Por Lelê Teles
Por Lelê Teles*
sim, senhoras e senhores, eu esbarrei no capiroto.
nesse nosso fortuito encontro, trocamos olhares e vi, no fundo dos seus olhos abrasivos, a eterna escuridão abismal.
fiquei abismado.
lembro-me de ter esticado o isqueiro pro sete peles acender o seu charuto.
agradecido, segundo a etiqueta do inferno, satanás gargalhou uma risada metálica e saiu fagueiro pelo salão, baforando fumaça.
assim, à cubana.
devo admitir, o cara tinha estilo.
trajava um chapéu de feltro, terno branco, gravata vermelha e um sapato bicolor de bico fino, bem lustrado, combinando com o figurino.
havia um certo frescor à sua volta e um refrescante cheiro de flores silvestres perfumava o bigode do sujeito que, curiosamente, era meio sarará.
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por isso, ficou conhecido como o diabo loiro do gama.
claro que eu não sabia que o meu interlocutor era o príncipe das trevas, soube depois, quando o desmascararam.
o caso saiu nos jornais e virou lenda urbana na quebrada.
assunto para fofocas em manicures, conversa entre vizinhas de muro baixo, convescote de mesa de bar e resenha da malandragem nas noites frias, em volta da fogueira.
no gama, só se falava no diabo.
o ano era 1984, a ditadura militar dava seus últimos esperneios, mas os esquadrões da morte, formados por policiais corruptos e sociopatas, continuavam matando, à bala, os meus colegas de bairro.
o gama e a ceilândia eram, até então, as cidades mais violentas do deéfe.
mário eugênio, um repórter policial, tinha um programa de rádio, matinal, onde ele transformava essa violência em espetáculo.
funcionava assim: o bandido ganhava fama na quebrada quando seu nome aparecia no programa do mário eugênio, e o repórter ficava ainda mais famoso toda vez que anunciava um novo protagonista da violência.
dessa forma, eles, o crime e o jornalismo, se retroalimentavam.
mário eugênio acabou assassinado, à bala, por um esquadrão da morte, que era comandado pelo secretário de segurança pública de brasília.
veja você.
ninguém tinha dúvida de que toda essa incontrolável violência tinha uma causa, que não era nem política e nem social, mas mística.
acreditavam que a razão era uma só: o demônio havia escapado da garrafa.
e o lazarento andava disfarçado de bailarino.
e era visto, à noite, em eufóricas aparições numa boate da minha quebrada, sempre vestido como um dândi.
o coisa ruim enlouquecia as garotinhas com o seu pélvico jogo de cintura, seu reboleixon hipnotizador, seu bate-coxas sensual e seu domínio magistral da arte da gafieira.
deslizava no salão como se estivesse numa pista de gelo.
sussurrava na orelha das mulheres, arrancava suspiros e palpitações, cheirava cangotes, lambia lábios, linguava!
ninguém duvidava que o desgraçado trazia uma navalha afiada no bolso.
ninguém se metia com ele.
eu o conheci em uma dessas noites dançantes, na boate danny, cujo proprietário era o major pereira, um sujeito gordão e bigodudo, que impunha respeito por ser o comandante da polícia militar.
veja você.
a danny era um grande galpão onde centenas de adolescentes periféricos se encontravam pra beber, fumar, paquerar e dançar break.
formavam-se grupos que se rivalizavam no salão: spiders, telefunk, the break brothers, natureza funk e cia etc.
no salão, as noites eram de grande alegria, as disputas eram acirradas e todo mundo dançava bem.
mas na saída o pau quebrava.
socos, pernadas, tiros e facadas.
toda sexta tinha morte.
mas o cão dos infernos, por incrível que possa parecer, não aparecia nesses bailes de break.
o coisa ruim preferia ir à boate nas noites de sábado, quando rolava forró e o público era mais adulto.
foi ali que nos vimos.
na quebrada, todo mundo só falava de um certo pé-de-valsa que flutuava no salão da danny, levando as mulheres ao delírio.
o curioso é que ninguém nunca o vira na fila de entrada, e ninguém jamais o viu sair.
mas ninguém fica eternamente incógnito, nem o mestre dos disfarces.
uma certa noite, teve uma briga no salão. coisa rara.
um marido enciumado peitou o nosso pacífico lúcifer, dando-lhe um bofetoso safanão.
o catiripapo fez o chapéu do diabo voar, revelando, na cabeça aloirada, um pequeno par de chifres retorcidos.
tremenda satanagem fizeram com satã.
com a revelação, como que por encanto, o disfarce do demônio foi se desfazendo.
onde havia um par de sapatos, agora víamos duas patas de bode.
desmascarado, o sátiro, saltitando, deu um pinote pelo salão, esvaindo-se em fumaça.
no meio do fumacê, satanás desapareceu, e nunca mais foi visto.
dizem que virou ator de teatro e que agora frequenta igrejas evangélicas, onde representa o papel de humilhado.
parece que pagam bem.
três anos depois eu fiz um show na danny com minha banda punk.
olhei para todos os lados para ver se via o coisa ruim pelo salão.
nada.
é uma pena que eu não sabia que o diabo era o diabo quando nos encontramos.
poderíamos ter desenvolvido uma conversa, uma amizade…
tenho certeza que teríamos nos dado muito bem, aquele malandro tinha muito o que me ensinar.
quem sabe não teríamos, juntos, fundado uma igreja.
ou um partido político.
quem sabe?
palavra da salvação.
*Lelê Teles é jornalista, roteirista e mestre em Cinema e Narrativas Sociais pela Universidade Federal de Sergipe (UFS)
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.
Lelê Teles
Lelê Teles é jornalista, roteirista e mestre em Cinema e Narrativas Sociais pela Universidade Federal de Sergipe (UFS).




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