Clara Fagundes: O que os dados de mortalidade em Gaza revelam – e omitem

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As crianças são as maiores vítimas dos ataques de Israel a Gaza. Foto: Mahmud Hams/AFP/Reprodução

Pesquisa publicada na Revista Lancet indica mortes violentas a taxas bem superiores aos dados do Ministério da Saúde de Gaza. Não há como contar tantos mortos em um território destruído.

Por Clara Fagundes, no site do Cebes

Nesta temporada de Páscoa, quando Israel aprovou a pena de morte – apenas para palestinos –, e a deputada federal Tábata Amaral (PSB-SP) propôs projeto de lei criminalizando críticas ao sionismo no Brasil, novo estudo aponta que o número de mortos nos massacres a Gaza são ainda maiores que os dados oficiais.

A edição de abril da Revista Lancet traz o estudo inédito Mortes violentas e não violentas no conflito de Gaza: novas evidências primárias de um levantamento de campo representativo da população, conduzido pelo Michael Spagat e outros seis autores. O levantamento analisou 2.000 domicílios (9.729 pessoas) entre dezembro de 2024 e janeiro de 2025.

O resultado estimado pelos pesquisadores é de 75.200 mortes violentas (cerca de 3,4% da população pré-conflito) e 16.300 não violentas, incluindo 8.540 mortes em excesso; isto é, acima do que seria previsto para aquele período, em circunstâncias normais. As mortes indiretas foram significativas, mas não superaram as violentas no período.

O número está longe do total. Após um breve cessar-fogo em janeiro de 2025, a guerra se intensificou, com maior letalidade e agravamento da crise humanitária.

Entre março e outubro de 2025, evacuações ocorreram em mais de 80% do território, o norte foi afetado pela fome, e civis foram mortos nos pontos de distribuição de ajuda humanitária.

O que leva à subnotificação?

A imprecisão de dados pode indicar algo ainda mais grave: o colapso de sistemas de Saúde.

Quando terminei a faculdade, na Bahia, fui redatora de um grande jornal paulista, que contabilizava nossos erros e acertos (“furos”), numa métrica cartesiana. Mas a matemática das mortes nunca batia.

Um dia, tentando resolver essa conta, entrevistei o diretor operacional dos Médicos Sem Fronteiras em Mogadício, capital da Somália. Eu queria, ingenuamente, estimativas de mortos. Ele, preso em um contêiner, tergiversava na conversa por satélite. Na minha lembrança, no meu francês precário, escutei: “Não sabemos. Não há ninguém para contar os corpos”. Reli a entrevista: “É impossível contar os corpos. Há muito tempo não há esse controle”.

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“Quanto maior a destruição de infraestrutura, sistemas de saúde e coleta de dados, mais difícil é medir o total de mortes”, explicam Belal ldabboura e Bilal Irfan, no artigo Da Enumeração à Inferência, que comenta o levantamento recém publicado.

Em Gaza, a contagem oficial enfrenta obstáculos severos: corpos não recuperados, dificuldades de identificação, perda de documentos, falhas de comunicação e destruição de hospitais. Deslocamentos e riscos de represálias também dificultam a notificação.

A distinção entre mortes diretas e indiretas é complexa, já que muitos óbitos resultam de ferimentos agravados pela falta de acesso a assistência de saúde.

“Métodos como captura-recaptura ajudam a estimar subnotificações, mas dependem da qualidade dos dados disponíveis, o que torna pesquisas domiciliares particularmente importantes nesse contexto”, afirmam ldabboura e Irfan, comentando a pesquisa.

“A estimativa de mortes indiretas é ainda mais difícil e depende de fatores como condições prévias de saúde, bloqueios, deslocamentos e insegurança alimentar”, avaliam.

Em Gaza, essas condições já eram críticas antes do conflito e se agravaram com restrições, colapso dos serviços e interrupção de cuidados básicos.

Outras abordagens, como estimar excesso de mortalidade, expectativa de vida e anos de vida perdidos, ajudam a captar melhor os impactos.

“No conjunto, o estudo oferece estimativas mínimas confiáveis que servem de base para avaliar a magnitude real das mortes e os impactos do conflito na Faixa de Gaza”, concluem.

O senhor da guerra não gosta de crianças

O levantamento recém publicado aponta perdas desproporcionais entre jovens. Esse perfil demográfico se repete em diversos estudos.

Levantamento retrospectivo de mortes realizado pelos Médicos Sem Fronteiras com sua própria equipe e familiares (2.523 pessoas), entre outubro de 2023 e março de 2025, indicou aumento de 10x na mortalidade infantil (até 5 anos), alcançando 0,7/10.000. A mortalidade de bebês até um mês, nascidos vivos, chegou 42.3/1,000. A mortalidade média observada no estudo, para a população geral, foi de 0.41/10.000.

Quantos mortos valem uma manchete

Não foram raras as vezes que a imprensa internacional – inclusive brasileira – tratou com ceticismo o número oficial de mortes, atribuído “ao Hamas”. Uma a uma, pesquisas vêm indicando que o Ministério da Saúde de Gaza não exagerava. Pelo contrário; os números oficiais estavam subdimensionados.

Por que a mesma imprensa que cita os 6 milhões de mortos no Holocausto – estimados em pesquisas menos precisas – tem sido tão relutante em noticiar as mortes em Gaza?

Estimativas de mortalidade orientam respostas humanitárias e documentam violações do direito internacional. Admitir que a população foi dizimada a uma taxa que beira 5%, e que crianças e adolescentes eram maioria dos mortos, é quase um reconhecimento tácito de crimes de guerra.

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