualquer bairro de São Paulo.
Esse dia do retrato foi diferente. A gente se produziu para a posteridade.
Iolanda Carneiro, Solange Carneiro (minhas irmãs) e eu, Gerson Carneiro.
Observe os nossos olhares profundos e tristes.
Eu tinha 5 anos de idade.
Nessa época, frequentemente passava comboio de carro de polícia na nossa rua, indo pra região onde Carlos Lamarca foi assassinado, em 1971, numa grande operação militar da ditadura.
Na hora em que isso acontecia, a gente se escondia dentro de casa.
Crescemos. Vencemos a fome e a opressão. Preservamos os sonhos de liberdade e jamais nos calaremos.
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Se observar, há uma criança negra segurando a porta. Percebi que ele estava ali quando revelou o retrato. Era um vizinho.
*Gerson Carneiro é leitor do Viomundo



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