VIOMUNDO
O VIOMUNDO só é possível também através de anunciantes, e detectamos que você utiliza um AdBlock, bloqueador de anúncios.
Por favor considere ajudar o VIOMUNDO desativando o bloqueador para este site.
Cartas de Minas
Cartas de Minas

Quer vender aquela sua mesa de pebolim?

29 de janeiro de 2012 às 19h09

Jogo de fumaça e espelhos

A jogada de 489 bilhões de euros de Draghi

O novo veículo de empréstimos do presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi — a Operação de Refinanciamento de Longo Prazo (ORLP) — ajudou a tirar o sistema financeiro do precipício de uma nova catástrofe tipo Lehman [Lehman Brothers, banco de investimento dos Estados Unidos cuja falência detonou a crise financeira de 2008], mas não trata dos problemas fundamentais criados pela crise (desequilíbrios contábeis, fluxos de capital).

O que a ORLP faz é permitir a bancos europeus que troquem garantias mambembes por empréstimos sem limites com prazo de 3 anos a uma taxa de juros de 1%. O dinheiro emprestado — quase metade de um trilhão de euros — perpetua a ilusão de que os bancos são solventes, especialmente porque a vasta quantia de bens desvalorizados que estavam na contabilidade dos bancos foi transferida para a contabilidade do Banco Central Europeu (O Banco Central dos Estados Unidos conduziu uma operação similar [Quantitative Easing 1, QE1] quando comprou 1,25 trilhão de dólares em papéis assegurados por empréstimos imobiliários dos bancos norte-americanos em 2009).

Assim, agora, o sistema bancário da União Europeia está navegando em liquidez e a taxa que os bancos pagam para emprestar uns aos outros caiu dramaticamente. Portanto, tudo está cor-de-rosa, certo?

Errado. Embora as taxas de empréstimos interbancários tenham atingido seu ponto mais baixo dos últimos dez meses (na segunda-feira passada), os bancos continuam estacionando o dinheiro que tomaram emprestado no Banco Central Europeu. Na última sexta-feira, os depósitos no BCE atingiram um recorde de 528 bilhões de euros, o que é 39 bilhões de euros mais que o que os bancos emprestaram usando a ORLP. Que doideira é essa?

Isso significa que o dinheiro emprestado pelos bancos não está sendo repassado a consumidores e empresários, como Draghi previa, mas está sendo usado pelos bancos para rolar dívidas e continuar a desalavancagem, permitindo a eles atingir as novas exigências de capital de 9%.

Isso é enganação da pior, tipo um jogo de fumaça e espelhos. Afinal, Draghi está pagando mais caro por bens que perderam valor. Qual é a vantagem disso? Pense qual seria a reação se o Banco Central dos Estados Unidos criasse um programa similar para combater os efeitos da bolha imobiliária. Vamos dizer que o presidente [Ben] Bernanke decidisse cobrir tudo o que os donos de casas perderam desde 2006.

Você acha que isso reduziria o número de casas em risco e as penhoras? Com certeza. Mas o povo miúdo não recebe ajuda desse tipo. O que se espera é que ele tome na cabeça. Todas as bondades vão para os caras do dinheiro. É por isso que existe a ORLP. O Banco Central Europeu está dando toneladas de dinheiro barato para seus amigos em troca de bens que, ELE SABE, não valem o dinheiro que está sendo emprestado. Assim, basicamente, é um subsídio (em outras palavras, golpe).

E o Banco Central Europeu está tentando esconder o que faz alegando que o mercado de financiamento bancário não está funcionando direito. Ou, como diz o sr. Draghi, as preocupações com o mercado de ações “causaram distúrbios severos no funcionamento normal dos mercados”.

Vocês já ouviram coisa tão idiota antes?

Quando os banqueiros inflam uma gigante bolha que explode e detona 8 trilhões de dólares em valor imobiliário, ninguém fala que “o mercado não está funcionando direito”, porque somos eu e você os perdedores. Mas quando os banqueiros correm risco, logo surgem as desculpas.

“Ah, não, não pode ser”, eles dizem. “Os mercados não devem estar funcionando direito”. Mas isso é nonsense. Não há nada de errado com os mercados. Afinal, estamos falando de compradores e vendedores, não de algum mecanismo intrincado que requer especialistas com suas pranchetas e jaquetas brancas. O problema é que ninguém está comprando o lixo que os bancos querem vender justamente porque o lixo perdeu muito valor no ano que passou. É só isso.

O sistema funciona assim: os bancos não ganham dinheiro com o João Ninguém e seu pequeno depósito que vem do salário semanal. Tudo isso mudou. A maneira como os bancos se financiam nos dias de hoje envolve grandes quantias de dinheiro que os fundos de investimento estacionam nos bancos enquanto se decidem sobre onde e como investir. Assim, os bancos usam o dinheiro para fazer empréstimos de curto prazo e colocam os bens garantidores dos empréstimos na contabilidade. O chamado “repo market” — sobre o qual estamos falando agora — é na verdade uma grande casa de penhor, sem qualquer regulamentação.

O problema inevitável é que as pessoas que tem acesso ao dinheiro grande (gerentes de fundos) se tornam mais e mais ressabiados com os bancos quando desconfiam do valor declarado dos bens usados como garantia. Assim, os bancos precisam dar mais e mais garantias para obter o mesmo tanto de dinheiro. Isso é equivalente a uma perda, o que significa que os bancos perdem mais e mais dinheiro em toda transação que fazem.

Ao mesmo tempo, fica mais difícil para os bancos conseguirem dinheiro lançando ou vendendo ações. Por que? Porque a essa altura todo mundo sabe que os bancos estão sentados sobre uma grande piscina fétida de bens financeiros podres, que  ninguém quer tocar nem mesmo com uma vara de 10 metros.

Isso significa que o mercado não está funcionando?

Não, na verdade o mercado está funcionando perfeitamente. Os investidores estão fazendo o que os investidores sempre fizeram. Estão separando o joio do trigo, nada mais que isso. É o sr. Draghi que está distorcendo o mercado ao bombar centenas de bilhões de euros numa bolha de ações que já implodiu faz tempo. Vocês tem acompanhado o que aconteceu com a Grécia recentemente?

Aqui está uma analogia que pode ajudar: vamos dizer que você precisa pagar uma prestação do automóvel de 500 reais. Você decide procurar alguma coisa no quintal para vender no Mercado Livre. No processo, encontra uma velha mesa de pebolim que só tem três pernas, cheia das manchas daquela festa-bebedeira que você fez anos atrás, e coloca o móvel à venda no Mercado Livre por 500 reais. Então, abre uma cerveja gelada e fica esperando pela enxurrada de ofertas.

[O Viomundo tomou liberdades poéticas com a tradução do parágrafo acima, para aproximá-lo de uma experiência que um leitor brasileiro teria]

Só que as ofertas nunca aparecem e você é obrigado a ligar para a financeira que está te importunando com as cobranças e dizer “desculpe, cara, não é culpa minha. O mercado não está funcionando direito!”.

Você acha mesmo que o cobrador vai te dar uma colher de chá?

O fato de que ninguém quer sua mesa de pebolim não é um sinal de que o mercado não está funcionando. A mesma regra vale para os papéis-lixo dos bancos. Ninguém os quer porque são lixo; nada mais que isso. Além disso, há sempre um preço para bens financeiros (mesmo o lixo); é uma questão de saber quanto as pessoas aceitam pagar por eles.

Neste caso, as ofertas por papéis da dívida soberana [de estados europeus, que estão na contabilidade dos bancos] são tão baixas que muitos bancos da União Europeia faliriam se vendessem os papéis e considerassem as perdas na contabilidade. É por isso que eles contam com o Draghi para salvá-los. E salvá-los é o que Draghi está fazendo.

O que deveria ter acontecido é que os bancos deveriam ter tido suas dívidas reestruturadas, para não forçar os contribuintes da eurozona a enfiar trilhões [de dinheiro público] neste novo regime de instituições bancárias-zumbi que eventualmente serão consideradas “muito grandes para falir”.

Mas a gigante operação de reinflação do Draghi é apenas um dos problemas da ORLP. Outra questão é que a montanha de garantias dos bancos está rapidamente se esvaindo, o que vai tornar mais difícil os empréstimos do Banco Central Europeu para os bancos em dificuldades em fevereiro, quando a fase dois da ORLP (estimada em 400 bilhões de euros) for lançada.

Mas, como pode ser? Isso significa que os bancos não teriam dinheiro, nem bens decentes para oferecer, o que significa que o sistema bancário moderno não passa de um jogo de enganar.

De fato, é um jogo de enganar. Veja, os bancos tem emprestado vastas somas de dinheiro usando os mesmos bens, de novo e de novo. É chamado de re-hipoteca e, na maioria dos casos, é perfeitamente legal. O problema surge, no entanto, nos ciclos de desalavancagem, quando os bens financeiros no cofre não batem com os que estão na contabilidade. E aí? Como o blog FT Alphaville, do Financial Times, notou: “… neste ambiente, os bancos poderiam facilmente ficar sem bens e falir (Dexia!) (“Death sanitised through credit“, FT Alphaville).

Isso coloca em dúvida o sucesso da chamada fase dois da ORLP. Afinal, existe um limite mesmo para o lixo que o BCE pode aceitar em troca de empréstimos.

Existem outros problemas com a ORLP, como o fato de que coloca o sistema de cabeça pra baixo, ao substituir os Estados pelos bancos privados. Como faz isso?

Ao dar aos bancos privados garantias implícitas sobre suas dívidas, ao mesmo tempo em que as dívidas dos governos perderam a garantia total do BCE, com isso reduzindo-as ao nível de junk. A razão pela qual isso aconteceu: Draghi sinalizou aos mercados que o BCE VAI agir como garantidor de último recurso para os bancos privados, mas não para os estados-membros. Assim, as taxas de risco para as dívidas de governos dispararam, enquanto as taxas para as dívidas de bancos privados cairam.  Naturalmente, isso criou pressão nos orçamentos de governos, já que os déficits continuam a explodir.

Pergunte a você mesmo o seguinte: em que mundo doido vivemos, no qual empresas privadas, que buscam lucro (como bancos) podem conseguir dinheiro emprestado mais barato que estados? Os estados empregam dezenas de milhares de trabalhadores, promovem programas sociais, pagam a polícia, a educação, o salário-desemprego, os serviços de saúde, etc. e operam em nome dos grandes interesses do público… e ainda assim, sob o regime de Draghi, banqueiros inescrupulosos podem usar sem limites os recursos dos bancos centrais com uma taxa de juros menor. Alguém poderia me explicar?

Naturalmente, é o que acontece quando as nações abrem mão do poder de imprimir seu próprio dinheiro. Perdem a capacidade de controlar seu próprio destino. Isso cria uma oportunidade para que as elites financeiras assumam o controle político-econômico, que é o que elas fizeram. A grande finança tomou o poder na Europa e está fazendo o que sempre fez, ou seja, está sistematicamente desmantelando as instituições que prestam serviços de saúde, de aposentadoria, que garantem o trabalho para milhões de pessoas comuns, jogando milhares na pobreza abjeta.

Não era esse o esquema? Não é isso o que o maestro italiano Draghi tinha em mente?

Uma última coisa: a ORLP não tem um mecanismo de transmissão. Em outras palavras, não há como fazer a liquidez que está se acumulando no sistema bancário passar para a economia real. Está tudo lá acumulado, como as reservas de mais de trilhão de dólares estão no sistema bancário dos Estados Unidos.

Assim, a luxuosa doação de 600 bilhões de euros do sr. Draghi não será investida em construções residenciais ou de novas empresas ou no desenvolvimento de novas drogas ou em veículos mais eficientes no gasto de energia.

Na verdade, a fortuna não será alocada para qualquer atividade produtiva. Em vez disso, será usada da mesma forma que os bancos dos Estados Unidos usaram os 700 bilhões de dólares do TARP [Troubled Asset Relief Program, programa de alívio a bens duvidosos, lançado pelo governo dos Estados Unidos para ajudar o sistema financeiro] ou o 1,25 trilhão da primeira etapa do QE [Quantitative Easing]; para turbinar bens em risco e para mandar o mercado de ações para a estratosfera durante um ano. E isso vai deixar a turma do Draghi muito feliz, já que eles vão ter lucros recordes, enquanto o resto da Europa mergulhará numa duradoura mini-depressão.

*MIKE WHITNEY vive no estado de Washington. Ele é contribuinte do livro Sem Esperança: Barack Obama e a política da ilusão, da editora AK. Responde e-mail no [email protected]

 

8 Comentários escrever comentário »

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do VIOMUNDO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie. Leia o nosso termo de uso.

Sagarana

30/01/2012 - 19h36

Simples, basta acabar como sistema financeiro.

Responder

Cleverton_Silva

30/01/2012 - 11h44

O "deus" demônio Mercado é uma invenção ridícula. No discurso, a capacidade humana de empreender, gerar riqueza, fazer o indivíduo prosperar e evoluir (só financeiramente) devem se sobrepor ao Estado e o bem-estar de todos que vá às favas. Na prática, um vale-tudo onde se pode quebrar o próximo, especular, sonegar impostos, se juntar a cartéis, tomar empréstimos sem dar garantias se dizendo player global (caso BrT Oi). No primeiro sinal de quebra, bancos e instituições financeiras vão de pires na mão pegar dinheiro público e ainda impor medidas de austeridade a quem origina o dinheiro que alimenta o joguinho tosco deles. Incrível a capacidade dos financistas mundiais em só pensar no futuro deles e querer que o resto se exploda!

Responder

M. S. Romares

30/01/2012 - 11h36

A tchurma que cuidava das finanças no "governo" fhc também pensa assim: vamos salvar os bancos e depois a gente tenta esconder os reais propósitos e enganamos, mais um vez, a turba ignara.

Responder

RicardãoCarioca

30/01/2012 - 10h20

E o PiG reclamou quando BB, Caixa e BNDES não pararam de emprestar durante a crise, diferentemente dos seus iguais do setor privado. Estratégia do Lula. Do contrário, aconteceria exatamente o mesmo aqui: os bancos iriam acumular créditos e não os repassaria ao setor produtivo.

Agora, fala sério: Garantir banco e não garantir governo! É genial, porque assim estado vira cliente de banco e todo mundo ganhará as suas milionárias comissões, incluindo o Draghi.

Esse Euro só dá problema. Realmente, é hora de esses estados da zona da Euro repensarem os seus conceitos. Quando o Reino Unido não aderiu à nova moeda, há mais de 10 anos atrás, senti ali que essa coisa de moeda única não seria uma boa, porque não havia seduzido os ingleses.

Responder

Caracol

30/01/2012 - 08h59

Apresento um exemplo melhor ainda para o caso brasileiro do que o da mesa capenga de pebolim:

(Trata-se de um caso real, conheço a vítima.)

O sujeito A é um rico empresário com capacidade de conseguir empréstimos. Ele tem noventa farmácias, lojas que aluga de modestos proprietários, que precisam do aluguel para viver e sustentar a família.

O sujeito B é um desses modestos proprietários, que só tem ESSA loja que o sujeito A aluga, não tem mais coisa alguma.

O sujeito A faz uma merda de gestão, pega mais dinheiro emprestado do que pode, fecha a loja alugada do sujeito B e NÃO LHE DEVOLVE AS CHAVES, o que permitiria a B realocar a loja e seguir com a vida.

O sujeito B abre processo para despejar o sujeito A (que deve estar fazendo turismo no Caribe), tal processo leva um ano sem sair do lugar (pois a Justiça também anda pelo Caribe) e durante esse ano, ele, desesperado, sem receber o pagamento dos alugueres durante um ano e sem receber as chaves da loja formaliza – para alimentar a família – empréstimos no seu banco pagos em parcelas mensais mais juros escorchantes, que saem de sua conta automaticamente.

Não seria o caso do sujeito B parar de pagar os juros do Banco e alegar que “o mercado não está funcionando direito”? Afinal, foi no “sistema” do próprio banco o lugar onde o sujeito A pegou dinheiro emprestado…

Um detalhe notável: quando não há dinheiro na conta para pagar parcelas do empréstimo, o banco debita assim mesmo, a conta fica negativa e o sujeito B passa a pagar juros escorchantes do empréstimo MAIS os do cheque especial, tornando-se, evidentemente, um escravo do banco.

É como me disse certa vez um amigo que foi banqueiro (no exterior): o melhor negócio do mundo é ser proprietário de um banco sadio. O segundo melhor negócio do mundo é ser proprietário de um banco em dificuldades. O terceiro melhor negócio do mundo é ser proprietário de um banco falido. Seguem-se os demais melhores negócios: drogas, armas, remédios, petróleo…

Responder

    Paulo Monteiro

    30/01/2012 - 11h24

    Sem falar que quando a conta fica negativa acima do limite os fominhas dos banqueiros cobram no meu caso pessoa jurídica R$ 36,00 a cada 02/03 dias.Tive um divida com o banco e o gerente me falou: " por causa do seu atraso sua conta vai ficar travada sem poder movimentar até a dívida ser paga" Eu falei: ok!! Só que no 06 meses que levei p/ quitar a divida a conta ficou com saldo zerado, sem movimentação e pra minha surpresa qdo recomecei a movimentar a conta o desgramado do banco me cobrou as tarifas mensais atrasadas..é mole. Fui reclamar com o gerente e ele me disse: "É normal., não posso fazer nada!!

José Ruiz

30/01/2012 - 08h22

Fico grato por vocês compartilharem esse tipo de informação com seus leitores.

Responder

Jotage

29/01/2012 - 20h25

Fascinante. Uma análise que com certeza não passa no PIG e para a qual o Brasil precisa se preparar, pois só vamos exportar para banqueiro, o que é muito pouco.
Segundo o Sr. Whitney, o dinheiro dado aos bancos volta ao BCE e fica ali estacionado.
Se estes bancos tem que pagar o BCE em 3 anos, o lucro necessário terá que vir do dinheiro ali estacionado.
Ou seja: Vão quebrar o povo para slavar os bancos.
De que servirá ter bancos sem povo.

Responder

Deixe uma resposta