Especialistas do Incor no Dia Mundial sem Tabaco avisam: Ainda há muito por fazer

Tempo de leitura: 5 min
Imagem: Opas

Por vários autores*

Neste dia 31 de maio, data estabelecida há décadas pela Organização Mundial da Saúde como dia mundial livre do tabaco, devemos refletir sobre o presente.

Depois do Brasil ter sido o país com maior queda na prevalência de fumantes entre 1989 e 2020, com redução em cerca de 74%, as taxas de prevalência estacionaram e, de 2023 para 2025, sofreram uma variação para cima, ainda que modesta, mas indicativa de um problema e, portanto, preocupação a nos motivar para ação.

O tabagismo é o terceiro maior fator de risco global para óbitos, só perdendo para a hipertensão arterial e a poluição do ar. São mais de sete milhões as mortes anuais a ele associadas.

Recentemente tomamos conhecimento de medidas aprovadas no Reino Unido visando reduzir a prevalência de fumantes.

Isto sugere que estão correndo atrás do prejuízo, depois de o National Health Service (NHS), anos atrás, ter aprovado e indicado a prescrição de cigarros eletrônicos como estratégia para as pessoas pararem de fumar, contra a orientação dos serviços de saúde e das sociedades médicas da maioria dos países do mundo. Se apoiaram em estudos com baixo nível de evidência, favorecendo assim a indústria do tabaco, uma vez que as fabricantes de cigarros são as mesmas que produzem os cigarros eletrônicos e aquecidos.

Passados alguns anos, a prevalência de fumantes no Reino Unido passou a aumentar, com o concomitante aumento do uso de cigarro eletrônico e do uso dual dos produtos (cigarro comum + cigarro eletrônico).

A estratégia a ser adotada agora impede a venda de produtos do tabaco e de cigarro eletrônico para os nascidos a partir de 2009, ou seja, mesmo após atingir 20, 30, 40 ou mais anos de idade, essas gerações não poderão comprar legalmente cigarros. A medida trabalha com o horizonte de zerar a prevalência do tabagismo neste século.

Não sabemos se a medida terá eficácia. Imaginamos que os autores da lei e as análises feitas pelos parlamentares e pelo NHS tenham avaliado a possiblidade de sucesso na aplicação da lei no Reino Unido.

Achamos interessante que tenham tomado essa iniciativa, que deverá gerar um bom debate na sociedade britânica que, no mínimo, terá como efeito reafirmar os malefícios do cigarro com tabaco e também do cigarro eletrônico como perpetuador da dependência à nicotina, funcionando como servidor para o aumento da longevidade do seu consumo e para o aumento dos já elevados lucros da indústria do tabaco.

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Para o Brasil não somos favoráveis a uma lei como essa, não por princípio, mas porque ainda precisamos fazer um extenso dever de casa antes de avaliar se esse tipo de iniciativa tem sentido para nossa realidade.

Devemos intensificar a aplicação das políticas definidas na Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco da OMS/ONU e estabelecer uma luta sem tréguas contra a indústria do tabaco que tenta manter no Brasil milhões de dependentes à nicotina, através de seus dois tipos de produtos, o cigarro com tabaco e os cigarros eletrônicos e aquecidos com nicotina.

Em reportagem no jornal Folha de São Paulo, de 17 de maio de 2026, o diretor geral da Phillip Morris International (PMI) não poupou palavras ao propor ao Brasil como devemos tratar dos fumantes atuais e das novas gerações para tornarem-se dependentes de nicotina, com o uso do cigarro eletrônico ou aquecido.

Certamente conhecedor dos fatos, mas fiel à tradição de desinformação, de manipulação e todo tipo de pressão da indústria do tabaco, não informa que nos países em que se preconizou o uso do cigarro eletrônico, junto com ele aumentou a prevalência de fumantes e o uso dual dos produtos.

O conselho do diretor da PMI para o Brasil não é bem-vindo e mais, representa uma intromissão na política de preservação da vida em nosso país, devendo ser vetada, banida.

No Brasil onde, apesar de proibido, o cigarro eletrônico é largamente acessível, a mesma associação vem sendo observada, ou seja, um aumento dos usuários de cigarro eletrônico e um aumento correspondente de tabagistas em 2023-2024, interrompendo o declínio na prevalência de fumantes, iniciada a partir dos anos 1990, sobretudo a partir da aprovação pela ONU, durante a 52ª Assembleia Mundial de Saúde em 1999, da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco (CQCT). O Brasil assina aderindo à CQCT em 2003.

No caso brasileiro devemos fazer todos os esforços para reduzir a prevalência de tabagismo para 5% ou menos até 2050. Para isso, persistir no aperfeiçoamento, aplicação e vigilância das políticas preconizadas na CQCT é o que precisamos.

De imediato, temos tarefas a cumprir:

1. É preciso tornar muito difícil, se não impossível, a compra de cigarros eletrônicos e aquecidos vendidos através da internet, em bancas de jornais e no comércio presencial ou por aplicativos.

Esses produtos não tiveram seus usos aprovados no Brasil pela ANVISA e no momento faltam esforços de fiscalização para impedir sua propaganda e comercialização.

2. É preciso eliminar a venda de cigarros avulsos nas bancas de jornais, padarias e outros pontos de venda. Os maços têm 20 cigarros em todos os países para dificultar, pelo preço, o acesso, sobretudo de crianças e adolescentes.

3. Impor maior rigor na fiscalização devidamente estudada e programada, visando reduzir drasticamente o contrabando de cigarros para o Brasil, aqui vendidos a baixos preços. Nossas fronteiras são enormes e temos um extenso litoral que dificultam, mas não impedem uma melhor fiscalização.

4. Selar a proibição do uso de aditivos nos cigarros, empregados pela indústria para facilitar o consumo. Os aditivos funcionam como o adicionar de açúcar ao BHC, um veneno, para torná-lo mais fácil de ser ingerido;

5. Incentivar os produtores de filmes nacionais a evitarem exibir atores ou pessoas coadjuvantes fumantes. Essa forma que funcionou como propaganda da indústria do tabaco através da indústria do cinema no século passado, sobre tudo a estadunidense, vem sendo reeditada.

Isso tinha praticamente desaparecido, porque foi justamente aí, pela ampla propaganda feita em filmes por Hollywood, que fumar virou glamour. O nosso premiado e recente filme botou cigarro na boca de atores, a nosso ver, desnecessariamente, pois mesmo sendo filme de época, ninguém mais se espantaria em ver ambientes sem fumantes como atores.

Isto também está acontecendo no cinema internacional. Passamos décadas sem essas imagens. Trata-se de propaganda subliminar que deveria receber restrição, como ocorre em outros modos de entretenimento. Isso vale também para mídias digitais. Influenciadores não devem aparecer fumando em redes sociais.

6. Aumentar as atividades de esclarecimento e educativas sobre os malefícios desses produtos. Atividades que estão hoje contidas, restritas. Elas devem fazer parte de uma política de estado para as instituições de ensino, de saúde, de cultura, esporte e lazer;

7. Aumentar a oferta de tratamento para os fumantes que não conseguem parar de fumar por conta própria. São poucos os locais de apoio ao fumante e as poucas medicações disponíveis no SUS são escassas e descontinuadas;

8. Produzir medicamentos que auxiliam a cessação do tabagismo, através das fundações e de empresas públicas. Os preços praticados pelas produtoras de medicamentos como os adesivos e gomas de nicotina, bupropiona são abusivos.

Também a falta de outros produtos com evidências de serem eficazes, como os agonistas dos receptores de acetilcolina – vareniclina e citisina – deve ser resolvida com fabricação nacional, para atender o Sistema Único de Saúde.

Todos os estudos de custo-efetividade revelam que o custo da terapia antitabágica é muito inferior aos gastos com tratamentos das doenças provocadas pelo consumo do tabaco, além dos imensos prejuízos à qualidade de vida dos pacientes adoecidos e de suas famílias.

Nossa expectativa é de que neste Dia Mundial Livre do Tabaco a sociedade brasileira possa refletir sobre os malefícios do cigarro e reafirmar a aplicação das estratégias de sucesso que foram esquecidas ou reduzidas, para com isso reduzir o consumo de produtos do tabaco e de nicotina e suas consequências para a saúde da população brasileira.

São Paulo 26 de maio de 2026.

*Bruna M. Piloto Lara, Jefferson B. P. Freitas, Lavínia Clara Del Roio, Marina Paiva, Mário Terra Filho, Rafael Futoshi Mizutani, Telma dos Santos Nery, Ubiratan Paula Santos — Médicos da Unidade de Doenças Respiratórias Ambientais, Ocupacionais e de Cessação de Tabagismo da Divisão de Pneumologia do InCor-Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP — e Talita Cepas Lobo, fisioterapeuta do Serviço de Psicologia do InCor-Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

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