Manuel Domingos Neto: Renato Rabelo partiu

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Manuel Domingos Neto: ''A partida de Renato me entristece de um jeito que não sei explicar. É como se momentos fundamentais de minha vida fossem junto com ele. Mas o recado que deixa é inequívoco: não vale desistir de mudar a sociedade". Foto: Divulgação PCdoB

RENATO RABELO

Por Manuel Domingos Neto*

Conchita me avisa que Renato partiu. Meu coração aperta. Mil lembranças me ocorrem. Foram mais de 50 anos de amizade e companheirismo.

Apesar de alguns anos mais velho do que eu, tínhamos a mesma origem política, a Ação Popular dos anos 1960.

Renato ingressou no movimento estudantil quando cursava medicina na UFBA. Com a repressão, mudou-se para São Paulo. Integrava a direção da AP. Casado e com filhos, viveu como itinerante clandestino.

Convencidos de que a luta armada no campo seria o caminho conquistar a democracia, a soberania, desenvolver o país e rumar ao socialismo, nos integramos ao PCdoB, em 1973. Eu estava preso em Fortaleza, com José Duarte, Rogério Lustosa e dezenas de militantes cearenses.

Depois de libertado, fui para Paris, em 1974. Renato chegou em seguida. Andava com documentos forjados e foi preso pela polícia francesa. Na cadeia, comunicou-se com José Luiz Guedes, ex-presidente da UNE.

Sua libertação foi uma novela. Contamos com a ajuda do físico francês Albin Volte, fundador do Comitê de Solidariedade França-Brasil, que mobilizou o juiz Étienne Bloch (filho do historiador Marc Bloch) e o advogado Louis Joinet. Gerald Thomas, que atuava na Anistia Internacional, também nos ajudou.

Solto, Renato voltou à atividade como dirigente do PCdoB. João Amazonas e Diógenes Arruda também estavam em Paris. Viviam meio clandestinamente, com a ajuda do governo albanês.

A guerrilha do Araguaia estava derrotada e, em 1976, a direção do PCdoB fora duramente atingida. A tensão era permanente. A repressão acompanhava nossas atividades no exterior.

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Renato conseguiu emprego num hospital e logo reuniu a família. Passaram a viver discretamente num subúrbio popular de Paris. Com seu jeito manso, colecionava amizades em Paris.

Gostava de cozinhar. Sabendo que eu fora criado no Delta do Parnaíba, preparou-me uma fritada de caranguejo à moda baiana. O caranguejo era enlatado, mas foi uma festa.

Em 1978, a Ditadura mostrava esgotamento e a luta pela anistia ganhou amplitude. Nos preparamos para voltar. João Amazonas deixou-se fotografar pelo jornal Movimento. Renato, então, já era o seu braço direito.

No Brasil, o grande desafio seria garantir eleições diretas e reunir uma Constituinte.

Com o final da ditadura, tratamos de organizar o PCdoB para atuar sob condições legais e disputar mandatos parlamentares. Renato percorria todo o país. Conversamos assiduamente quando eu assumi o mandato de deputado federal.

Com a fragilidade física de Amazonas, Renato assumiu a presidência do PCdoB por muitos anos. Eu me afastara da militância orgânica, mas sempre trocávamos ideias, em particular na última década, quando os militares retornaram ao ativismo político.

A última vez que nos encontramos foi em seu apartamento, em São Paulo. Estava abatido, lutava contra o câncer, mas a cabeça estava em forma. Conchita, pura gentileza, preparara mesa sortida. Por algumas horas, trocamos lembranças e impressões sobre o rumo do país.

A partida de Renato me entristece de um jeito que não sei explicar. É como se momentos fundamentais de minha vida fossem junto com ele. Mas o recado que deixa é inequívoco: não vale desistir de mudar a sociedade.

*Manuel Domingos Neto é doutor em História pela Universidade de Paris. Autor de O que fazer com o militar – Anotações para uma nova Defesa Nacional (Gabinete de Leitura).

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo

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