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Maria Goretti Nagime: Quando os silêncios gritam

02 de março de 2016 às 13h14

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A violência contra homossexuais nas escolas – Os silêncios que gritam

por Maria Goretti Nagime*

Na primeira vez que fui ao presídio feminino a funcionária pediu minha carteira da OAB e pediu para que eu aguardasse — ela iria chamar minha cliente.

Enquanto eu aguardava, olhei  ela janelinha. De forma inconsciente, o pátio do presídio me chamou nitidamente pra lembrança do pátio do recreio do meu colégio.

Fui alfabetizada numa escola excelente, mas que faliu por problemas de contabilidade.

Fui então pro colégio em que estudava a elite de minha cidade. Péssima ideia.

A diretora era genial, mas os problemas não chegavam até ela.

Alguns funcionários e puxa-sacos criavam aquela barreira semelhante à que se vê com algumas pessoas em cargos políticos.

O presídio me lembrou o pátio da minha escola pela forma com que alguns grupos olhavam uns para os outros.

Nos dois lugares — escola e presídio — dar um fora significava glamour. “Deu um coice em alguém? Arrasou!”.

Algumas pessoas excluíam outras pra demonstrar poder.

Pra vida de alguém virar um inferno não era necessário prejudicar um coleguinha: bastava que um dos “reis da gangue” não fosse com a sua cara.

Não me adaptei e guardo grandes amigos que também não se adaptaram.

Mas existe algo sobre isso de que nunca vou achar graça e nunca engoli, mesmo depois de tantos anos.

Um menino da sala, aos 12 ou 13 anos, nitidamente homossexual, era excluído pelos outros meninos e não entendia o porquê.

Devia se sentir inseguro e imaginar que estava fazendo alguma coisa de errado.

Acontecia todo dia, mas me lembro de um caso em especial.

Durante uma apresentação de trabalho, um dos meninos implicou com ele na frente da professora. Apontou pra ele.

Disse que ele era “veadinho” e que foi criado pela avó. Que graças a Deus não era como ele.

A professora não chamou a atenção. Ninguém disse nada.

Esse é um nó na garganta que nunca desfiz.

Hoje, anos depois, a vítima do bullying fica muito feliz quando é lembrada e incluída por esse grupo da sala.

Leva lindas mulheres em todos os eventos, tentando ser aceito.

O autor do bullying tem uma concessionária de carros perto de minha casa e finge ser uma pessoa digna.

Continua o mesmo babacão, claro, e por isso chamado pela conhecida patente de “homem de bem, politicamente incorreto”.

Não fiquei resolvida quanto a isso. Virou uma questão interna e me custou muito aquele silêncio naquele dia.

Fico muito mal cada vez que me lembro do episódio. Com certeza, outras pessoas da sala também guardaram isso.

Imagine quantos militantes LGBTs têm um nó na garganta assim, um trauma semelhante da infância.

Quantos adotaram a causa como algo pessoal, desde cedo, por terem assistido a esse tipo de covardia.

Quantos de nós vimos crianças apanhando ou sendo excluídas sem sequer entenderem o porquê?

Claro que já é um absurdo verem maldade em qualquer tipo de demonstração de amor, mas ver maldade no jeito de uma criança é muito pior.

Ver a covardia ainda criança é uma violência muito maior.

E eu ainda tenho de ouvir que uma criança que apanhou por isso não tem motivo pra defender ações afirmativas.

Parece óbvio que é necessário educar as crianças nas escolas para o respeito a todas as diferenças.

Mas, toda vez que essa bola é levantada, os “homens de bem, politicamente incorretos”, chamam de apologia à homossexualidade.

São os babacões da sala estimulando seus filhos a eternizarem a covardia.

*Advogada, cantora, feminista e militante

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Luis

02/03/2016 - 16h50

Parabéns pelo seu relato, emocionante e desesperante saber o que as pessoas diferentes sentem nestes ambientes “acadêmicos”, esse tipo de perseguição e outros tantos que vemos na sociedade “saudável”. Apoio aqueles que sofrem qualquer tipo de discriminação, pode ser qualquer um, isso é o triste da história. Sempre alguém com algum tipo de carência querendo parecer melhor que os outros, menosprezo por gordos, negros, homossexuais, heterossexuais, mulheres, homens, crianças, pessoas com deficiência visual “quatro olhos”, pobres, ricos, evangélicos, católicos, espíritas, budistas, enfim, temos de trabalhar a cabeça de todos e tentar provar por A + B que todos somos imperfeitos e todos somos lindos. Isso nos faz humanos.

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Bacellar

02/03/2016 - 16h16

Outro dia estava conversando com um grande amigo meu, um irmão, que conheço desde antes da época de colégio…Estudamos juntos nos anos 90. Naquele tempo não tinha essa de bullyng, era um pega pra capar…Chegavam ao nível de jogar as muletas e a mochila de um aluno deficiente físico no telhado do teatro só de sacanagem (maldade mesmo nesse caso). Sofri e cometi bullyng pois realmente era completamente naturalizado naquela escola (curioso hoje olhando pra trás me incomodam muito mais os abusos que cometi do que os que sofri, me arrependo muito embora fosse mesmo um mecanismo de auto-defesa)…

Enfim, voltando à conversa, estávamos lembrando algumas coisas do colégio e percebemos que num universo de pelo menos 120 alunos não havia um único homossexual assumido ou mesmo alguém de que se pudesse “suspeitar” ser gay. Estatisticamente isso é impossível. Destarte sem dúvida os homossexuais reprimiam completamente seu comportamento. Um horror.

Mas pelo menos creio estarmos avançando nisso ainda que devagar. Recentemente fiz algumas fotos em colégios públicos para uma ONG e percebi claramente mudança radical em relação ao meu tempo de colégio, turmas bem mais unidas e inclusivas. Penso que aos poucos, com o trabalho duro dos educadores, as coisas vão melhorando nessa questão específica.

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