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Jenny Turner: Quantos pares de sapato ela quiser

publicado em 6 de março de 2012 às 3:07

Quantos pares de sapato ela quiser

Jenny Turner, no London Review of Books

Tradução de Heloisa Villela

Mulheres jovens, modelo de cidadania britânica, vistas em recortes de jornal de agosto de 2011: Natasha Reid, 24, se confessou culpada pelo roubo de uma televisão da Comet [loja de eletrodomésticos], no norte de Londres, durante os distúrbios de sete de agosto. A mãe dela se disse perplexa com o comportamento da filha – ela tinha uma TV muito melhor em casa.

Shonola Smith, 22, se declarou culpada, junto com a irmã e uma amiga, por ter entrado na Argos, em Croydon: “O trágico é que vocês todas tinham bons antecedentes”, disse o juiz, ao sentenciá-las a seis meses cada uma.

Chelsea Ives, a “vergonhosa ex-embaixadora da juventude olímpica” de 18 anos, orientada pela mãe, se declarou culpada por roubo no domingo, e por distúrbios violentos (na rede de supermercados Somerfield, em Hackney) na noite seguinte.

“O público parece me colocar, automaticamente, em uma categoria anônima de indivíduos desprezíveis, o que eu não sou”, Chelsea escreveu “de trás das grades” em uma carta endereçada à autora Gillian Slovo, que o [jornal britânico] Evening Standard usou como uma oportunidade para publicar, novamente, a foto dela no Facebook, descabelada, feita por uma câmera de telefone. Chelsea começou a cumprir a sentença de dois anos de cadeia este mês.

Aqui, em resumo, está o problema do feminismo. Mulheres jovens, de bom caráter, perdendo a cabeça e desejando que não tivessem perdido. Você fica com pena delas, mas não pode sentir o que elas saborearam no ar enquanto estavam fazendo isso: liberdade, fúria, o poder – ao menos uma vez – de ser jovem e forte e ágil e parte da gangue, o puro prazer de colocar as mãos em algo gratuito.

“Esse é o melhor dia de todos”, disse Chelsea enquanto saqueava a loja da T-Mobile. “Tênis, roupas, celulares, IPods, Macs – possuir esses objetos equivale a um direito humano”, postou a escritora Chamaine Elliot no Blackfeminists.blog, recordando a própria juventude em Londres.

“Eu fui à Selfridges [loja britânica chique] uma tarde para visitar uma amiga e fiquei impressionada com os slogans das propagandas que diziam, à la Barbara Kruger [artista norte-americana conhecida pelas colagens], ‘Eu compro, logo, existo’. E não pude deixar de pensar que, como eu não podia consumir, então o que?”

No curso de verão da UK Feminista [movimento feminista britânico], em Birmingham, enquanto isso, Emily Birkenshaw, 24, uma professora assistente de York, estava aprendendo como deixar o corpo solto no momento da prisão. “Você fica mais pesada, não pode ser carregada”, ela disse ao [jornal britânico] Observer. “Simplesmente [fazer o curso] me fez sentir realmente mais poderosa”. A UK Feminista foi inaugurada no ano passado por Kat Banyard, de 29 anos, cujo primeiro livro, The Equality Illusion [A ilusão da igualdade], foi lançado quase ao mesmo tempo.

“O evento foi organizado para fortalecer o interesse crescente no movimento social, antes considerado fora de moda”, dizia um release sobre o curso de verão. Em junho, a UK Feminista juntou forças com a Object (a sílaba tônica é a segunda, “I Ob-ject”), uma outra organização nova e inteligente-jovem-feminista, que faz campanha contra a recente abertura de uma casa noturna da [revista pornô norte-americana, de Hugh Hefner] Playboy, em Londres. “Eff off Heff, pare de degradar as mulheres!”, gritavam os manifestantes. “Basta de homens sexistas, o império Playboy tem de acabar”.

Procure por elas no YouTube, com seus gritos educados, acenando seus cartazes com Acabe com as Coelhinhas: “Esse não é o retrato de quem tem poder/Este é o retrato de quem tem poder!”

[As manifestantes se referem aos retratos de mulheres nuas, em contraposição às que protestam contra a coisificação das mulheres]

Idealistas, bem organizadas, com compaixão e do tipo deixem-que-elas-comam-bolos, essas mulheres jovens não têm espaço em suas pranchetas limpinhas para consequências imprevistas, humor e nem mesmo humildade, quando se deparam com as pressões e a precariedade da vida da maioria das pessoas.

Mais do YouTube, fim de setembro. Object e UK Feminista andavam muito ocupadas, se vestindo com aventais brancos e aplicando tinta vermelha no rosto, abanando facões na porta da feira de pornografia XBiz, em Bloomsbury: “Simplesmente um bando de cafetões e açougueiros/Que fazem negócios com a vida das mulheres”.

Um homem barbado grita, amargo, prá elas, com uma credencial da feira XBiz no pescoço, uma garrafa de Stella [Artois, a cerveja] nas mãos. “Vocês são um bando de putas!” ele rosna. “Vou botar no cu de vocês todas”.

“A pornografia, hoje em dia, está mais e mais violenta, com mais punição corporal, degradação e ódio à mulher,” diz o press release da Object, o que é ao mesmo tempo verdadeiro e totalmente irrelevante.

Lá fora impera uma economia de livre mercado, claro que vai haver pornografia violenta enquanto houver gente fodida o suficiente para querer isso. E é claro que existe gente pronta para oferecer isso aos compradores. A escritora norte-americana Laura Kipnis alerta contra “ficar com os olhos marejados por causa das trabalhadoras exploradas da pornografia, quando você não pensa muito nas trabalhadoras da indústria internacional de tecidos ou de frango – para citar apenas dois exemplos”.

O que é engraçado, já que as meninas da UK Feminista estavam usando o mesmo chapéu que se usa para limpar as entranhas dos frangos ou arrancar suas garras. É ainda mais engraçado se você se lembrar que duas das mais famosas estrelas pornô também estão à frente de projetos de defesa dos direitos dos animais, que atacam a indústria avícola em particular: a modelo da Playboy e atriz Pamela Anderson (do seriado Baywatch e do filme Borat) e Jenna Jameson, rainha das campanhas da Peta [People for the Ethical Treatment of Animals, Gente pelo Tratamento Ético de Animais] contra a crueldade cometida pela [cadeia de lanchonetes] Kentucky Fried Chicken.

Fatias de frango, IPods, meninas nota A do subúrbio, com empregos na [loja de departamentos] Selfridges, sem condições de comprar as coisas que vendem: quantas vezes Object e UK Feminista trataram destes assuntos?

Qual é a importância de ser do sexo feminino para o dia-a-dia e as perspectivas futuras de uma mulher jovem, se comparado com ter nascido nos anos 90, ou ser da Somália, ou bonita, ou receber EMA [ajuda de custo para estudantes], ou ir a Oxbridge [universidades de Oxford ou Cambridge, as da elite britânica], ou não ter um GCSE [certificado de segundo grau completo]?

“Para deixar bem claro: ‘mulheres’ é uma categoria construída historicamente, discursivamente, e sempre em relação a outras categorias que também mudam”. Daí a poetisa-filósofa britânica Denise Riley, em Am I That Name, de 1998, um ensaio curto, divertido e brilhante, fala a respeito das várias maneiras como identidades fixas não funcionam.

“Essa ‘mulheres’ é uma palavra indeterminada e impossível de definir… é o que constitui o feminismo”, Riley conclui, contanto que as feministas estejam dispostas “a desenvolver uma versatilidade rápida, astuta”.

As integrantes da Object e da UK Feminista podem aceitar essas transformações, ou é justamente isso o que elas temem: que, se permitirem olhar o mundo ao redor, o feminismo — do tipo que acreditam conhecer e precisar — pode desaparecer completamente?

“Muita tinta já foi desperdiçada discutindo o feminismo… talvez não devessemos dizer mais nada sobre isso”: Simone de Beauvoir, bem no início de O Segundo Sexo (1949). “O assunto é irritante, especialmente para mulheres”.

Muito antes de gritarem “Acabem com as coelhinhas” [da Playboy] e se vestirem de açougueiras, as feministas eram pessoas chatas, não apenas misóginas e sexistas, mas exatamente as pessoas que você acha que gostariam mais de gente misógina e sexista. Era verdade no tempo das que lutavam pelo direito ao voto, como também durante o Women’s Lib, nos anos 60 e 70, e é o problema da geração de feministas da chamada “terceira onda”, que surgiu desde o início dos anos 90.

Nós conhecemos os traços raivosos que traduzem essa irritação causada pelas feminitas – a perna cabeluda da Millie Tant [caricatura britânica de militante feminista] que odeia homens, a senhora Banks na Mary Poppins da Disney, a defensora do voto feminino ocupada demais para cuidar dos filhos. E é óbvio que estes estereótipos têm sido usados para neutralizar a ameaça que a cultura em geral sente em relação às militantes. Mas essas caricaturas escondem um problema real: a confusão entre o eu e o outro, identidade e diferença, que você pode, benevolentemente, ver como um efeito colateral infeliz de ser para e pelas mulheres, tudo ao mesmo tempo; ou, menos caridosamente, pode ser a caricatura de uma introspecção narcisista.

É verdade que as mulheres, como gênero, foram sistematicamente prejudicadas ao longo da História, mas elas não estão sozinhas: a exploração econômica também é sistêmica e coerciva, e a de raça também.

As feministas precisam se envolver com tudo isso, com classe e raça, posse da terra e industrialização, colonialismo e comércio de escravos, ao menos por solidariedade com as irmãs menos privilegiadas.

E, ainda assim, é estranho como raramente o fazem: Elizabeth Cady Stanton foi contra o direito de voto para os escravos libertos; Betty Friedan se saiu com o slogan da era ao sugerir que as mulheres norte-americanas de classe média deveriam largar todo o trabalho de casa nas mãos de “empregadas em tempo integral”. Existem tantos exemplos desse tipo que seria engraçado elencá-los, não fosse desperdício.

Não que a brigada-branca-de-classe-média goste de estar lado a lado. Existe sempre uma tensão entre todas nós, sendo irmãs, todas iguais sob o olhar de um patriarca masculino opressor, e o fato de que não somos realmente irmãs, ou iguais, ou mesmo amigas.

Nós desprezamos umas às outras por sermos alinhadas e privilegiadas, nós detestamos umas às outras por sermos estúpidas integrantes de grupinhos.

Nós odiamos as bem sucedidas por serem exibidas, não aguentamos as mulheres-caranguejo que nos beliscam. Tudo isso produz uma baforada indescritível de emanações tipicamente feministas, essas declarações super educadas, ansiosas e cheias de jargão, com sua inveja e rancor subjacentes, essa perpétua cotovelada em disputa da superioridade moral.

Visto de certa forma – à  maneira de Joan Didion, por exemplo, em seu ensaio áspero, estranhamente nebuloso mas agudo sobre o Movimento das Mulheres, escrito em 1972 – a ideia do feminismo é obviamente Marxista, vem da ‘invenção’, como diz Didion, ‘das mulheres como integrantes de uma classe’, de uma busca de total transformação das relações, liderada pelo grupo mais explorado dos dias de hoje.

Então, por que as feministas raramente dizem isso?

Bem, algumas vieram para o movimento como marxistas, e falaram.

Sheila Rowbotham escreveu, em Womens’s Liberation and the New Politics (1969), que “a chamada questão das mulheres é uma questão da pessoa como um todo”; em 1976, Barbara Ehrenreich destacou que “não existe meio de entender como o sexismo atua em nossas vidas sem colocá-lo no contexto histórico do capitalismo”.

Outras enfiaram as categorias todas, a golpes de mão, no liquidificador: a “classe sexual” deve “em uma ditadura temporária” tomar “o controle da reprodução”, de acordo com Shulamith Firestone, em The Dialectic of Sex (1970).

Mais predominante, porém, foi o que Didion chamou de “resistência estudada à possibilidade de ideias políticas” – quem, em todo caso, já ouviu falar de um movimento feminista-radical adquirindo sua compreensão de mudança histórica a partir de um homem [Marx]?

Toda a tradição marxista estava reprimida, deixando um estranho buraco de escoamento que rapidamente se encheu com o mais terrível entulho: feridas sábias, herstory (a história dela), deusas da natureza, estupradas e desonradas; irmãs sob a pele, esfoladas e ligadas, como uma Centopeia Humana, em uma mesma biomassa; a difusão da violência sexual masculina, homens fodendo mulheres em todos os níveis de interação.

Então, a [campanha da] Women’s Lib começou, tentando construir uma tradição só das mulheres, livre de homens. Deste modo, despertando a consciência, ou o que às vezes se chamou de “grupo rap”, grupos de mulheres reunidas, analisando as frustrações da vida de acordo com seus novos princípios feministas, gradualmente sistematizando suas descobertas. E daí este slogan brilhante, do New York Radical Women, em 1969, de que o pessoal é político, uma conclusão tão cáustica que queimou gerações de tolice mística – o lugar da mulher, afinal, é em casa.

Mas isso também corroeu muitos limites e distinções úteis, entre a vida pública e a bolha pessoal, questões reais e triviais, demandas políticas e problemas e caprichos pessoais. “Subsolo psíquico firme” foi o nome que Didion deu a isso. Um movimento que começou querendo transformação completa de todas as relações estava florescendo contra a banalidade do que muitas mulheres, na verdade, pareciam desejar.

Em todo o mundo, de acordo com a UK Feminista, as mulheres desempenham 66 por cento do trabalho e ganham 10 por cento da renda. No Reino Unido, dois terços dos trabalhadores que ganham menos são mulheres, e mulheres que trabalham em tempo integral ganham 16 por cento menos que os homens.

Tudo isso é, sem dúvida, verdade, mas essas estatísticas escondem tanto quanto revelam. Um exemplo.  Em um artigo na Prospect, em 2006, o economista britânico Alison Wolf mostrou que a diferença de 16% esconde uma divisão ainda mais severa entre as jovens profissionais – cerca de 13 por cento da força de trabalho – que têm “carreira” e ganham tanto quanto os homens e as outras 87 por cento, que simplesmente têm emprego, geralmente organizado em torno das necessidades de suas famílias, e ganham muito menos.

O feminismo era e é majoritariamente um movimento destas 13 por cento – em geral brancas, de classe média, que falam delas e para elas em uma bolha cheia de espelhos.

Em Feminism Seduced, a socióloga americana Hester Eisenstein, que se confessa ‘feminista profissional’, escreve que ela está tristemente ciente de que a política do feminismo se tornou “muito compatível” com o mercado livre globalizado e com o pensamento neoliberal que o promove. As feministas escrevem livros, dão aulas, gritam slogans, trabalham em ONGs que contam todo tipo de ‘fábula bonita’ sobre como dar poder à mulher e sobre como é progressista se envolver com os principais aspectos da vida econômica.

Ela aponta aspectos nojentos do relatório do Fundo de População da ONU de 2006, que insipidamente triangula a “cadeia global que, diz o relatório, oferece aos trabalhadores migrantes benefícios consideráveis, apesar de ter algumas desvantagens sérias;  do lado positivo, “presentes”, dinheiro extra para enviar para casa, oportunidade de viajar, e para os muçulmanos trabalhadores domésticos dos Emirados [árabes], a oportunidade, talvez, de fazer o Hajj [peregrinação a Meca].

A realidade é bem diferente para mulheres pobres em países pobres – isto é, para a maioria das mulheres do mundo. Que oportunidades realmente esperam por elas quando conseguem um emprego?

De acordo com a pesquisa citada por Eisenstein, existem, basicamente, quatro alternativas: trabalho em fábricas de roupa em zonas de exportação, migração, serviços sexuais ou microcrédito. Antigamente, as libbers [feministas] em seus grupos falavam do conceito do “click! do reconhecimento” de Jane O’Reilly: a súbita compreensão de que um problema muito entediante, muito dia-a-dia, muito básico até para ser mencionado era, de fato, urgente, compartilhado e politicamente vital. Lendo o livro de Eisenstein, o click! surge como uma bofetada.

Como as feministas ocidentais se afastaram tanto da realidade?

Estreitando o foco, pensa Eisenstein, sobre a cultura e a conscientização e os testemunhos pessoais, negligenciando o que ela chama de “a economia política do feminismo”, e em particular, das peculiaridades econômicas que provocaram o surgimento do movimento de libertação das mulheres quando e onde ele aconteceu.

Não importam a pílula, a minissaia, o “problema sem nome”, como diz Eisenstein: tudo isso é distração.

A ascensão do feminismo ocidental aconteceu porque houve uma grande virada, em torno dos anos 70, das mulheres de classe média da casa para o trabalho: em parte, sem dúvida, porque buscavam realização e a independência financeira, mas muito também porque os salários, em média, estavam caindo.

As mulheres entram no mercado de trabalho, em grande número, em outras palavras, quando o “grande boom” dos anos do pós-guerra estava terminando, e já que a maioria das mulheres ocupa os postos de menor remuneração – meio expediente ocasional, sem habilidade específica, trilha-mamãe – quase todas foram direto para o “elevador que estava descendo”, frase cunhada pela historiadora econômica Teresa Amott. Esse tem sido o caminho para a maioria das mulheres, desde então.

O feminismo, segundo a socióloga Angel McRobbie, vem se desarticulando e desfazendo, com pedaços sendo arrancados, refeitos e reconfigurados, e outros tantos pedaços abandonados. No momento, os elementos populares incluem “ganhar poder”, “escolha”, “liberdade” e, acima de tudo, “capacidade econômica” – o pacote neoliberal nu e cru.

Está certo para qualquer “mulher jovem, agradavelmente alegre, capaz e vistosa” ter esta aspiração. Não importa se ela é negra ou branca ou mestiça ou asiática, gay ou hetero, ou qualquer outra coisa, contanto que seja trabalhadora, animada, e fique feliz de ser fotografada segurando seu certificado nível-A no Daily Mail.

Venderam um trato a essa mulher jovem. Enquanto ela trabalhar firme e não jogar tijolos ou fizer perguntas estranhas, ela pode ter a quantidade de qualificações, abortos e pares de sapato que quiser.

“Por que um livro?” perguntou, recentemente, Louis Menand, na New Yorker, em um artigo sobre como a publicação, em 1963, do The Feminine Mystique, de Betty Friedan – sobre esposas ricas e educadas do subúrbio que padeciam do “problema da falta de nome próprio” – se tornou “catalisador de uma mudança social”.

“Mas por que um livro? Porque não um processo na justiça, um boicote, como no caso do movimento de direitos civis – algo que questionasse uma lei vigente?” Talvez, ele especula, tenha sido “porque as mulheres tinham acesso relativo ao livro, em casa, praticamente sem obstáculos, como autoras e como leitoras”.

Não importa Emma Goldman e sua dança: para a revolução atingir mulheres de classe média no começo dos anos 60 tinha que ser algo que você pudesse acessar em casa, entre a faxina e os drinks. Essa hipótese dos “livros como bombas” somente funciona para mulheres de classe média, é claro. As mulheres da classe trabalhadora não tinham tempo à toa de tarde, estavam trabalhando, talvez limpando ou cuidando dos filhos das mulheres ricas que estavam ocupadas lendo, se descobrindo ou procurando algum trabalhinho.

“As pessoas gostam de apontar livros como a causa de uma nova forma de pensar”, argumenta Menand, “possivelmente pelo mesmo motivo que leva as pessoas a preferir anedotas a evidências estatísticas. Um livro personifica um assunto. Ele tem um efeito Erin Brockovich”. As pessoas não querem formas especialmente verdadeiras ou novas ou arriscadas de pensar sobre o feminismo, elas querem apenas uma das “fábulas bonitas” de Eisenstein com um papel para a Julia Roberts.

Se o feminismo quer fazer sentido para as pessoas da bolha cheia de espelhos, ele tem que se apresentar como uma narrativa de gênero tradicionalmente feminina, como um info-entretenimento bem acabado, de alta qualidade, com fofocas do showbiz, glamour e estrelas.

É possível discordar disso completamente e ao mesmo tempo perceber que Menand tem alguma razão. As ideias feministas circularam nos anos 60 e 70 através dos livros, entrevistas em revistas e no novo formato de programa de bate-papo na televisão. A montagem em Women – um documentário em série de Vanessa Engle, veiculado pela BBC no ano passado, mostrou o momento da criação em ação.

A ex-atriz criança Robin Morgan (Sisterhood Is Powerful, 1970), estranha e pronta para a entrevista em enormes óculos escuros; Susan Brownmiller (Against Our Will, 1975), calmamente dando cabeçadas em um editor bajulador, do sexo masculino, durante o protesto no Ladies’s Home Journal, em 1970. E Germaine Greer, é claro, uma ninfa moderna de cabelo cortado em camadas: “É uma moleza ter um orgasmo. Posso dar um orgasmo ao meu gato!”

E desde então, esse modelo do livro-como-bomba se tornou sinônimo do feminismo em geral: Naomi Wolf (The Beauty Myth, 1990), Susan Faludi (Backlash, 1991), Ariel Levy (Female Chauvinist Pigs, 2005) – campeões de venda e livros de estréia de jornalistas norte-americanas, jovens e inteligentes e energéticas, cabeludas e de olhos vivos.

Inesperadamente, porém, o filme de Engle captura a sombra, um fantasma que ainda vive, ou algo mais. Em um trecho especialmente amarelado, uma mulher jovem e uma criança pequena em um capote de crochê são vistas juntas em uma cozinha sombria sob o horror espumante da máquina de lavar pratos. O programa não diz, mas o trecho vem de um filme da BBC chamado People for Tomorrow, feito por Selma James em 1971 e agora disponível de graça no website da BBC.

O filme segue o dia a dia das mulheres de Peckham, Belsize Park, Bristol, e analisa o que pode mudar na vida delas e como fazer isso acontecer, em um movimento que é simples e concreto, mas leva a uma dialética elegante.

“É muito ruim para as crianças ver a mulher sempre fazendo toda essa limpeza o tempo todo”, a mãe diz neste trecho.

“Eu venho lutando contra isso a minha vida toda, o condicionamento que recebi da minha mãe, e aqui estou… fazendo a mesma coisa com as minhas duas filhas”.

O movimento Salários para Donas de Casa de James hoje é lembrado, quando é, como um traste, um botton engraçado preso à lapela de Wolfie Smith.

Mas na verdade ele era uma tentativa intelectualmente ambiciosa de sintetizar marxismo, feminismo e pós-colonialismo, e sem as hifenações usuais. O trabalho doméstico, embora não reconhecido como trabalho porque não é remunerado, é tão necessário para a economia quanto o trabalhado assalariado. A força de trabalho precisa ser alimentada, vestida, lavada, confortada, como também sua prole, a força de trabalho do futuro.

“Nestas páginas nós colocamos a dona de casa como figura central”, James escreveu com sua coautora, a escritora socialista-feminista italiana Mariarosa Dalla Costa, em The Power of Women and the Subversion of the Community (1972).

“Nós pressupomos que todas as mulheres são donas de casa, mesmo as que trabalham fora continuam sendo donas de casa. Em nível mundial, isso é precisamente o que o trabalho doméstico tem em particular… isso determina o lugar da mulher onde quer que ela esteja e não importa a que classe social ela pertença”.

Por muitos anos, a única peça disponível do trabalho de James foi este folheto “Power of Women”, geralmente um bom sinal quando você o avista na prateleira de um novo amigo, pequeno e rosa choque.

O filme, porém, é uma introdução melhor, e começa com a própria James, com fone de ouvido, batucando na sua máquina de escrever: “Como milhões de mulheres em toda parte, eu sou datilógrafa. Eu sou dona de casa, mãe e já fui operária. Nos últimos 25 anos, me envolvi com políticas revolucionárias”.

Ela nasceu em Nova York, em 1930, e veio para a Grã Bretanha nos anos 50 como mulher de C.L.R.James, que conheceu enquanto era ativista adolescente.

Os escritos dela (uma seleção será publicada no ano que vem) mostram como a política nasceu diretamente da experiência diária. E como C.L.R.  a ajudou a começar:

“A maneira de fazer”, ele disse, “é pegar uma caixa de sapatos e fazer um corte na tampa; assim, toda vez que você tiver uma ideia, anote e coloque o papel na caixa de sapatos. Depois de um tempo, você abre a caixa, coloca todas essas frases em ordem e tem um rascunho”… Eu sabia que se eu ficasse em casa, sem trabalhar, para escrever este rascunho, eu acabaria limpando e cozinhando ou arcando com grande parte do trabalho doméstico, por isso dei um jeito de passar o dia na casa de uma amiga… Eu não tinha distrações nem desculpas. “Eu abri a caixa de sapatos e por volta de seis ou sete da noite, como ele havia dito, eu já tinha um rascunho de um panfleto”.

O objetivo de Wages for Housewives não era reduzir a política a pratos sujos, mas o contrário: os pratos sujos se tornaram um índex de um trabalho, um papel, um balé doméstico que incluía “administrar as tensões e servir de todas as formas àqueles – homens e mulheres – que tinham funções remuneradas, deveres de escola, deveres de casa e aqueles que estavam perturbados por causa do desemprego”; absorvendo “expressões de ódio que não são permitidas em outro lugar”; fazendo as coisas voluntárias com as quais ninguém mais tem tempo de se preocupar, de sociedades religiosas a grupos de apoio da biblioteca, de cooperativas de compra de comida a socorro a desastres e todas as coisas que acontecem constantemente, sem parar, nas economias pobres mais do que nas ricas.

“A maior parte do trabalho de casa invisível e que não se contabiliza”, ela acrescenta, “é feito no mundo não industrializado”. James também tentou manter clareza e honestidade a respeito das diferenças de raça e de classe entre suas companheiras, sem extrapolação ou sentimentalismo ou presunção ou viagem de culpa do tipo sou-mais-oprimida-que-você:

O que temos tentado fazer… é desenvolver uma visão de mundo unificada, isso é, uma visão holística de todas as divisões entre nós e como elas se conectam, para construir um movimento que enfraqueça essas divisões… Nós somos divididas de muitas e muitas maneiras. Nomeando e examinando essas divisões, nós podemos chegar a um conceito unificado da real relação entre nós, ao mesmo tempo sutil e completo.

James nunca foi uma figura popular no movimento de mulheres ocidentais, e é esnobada por boa parte da corrente majoritária. Existem acusações de fanatismo, cultismo, comportamento sectário. “Como Testemunhas de Jeová”, escreveu Jill Tweedie em 1976 em um artigo reproduzido em uma coleção jornalística do [diário britânico] Guardian, “Selma James e suas entusiasmadas irmãs… em conferências bombásticas, gritam de plataformas, gesticulam na televisão, queimam com uma febre estranha”.

Até mesmo Barbara Ehrenreich se torna um pouco raivosa: “Batalhas entre amantes e esposos estouraram por causa de cozinhas meladas, pilhas de roupa suja e de quem era a vez de lavar os pratos”, como se não houvesse outra maneira de se pensar no trabalho doméstico a não ser o tratando como uma comédia de costumes, com todas as falas mais cáusticas reservadas para você.

Em People for Tomorrow existe um diálogo, próximo do fim, entre James e um homem jovem, de rosto doce e costeletas ruivas, fazendo compras com sua mulher jovem de permanente.

“Quanto tempo você passa com seus filhos?”, Selma pergunta, atrás da câmera.

“Ah, muito pouco, somente um dia por semana, no domingo.”

“Você acha que está perdendo algo?”

O homem concorda que sente falta das crianças, mas “alguém pode sugerir uma saída melhor”?

“Bem, é isso que o movimento de libertação da mulher está tentando fazer”, diz Selma.

“Você acha que vale à pena?”, ela pergunta à mulher, e a mulher diz “Não”, com risadinhas.

“Nós perguntamos o que ela acha que perderia”, diz Selma, e a mulher diz que não consegue imaginar um homem com as crianças o dia inteiro.

“Eu acho que ninguém deve passar o dia inteiro com as crianças”, diz Selma. “Mas por que ele não deve ficar com as crianças alguns dias e você outros e, talvez até, juntos? E talvez no bairro, todos os pais de um bairro poderiam se ajudar com as crianças?”

“Essa, provavelmente, é uma boa ideia”, diz o marido. “Mas você teria que alterar toda a estrutura do trabalho, por exemplo, não teria, para quebrar os dias em meio expediente?”

“Isso é o que queremos fazer”, diz Selma. “Esta é uma das ideias que queremos explorar”.

Quarenta anos depois, e as mudanças são, de certa forma, impressionantes: onde eu moro, no sudoeste de Londres – na mesma rua onde James filmou um dos grupos de discussão de mulheres – é muito comum ver homens cuidando dos filhos, assalariados em escolas e creches e não assalariados em casa.

Trabalho de meio expediente é comum, como tempo flexível também é, trabalhar em casa, fazer freelance, várias atividades ao mesmo tempo.

A igualdade é regulada por estatuto. Existe uma creche financiada pelo estado e um centro infantil Sure Star na escola primária, do outro lado da rua; pode-se ir a pé a duas bibliotecas, existem quatro parquinhos e dois parques; e muitas outras coisas que, quando você olha à distância, fazem Camberwell se parecer com New Jerusalem, apesar de que, de perto, você pode ver como o bairro é de terceira, e caído, e meio-cru.

Talvez outra razão para James ter sumido com tanta frequência é porque, por mais de meio século, ela manteve a atenção pacientemente focada nestas realidades perpetuamente decepcionantes.

Por que continuar esfregando a cara em tudo isso quando você pode ler algo mais divertido? E ainda assim, se você se mantém firme nesse princípio, vai começar a ver porque pessoas como ela se preocupam tanto com os serviços públicos, ruins e sem o financiamento necessário como são, e que provavelmente ainda vão piorar.

Estes serviços públicos te dão uma folga, uma rede de segurança, um respiro; e aí, com este espaço cerebral extra, você pode usá-lo para ganhar mais. E aí, você pode encontrar um meio de ganhar mais. E mais, e mais, e mais, e mais e mais.

“Somente mulheres”, diz a página do Yahoo para a London Feminist Network [LFN], outro círculo de jovens-britânicas-feministas. “Para todas as mulheres feministas dispostas a apoiar a organização e seus objetivos: ‘para aumentar a resistência das mulheres à violência dos homens contra a mulher em todas as suas formas, por exemplo, est*pro, assalto sexual, violência doméstica, p*rnografia, pr*stituição, pobreza feminina, guerra & militarismo etc.’.

As vogais foram deixadas de fora, presumivelmente, para evitar que a página seja selecionada em pesquisas sobre estupro, pornografia, prostituição – três dos assuntos mais populares em pesquisas na internet.

Desde o começo, então, a LFN não pode mencionar diretamente três de suas categorias mais importantes  — um ato de violência, uma forma de representação, um emprego vil. Todos conectados, de todas as formas, mas conectados com todo tipo de coisa também. Estrpo, Prnografia, Prstituição. Todos apagados, para lá do pálido, indiscutíveis.

O triângulo Est-Prn-Prs se tornou proeminente, pela primeira vez, com o feminismo radical de Nova York nos anos 70 – a pornografia era a teoria, o estupro a prática, como disse Robin Morgan. Em seu livro de memórias do período, Susan Brownmiller escreve que foi “uma coincidência miserável de tempo histórico” que “uma indústria subterrânea bilionária de pornô leve e pesado começou a florecer… simultaneamente com a ascensão do movimento de libertação da mulher”, mas não havia nenhuma coincidência nisso: eles eram, ambos, aspectos da liberalização da economia de mercado.

E algo semelhante está acontecendo no momento, com o pânico sobre a “sexualização”, “pornificação”, e a “comercialização da infância”.

É claro que os negócios vão tentar vender coisas sexy para as crianças, se acharem que o mercado adulto está saturado. Claro que os pornógrafos querem se tornar a tendência dominante. E é claro que a tendência dominante recebe bem essas iniciativas porque sexo é sexy e todo mundo está sempre desesperado por algo novo. E ele se torna ainda mais sexy quando você afirma ser contra ele, o que significa que você passa a falar sobre ele frequentemente, com o prazer extra da desaprovação e da retidão.

Algo assim existe até mesmo na crítica elegante de Ariel Levy à “cultura da obscenidade”, porcas fêmeas chauvinistas, e em Living Dolls (2010), trabalho menos condenatório de Natasha Walter.

Pornô anti-pornô, basicamente, com uma relação interessante entre proletário-isca –  onde a palavra “vulgar” não precisa se referir necessariamente ao estado de nudez das pessoas.

De Pornography: Men Possessing Women (1981) ao medonho artigo de 2000 na [revista] New Statesman, no qual ela escreveu sobre o próprio estupro-com drogas em um quarto de hotel em Paris, a modelo desse gênero era Andrea Dworkin, que escreveu várias vezes sobre vitimização sexual, dela própria e de outras mulheres, em ficção e realidade, no jornalismo e em memórias.

Eu costumava me surpreender ao ver tanto ser escrito, com frequência, sobre isso, e com tanto sentimento, nas páginas dos jornais, até que entendi: texto chamativo. “Masoquismo feminino obsessivo alimentado pelo êxtase da auto exposição pública,” nas palavras da excelente Laura Kpnis. “Uma perfeita tempestade narcisista de alto-nível embrulhada em um convite para censura social.”

O texto de Dworkin decididamente não era, porém, um tipo de campanha bem pensada anti-estupro. No livro de memórias Heartbreak (2002), o último publicado antes da morte dela em 2005, Dworkin escreveu: “Eu passei a maior parte da minha vida adulta ouvindo estórias de estupro… Eu não podia me mexer, quase não podia respirar – eu tinha medo de machucá-la, cada mulher, com um gesto que parecesse menosprezá-la ou por um olhar no meu rosto que pudesse ser confundido com incredulidade”.

Suponhamos que você seja essa “cada mulher”. Você pediria ajuda a uma egomaníaca, ímã de vítimas, que sai correndo para escrever sobre a dor que ela sente com a sua história? Você não preferiria uma companhia mais quieta, mais calma, que não se altera, com aquele comedimento treinado dos assistentes sociais, que pode parecer tão sem expressão e frustrante, mas que está presente no minuto em que alguém realmente está sofrendo?

“Como me tornei quem eu sou?” continua Dworkin em suas memórias. “Eu fui despedaçada pela segregação e pelo Vietnã. O apartheid destruiu meu coração. O apartheid na Arábia Saudita ainda me dói no coração… Eu não posso ser comprada ou intimidada porque já estou dividida ao meio”. Andrea Dworkin, um cosmos, infinita e sofredora, em seu macacão gigante.

Membros da London Feminist Network foram apresentadas no papel principal no terceiro filme “Ativistas” da série Mulheres, de Vanessa Engle. “Eu suponho que tudo se resume à violência masculina contra as mulheres”, alguém diz. “Violência sexual”, diz outro.

“Tráfico sexual e mutilação da genitália feminina”. “Violência sexual, em particular, violência doméstica”. “Pornô é um assunto muito importante para mim”. “É impossível sair de casa sem me sentir moralmente ofendida”, diz a vibrante e enfática Finn Mackay, a estrela ativista de pouco mais de 30 anos. “Isso é doença, sociedade doente”.

Mackay diz que a primeira vez que quis ser feminista foi quando ela tinha seis ou sete anos e ouviu falar de Greenham Common. Ela saiu de casa adolescente para se juntar a um outro grupo de mulheres, depois foi criar a LFN, Object e o ressuscitado Reclaim the Night.

Ela agora está escrevendo uma tese de PhD sobre suas atividades feministas, vai a uma reunião feminista quase toda noite e lê  o mínimo cem e-mails de atividades feministas por dia. “Eu tenho a raiva feminista… é quase como ingerir a pílula azul no Matrix… você entende, você passa a ter um outro olhar para a forma como a sociedade funciona.” É quase uma linguagem religiosa, completa: conversão, regeneração e separação do mundo à sua volta.

Denise Riley, como antes:

Alguém pode habitar completamente um gênero sem sentir algum grau de horror? Como alguém pode “ser uma mulher” completamente, sentir-se totalmente em casa nessa classificação, sem sofrer de claustrofobia? Viver a vida mergulhada na consciência apaixonada de ser integrante de um gênero, em todos os momentos, desejar pertencer violentamente a um sexo – são impossibilidades, e muito distantes dos objetivos do feminismo.

Outros problemas de saturação do gênero foram dramaticamente expostos no artigo chamado American Electra: Feminism’s Ritual Matricide, de Susan Faludi, publicado na [revista norte-americana] Harper do ano passado.

“O feminismo americano… não descobriu ainda como transferir poder de uma mulher a outra, como deixar autoridade como herança para seus descendentes”, ela argumenta, e seu artigo reúne uma lista engraçadíssima de acusações colhidas em “reuniões de ativistas e encontros de estudiosos”: Mean Spirits: the Politics of Contempt between Feminist Generations [Espíritos Daninhos: a política do desprezo entre gerações de feministas]; Are Younger Women Trying to Trash Feminism? [Estão as jovens feministas tentando jogar o movimento no lixo?]; The Mother-Daughter Wars [Guerra entre mães e filhas]; Am I My Mother’s Feminist? [Sou a feminista desejada pela minha mãe?].

“O movimento”, diz ela, “nunca parece ser capaz de estabelecer um patrimônio hereditário duradouro – para se reproduzir…

O que se passa adiante é a predisposição de desapropriar, o legado da não-herança.” Se Faludi seguisse o conselho político-econômico de Eisenstein, acho que ela descobriria que metade dessas metáforas ultrapassadas cancelam a outra metade.

Ainda assim, este “legado da não-herança” se tornou um seriado nos três filmes de Vanessa Engle. No primeiro filme, o encantador “Libeers”, editado com imagens contemporâneas e com material de arquivo, as estrelas aparecem atingindo a velhice: Kate Millett, curvada em seus crocs [tipo de chinelo de borracha], ainda fumando com prazer; Germaine Greer, cacarejando com seu pavão; Marylin French, pouco antes de sua morte aos 79, minúscula, angustiada, muito doente.

Porém, a figura que falou mais claramente para a história foi Susan Brownmiller, molhando as plantas em seu apartamento de Nova York, em meio aos passos de sua aula de street-dance aos setenta e poucos anos: “Tantas coisas ainda precisam ser modificadas, e a nova geração vai ter que aprender que você só pode fazer isso se tiver um movimento. Mas elas também vão aprender, e é uma lição triste, que você não pode lançar um movimento – de repente existe uma massa crítica de gente esperando para fazer algo com outras pessoas, e isso é algo que não se fabrica”.

O segundo filme traça o perfil de um bando de mães de classe média aparentemente desinteressantes, discutindo se em suas casas o trabalho é feito pela mulher ou pelo homem.

“De que maneira você é diferente de uma dona de casa dos anos 50?” a voz por trás da câmera pergunta.

O último filme é sobre a London Feminist Network e suas organizações irmãs, e o renascimento do feminismo que dizem estar acontecendo agora. Presumivelmente, as provas de tal movimento devem incluir livros como Reclaiming the F-Word de Catherine Redfern e Kristin Aune, que é o livro do website F-Word [Nota do Viomundo: Trocadilho com o fato de que F Word é usado em inglês para esconder o palavrão fuck], e The Equality Illusion, de Kat Banyard.

“Um novo apogeu para o feminismo britânico”, garantiu Kira Cochrane no [diário britânico] Guardian, “uma explosão repentina de publicações feministas britânicas depois de uma extensa seca”, mas com certeza isso é um exagero. Então uma meia dúzia de escritores tenta a sorte no modelo empresarial de livros-como-bombas, assim como outros copiam “O Código Da Vinci”.

E com relação às blogueiras feministas, isso é apenas um desses hobbies secretos, como pornô caseiro e artesanato, que de repente se tornou visível porque a tecnologia permitiu? (Zadie Smith sobre “a grande onda pornográfica”, em 2001: “Nem tudo é ruim. Estamos falando de mulheres cujos desejos sexuais não estão mais sendo sublimados fazendo colchas.”) As duas, Redfern/Aune e Banyard, fazem esforço para atingir leitoras mais jovens que precisam de instruções básicas, e parecem ter decidido que para fazer isso é preciso eliminar todos os aspectos interessantes, políticos e econômicos e rixas e divisões. Desconfio que esta visão esteja equivocada.

“Às vezes as coisas que parecem mais difíceis têm as respostas mais simples”, escreve Nina Power já quase no fim de seu livro One Dimensional Woman. Ela, então, passa para Toni Morrison falando à revista Time em 1989.

Sobre lares  com apenas um dos pais: “Dois pais não podem educar uma criança tanto quanto um. Você precisa de uma comunidade inteira… A pequena família nuclear é um paradigma que não funciona mais. Não funciona para brancos ou para negros. Não sei porque estamos nos prendendo a ela”.

Sobre gravidez de adolescentes solteiras: “A Natureza quer que aconteça nessa hora, quando o corpo pode dar conta, não aos 40, quando o salário é compatível… A questão não é moral, é financeira. Por isso nos aborrecemos”.

Sobre como quebrar o “ciclo de pobreza”, já que “não se pode simplesmente distribuir dinheiro”: “Por que não? Todos os outros recebem tudo de mão beijada… Falo sobre o que as pessoas da classe média e da classe rica recebem sem fazer esforço, o nepotismo, o velho clube dos rapazes. Essa é a recompensa compartilhada da classe”.

E a educação? Se todas essas jovens passam os anos da adolescência tendo bebês, não poderão se tornar professoras e neurocirurgiãs, sem falar que vão perder acesso a cerveja barata, cartões de crédito de lojas e dormitórios estudantis.

Morrison retrucou com esplendor: “Elas podem ser professoras. Podem ser neurocirurgiãs. Nós temos de ajudá-las a se tornarem neurocirurgiãs. Esse é o meu trabalho. Eu quero tomá-las nos braços e dizer: ‘Seu bebê é lindo e você também é e, meu amor, você pode fazer isso. E quando você quiser ser neurocirurgiã, me ligue – eu tomarei conta do seu bebê. Esse é o comportamento que se deve ter com a vida humana’.

Power, que dá aulas de filosofia na Universidade Roehampton, chegou ao feminismo por um ângulo incomum. Como estudiosa de marxismo e filosofia continental, ela é muito lida nas tradições radical-modernistas – portanto One Dimensional Woman, do livro de Marcuse sobre como a “democracia liberal e consumista” do pós-guerra tornou o “homem” ocidental obtuso e sem graça. Ela também é uma das principais escritoras da web com um blog soberbo, Infinit Thought, desde 2004.

E ela é relativamente novata, o que significa que toda essa história dos anos 60-80 não faz parte da história dela. Para ela, o passado do feminismo é visto como história, com ironia e distanciamento.

Dois pontos a respeito do método de Power, com relação a Toni Morrison e outros modelos do passado. Como sua colega autora de Zero, Owen Hatherley, Power tem uma atitude curatorial, quase antiquária com relação às relíquias do radicalismo clássico, que ela admira. Ela escreve sobre “a simplicidade cristalina da compreensão de Morrison sobre as relações entre classes, raça e gênero”.

Quão acolhedor e generoso da parte de Power convidar uma estranha e depois sentar, relaxar e deixar que ela tome conta. Que estranho e corajoso da parte dela colocar uma citação tão longa e notável de uma escritora fora de moda tão próxima das últimas palavras de seu próprio livro. E quando você pensa nisso, que explosivo da parte dela: “Quando você quiser se tornar uma neurocirurgiã, me chame.” Todas as nossas suposições são destruídas por esta pequena e lacônica declaração.

E isso, certamente, é apenas o começo. É óbvio – agora Power-Morrison disseram – que qualquer política que valha à pena tem que começar com a família nuclear: sua impossibilidade, seu desperdício, sua contingência histórica.

As crianças são as mensagens que a família, a sociedade, a cultura, a civilização, enviam ao futuro e ainda assim, todo dia surgem novas evidências de que educar crianças com as pessoas que têm acesso a tudo, não parece estar funcionando.

Elas comem demais, nossas pequenas mensagens, elas se matam de fome, elas se adoram quando não estão se deliciando ou se maltratando. Elas não querem estudar medicina ou aprender a dar aula quando podem simplesmente “estar na mídia”. E essa obviedade detona pequenas fogueiras que brilham retroativamente através das décadas.

Existe Selma James e a estranha marginalização de suas ideias, para não mencionar a forma como a imagem de toda-a-família-em-uma-casa segue sem questionamento, até mesmo pelas feministas, lésbicas, casais gay, defensores dos pais-solteiros, para não falar no governo, nos comerciais, na mídia popular, etc.

Não foi sempre assim. A crítica da família nuclear certinha, como berço do consumismo, das neuroses, da miséria em geral, era central para o feminismo nos anos 70.

Aqui está Adrienne Rich falando sobre “a instituição da maternidade” em Of Woman Born (1976): “Isso cria uma divisão perigosa entre a vida ‘pública’ e ‘privada’; calcifica as potencialidades e escolhas humanas. Aliena as mulheres de seus corpos, prendendo-as neles.” “Muita coisa indica”, escreve ela, “que a mente masculina sempre foi perseguida pela força da ideia  de dependência da mulher para ter a vida, o constante esforço do filho para assimilar, compensar ou negar este fato.”

O livro de Rich foi muito influente em sua época, e esses argumentos resultaram no crescimento de creches e paternidades compartilhadas no norte de Londres nos anos 70, onde se dava atenção “às necessidade de saúde das crianças, espaço para brincar, educação, necessidades de moradia das mães, tudo mais que pudermos pensar”,  de acordo com Lynne Segal.

E ainda assim, poucas décadas depois, tudo isso parece ter sido enterrado, estilo Planeta dos Macacos, sob um amontoado de chicklit [Nota do Viomundo: gênero literário que tem como personagem central mulheres na faixa dos 30, em geral preocupadas com a aparência e relacionamentos] e Supernanny e I Don’t Know How She Does It, e a coleção de purês de Annabel Karmel.

Como o que se passou antes pode ter sido intensamente esquecido? O ato da dobradinha Power-Morrison faz exatamente o que uma intervenção dessas significa, jogando luz em um momento de perigo, deixando à vista a prova do crime.

Power não faz esforço para explicar como isso aconteceu. Invés de engasgar em culpa e raiva, ela simplesmente acena com “a simplicidade cristalina da compreensão de Morisson” diante dela: águas passadas, pessoal, não é preciso discutir isso contanto que todos façam tudo que puderem daqui prá frente.

Porém, de repente, na primavera passada ou algo assim, a ênfase do blog de Power mudou. Da noite para o dia, praticamente, ele se virou para o movimento contra os cortes de gastos públicos, com panfletos, listas, abaixo-assinados, links. E Power parecia ter perdido interesse no feminismo clássico, em seu lugar, escrevendo a respeito de kettling e hyperkettling [Nota do Viomundo: tática da polícia para conter manifestações] e os danos cerebrais sofridos – depois das manifestações contra o aumento das mensalidades, no ano passado, em Londres – pelo estudante de filosofia Alfie Meadows.

“Professores, Defendam Seus Estudantes!” foi o título que ela deu à sua contribuição para uma coleção chamada Springtime: The New Student Rebellions.

Deve ser relevante que o primeiro departamento universitário que fechou como consequência dos cortes do orçamento do governo [britânico] foi o de filosofia de Middlesex, onde tanto Power quanto Meadows estudaram.

Como se tivessem combinado, James e suas camaradas estavam presentes em peso, em junho, na primeira SlutWalk [Marcha das Vadias] de Londres, que recebeu esse nome depois que um policial de Toronto sugeriu que se as meninas não queriam ser estupradas uma noite dessas, elas deveriam “evitar se vestir como putas”.

Então, obviamente, muitas pessoas – não apenas mulheres – queriam se vestir como putas para ressaltar o absurdo dessa posição; e muitas pessoas, como eu, queriam participar da passeata em solidariedade, usando nossas roupas sem graça.

Uma menina pequena marchou com uma fantasia de fada. Um casal transsexual caminhou com as mesmas perucas, sandálias de salto e pênis infláveis gigantescos. O QUE AS MULHERES DA LÍBIA, CONGO, DARFUR ESTAVAM VESTINDO QUANDO FORAM ESTUPRADAS? Dizia um dos cartazes; SOMOS TODAS CAMAREIRAS, dizia outro, com uma pequena foto de Dominique Strauss-Khan; Selma James levava um cartaz feito em casa com as palavras PUTA APOSENTADA e um pequeno coração.

Mais alguns ítens do caderninho de notas. O Dia Internacional da Mulher, em março, foi marcado por um artigo no Observer sobre a nova instituição de caridade da apresentadora de televisão Mariella Frostrup, com a esperta sigla Great [excelente em português] Gender Rights and Equality Action Trust. O website do Great tem uma foto de Mariella, elegante e lânguida, em uma fila de mulheres africanas refugiadas: “De Moçambique ao Chade, África do Sul e Libéria, Serra Leoa a Burquina Faso, o feminismo é a palavra-chave para toda uma geração de mulheres.”

Em maio eles organizaram um grande leilão de caridade em “um hotel ultra luxuoso” com “a lista de convidados mais exclusiva” e “uma apresentação inesquecível de Mark Knopfler”. Não é de se espantar que essas mulheres refugiadas estavam sorrindo de orelha a orelha.

Também no Dia Internacional da Mulher, Power escreveu no Guardian sobre Rage of the Girl Rioters [A Raiva das Meninas Manifestantes], o título que o Daily Mail deu à reportagem sobre o dia de ação dos estudantes britânicos contra o aumento das mensalidades, em novembro passado.

Ela viu o tratamento dado pelo Mail como “o último em uma longa lista de ataques às mulheres que fazem campanha diretamente contra o estado”, como as suffragettes [integrantes do movimento pelo voto feminino] e grevistas contra os aluguéis, queimadoras de sutiãs, mulheres de mineiros e ladettes dos anos 90.

[O artigo de Power, em inglês, aqui]

“O que parece ser uma crítica moralista”, ela escreve, “frequentemente mascara um medo político e econômico mais profundo – o que devemos fazer quando mulheres jovens são bem sucedidas academicamente, independentes economicamente, confiantes socialmente e não têm medo de se divertir? Pode haver algo mais assustador?”

Raiva das Meninas Manifestantes! Eu pensei enquanto estava lendo. Isso eu tenho que ver! Então procurei no website do Mail e encontrei alguns comentários dialeticamente interessantes, no pé do artigo. “Eu não gosto de ver a foto da minha filha nesta seção… Ela estava saindo de um aglomerado de gente depois de desmaiar!” escreveu uma senhor do oeste de Londres. “Em sua tentativa misógina típica de desqualificar os manifestantes”, escreve um homem jovem de Kuala Lumpur, “eu tenho que admitir. Essa é, provavelmente, uma das melhores coleções de fotos daquele dia que eu já vi.”

Há pouco tempo, era difícil imaginar mulheres jovens, pessoas jovens, ou qualquer pessoa protestando, em grande número, por qualquer motivo; agora, eles estão nas ruas e o tempo todo furiosos. A conclusão da análise do Daily Mail: “Portanto, pela primeira vez num protesto cheio de confronto e ódio, mulheres jovens assumiram o papel central. Agora, está tudo no ar e mudando o tempo todo.”

*****

Alguns dos livros publicados recentemente consultados para este artigo:

The Equality Illusion: The Truth about Men & Women Today, de Kat Banyard (Faber, 2010)

Dead End Feminism, de Elizabeth Badinter (Polity, 2006)

Feminism Seduced: How Global Elites Use Women’s Labour and Ideas to Exploit the World, de Hester Eisenstein (Paradigm, 2009)

Sex, Race and Class – The Perspective of Winning: A Selection of Writings, 1952-2011, de Selma James (PM Press, 2012)

Female Chauvinist Pigs: Women and the Rise of Raunch Culture, de Ariel Levy (Free Press, 2005)

How to Be a Woman, de Caitlin Moran (Ebury, 2011)

Meat Market: Female Flesh under Capitalism, de Laurie Penny (Zero, 2011)

One Dimensional Woman, de Nina Power (Zero, 2009)

Reclaiming the F Word: The New Feminist Movement, de Catherine Redfern e Kristin Aune (Zed, 2010)

Dreamers of a New Day, de Sheila Rowbotham (Verso, 2010)

 

13 Comentários para “Jenny Turner: Quantos pares de sapato ela quiser”

  1. qui, 08/03/2012 - 16:05
    Mari

    O artigo é longo, mas é robusto e muito bom. Se conseguir reler, valerá à pena

  2. qua, 07/03/2012 - 12:47
    Magali Pedro

    Ufa! Qual era o assunto, mesmo?

    • A autora diz que o feminismo deve retomar suas palavras de ordem mais radicais, como o questionamento da família e das diferenças salariais. abs

      • qui, 08/03/2012 - 17:41
        ratusnatus

        Então alguém avise as mulheres brasileiras que tudo seria mais fácil com uma jornada de 40 horas semanais.
        A começar pela Dilma.

  3. qua, 07/03/2012 - 11:28
    FrancoAtirador

    .
    .
    WikiLeaks 2.0 es mucho más importante que el 'Cablegate' original

    http://www.publico.es/internacional/wikileaks

  4. qua, 07/03/2012 - 11:00
    FrancoAtirador

    .
    .
    Vanitas vanitatis et omnia vanitas,

    Per omnia sæcula sæculorum.
    .
    .

  5. qua, 07/03/2012 - 10:45
    ricardojsp

    Só poderia ser escrito por uma mulher, como que discutindo a relação….não acabava nunca e nunca chegava a lugar nenhum..até que o homem, eu, desistiu e foi embora….que coisa chata…

  6. qua, 07/03/2012 - 9:52
    Maria Libia

    Que porre de artigo, cansativo, longo, diz e não diz, e não vai ao cerne do problema que é: a mulher, durante todos os séculos não tem o direito de ser ela mesma, considerada minoria, quando faz parte de 51% da população mundial.

    • qua, 07/03/2012 - 19:42
      Cibele

      Sim, representa 51% da população e é considerada minoria. E não é vista como um ser humano! O maior problema é a ideia, ainda muito arraigada, de que devemos viver em função do homem, de alguma forma.

  7. ter, 06/03/2012 - 23:32
    renato

    Ufa!

  8. ter, 06/03/2012 - 22:08
    Leo V

    Achei bem interessante a primeira parte do artigo: sobre as garotas que foram presas e condenadas nos saques às lojas na Inglaterra. Pena que a autora acabou não explorando mais o fenômeno e acabou fazendo mais uma revisão bibliográfica sobre o feminismo.

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