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Pablo Villaça: Por que passei a defender a ideia de Lula assumir um ministério

16 de março de 2016 às 17h31

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Pablo Villaça, no seu Facebook, sugestão de Débora Cruz

Como alguns poucos dias fazem diferença.

Na semana passada, quando a ideia de Lula assumir um ministério foi discutida pela primeira vez, considerei a iniciativa equivocada. “Passará a imagem errada”, apontei. “A mídia vai massacrar”, considerei. “Não é uma boa estratégia”, julguei.

Isso, claro, foi antes de duas coisas importantes acontecerem: o pedido de prisão absurdo feito pelo MP de São Paulo e a divulgação do depoimento no dia em que foi conduzido coercitivamente ao aeroporto de Congonhas.

Esses dois fatores me fizeram desistir de manter qualquer esperança na imparcialidade da Justiça: o pedido de prisão foi tão ridículo que até a juíza que o enviou para Curitiba apontou, antes de fazê-lo, que os procuradores de São Paulo não haviam estabelecido qualquer elemento que apontasse quais teriam sido os benefícios obtidos pelos supostos favores a Lula. Além disso, a falta de evidências era tamanha que o PRÓPRIO PROCURADOR, ao ser confrontado pela falta de provas, respondeu que “a falta de provas era a prova de que o patrimônio era oculto”.

Por esta lógica, sou dono do Empire States Building.

A falta de qualquer evidência também ficou clara no depoimento dado por Lula ao delegado da PF em Congonhas: depois de mais de dois anos de investigação da Lavajato, o máximo que o delegado conseguiu foi apresentar certas suposições. Nenhuma prova ou elemento factual foi apresentado para que Lula pudesse responder. Lendo as 109 páginas do depoimento (que traz alguns momentos hilários, por sinal – como aquele no qual Lula diz que “consegue falar de boca cheia”), é impossível não perceber o delegado tateando no escuro, tentando encontrar alguma maneira de levar o ex-presidente a se comprometer. E sem sucesso.

O depoimento – repito: tomado depois de DOIS anos de investigação – foi tão inócuo que o máximo que a mídia fez para tentar pintar um retrato negativo de Lula foi contar quantas vezes ele disse “querido” e “Hein?”.

O que me traz a uma pergunta que me fazem frequentemente: “você realmente acha que Lula é inocente, que ele não sabia de nada?”.

Em primeiro lugar, “achar” isso ou aquilo não é evidência jurídica. Eu posso achar ou não achar um monte de coisas – nenhum tribunal sério levaria isso em consideração. Na justiça norte-americana, há um termo para isso quando um advogado protesta: “Especulação!”.

Dito isso, não sei se Lula é “inocente” no sentido extremo da palavra (de “nunca ter feito nada errado”), mas tenho a forte convicção de que não cometeu algum crime grave. Por que tenho essa opinião? Porque há QUARENTA ANOS ele é sistematicamente atacado pela mídia, vigiado de perto e questionado. E nestes QUARENTA ANOS, nenhuma prova surgiu de que ele tenha, de fato, feito algo capaz de enviá-lo para a prisão (a não ser quando foi preso, na ditadura, por ser líder sindical).

Observem, por exemplo, que contas já foram encontradas no exterior em nome de Cunha e da família de Aécio (isso em 2007, embora a imprensa só esteja divulgando de fato agora; aparentemente, desistiram do tucano). Obras questionáveis foram feitas em propriedades COMPROVADAMENTE pertencentes à família Neves (o aeroporto na fazenda do tio).

O que foi de fato provado contra Lula? Quais FATOS foram comprovados? Se o máximo que se consegue apontar contra o ex-presidente depois de QUARENTA ANOS são perguntas do tipo “mas você acha que ele não sabia de nada?”, das duas uma: ou Lula está sendo perseguido pela mídia (e basta folhear qualquer jornal ou revista ao longo destas décadas para perceber isso) ou é um gênio do crime. E, portanto, é no mínimo irônico que os mesmos que vivem fazendo pouco da inteligência do ex-presidente também acreditem em sua capacidade descomunal de cometer crimes sem deixar rastros.

E isto me traz ao último ponto, que certamente será a base da narrativa que a mídia adotará de agora em diante: a de que Lula assumiu um ministério para “fugir da Justiça”.

Se você ouvir isso, aponte algumas questões fundamentais ao autor da afirmação:

1) Como “fugir da justiça”? Ser ministro não o impede de ser investigado. A única coisa que o “foro privilegiado” modifica é a instância do julgamento, que passa para o STF. Ou devemos acreditar que Moro é mais “justo” ou “confiável” do que o SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL?

2) Do ponto de vista do réu (algo que Lula NÃO É; ao menos ainda, já que, como vimos, provas aparentemente não são necessárias para acusá-lo), ser julgado diretamente pelo STF é uma DESVANTAGEM.

Se fosse pensar puramente em estratégia (e estou certo de que ele deve ter considerado isso ao hesitar tanto em aceitar o ministério), Lula deveria recusar o convite de Dilma. Por quê? Simples: ao ser julgado pelas instâncias menores, Lula poderia prolongar o processo quase indefinidamente através de adiamentos, recursos e o escambau – até chegar na instância máxima. Ao ser transferido diretamente pro STF, porém, ele perde todas estas vantagens. Caso seja condenado, por exemplo, ele só teria direito a mais UM recurso e pronto.

Por que vocês acham que Eduardo Azeredo renunciou ao mandato de deputado federal justamente para retornar à primeira instância no julgamento do mensalão tucano e escapar do STF?

Mas o que realmente me empolgou com a possibilidade de ver Lula na Casa Civil é saber que, para aceitar, ele certamente colocou algumas condições na mesa, como a mudança na condução da economia e em políticas fundamentais do governo. Há muito venho dizendo que o governo Dilma tem sido uma profunda decepção para a esquerda – e mesmo ciente de que Lula tampouco tem um histórico muito invejável neste sentido, a probabilidade de que ajude a deslocar o governo um pouco (no mínimo) mais para a esquerda já me anima e me deixa um pouco mais otimista depois de tanto tempo de pura pancadaria.

Quanto à Dilma, digo apenas que fico feliz ao perceber que ela finalmente parece ter se dado conta de que não sabe fazer política – e por mais que a mídia tenha demonizado a POLÍTICA como um todo, o fato é que não se conduz um país sem esta, por mais imperfeita que seja.

Observemos, agora, o que acontecerá nas próximas semanas. A mídia obviamente baterá muito, mas isto não é novidade. Tentará pintar tudo com as piores cores do mundo, mas isto é o de praxe. E vai procurar afastar a esquerda do governo.

E é aí que nós, você e eu, entramos. Porque este governo pode não ser a esquerda que queremos, mas é a que temos no momento. Perdê-la é jogar fora tudo o que foi conquistado nos últimos 13 anos.

E isto, sim, é absolutamente impensável.

Leia também:

Dizer que Lula está escolhendo ‘foro privilegiado’ é duvidar da idoneidade dos ministros do STF

 

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Claiton

17/03/2016 - 13h37

O que alguns ainda insistem em não enxergar é o fato de que não se trata de ideologia política, não se trata de direita e esquerda (até porque a esquerda não existe há anos), não se trata de golpe. Estamos falando de JUSTIÇA. O que Moro está fazendo, com uma coragem poucas vezes vista na história do nosso país, é mexer com os “intocáveis” parlamentares. Não importa, absolutamente, quem está sendo investigado. Pode ser Lula, pode ser Cunha, poderia ser o Papa (aqui é coloquial, para aqueles que não tiverem a capacidade de entender, e quiserem “ensinar” que Moro não poderia julgar o Papa)! O que importa é que aqueles que forem comprovadamente culpados possam ser punidos. Então, SE (“se” é condicional) o Excelentíssimo (ou ex-excelentíssimo) senhor Lula for, em algum momento, julgado culpado, ele deverá, sim, ser punido rigorosamente, como qualquer cidadão comum o seria.
Acredito, de verdade, que por pior que seja a situação do nosso país hoje (culpa de sucessivos governos incompetentes e corruptos), poderemos tirar algo de bom desta sujeirada toda que vem à tona: justiça sendo feita (de verdade) pela primeira vez na história.
Então, independentemente do desfecho disso tudo, estamos criando uma nova cultura, na qual a transparência deve reinar e a corrupção deve ser abominada.
Possivelmente muitos de nós sequer poderemos ver, mas provavelmente nosso filhos e netos poderão crescer em um país mais limpo. E isso só será possível graças a homens e mulheres com a competência e coragem que Sérgio Moro tem demonstrado.

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    adilson

    17/03/2016 - 14h09

    Eu queria muito entender como você acha que a corrupção acabará tendo justiça só para um lado.
    Acabar, prender, ou o que seja, o Lula e o PT acaba, como num passe de mágica, com a corrupção? (sem contar que você parte do princípio que todos são culpados até que se prove o contrário).
    Se você concorda com isso, então você concorda que os outros partidos e políticos são ‘santos’.
    É isso que você defende?

    Claiton

    17/03/2016 - 15h34

    Caro Adilson,

    Eu não acho que a corrupção acabará caso a justiça seja feita apenas para um lado. Aliás, isso seria um contra-senso.
    Também não acho que a punição de qualquer pessoa que seja acabará, em um passe de mágica, com a corrupção que assola nosso país há décadas. Tanto que deixei bem claro em meu comentário que acredito que estamos apenas plantando uma semente, e que somente as futuras gerações colherão os frutos de um país mais limpo.
    Não parto do princípio de que qualquer pessoa seja culpada, e isto está bem explícito em meu texto. Se você ler novamente o comentário, com um pouquinho mais de atenção, verá que digo que SE (e somente se) o Lula, ou quem quer que seja, for PROVADO culpado, então ele deverá ser punido.
    Também não defendo qualquer partido político, e sei que não há “santos” lá em Brasília. Isso está escrito na primeira linha do meu comentário, onde digo que não se trata de ideologia política ou de “lados”.
    O que acredito e defendo é que a justiça deve ser feita sem se olhar a quem, e que qualquer tentativa de obstruir ou dificultar as investigações é um golpe duro em todos os cidadãos (até naqueles que não têm a capacidade de entender), quando o que se espera é igualdade de direitos e deveres, sem privilégios para quem está no poder.
    Pra mim pouco importa se é um petista, um tucano, um “verde”, ou o que for. A justiça deve ser imparcial. Da mesma forma como hoje estão sendo investigados os que estão no poder (por motivos óbvios), espero que amanhã sejam investigados todos aqueles que tiveram condutas irregulares e que prejudicaram uma nação inteira. E que isso sirva de exemplo para que os próximos governantes (em todas as esferas) pensem mil vezes antes de tomar decisões em favor próprio em detrimento das necessidades da população.
    Esta é minha visão de cidadão Brasileiro, isenta de convicções políticas, até porque acho que pouca coisa se aproveita dos políticos (de qualquer partido) neste país.

Giovana

17/03/2016 - 11h47

A Globo está a todo momento incitando a violência o confronto. A Globo é ditadora!
E o Moro acata! Eu não sou MORO ele é golpista.

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Giovana

17/03/2016 - 11h44

A ação do Moro é golpista e certamente tem alguém por trás disso. A rede Globo associada a Moro quer o golpe! Aécio nunca se conformou com o montante que roubou d quer o Lugar de Dilma, PMDB mamou a vida toda no governo federal e agora quer da um de bom? O que Temer quer é o lugar da Dilma.

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Francisco

17/03/2016 - 11h35

Lula no Ministério é, se Lula tiver tomado juízo, Lula em cadeia nacional cada vez que achar necessário entrar logo depois do JN e dizer: “o sujeito mau caráter que acabou de falar´no telejornal, falou mentira, por isso, isso e mais aquilo”.

Isso é ouro…

Quantas vezes quiser…

PS. Formar quadrilha com poder público visando desestabilizar o Estado através da incitação à violência social não e razão necessária e suficiente para cassar uma concessão pública de rádio e TV! Se não é, o que é!

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