Ângela Carrato: A eleição de outubro no Brasil é chave para o futuro do Sul Global

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Os presidentes Trump e Lula. Foto: Reprodução

Por Ângela Carrato*, especial para o Viomundo

O presidente Lula é um político calmo, pragmático, mas, sobretudo, persistente. O compromisso de toda a sua vida está voltado para o combate à fome e à desigualdade. Combate que, se para muitos pode soar como algo simples, o levou às mais terríveis provações, como indicam as companhas de ódio de que foi e é vítima, culminando com uma prisão, sem crime, por 580 dias.

Às vésperas de iniciar mais uma campanha eleitoral, disputando a reeleição para presidente da República, Lula tem clareza sobre a responsabilidade de que ela se reveste  tanto no plano nacional quanto internacional.

Internamente, Lula é o único político capaz de garantir a continuidade do projeto de desenvolvimento que ele próprio retomou em 2022, ao vencer o golpista, genocida e subserviente aos Estados Unidos e Israel, Jair Bolsonaro.

Quando Bolsonaro foi derrotado e não aceitou o veredito das urnas, seguiu-se a onda de atentados terroristas e acampamentos em frente a quartéis que culminaram na tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023, uma semana após a posse de Lula.

De lá para cá, todos se recordam dos acontecimentos. De um lado o governo Lula tudo fazendo para recolocar o país nos eixos e do outro, a classe dominante, o “andar de cima”, não medindo esforços para desestabilizar o governo e retomar os padrões de exploração, desnacionalização e submissão aos Estados Unidos que caracterizaram as  administrações golpistas de Michel Temer e Jair Bolsonaro.

Não faltaram nem mesmo bombas de efeito retardado como o teto de gastos, que limita o avanço de políticas sociais, o Banco Central independente com seus juros nas alturas e as emendas parlamentares impositivas que drenam para o fisiologismo e a corrupção metade do orçamento federal.

Todas elas são uma forma adotada pelos golpistas para  tentar obrigar o terceiro governo Lula a dar continuidade às políticas neoliberais.

Mesmo em minoria no Congresso Nacional e contando com a oposição permanente do agronegócio, de parcela dos militares, das igrejas neopentecostais, da mídia corporativa e de Donald Trump, que se elegeu pela segunda vez presidente dos Estados Unidos, Lula conseguiu a proeza de fazer o Brasil crescer acima da média mundial.

Todos os indicadores econômicos mostram que a nossa economia vai bem — menor desemprego de todos os tempos, inflação baixa e ampliação do poder de compra da população. Some-se a isso a recuperação do prestígio do país no plano internacional.

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Valendo-se apenas do chamado soft power, uma vez que o Brasil não dispõe de artefatos bélicos para fazer valer suas posições, Lula conquistou o respeito dos mais diversos líderes e fóruns internacionais.

Claro que isso não foi o trabalho apenas dos últimos três anos. Tamanha respeitabilidade é fruto do sucesso de seus dois governos anteriores e também da coerência de suas posições no âmbito regional e mundial.

Lula sempre defendeu o papel do Estado na economia e os acordos comerciais em blocos como o Mercosul. Não por acaso, persistiu por quase duas décadas para que fosse assinado o acordo do Mercosul com a União Europeia, acontecido há poucos dias. Ele também esteve à frente da criação da União das Nações Sul Americanas (Unasul) e da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac).

A sua atuação mais ampla e importante foi na criação do bloco Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, o BRICS, que começou com cinco membros, já engloba outros seis países – Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Irã e Indonésia – e possui uma fila de países querendo nele ingressar. O bloco representa cerca de 40% da população mundial e mais de 35% do PIB global.

O BRICS não é um bloco político e muito menos militar. Mas o fato de ser uma parceria econômica que possibilita trocas menos desiguais e aponta para a desdolarização nas transações comerciais internacionais o coloca na mira dos Estados Unidos.

Depois que Trump divulgou a sua Doutrina de Segurança Nacional em que despreza os líderes europeus, coloca a China como inimigo e anuncia que vai retomar o controle da América Latina, por considerar a região seu “quintal”, não só a liderança de Lula como as eleições deste ano no Brasil se tornam o seu principal alvo.

Ao contrário do que possa parecer à primeira vista, o slogan “Make America Great Again” não é sinônimo de força, mas a velada constatação de que os Estados Unidos perderam a primazia de que gozavam desde o fim da União Soviética em 1991. Retornar à condição de superpotência única exige enfrentar e derrotar a China, situação nada fácil.

Enquanto os Estados Unidos se voltavam para o combate aos terroristas do 11 de setembro, alguns por eles mesmos criados, e apostavam no rentismo e na força militar, a China deu sequência a um fabuloso desenvolvimento e colocou em prática uma poderosa política comercial, a Iniciativa Cinturão e Rota, um projeto global de infraestrutura e cooperação econômica, que visa conectar mais de 150 países na Ásia, Europa, África e América Latina.

É por esta razão que Trump, na sua estratégia de segurança, coloca como prioridade a retomada da América Latina para os seus interesses, visando expulsar da região a Rússia e a China.

Mesmo tendo feito um nítido aceno a Putin na doutrina recém-divulgada, o presidente russo sabe com quem está lidando.  Trump se elegeu afirmando que acabaria com a guerra na Ucrânia no primeiro dia do seu mandato, mas suas tentativas neste sentido se mostram pífias, ao mesmo tempo em que os armamentos “made in USA” continuam chegando à Ucrânia via OTAN.

Só não vê que esta guerra é, na prática, uma guerra por procuração entre Estados Unidos e Rússia tendo a Ucrânia como palco, quem não quer.

O tal aceno a Putin, que Putin obviamente não correspondeu, lembra muito a política colocada em prática por Richard Nixon e seu secretário de Estado, Henry Kissinger, no início dos anos 1970, que visava dividir o bloco socialista.

Naquela época deu certo.

Nos dias atuais, diante da parceria “sem limites” de cooperação entre China e Rússia, uma aliança estratégica profunda focada em construir uma ordem mundial multipolar, a jogada de Trump está destinada ao fracasso.

Isso explica o motivo pelo qual a América Latina se tornou o  foco principal de Trump e a tentativa de recolonizar a região já está em marcha.

A Venezuela foi a primeira vítima.

Na próxima terça-feira (3/2) completa um mês dos bombardeios dos Estados Unidos a Caracas e do sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, a deputada Cilia Flores. Ambos estão presos em Nova York, sob acusações pífias, sendo a principal delas, a de que liderava um cartel de narcotraficantes, já foi retirada pela própria promotoria estadunidense.

A mídia corporativa brasileira não toca no assunto e, nas raras vezes que o faz, é para responsabilizar a vítima.

O que Trump fez foi um inegável ato terrorista e uma violação profunda do direito internacional.

Ele, no entanto, parece estar pouco somando para normas e direitos e tão pouco esconde seus interesses, como fizeram outros presidentes dos Estados Unidos.

Com todas as letras, Trump diz que quer o petróleo da Venezuela e que se a presidente em exercício daquele país, Delcy Rodriguez, não “cooperar”, pode ter um destino pior do que o de Maduro.

Era para todos os países democráticos terem se manifestado contra o ataque de Trump à Venezuela, mas, no primeiro momento, apenas seis países o condenaram: Brasil, Chile, Colômbia, Espanha, México e Uruguai.

A nota conjunta fala em “profunda preocupação e repúdio às ações militares realizadas unilateralmente em território venezuelano, que contrariam princípios fundamentais do direito internacional, em particular a proibição do uso e ameaça de força, e o respeito à soberania e à integridade territorial dos Estados”.

Os seis países avaliam que as ações constituem precedente “extremamente perigoso” para a paz e a segurança regional e colocam em risco a população civil.

Trump não deu ouvidos e seguiu com novas ameaças contra a Colômbia e o México, ao mesmo tempo em que marca dezembro como o prazo para o fim do socialismo em Cuba.

Por se tratar de uma ilha, que não tem autonomia energética, Trump pretende derrubar o regime socialista não por meio de ataques ou invasões, mas através de bloqueio naval, impedindo a chegada de navios petroleiros.

Na quinta-feira (30), Trump assinou uma ordem executiva na qual declara uma “emergência nacional”, colocando Cuba como uma “ameaça incomum e extraordinária” à segurança dos Estados Unidos. A medida também impõe novas tarifas a países que “vendam ou, de qualquer outra forma, forneçam petróleo a Cuba”.

Washington acusa Havana de “alinhar-se” com países e “atores malignos adversos aos Estados Unidos”, entre os quais menciona a China, o Irã e a Rússia.

Trump se sente imperador do mundo e no direito de atacar quem bem entender.

Venezuela e México, que sempre apoiaram Cuba, advertidos das consequências que podem enfrentar, já recuaram no fornecimento de petróleo.

Rússia e China têm criticado Trump tanto pelo ataque à Venezuela, sequestro do casal presidencial quanto pelas ameaças a Cuba, mas, até o momento, sem nenhuma providência concreta.

Se há mais de 60 anos Cuba é alvo de sanções econômicas, bloqueio e tentativas de golpes por parte dos Estados Unidos, a situação nunca se apresentou tão grave e dramática como agora.

Além do Brasil, quatro países latino-americanos terão eleições para presidente da República em 2026: Colômbia, Peru, Haiti e Costa Rica.

A mídia corporativa brasileira faz questão de ignorá-las. Em sua agenda de cobertura internacional a América Latina inexiste. Ela também não quer expor a atuação dos Estados Unidos contra governos e candidatos progressistas e as ilações que tais pleitos possam suscitar em relação ao Brasil.

A cobertura das eleições em Costa Rica, em 1º de fevereiro, e no Haiti (30/8) seriam importantes para mostrar como os Estados Unidos atuam para garantir a vitória de candidatos subservientes aos seus interesses na América Central.

Naquela região, a interferência direta nos pleitos é a regra. Que o diga o novo presidente de Honduras, Nasry Asfura, que tomou posse na última terça-feira (27) em meio ao clamor popular de que a eleição foi roubada. A posse colocou fim a quatro anos de governo de esquerda naquele país e garante mais um aliado para Trump na América Latina, após o avanço da direita no Chile, Bolívia e Argentina.

As eleições no Peru, em abril, e, em maio, na Colômbia são, no entanto, as que devem merecer maior atenção por parte do governo brasileiro.

No Peru, Trump tudo fará para emplacar um candidato que lhe seja subserviente. O que não será difícil. Mesmo havendo enorme descontentamento com a política e a insegurança, existe um grande número de pré-candidatos, entre eles dois de extrema-direita que se declaram simpatizantes de Trump, além de um comediante e um ex-goleiro de futebol.

Como Trump considera fundamental tomar para os Estados Unidos o controle do porto de Callo, financiado e construído pela China nas proximidades de Lima, não será difícil emplacar qualquer um desses candidatos em meio a um clima de forte apatia política. A população peruana está cansada após sete governos em menos de uma década.

A situação da Colômbia é bem diferente. O presidente Gustavo Petro, o primeiro de esquerda na história daquele país, possui uma forte liderança e seu candidato, Iván Cepeda, lidera todas as pesquisas de intenção de voto. Na Colômbia, como no Brasil, há uma forte oposição de direita e é nela que Trump deve investir.

Para Trump, Petro é um desafeto que já confrontou o imperialismo não só estadunidense como israelense. Colômbia foi o único país a romper relações diplomáticas com Israel por conta do genocídio na Faixa de Gaza perpetrado pelo primeiro-ministro Benjamin Nethanyaru.

A eleição chave deste ano, no entanto, é a brasileira. É aqui que vários interesses estarão se cruzando e sendo jogados.

Como o Brasil é grande demais para ser atacado diretamente ou invadido, como aconteceu com a Venezuela, Trump tudo fará para derrotar Lula e emplacar em seu lugar um governo vassalo aos Estados Unidos, como o foram Temer e Jair Bolsonaro.

Não por acaso, parte da classe dominante brasileira vê com bons olhos a anunciada candidatura do próprio filho de Bolsonaro, Flávio, e outra parte prefere o governador de São Paulo, o extremista de direita, Tarcísio de Freitas, cria política do ex-capitão, preso e cumprindo sentença de 27 anos.

Publicamente Trump já disse possuir ótima “química” com Lula, que retribui na mesma moeda.

Ambos sabem que se trata de aparências.

Como sempre não merecendo a devida cobertura da mídia corporativa brasileira, a recente viagem de Lula ao Panamá, se revestiu da maior importância.

Lula participou, como convidado especial do Fórum Econômico Internacional da América Latina e Caribe, que aconteceu na última quarta-feira (28). Em sua fala no evento, mas também em conversas com oito líderes latino-americanos e na entrevista com a imprensa, mandou diversos recados.

O primeiro deles foi confirmar a viagem que fará a Washington, no início de março, a convite de Trump.

Lá se reunirão para um encontro no qual Lula já demarcou o espaço. Ao lembrar que “os Estados Unidos e o Brasil são as duas principais democracias do Ocidente”, enfatizou que ele e Trump precisam conversar olho no olho e obviamente de igual para igual.

De acordo com Lula, o encontro servirá para discutir a relação bilateral e os desafios globais, declarando estar convencido de que o multilateralismo será fortalecido.

Também no Panamá Lula confirmou já ter conversado duas vezes com a presidente interina da Venezuela e um novo contato deve ocorrer em breve.

O governo brasileiro já enviou para a Venezuela uma doação de 40 toneladas de medicamentos e insumos.

No encontro que teve com o presidente do Panamá, José Raul Molino, Lula manifestou sua posição de que o canal pertence aos panamenhos e fez questão de visitá-lo. Uma das primeiras declarações de Trump depois de empossado foi de que irá retomar o canal para os Estados Unidos.

Lula, novamente, deixou bem demarcada sua posição.

Antes do encontro com Trump, Lula fará duas importantes viagens internacionais.  Ele vai à Índia e à Coreia do Sul, mostrando que conversa com todo tipo de liderança, independente de posição ideológica. O indiano Narendra Modi é de direita, enquanto o sul-coreano Lee Jae-myung é considerado de centro-esquerda.

Ao defender a soberania brasileira, a América Latina e a multipolaridade, Lula sabe que se tornou alvo preferencial da política imperialista de Trump.

Nada mais equivocado do que acreditar que as eleições brasileiras serão tranquilas e fáceis ou que a pauta internacional não terá enorme influência aqui.

Por isso, independente dos absurdos e das violências que Trump e Israel venham a cometer, a mídia corporativa sempre as minimizará ou passará pano se julgar oportuno para tentar desgastar Lula.

Afinal aqui, nos próximos meses, estará sendo jogado não só o futuro de um dos maiores e mais importantes países do mundo, mas o futuro do próprio mundo multipolar, porque se Trump conseguir derrotar Lula, terá conseguido efetivamente transformar a América Latina em seu quintal.

Não haverá como falar em mundo multipolar se todo um continente tiver dono e se o B do BRICS sucumbir ao imperialismo ianque.

Não é pouco o que está em risco.

*Ângela Carrato é jornalista, professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG e membro do Conselho Deliberativo da ABI

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo

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