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30 de abril de 2010 às 1:07

“O mundo gosta dos brasileiros e do que eles representam”

Um Ministério do Sol

da revista britânica Monocle, no artigo “A Ascensão de Brasília”

Tradução da leitora Marina Veiga

Uma rede de embaixadas crescendo rapidamente e um uso inteligente de sua cultura significam que o Brasil está fazendo amigos em todo o mundo. É só uma forma de conseguir um  assento no Conselho de Segurança das Nações Unidas ou uma nação emergente tentando mudar a ordem mundial?

Repórter
AndrewTuck, de Brasília

Fotógrafo
André Vieira

Em março, o presidente do Brasil, Luiz Inacio “Lula” da Silva e Celso Amorim, seu ministro de Relações Exteriores há seis anos, embarcaram em um vôo em Brasília destinado a Israel, territórios palestinos e Jordânia. Era a primeira vez que um líder brasileiro visitava a região desde que o imperador do país, Dom Pedro II, viajara até lá em 1876. Em maio, a dupla somará mais milhagens ao visitar o presidente Mahmoud Ahmadinejad do Irã.

Enquanto isso, em Brasília, eles tem demonstrado hospitalidade diante de uma porta giratória de agentes globais como a Secretária de Estado americana Hillary Clinton que, em uma visita de março, falhou na sua tentativa de conseguir o apoio do Brasil para novas sanções contra o Irã e seu programa nuclear. E Ahmadinejad também esteve aqui – sua visita foi vista pela mídia iraniana como “uma derrota séria para os sionistas”.

Está claro que o Brasil se tornou um intrigante agente no palco diplomático mundial, flexionando seus jovens músculos e usando seus cotovelos para gentilmente abrir espaço entre as velhas potências, especialmente os Estados Unidos, quando nescessário. E essa nova confiança é amparada em um boom de novas embaixadas e na expansão do corpo diplomático. Mas o que o Brasil quer de tudo isso?

Para alguns comentaristas ocidentais (e a classe média brasileira), o país está se colocando um pouco perto demais do Irã, Venezuela e China e negligenciando parceiros comerciais importantes (leia-se Estados Unidos e Israel) para, por razões políticas, tenta rearranjar seus canais diplomáticos com as capitais de nações emergentes. Outros pensam que o Brasil está simplesmente buscando o respeito que esta Nação florescente e rica em recursos merece e a promoção de novas alianças como contrapeso ao poder americano. Do que todos estão certos é que o Brasil quer ser ouvido e sua ambição-chave é conseguir um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Um diplomata europeu em Brasília disse à Monocle que tudo o que o Brasil faz deve ser visto a partir dessa ótica.

O pessoal que mapeia os novos caminhos diplomáticos tem sua base no Ministério das Relações Exteriores ou Palácio do Itamaraty, como é chamado – ele leva esse nome por causa da sua antiga sede no Rio de Janeiro, quando a cidade ainda era a capital. Desenhado pelo arquiteto Oscar Niemeyer, agora com 102 anos de idade,  o “novo” palácio é maior que qualquer dos ministérios vizinhos em Brasília, assim como seu poder — todos os outros se curvam aos seus desejos. Os ministérios das Minas e Energia e do Comércio muitas vezes fazem  sua política apenas em nível nacional; assim, quando o Brasil mandou sua comitiva à Conferência sobre Mudanças Climáticas, ela respondeu ao Itamaraty.

O Ministério também tem certa liberdade em relação à máquina política, seus empregados são diplomatas civis de carreira, inclusive Amorim (no entanto, todos acreditam que, por sua proximidade de Lula, Amorim vai embora quando terminar o mandato do presidente em janeiro).

O jovial embaixador Gilberto Fonseca Guimarães de Moura (um embaixador continua com o título mesmo quando retorna à base em Brasília) é o diretor de Mecanismos Interregionais, o que o coloca na liderança das relações em tudo, de Ciência a Assuntos Sociais, com uma longa lista de siglas e abreviaturas. Talvez as mais importantes sejam as ligações entre o Brasil e a parte RIC dos BRICs (Rússia, Índia e China), IBAS (Índia, Brasil, África do Sul) e ASPA (países Sulamericanos e Árabes).

Em seu organizado escritório no ministério, ele fala com orgulho de seu trabalho e dos numerosos eventos, conferências e grupos de trabalho em que está envolvido. “É um novo mundo e estamos construindo uma coisa nova. Não estamos mudando relações bilaterais importantes, mas criando uma nova  diplomacia interregional”, diz Moura.

Seu departamento também está envolvido em promover a herança árabe brasileira – o país conta com 12 milhões de pessoas com raízes árabes: 10 milhões do Libano, 2 milhões da Síria. (Gilberto também diz que o país tem 150 mil judeus e que os dois grupos se dão bem). O departamento ajudou a montar recentemente a comemoração pelos 130 anos da chegada dos árabes ao Brasil. “Os portugueses e espanhóis não poderiam ter chegado aqui sem a tecnologia árabe de navegação”, ele me diz.

Essa atitude deve agradar aos amigos do Brasil no Oriente Médio (no seu tour por lá, Lula falou que era hora de conversar com o Hamas, que o programa de assentamentos de Israel estava apagando “a chama da esperança” e que procuraria um tratado de livre comércio com a Autoridade Nacional Palestina). Mas Moura parece mais entusiasmado com assuntos mais práticos, de projetos ambientais a maneiras de conseguir usinas de dessalinização. “Nos sentimos muito à vontade no mundo”, ele diz.

Também fica claro que novos laços estão sendo forjados quando eu me espremo dentro do escritório forrado de livros de Antonio Augusto Martins César, o cabeça da divisão África I, e aproveito bem os cafés adocicados que ele me serviu. Em um mapa atrás de sua mesa, César aponta para sua área de interesse, que começa no Congo-Brazzaville e vai até o norte ao Marrocos, tomando toda a África ocidental. Antes um deserto para as missões brasileiras, sob Lula esta região viu seu número de embaixadas ter um boom – Bamako, Malabo e Lomé sao agora o lar de diplomatas brasileiros (em Brasília, ajuda ter um atlas ao alcance das mãos quando você é informado sobre os detalhes de seu novo posto diplomático). Serra Leoa pode ser o próximo.

César fala que os novos laços diplomáticos foram primeiramente estreitados com aquelas nações com as quais o Brasil tinha laços culturais (incluindo os paises lusófonos como Angola, que abriga 30 mil brasileiros), mas que o Brasil é recebido de braços abertos em todo o mundo pois “as pessoas olham para nós como um país que passou por situações e problemas semelhantes, mas que conseguiu superá-los”. Mas os céticos acreditam que essas novas embaixadas são apenas uma forma de angariar novos votos para se um dia aquele assento na ONU ficar disponível (muitos países ocidentais também dariam apoio para que o Brasil, junto com outros membros do G4 – Alemanha, Índia e Japão – se tornassem membros permanentes do Conselho de Seguranca). Mas, como a grande maioria das pessoas que conhecemos no ministério, Cesar parece simplesmente interessado em fazer novas conexões, não política cotidiana (apesar de dizer que essas conexões melhorariam se as companhias aéreas estabelecessem alguns outros vôos entre o Brasil e a África).

A chique Mariana Moscardo de Souza está ocupada com ligações do chefe quando vamos descobrir como a Nação está usando seu poder suave. “Só diplomatas são movidos a acordos comerciais”, brinca Souza, que dirige a divisão de promoção da cultura brasileira. Ela tem razão. Ao contrário do que acontece com debates econômicos, fazer o público se engajar com a cultura brasileira não é uma tarefa difícil – da música ao futebol, o mundo está aberto a esse lado do Brasil. Colocando simplesmente, o mundo gosta dos brasileiros e do que  eles representam. “Eu comecei trabalhando no setor cultural no momento em que isso se tornou um assunto importante para o ministério, começou a ter peso e agora ocupa uma parte especial da agenda política”, disse ela.

Souza trabalha com embaixadas e consulados brasileiros, ajudando-os a formar os seus calendários culturais em tudo, de música a arquitetura. Uma das jogadas de maior sucesso do ministério foi a Amrik, uma exposição de fotografias celebrando a cultura árabe na América do Sul, que já visitou a Argélia,o Egito, a Jordânia, a Síria e o Líbano. O Brasil se tornou hábil em usar sua cultura rica para fazer amigos.

Alguns dias mais tarde, no Rio de Janeiro, eu encontrei Raul Juste Lores na Livraria da Travessa em Ipanema. Fica na cidade por alguns dias antes de começar seu novo trabalho como editor de economia e negócios do jornal mais importante do Brasil, Folha de S. Paulo. Foi correspondente por dois anos em Pequim, vivendo realmente o laço com o briC. Mas está tão intrigado quanto cético com essas novas ligações, especialmente com o BRIC, termo cunhado pelo economista da Goldman Sachs Jim O’Neill, mas que tem agora vida própria.

“O BRIC se tornou realidade mesmo sendo um conceito muito raso. Mas foi ajudado pela crise global, que empurrou para adiante esses países, enquanto o poder dos Estados Unidos, Europa e Japão encolheu. Eu vi isso acontecer quando estava na China. No começo, ninguém do alto escalão do Partido Comunista queria ser entrevistado por mim – eu poderia muito bem estar a serviço de um jornal boliviano – mas dois anos depois, eles me ofereciam toda a sorte de entrevistas, pois queriam acesso ao Brasil”, disse ele.

Sobre o papel que o Brasil tem, Lores fala que Lula empurrou a economia para a direita e a política externa para a esquerda. Ele nota um desejo real de “redesenhar o mundo” e vê um sentimento antiamericano em jogo. E, insiste Lores, isto mostra-se eficiente num país em que muita gente tem uma duradoura e profunda desconfiança em relação aos Estados Unidos. “Na Segunda Guerra Mundial, o Brasil mandou milhares de tropas, mas no pós-guerra foi totalmente negligenciado pelos Estados Unidos, enquanto os outros aliados foram ajudados economicamente. Depois, os Estados Unidos apoiaram a ditadura militar. O povo se lembra disso”.

Porém, mesmo que o Itamaraty tenha jogado suas cartas com finesse, Lores acredita que Lula deu vexames, como quando sugeriu que os confrontos nas ruas de Teerã depois da contestada eleição presidencial pareciam uma briga de torcidas, quando comparou os dissidentes cubanos a criminosos comuns e disse que a greve de fome não deveria servir de pretexto para sair da prisão (um diplomata no ministério diz que as pessoas, especialmente fora do Brasil, esquecem que Fidel Castro foi um verdadeiro herói para muitos brasileiros durante os anos da ditadura milirar, e mesmo que saibam que ele agora não é bom, nunca o atacariam).

“Lula não é nem de longe um especialista em assuntos internacionais. Ele é apenas incrivelmente carismático e inteligente. Às vezes acaba dizendo a coisa errada – o que disse sobre Cuba foi pornográfico – mas as pessoas perdoam seus erros”, diz Lores. Pós-Lula, nos perguntamos se alguém conseguiria escapar ileso com tais declarações.

Por telefone, de Washington, Michael Shifter, o presidente do Programa Andino do Diálogo Interamericano e um comentarista sobre assuntos da América Latina, nos dá a sua impressão sobre a nova diplomacia brasileira. “É a expressão de uma busca mais profunda por um papel maior no palco mundial. Um assento no Conselho de Segurança é um objetivo muito claro, mas há também uma intenção de se estabelecer como uma potência global. Para mostrar que chegaram lá”.

Mas ele vê obstáculos à frente. O que pode acontecer depois que Lula sair do poder, o fato de que o Itamaraty só pode brigar apoiado em uma economia forte e, interessante, o alerta de diversos países latinoamericanos em relação ao Brasil. “Eles tem medo que os Estados Unidos se retirem e deixem o Brasil comandar a política externa. Eles querem multiplicar suas opções, não querem ficar sob a vontade do Brasil”.

Alethea Pennati Migita lida com um lado divertido do novo lugar do Brasil no mundo. É secretária de Protocolo no Itamaraty, outro papel que teve um repaginamento total sob Lula. O presidente não gosta de jantares à francesa, prefere almoços à americana. Isso está dentro do escopo de Migita, pois o Itamaraty é o anfitrião em todas as visitas de chefes de Estado – o presidente vem de seu palácio. E como Brasília vem se tornando uma capital cada vez mais importante para os líderes mundiais, os eventos são cada vez mais frequentes.

“Teremos dez chefes de Estado por aqui no próximo mês”, diz Migita. E, aparentemente, presidentes e monarcas se viram muito bem ao receber um prato e a informação de que devem se servir sozinhos ( pelo menos uma vez podem comer o que quiserem). E, como Migita nos diz, “casa muito bem com o jeito do presidente”. Cabe também como metáfora para a nova diplomacia do palácio: talvez um pouco problemática para os  tradicionalistas, estranhamente nova para outros, certamente quebrando algumas regras. Mas tudo feito com charme brasileiro, o que no final das contas deveria deixar poucos se sentindo ameaçados.

 

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