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Jandira Feghali: Cabeça atrasada aumenta chance de estupro

31 de março de 2014 às 14h31

Estupro não se justifica

por Jandira Feghali, 

Pesquisas são como fotos.

Conseguem mostrar um retrato da sociedade em determinado tempo. A foto que vemos a partir da divulgação de pesquisa do IPEA sobre violência sexual e estupro é chocante. Meio milhão de cidadãos violentados ao ano no Brasil, destes 88,5% mulheres vítimas de estupro. A cada 12 segundos uma cidadã se torna vítima deste crime hediondo em nosso país, por exemplo, agora, enquanto você lê este texto.

Mais estarrecedor o que vem a seguir com o resultado à pergunta feita: “Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas?”. Espantosos 65% dos entrevistados concordaram. Mais triste quando revela-se que dois terços das pessoas ouvidas pelo IPEA são mulheres. Mulheres que acreditam que outras mulheres são corresponsáveis pelo ato criminoso pela simples forma como se vestem. Deduz-se então que o criminoso é vítima, invertendo os papéis de vítima e réu. Parece que estamos na década de 70.

Voltemos ao número do início. Das 527 mil pessoas violentadas no Brasil ao ano, 70% são crianças e adolescentes. Ou seja, no pensamento da maioria dos entrevistados, prega-se de forma abstrata que as meninas no universo das 364 mil vítimas tenham parcela de culpa direta? Crianças, sem características sexuais, como provocadoras de um crime sexual, na maioria pelos pais ou padrastos? Realidade que, certamente, desconsidera nossos problemas culturais e socioeconômicos e comportamentos perversos e violador de direitos. É possível a interpretação de que o criminoso é, na verdade, vítima da sensualidade feminina.

O IPEA também dá luz a uma estatística que se mostra ponto-chave. Apenas 10% dos casos sobre violência sexual são informados à polícia. Mesmo com um maior número de órgãos especializados no combate e atendimento à vítima pelo Brasil, o cidadão ainda prefere se calar, talvez combalido para suportar os longos e penosos caminhos da justiça, talvez pelo peso da vergonha de ter que encarar a visão que, lamentavelmente, prevalece e coloca parcela da culpa sob os ombros da vítima.

É grave e recorrente que muitas mulheres julgam as vítimas e as acusam por responsabilidade parcial no estupro. Mulheres também mães e chefes de família e que educam seus filhos levando padrões ultrapassados e repressores, tornando-os cruéis reprodutores do ciclo de mazelas que contribuem para uma sociedade desigual e preconceituosa.

Nos últimos anos, o Brasil deu saltos significativos na construção de políticas públicas que combatem a discriminação e a violência contra a mulher. Mas é hora de darmos atenção ao que está sendo revelado por esta pesquisa. A sociedade não pode permitir se levar por ideias machistas e patriarcais que pregam a subordinação feminina e o controle de homens sobre as mulheres. Não é um vestido justo ou saia curta que determinam as chances de um estupro. É a mentalidade atrasada que persiste, que justifica a violência, por perpetuar a imagem da mulher como ser de segunda categoria e objeto de desejo. Homens e mulheres devem encarar o estupro como crime hediondo.

Estupro não se justifica, se pune.

Jandira Feghali é médica, deputada federal (PCdoB/RJ) e líder da bancada na Câmara

 Leia também:

“Se as mulheres soubessem se comportar, haveria menos estupros”

 

14 Comentários escrever comentário »

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Viviane

07/04/2014 - 18h47

Para os evangélicos que comentaram, leiam com atenção e relembrem que Cristo reconheceu as mulheres em sua dignidade: http://www.genizahvirtual.com/2014/04/e-quem-merece-ser-estuprada.html

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marcia menezes

01/04/2014 - 16h07

Sabe?O que mais me preocupa nisso é a falta de entender o que é de verdade um estupro é algo que não queremos ou seja,você tem seu corpo invadido.E mais eu sei bem o que é um estupro e todos se calam por ser geralmente a pessoa mais próxima,e todos fazem vista grossa pois é melhor,diga se de passagem que a criança é considerada ainda a culpada.Eu me pergunto se fosse com as filhas e filhos de quem respondeu seria esta a resposta.Eu fui vitima dentro de minha própria família mais filha de pais separados eu quem era a problemática,tentei suicídio com 11 anos depois com 13 e depois fui viver minha vida e aprender a conviver com isso.A verdade é que todos precisam de alguém para culpar e os criminosos continuam atuando e sendo defendidos,muito triste tudo isso.Eu toco minha vida e sempre defendo e explico que na verdade o ato não importa a roupa e sim o monstro que esta atrás de você ou quem quer que seja.Ninguem merece ser agredida desta forma nem se for uma prostituta afinal é a profissão mais antiga do mundo,você faz o que você quer com seu corpo e não as pessoas.

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luiz carlos ubaldo

01/04/2014 - 15h40

Como homem, e principalmente como ser humano, me sinto envergonhado de fazer parte dos que habitam esse planeta, se Deus me fez mais forte que a mulher, é porque tenho o dever de protege-lás, assim como devo também fazer com as crianças e os idosos ou como qualquer criatura indefesa, fragil que necessite de amparo, a minha superioridade fisíca jamais deveria ser motivo para sugbjugar quem quer que seja, vejo a humanidade como uma grande familia, em que cada um cuida do outro, e mesmo o mais forte, tem por vezes seus momentos de fraqueza e solidão e nada melhor que um ombro irmão, do que o amor que liberta da ignorância e do medo!

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Fernando Santos de Aquino

01/04/2014 - 07h50

Talvez esta seja uma das consequências da ausência de um investimento significativo em políticas públicas, principalmente educacionais, em nosso país. Escolas públicas onde se reza Pai Nosso ou se canta Louvor, na entrada dos turnos, é um destes sintomas. Aliás. escola de turno ainda é coisa que existe no Brasil, assemelhada ao funcionamento de fábricas. As universidades, estas ainda fechadas em torno de si mesmas, pouco têm feito para mudar este quadro. Da nossa grande mídia fajuta, o que se pode esperar, com os seus Faustões, Gugus e BBBs? Ainda bem que o IPEA faz pesquisas como estas, dando visibilidade a tamanha monstruosidade, ainda muito silenciada. Parabéns a Jandira Feghali, por reverberar este tema.

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HEBE DE CAMARGO

01/04/2014 - 02h26

Não tenho religião. Sou do Senhor Jesus, sou cristã.
E com o passar dos dias de minha fé, fui percebendo o que agrada a Deus e o que não agrada.
Na Igreja Universal aprende-se que somos livres, mas nem tudo nos convém. E está escrito assim nas palavras de Paulo.
A Bíblia nos ensina que a mulher não deve, exatamente, parecer provocante, insinuante. E tem muitas roupas e maneiras de se vestir que deixam a mulher assim. Por exemplo em I Timóteo 1.4 está escrito: “Da mesma sorte que as mulheres, em traje decente, se ataviem com modéstia e bom senso,…”
Deus é o primeiro a querer o bem estar e segurança de seu povo. Isso exclui totalmente de Deus a responsabilidade com o exagero de algumas religiões.
Por isso, penso que o bom senso aliado a um pouco de sacrifício no vestir e no se portar, vai trazer mais segurança para a mulher.

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    abolicionista

    01/04/2014 - 11h47

    Pelo que eu me lembro, Jesus usava saias e cabelo comprido. E as mulheres da época não usavam roupas íntimas.
    Contudo, o levítico recomenda apedrejarmos até a morte filhos obstinados, rebeldes e pessoas que usem dois tipos de tecido.

    Isabela

    01/04/2014 - 15h23

    Sério que isso está escrito na Bíblia?! Se vc se vale desse livro pra insrpirar-se na vida, não queira que seja assim com todos…

    luiz carlos ubaldo

    01/04/2014 - 15h47

    Os indios andavam e andam nús, e eu nunca soube de estupro entre eles.

    Mariana

    02/04/2014 - 09h25

    Essa mesma bíblia ensina que vc não deve falar em público.

HEBE DE CAMARGO

01/04/2014 - 02h01

O estrupo tem que ser um crime hediondo.
E a mulher, por sua vez, pode colaborar sem prejuízo da sua liberdade de ser mulher. Sabemos que não é preciso usar roupas que mostram partes do corpo para mostrar que somos mulher, que somos bela. A sensualidade, aliás, é mostrada muito mais, no mistério que se pode provocar com roupas muito lindas e super modernas.
O bandido que estupra já tem um desvio mental, psicológico e espiritual, que é acionado quando olha para um corpo de mulher à mostra.
Alguém pode negar que é excitante, que aumenta a libido, que provoca os instintos animalescos?
Diferente de quando se está na praia. A maioria das pessoas está com praticamente 90% do corpo à mostra. Isso não excita, pelo que eu tenho deduzido desse comportamento absurdo de alguns homens.

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José Souza

31/03/2014 - 22h40

Não confio na pesquisa do Ipea. Acredito que, por traz dos números apresentados, estão as igrejas (todas e qualquer uma). Não sei as religiões do corpo diretor desse instituto assim como não sei a composição das perguntas e as cidades e/ou classes sociais dos entrevistados mas a resposta quanto as roupas me faz acreditar que eles estão por traz. Os Srs. Legisladores deveriam fazer uma Lei proibindo que qualquer pessoa ligadas às religiões (todas e qualquer uma) fossem impedidos de concorrer a cargos eletivos e antes que seja tarde. A Constituição diz que o país é laico. Se, no futuro, eles conseguirem a maioria vão aprovar Lei implantando uma teocracia em nosso país, nos moldes do Irã.

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    Isabela

    01/04/2014 - 15h27

    Veja a pesquisa na íntegra: o perfil geral dos entrevistados é sintomático; branco, religioso e baixa escolaridade. O Ipea é sério o suficiente pra esse tipo de desconfiança! Insisto: leia o documento na íntegra antes de emitir opinião rasteira.

Luís Carlos

31/03/2014 - 22h09

Muito bom Jandira. Ótimo texto. Esse tema não pode cair no esquecimento, pois a pesquisa mostra “face dura do mal” transformando vítimas de violência sexual em culpados e inocentando bestas violentadoras. O moralismo deve ser enfrentado.

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