8 de Março: Mulheres contra o feminicídio e a violência estrutural

Tempo de leitura: 4 min
Ilustração: Fernanda Cunha/IA

Por Fernanda Regina da Cunha, site do Cebes

Os números revelam que o feminicídio não é exceção. Mas sim, resultado de uma estrutura patriarcal e racista, sustentada por desigualdades de classe e por um modelo econômico que privatiza o cuidado e torna a violência parte do cotidiano.

“Cuide bem dela.” Essa é uma frase comum em casamentos como gesto de afeto. No instante em que o pai “entrega” a filha ao noivo no altar, ela costuma soar como promessa de proteção.

Essa conveniência social que tem origem na religião, no direito e na economia é um símbolo antigo de caracterização da mulher como propriedade de um homem – no ato do casamento tendo sua tutela transferida a outro.

A tradição é antiga. A lógica da posse, infelizmente, é atual.

Só em 2025, segundo o “Retrato dos Feminicídios no Brasil”, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública,1.568 mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil, um crescimento de 4,7% em relação ao ano anterior. Em média, isso significa mais de quatro mulheres mortas por dia, simplesmente por serem mulheres.

Se no ano passado tivemos um número tão elevado de vítimas e casos emblemáticos, que suscitaram protestos por todo o país, em 2026 as notícias continuam brutais. Neste 8 de março – Dia Internacional da Mulher, é mais uma oportunidade de pensar o machismo como componente estrutural da sociedade.

Não são casos isolados, mas padrão estrutural

Quando a violência chega ao desfecho mais extremo, ela quase sempre segue uma rota conhecida. A morte acontece, muitas vezes, onde se deveria estar segura: dentro de casa. E o agressor raramente é um desconhecido. É o companheiro, o ex, alguém do convívio. Esse é o padrão estrutural.

O feminicídio e os casos de violência sexual e institucional, frequentemente invisibilizados nas esferas social e política, impõem à mulher o estigma da culpabilidade, resultando na naturalização de violações sistemáticas”, acrescenta a sanitarista e cebiana do núcleo Distrito Federal, Munyra Barreto.

Para a sanitarista, a ausência de políticas públicas eficazes e de uma infraestrutura de cuidado desonera o homem e o poder público, sobrecarregando a mulher e a mantendo em um ciclo de vulnerabilidade.

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Nesse cenário, o Estado brasileiro, em suas diferentes esferas administrativas, atua como gestor e cúmplice dessas violências ao negligenciar investimento em uma rede intersetorial e articulada de proteção a mulheres e meninas”, aponta Munyra.

Ascensão da extrema-direita e ataque a direitos

Para a assistente social e secretária-executiva do Centro Brasileiro de Estudo de Saúde (Cebes), Giovanna Cinacchi é necessário analisar a situação da mulher a partir da re/organização de frações reacionárias da sociedade.

O avanço da extrema-direita atinge diretamente pautas importantes para o feminismo, como o aborto, escala 6×1, violência de gênero e diversas outras que são prejudicadas.”

A luta feminista se encadeia como a disputa pelo modo como a sociedade produz e, principalmente, reproduz a vida.

A questão da mulher necessariamente passa pela questão de classe. Não há emancipação feminina sem emancipação da classe trabalhadora, sendo a recíproca verdadeira,” aponta Giovanna.

Violência como estrutura: patriarcado, racismo e ódio de classe

A violência de gênero não se apresenta como evento isolado”, afirma a professora universitária Maria Edna Bezerra da Silva, do núcleo Cebes Alagoas.

Para ela, trata-se de uma dimensão constitutiva de uma sociedade erguida “nos alicerces do patriarcado, racismo e ódio de classe”, legitimada pelo modelo econômico neoliberal.

O impacto recai com maior intensidade sobre corpos de mulheres negras e periféricas, cis e trans, e se expressa em um continuum que vai do controle e da ameaça ao espancamento e, por fim, ao feminicídio.

Maria Edna chama atenção para a dimensão cultural do problema, que é a masculinidade, ensinada ainda na infância, e que se constrói em oposição ao que é associado ao feminino.

Meninos aprendem que não podem chorar, que fragilidade “é coisa de menina”, e internalizam a ideia de que o que é de mulher seria menor. “A violência é usada como mecanismo de controle”, sobretudo contra mulheres que não se submetem aos padrões esperados.”

Este controle está fixado na base do sistema e necessita ser desestruturado.

Esse dia (8 de março) nos remete a necessidade de continuarmos na luta, um lembrete de que devemos refletir e, mais importante, agir e levantar a voz, e juntas e juntos, caminhar rumo a construção de uma sociedade livre do machismo, do patriarcado, do racismo e anticapitalista.

Cebes Debate: aborto legal é urgência

Na terça-feira (10), às 18h, o Cebes realiza o Cebes Debate, ao vivo no YouTube, com o tema “Urgência de garantir acesso às mulheres ao aborto legal”.

A discussão se impõe em um país onde estimativas apontam que uma brasileira é estuprada a cada dois minutos.

E, quando olhamos para os registros oficiais, o perfil das vítimas evidencia uma tragédia ainda mais antiga: meninas e adolescentes concentram a maioria dos casos, com forte presença de vítimas de até 13 anos.

Nesse contexto, a desinformação costuma ser a primeira barreira para o acesso ao aborto previsto em lei, seguida pela peregrinação por serviços e pelo medo de estigma e violência institucional.

Para seguir acompanhando

A dimensão do feminicídio no Brasil não cabe em uma data, nem em uma única matéria. Por isso, vale seguir acompanhando os recortes e análises reunidos no relatório “Retrato dos Feminicídios no Brasil”, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Mas, além de conhecer os números, é preciso sustentar o debate sobre as causas estruturais que os produzem e os tornam persistentes dentro de uma sociedade marcada por desigualdades, pela naturalização da violência e pela desvalorização da vida das mulheres, especialmente das mulheres negras e periféricas.

Seguir debatendo é também seguir cobrando políticas públicas articuladas, prevenção e transformação cultural, para que o direito de viver deixe de depender de sorte e passe a ser garantido como direito.

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