VIOMUNDO
O VIOMUNDO só é possível também através de anunciantes, e detectamos que você utiliza um AdBlock, bloqueador de anúncios.
Por favor considere ajudar o VIOMUNDO desativando o bloqueador para este site.
Cartas de Minas
Cartas de Minas

Seumas Milne: Britânico rico tem 273 vezes mais renda que o pobre

12 de agosto de 2011 às 01h38

Os saques refletem uma sociedade governada pela pilhagem e pela ganância

David Cameron precisa dizer que a violência não tem causa, a não ser a criminalidade — ou ele e seus amigos podem ser responsabilizados

Seumas Milne, no diário britânico Guardian

É essencial para os que tem poder na Inglaterra que os distúrbios que se espalham não tenham causa além da ferocidade maléfica dos envolvidos. Não é nada, mas “criminalidade pura e simples”, declarou David Cameron depois de reduzir suas férias na Toscana. O prefeito de Londres e, como Cameron, ex-integrante do Clube Bullingdon [um grupo exclusivo da Universidade de Oxford], Boris Johnson, vaiado por londrinos hostis em Clapham Junction, alertou que os provocadores devem parar de ouvir “justificativas econômicas e sociológicas” (embora ele não tenha explicado quem as estava oferecendo) sobre o que estão fazendo.

Quando seu predecessor Ken Livingstone ligou os ataques ao impacto dos cortes de orçamento, é como se ele tivesse botado fogo em um prédio. O Daily Mail [tablóide britânico] gritou que culpar os cortes era “imoral e cínico”, e houve um eco dos entusiastas da repressão. Não havia nada a explicar, eles insistiram, e a única resposta deveria ser dada em balas de borracha, canhões de água e tropas na rua.

Ouviremos muito mais disso quando o Parlamento se reunir — e não é difícil entender o motivo. Se estes distúrbios não tem causas políticas e sociais, então claramente nenhuma autoridade pode ser responsabilizada. E mais, com muita gente aterrorizada pelos distúrbios e frustrada com o fracasso da polícia, o governo tem a oportunidade de recuperar o equilíbrio se apresentando como uma força em defesa da ordem social, com isso restaurando sua credibilidade profundamente danificada.

Mas é uma posição que não faz sentido. Se a erupção desta semana é pura expressão da criminalidade e não tem nada a ver com violência policial ou desemprego de jovens ou a crescente desigualdade e o aprofundamento da crise econômica, por que isso está acontecendo agora e não uma década atrás? As classes criminosas, como os vitorianos se referiam àqueles à margem da sociedade, sempre estiveram conosco. E se não há relação com a divisão social selvagem da Inglaterra e os guetos da miséria, por que os distúrbios começaram em Haringey [um bairro pobre] e não em Henley [um bairro da elite]?

Acusar os que estabelecem estas ligações óbvias de ser apologistas ou “dar desculpas” para os ataques contra bombeiros ou pequenos comerciantes é igualmente tolice. Deixar de reconhecer as causas dos distúrbios é tornar mais provável que voltem a acontecer — e os ministros certamente não cometerão este erro a portas fechadas, se tiverem preocupação com seu próprio futuro político.

Aconteceu o mesmo quando distúrbios irromperam em Londres e Liverpool trinta anos atrás, também resultado de um confronto entre a polícia e a comunidade negra, quando um governo conservador estava promovendo cortes de investimento durante uma recessão. O povo de Brixton e Toxteth foi denunciado como criminoso e bandido, mas em algumas semanas Michael Heseltine [primeiro-ministro] estava escrevendo um memorando privado para o gabinete, começando com “foi preciso uma revolta” e falando sobre a necessidade urgente de ações contra a pobreza urbana.

Desta vez, os distúrbios multiétnicos se espalharam mais longe e mais rápido. Foram menos politizados e houve mais saques, a ponto de que em alguns bairros agarrar “coisas de graça” foi a principal ação. Mas não há mistério sobre a origem dos distúrbios. O gatilho foi a morte de um jovem negro pela polícia em um país onde os negros tem 26 vezes mais chances de serem parados e revistados pela polícia que os brancos. Os distúrbios que explodiram em Tottenham no fim de semana seguinte aconteceram em um bairro que tem a maior taxa de desemprego de Londres, onde os clubes de jovens foram fechados para atender a um corte de 75% no orçamento dos serviços para a juventude.

Depois os distúrbios irromperam em várias partes do que é hoje a cidade mais desigual do mundo desenvolvido — onde a riqueza dos 10% mais ricos atingiu 273 vezes a dos mais pobres — atraindo jovens que tiveram sua ajuda de custo em educação cortada justamente no momento em que o desemprego de jovens bateu recorde e o acesso à universidade foi dificultado depois que as mensalidades foram triplicadas.

Agora os distúrbios se tornaram nacionais. Mas não é que o governo não esperava por eles quando embarcou em seu programa irresponsável de encolher o estado. No outono passado a Associação dos Superintendentes de Polícia alertou sobre o perigo de cortar o número de policiais num momento em que eles seriam necessários para lidar com “tensão social” ou “desordem ampla”. Não faz tempo e os jovens de Tottenham diziam ao Guardian que esperavam por distúrbios.

Políticos e jornalistas dizem que nada disso tem a ver com adolescentes sociopatas que destroem vitrines para fugir com TVs de plasma e pares de tênis. Mas onde exatamente os jovens aprenderam que não há maior valor que a riqueza pessoal, ou que produtos de marca são a rota para a identidade e o autorespeito?

Enquanto os banqueiros publicamente pilharam a riqueza do país e não pagaram por isso, não é difícil descobrir o que levou os que ficaram de fora da festa a pensar que tem o direito de levar um celular de uma loja. Alguns dos que se envolveram nos distúrbios tornaram a conexão explícita. “Os políticos dizem que pilhamos e roubamos, mas eles são os gangsters originais”, declarou um deles a um repórter. Outro explicou à BBC: “Estamos mostrando aos ricos que podemos fazer o que quisermos”.

A maioria dos que participaram não tem nada a perder, numa sociedade que os trancou para fora ou num modelo econômico que atolou na areia. Está claro que uma Inglaterra dividida não tem condições de absorver a austeridade agora adotada, já que três décadas de capitalismo neoliberal já destruiram todas as relações sociais de trabalho e comunidade.

O que agora vemos em cidades da Inglaterra são reflexos de uma sociedade governada pela ganância — e o fracasso venenoso da política e da solidariedade social. Existe agora o perigo de que os distúrbios alimentem o conflito étnico. Enquanto isso, a fase mais recente da crise econômica que pula entre os Estados Unidos e a Europa ameaça jogar a Inglaterra na recessão ou na prolongada estagnação econômica. Estamos começando a ver os efeitos devastadores de se negar a mudar de caminho.

O risco de um grande banco falir, na Europa ou nos Estados Unidos

 

19 Comentários escrever comentário »

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do VIOMUNDO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie. Leia o nosso termo de uso.

Vladimir Safatle: O “colapso moral” de David Cameron | Viomundo - O que você não vê na mídia

16/08/2011 - 17h01

[…] Seumas Milne: Britânico rico tem 273 vezes mais renda que o pobre   […]

Responder

Leonardo Câmara

13/08/2011 - 12h53

É, parece que o plano de fazer a humanidade regressar aos tempos do feudalismo não está dando assim muito certo, não é senhores banqueiros? Faltou combinar com os russos.

Responder

Você com revólver na mão é um bicho feroz « O Caderno de Patrick

13/08/2011 - 05h44

[…] o ambiente propício para essa explosão de violência foram muito bem narradas pelo jornalista do The Guardian, Seumas Mines, jornal que já publicou este ano várias matérias antevendo os efeitos dos cortes nos gastos […]

Responder

Londres em chamas: As “hienas” de 1871 voltam a atacar | Viomundo - O que você não vê na mídia

13/08/2011 - 02h21

[…] Rico britânico tem 273 vezes mais renda que o pobre   […]

Responder

Heloisa Villela: O mocinho vem montado em um cavalo branco | Viomundo - O que você não vê na mídia

13/08/2011 - 02h18

[…] O enterro do neoliberalismo na Inglaterra […]

Responder

O_Brasileiro

12/08/2011 - 18h43

Não há coisa mais determinada do que uma pessoa que perdeu a esperança… E por isso falam a verdade quando dizem que farão o que quiserem, até serem parados… vivos ou mortos!

Responder

Crise econômica e combate à corrupção: Risco e oportunidade para o governo Dilma | Viomundo - O que você não vê na mídia

12/08/2011 - 18h34

[…] A desigualdade social que se esconde sob os distúrbios na Inglaterra […]

Responder

Bonifa

12/08/2011 - 17h04

Parece ironia da História, mas depois de levar puxão de orelhas de Ahmadinejad, por tratamento cruel do próprio povo, Cameron, como fez Mubarak no Egito, está propondo o bloqueio do twiter e a proibição de torpedos pelos celulares. A Inglaterra se assemelha a ditaduras de segunda classe. Parece que os líderes neoliberais sabem que são incompatíveis com a Internet. Em muito breve todos eles partirão com lanças e varapaus para tentar destruir a rede. Se a rede resistir, as últimas muralhas do neoliberalismo ruirão.

Responder

pperez

12/08/2011 - 15h50

No dia 22 de julho passado, o assassinato do brasileiro Jean Charles no metrô de Londres completou 6 anos sem que a justiça londrina responsabilizasse qualquer membro das forças especiais dos agentes da Policia Londrina que detonaram o Brasileiro.
A Indenização à familia em 2009 foi uma esmola de 100.000 libras comparada a indenizações milionarias de tres milhões de libras para casos de assedio moral!
Agora é um negro que causa mais um estupor ao mundo pela ação estupida e covarde da policia londrina
Aí está o retrato da velha Inglaterra loira de olhos azuis que se assusta e não entende ou não quer entender o porque da sua linda cidade de cartão postal em chamas!

Responder

Jornais “parecem ferramentas de magnatas”. Estamos falando de Israel | Viomundo - O que você não vê na mídia

12/08/2011 - 14h48

[…] Rico britânico controla 273 vezes mais renda que o pobre   […]

Responder

Marcio H Silva

12/08/2011 - 12h20

Concentração de riqueza. Cresci ouvindo isto aqui no nosso país. Esquecem que a nível mundial a riqueza está concentrada. Os EUA detém mais 50% de toda grana que circula no mundo, lá menos de 20% da população detém 80% da riqueza local, é muito dinheiro pra pouca gente. Fala-se muito de ideologia socialista, comunista, capitalista, democracia e etc… Só vejo dois partidos no mundo: Os Ricos gananciosos e os pobres.

Responder

FrancoAtirador

12/08/2011 - 11h13

.
.
O NEOLIBERAL CAMERON
MANDOU PRENDER E PROCESSAR
TODA A POPULAÇÃO DA INGLATERRA
.
.
Número de presos por violência na Inglaterra chega a 1.500

Juízes dão sentenças mais duras do que o normal a acusados por distúrbios.

http://www.bbc.co.uk/portuguese/ultimas_noticias/

Responder

Valdeci Elias

12/08/2011 - 11h05

No Egito, Libia e na Siria, oque acontecia era lutas justas pela liberdade , democracia, direitos humanos , com apoio da imprensa e governo ocidentais. Aqui não passam de saqueadores bandoleiros.

Responder

    cronopio

    16/08/2011 - 18h51

    Pobre não tem direito humano, né, Valdeci?

Jairo_Beraldo

12/08/2011 - 10h28

Parece que só agora estão descobrindo o velho mundo, que tantas pessoas dizem ser primeiro mundo.

Responder

eunice

12/08/2011 - 10h15

É quase certo que na partilha final dos bens da Terra, esses ladrões nos matarão sem piedade, usando a força militar sustentada, em última análise pelo suór do nosso trabalho, e que nesse momento apenas estará recebendo comida, e sendo grata.

Responder

eunice

12/08/2011 - 10h13

Só que não sabemos como destruir o que nos destrói. Os gângsters detém as armas.

Responder

anna db

12/08/2011 - 06h31

O meliantes querem comer pão, que comam brioches. Depois não entendem porque perdem a cabeça. Não vão no amago da questão e ficam se enganando.

Responder

João PR

12/08/2011 - 02h28

Costumo dizer que o liberalismo (ou seu requentamento, o neoliberalismo) não serve para os seres humanos.

Explico: no liberalismo impera a lei dos mais forte. Se você que está me lendo não anda de Ferrari, é porque é incompetente – esta é a lógica liberal, pois o mercado está aí fora para você fazer fortuna e andar com uma Ferrari ou Lamborghini. Logo, os que vencem (vencem?) no liberalismo são os "fortes" do sistema. É a lei da selva.

MAS, para alguém vencer, é necessário MUITOS perderem. E os que estão à margem de um sistema – que é reproduzido diuturnamente pela TV,- não tem direito à nada (afinal, são "fracos"). Só que os "fracos", de tempos em tempos, se levantam e buscam, pelas suas próprias mãos, aquilo que não conseguiram no mercado. Daí liberalismo vira sinônimo de barbárie. E viva a barbárie, pois demonstra a falência do modelo.

Logo, o lilberalismo, enquanto teoria e prática, não serve ao ser humano.

Responder

Deixe uma resposta