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Cartas de Minas
Cartas de Minas

Guardian: Você toca a tela do telefone 2.617 vezes por dia. Cuidado, estão sequestrando seu cérebro

08 de outubro de 2017 às 18h11

Da Redação

O diário britânico Guardian publicou reportagem sobre designers, programadores e executivos do Vale do Silício, na California, que desistiram ou restringiram seu uso das redes sociais temendo o “sequestro” mental a que os usuários dos smartphones estão sujeitos — aquela coisa de acordar com o celular ao lado da cama e dar likes e checar fotos no Instagram antes mesmo de tomar o café da manhã.

Segundo o texto, as pessoas tocam a tela dos seus telefones, em média, 2.617 vezes por dia.

Abaixo, traduzimos o trecho relativo a Tristan Harris, 33 anos de idade, ex-empregado do Google, que se tornou um dos maiores críticos das tecnologias de informação:

“Todos nós fomos sequestrados pelo sistema”, ele diz. “Todos os nossos cérebros podem ser sequestrados. Nossas escolhas não são tão livres quanto a gente pensa”.

Harris, que foi chamado de “a coisa mais próxima que o Vale do Silício tem de uma consciência”, insiste que bilhões de pessoas tem pouca escolha sobre se usam ou não essas tecnologias e desconhecem, na maior parte, as formas invisíveis com as quais um pequeno número de pessoas do Vale do Silício estão definindo suas vidas.

Formado na Universidade de Stanford, Harris estudou com BJ Fogg, um psicólogo comportamental reverenciado no meio tecnológico por ter desenvolvido formas através das quais o design pode persuadir as pessoas. Muitos dos seus estudantes tiveram carreiras prósperas no Vale do Silício.

“Não sei de um problema mais urgente que este” diz Harris. “Está mudando a democracia e está mudando nossa capacidade de ter as conversas e os relacionamentos que queremos ter uns com os outros”.

Harris tornou sua aflição pública — fazendo palestras, escrevendo textos, encontrando legisladores e fazendo campanha por reformas, depois de três anos tentando provocar mudanças por dentro no quartel-general do Google, em Mountain View.

Tudo começou em 2013, quando ele trabalhava como gerente de produtos do Google e fez circular entre dez colegas um memorando, Chamada para Minimizar a Distração & Respeitar a Atenção dos Usuários.

Causou e logo o memorando chegou a 5.000 empregados do Google, inclusive a executivos sênior, que deram a Harris uma nova colocação, de nome impressionante: ele se tornou encarregado pela ética e filosofia por trás dos produtos.

Em retrospectiva, Harris diz que caiu pra cima.  “Não me deram uma estrutura de suporte social”, diz. E acrescenta: “Fiquei sentado num canto pensando, lendo e tentando entender”.

Ele aprendeu como o LinkedIn explora o desejo de reciprocidade social para aumentar sua rede; como o YouTube e o Netflix colocam seus vídeos e próximos episódios em autoplay, tirando dos usuários a escolha do quanto querem ver; como o Snapchat criou seu viciante Snapstreaks, encorajando comunicação praticamente constante entre os usuários adolescentes.

As técnicas que as companhias usam nem sempre são genéricas: podem ser desenhadas para cada pessoa, por algoritmo.

[Nota do Viomundo: As redes sociais coletam informações sobre os usuários permanentemente e por algoritmo podem desenhar incentivos muito específicos para cada um]

Um relatório interno do Facebook, que vazou este ano, revelou que a companhia pode identificar quando adolescentes se sentem “inseguros”, “sem valor” e precisam “de um empurrão de confiança”. Tal informação detalhada, diz Harris, “é um modelo perfeito sobre qual botão você pode apertar em uma pessoa”.

As companhias podem explorar tais vulnerabilidades para fisgar as pessoas; manipular, por exemplo, quando elas recebem likes em seus posts, garantindo que eles apareçam só quando o indivíduo está se sentindo vulnerável, precisando de aprovação ou apenas entediado.

Essas mesmas técnicas podem ser vendidas para quem paga mais. “Não existe ética”, diz.

Uma companhia que paga ao Facebook para usar suas ferramentas de persuasão pode ser uma empresa que desenvolve anúncios específicos para quem está querendo comprar um carro novo. Ou pode ser uma rede de robôs de Moscou, determinada a mudar votos numa eleição decisiva em Wisconsin.

Harris não acredita que as empresas de tecnologia deliberadamente criaram produtos para viciar. Elas responderam aos incentivos da economia da publicidade, experimentando com técnicas que conseguem capturar a atenção das pessoas, às vezes acertando no design dos produtos por mero acidente.

Um amigo do Facebook disse a Harris que os designers inicialmente decidiram que o ícone de notificação, que alerta a pessoa sobre novas atividades —  como pedidos de amizade ou likes –, deveria ser azul. Era adequado para o estilo sutil e inócuo do Facebook. “Mas ninguém usou”, Harris conta. “Então eles mudaram para vermelho e todo mundo passou a usar”.

O ícone vermelho agora está por toda parte. Quando os usuários de smartphones olham para suas telas, centenas de vezes por dia, enxergam pequenos pontos vermelhos ao lado de seus aplicativos, pedindo para serem tocados.”Vermelho é a cor gatilho”, diz Harris. “Por isso é usado como um sinal de alarme”.

O design mais sedutor, segundo Harris, explora a mesma suscetibilidade psicológica que torna os cassinos tão compulsivos: recompensas variáveis.

Quando tocamos nos pontos vermelhos, não sabemos se vamos descobrir um e-mail interessante, uma avalanche de likes ou nada. É a possibilidade de frustração que torna tudo tão compulsivo.

É isso o que explica o mecanismo de ‘atualizar’, quando o usuário passa o dedo na tela e espera pelo novo conteúdo. Tornou-se o design mais presente — e viciante — da tecnologia moderna.

“Cada vez que você passa o dedo, é como um caça-níquel”, diz Harris. “Você não sabe o que vem em seguida. Às vezes é uma foto linda. Às vezes, apenas um anúncio”.

PS do Viomundo: É por isso que, aqui no Viomundo, todos nós usamos os celulares com as notificações desligadas.

Leia também:

Jorge Solla: Fundo eleitoral do Huck é tentativa de fraudar democracia

 

2 Comentários escrever comentário »

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Morvan

09/10/2017 - 09h27

Bom dia. Num dos filmes da franquia Jornada Nas Estrelas, “De Volta À Terra“, ou, informalmente, “A Arca De Noé do Século XXIII”, onde eles regatam um casal de jubartes, extintos no Século corrente, o engenheiro Scotty utiliza o rato para interagir com a máquina do Século XX! Se o filme fosse fiel, ele tentaria falar direto com o computador bioeletrônico, para ser preciso. Mas isso demonstra como a tecnologia, no sentido puro (não de máquina, de per si) nos reboca e sequestra. Hoje, é comum ver várias pessoas em uma mesa, ensimesmados, interagindo só com o seu “Smartphone“. Os humanos ao lado não parecem existir… ou são dispensáveis, de todo. O plano é exatamente este. Esta geração de neo-celenterados é muito útil para quem se propõe a viver num mundo mais fácil, sem consciência de classes, logo sem demandas políticas. Uma sociedade obliterada. E isto está acontecendo bem rápido, como nos planos das Redes de Engenharia Social. Umberto Eco que nos diga, sempre.

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fernando

08/10/2017 - 21h53

eu tô salvo disso não tenho celular e nem quero ter!!!!

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