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Hugo Nicolau: “Elite quer manter negros e indígenas longe da USP”

26 de janeiro de 2016 às 13h09

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“O interesse da elite é manter negros longe da USP”, diz autor de pesquisa

22/01/2016 às 18:25, por Cristiane Tada, no site da UNE

Estudante elaborou estudo que mostra que apenas 2% dos alunos que ingressaram na universidade em 2010 são pretos

Uma das maiores universidades do país, a Universidade de São Paulo (USP) não adota a política de cotas no tradicional processo seletivo da Fuvest — aos alunos negros, é dado somente um bônus adicional de 5% na nota final do vestibular.

Percebendo a disparidade na composição racial da instituição, o estudante de Geografia Hugo Nicolau elaborou um estudo, batizado de “Onde estão os negros da USP?”, que apresenta, em mapas, a distribuição de brancos, asiáticos, negros, pardos e indígenas na universidade.

Com base em dados da Fuvest 2010 e do último censo do IBGE, ele concluiu que, naquele ano, 77% dos alunos que entraram na USP eram brancos, 10% pardos, 10% asiáticos e apenas 2% eram pretos.

“Os negros só são maioria entre os funcionários terceirizados”, afirma Nicolau, que ingressou no curso de Geografia com os bônus de escola pública e racial.

Em entrevista à UNE, ele fala sobre a pesquisa e as deficiências dos atuais programas de bônus da Fuvest.

De onde veio a ideia da pesquisa?

A pesquisa foi criada para o blog Desigualdades Espaciais, que é um projeto pessoal e está no ar desde agosto de 2015. O principal propósito é denunciar a segregação racial e as desigualdades espaciais através de mapas, dando um novo uso à cartografia, como uma ferramenta de denúncia das desigualdades nos mais diversos espaços. A ideia é ir além dos gráficos e tabelas, utilizando dados que estão disponíveis publicamente e analisá-los de maneira crítica, sob o viés da desigualdade.

A ideia de criar o mapa sobre a distribuição dos negros na USP surgiu depois de começar a pensar sobre novas formas de usar os mapas raciais de pontos, que já havia usado anteriormente para analisar a distribuição racial nas cidades. Conversando com amigos que também são da Geografia sobre a ausência de professores e alunos negros e o desconhecimento e/ou falta de interesse deles sobre a situação do negro e a questão racial no Brasil, a ideia foi tomando forma. Comentei com eles a ideia de fazer o mapa da USP e todos gostaram, acharam que era fundamental levantar esse debate sobre a ausência de negros na USP.

Como é a representação de negros no seu curso?

Comparado com outros cursos da USP a Geografia é um curso com grande quantidade de negros, cerca de 20%, mas ainda abaixo da média do Estado de São Paulo. Em 2010, com exceção da Geografia, havia mais pessoas amarelas do que pretas em todos os cursos da USP, segundo os dados da Fuvest.

Como você avalia os programas de inclusão racial e social da USP?

Há um estudo da Anna Carolina Venturini, do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa da UERJ (Gemaa), muito importante, que analisa os programas de inclusão da USP, que são o Programa de Inclusão Social da USP (Inclusp) e o Programa de Avaliação Seriada (Pasusp). Após ler o estudo da Gemaa, fica claro que os programas de inclusão social da USP são extremamente falhos e que, desde a sua criação em 2006, não houve avanços significativos, já que não incluem cotas nem critérios de renda familiar — apenas um critério racial que concede um bônus adicional de 5% na nota final, o que é uma porcentagem muito baixa e insuficiente para ter algum resultado significativo no sentido de igualar as oportunidades, e um critério de escola pública que é defeituoso, porque permite que alunos de alta renda recebam bônus por terem estudado em escola pública.

Esse bônus de escola pública deveria ser “amarrado” com critérios de renda, para de fato beneficiar alunos de escola pública. O estudo da Gemaa destaca o quão defeituoso é esse bônus de escola pública: “Todavia, é curioso notar que há alunos beneficiados pelo Inclusp cuja renda familiar é superior a 15 salários mínimos.” Isso demonstra que usar apenas o critério de escola pública sem amarrá-lo à renda ou raça acaba promovendo mais a desigualdade do que a igualdade.

Para você qual a razão da resistência da maior universidade do país em aderir as políticas de cotas?

A razão está no fato de ser uma universidade onde os filhos da elite brasileira estudam, e o interesse dessa elite é manter os negros e indígenas longe da USP. Utilizam o discurso meritocrático para serem contra as cotas, mas vários estudos já demonstraram que alunos cotistas tem desempenho igual ou maior do que os demais.

A desculpa usada é de que a USP já possui programas de inclusão, porém, como demonstrou o estudo da Gemaa, esses programas não são suficientes. Desde 2006 não houve mudanças significativas. Nesse sentido, vale destacar o papel do movimento negro na USP, como a Frente Pró Cotas e a Ocupação Preta, que em 2015 pressionaram as instâncias pela criação de cotas na USP.

Você acha que o perfil racial dos calouros de 2016 vai mudar muito do que apontou sua pesquisa?

Acredito que não veremos grandes mudanças. Neste ano, a Fuvest adotou o Sisu para cerca de 10% das vagas, mas essas vagas não incluem cotas raciais. Apenas 255 terão cotas, o que é um absurdo, já que na Fuvest são cerca de 10 mil vagas. Mesmo com o uso do Sisu, o nível do exame continuará alto, beneficiando aqueles que tiveram um ensino de melhor qualidade e não os alunos de escola pública.

O impacto é enorme, porque a ausência de negros entre os docentes dificulta a produção científica relacionada à questão do negro no Brasil, influencia pesquisadores a trocarem de tema, já que podem não se identificar com o orientador que não é negro e que não compartilha das mesmas experiências dele.

Não havendo negros e outras minorias entre os docentes, quem irá “brigar” por suas causas? Quem irá defender as cotas raciais perante aos demais? Não estou dizendo que professores brancos não possam fazê-lo mas acredito que não irão fazê-lo com o mesmo afinco, já que são questões desconhecidas por eles.

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Lenita

27/01/2016 - 12h50

E preciso manter a pressão pois a USP é uma universidade importante e bem avaliada no mundo todo. O movimento negro e outros progressistas precisam se unir e continuar a luta para a inclusão da população negra brasileira, simplesmente porque não faz sentido tal resistência em nome de uma suposta “meritocracia”. Além do que, é muito contraprodutivo para um pais como o Brasil onde existe a maior população negra fora da Africa e a segunda maior depois da Nigéria.

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Márcio Gaspar

26/01/2016 - 20h08

Não é só isso não. O primeiro ano(2016) em que a USP reservou vagas aos candidatos que prestaram o ENEM, mas com exigências muito maiores para ingresso quando se verificou a composição das notas mínimas para garantir uma vaga na USP. Exigências maiores do que no vestibular da Fuvest. Ou seja, em muitos cursos de humanas era mais fácil entrar na USP prestando a Fuvest do que prestando o Enem. Alguns cursos exigiram notas mínimas de 600 em todas as áreas. Caso o sujeito fosse prestar para um curso de Letras e tivesse feito 1000(nota máxima) em Ciências humanas e 1000 em Linguagens, códigos e suas tecnologias, disciplinas que são comuns a Letras e Ciências Humanas, mas tivesse feito abaixo de 600! em matemática, não poderia concorrer a esta vaga. Isso é uma falta enorme de coerência da USP. Para que exigir nota mínima de 600 em matemática para cursos de Ciências Humanas? A direção da USP responsável por esta seleção continua arcaica e elitista na forma de pensar as possibilidade de inclusão. Esse tipo de seleção me fez lembrar a educação nos tempos da ditadura, onde alunos tinham excelentes notas e resultados em Português, História, Geografia etc, mas tinham dificuldades em matemática, e só tiravam notas “vermelhas”, notas abaixo de 5,0 em uma escala de 0 a 10. O que acontecia muitas vezes com estes alunos? Eles eram reprovados por causa de uma única disciplina e repetia a série no ano seguinte. Como se repetia em dois ou três anos, muitos país acabavam por retirar o seu filho da escola. “Esse não dá para os estudos, tem que trabalhar” É o que se ouvia de país poucos instruídos. Tínhamos um processo de exclusão de muitos alunos e possivelmente muitos talentos em História, Geografia, Letras etc. O vestibular da Fuvest é conteudista e não reflete o que é ensinado nas escolas públicas, precisa ser mudado. Só serve para enriquecer cursinhos preparatórios. O Enem este ano em sua parte de exatas parece que está indo pelo mesmo caminho conteudista que a Fuvest adota.

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FrancoAtirador

26/01/2016 - 16h36

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“Pelos caminhos que ando,
Um dia vai ser,
Só não sei quando…
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Paulo Leminski
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Responder

    FrancoAtirador

    26/01/2016 - 16h41

    .
    .
    Isso de ser
    Exatamente o que se é
    Ainda vai nos levar além…
    .
    Paulo Leminski
    .
    .

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