Fátima Oliveira: A xenofobia da pauliceia mina os alicerces da República

publicado em 16 de novembro de 2010 às 10:46

por Fátima Oliveira, em O Tempo
Médica – fatimaoliveira@ig.com.br

Adoro batata-doce com leite, que em minha infância a gente só podia comer de vez em quando, tipo uma vez por semana, pois vovó dizia que era uma comida danada de boa, mas faltava só um grau pra veneno. Não entendeu? Nem eu, até hoje! Talvez porque é um daqueles alimentos ditos “fortes”, que dão sustança – que a gente come e se delicia. E, ao terminar, está saciada, sonolenta, meia zen! Juro!

Batata-doce com leite é uma carícia quando a gente está em busca de conforto… Sabe aquela sensação indescritível de querer comer algo que não se sabe o que é? Não é fome propriamente, pois com fome come-se qualquer coisa, como se diz no sertão: “A boca quer coisa boa, mas a barriga quer é ficar cheia”.

Comer batata-doce com leite é dar um “trato” em minha memória alimentar afetiva. É comer e sentir renovar as energias. Desde o dia da twitada xenófoba da acadêmica de direito de Sampa, que incitava matar nordestinos por afogamento, eu sabia que precisava de algo! Só consegui falar sobre o assunto após comer batata-doce com leite! “Puxei pela memória”…

Quando morava em São Paulo, na primeira metade dos anos 1990, uma amiga chegou à minha casa e eu estava comendo batata-doce com leite. Ela indagou o que era aquilo. Depois que respondi, a dita cuja lascou: “Ah, que baianada!”. Não engoli calada e, “olhos nos olhos”, me arretei dizendo-lhe que ela sabia que eu não era baiana e sim maranhense, mas que na Bahia também comiam batata-doce com leite, assim como no Nordeste todo.

Como uma socióloga não percebia que a naturalização e a banalização de vocábulos repletos de nojo e asco, que expressam aversão ao estrangeiro (xenofobia – do grego, “xeno” = estrangeiro + “fobia”=medo), são uma desumanização e desrespeito ao outro? Acrescentei que estava pelo gogó com essa história de que todo nordestino em São Paulo é baiano, termo usado não para indicar quem nasce na Bahia, mas para, depreciativamente, se referir a nordestinos e nortistas: “Essa gente lá de cima (demorei pra entender que se referiam ao mapa do Brasil!), que até coisas estranhas come…”.

Na época recrudescia em São Paulo o nojo a nordestinos, para ferir a prefeita de São Paulo, a paraibana Luiza Erundina, que a elite paulistana jamais engoliu! Ao contrário, perseguiu sem tréguas. Coincidentemente, eu estava às voltas com um xenófobo casal egípcio, radicado em São Paulo há mais de 30 anos, pais de um namorado de uma das minhas filhas, que teve o desplante de ir “tomar satisfações” comigo! Foi uma cena ridiculamente surreal!

O pai chegou arrastado pela sua consorte, que não era nada submissa para afrontar-me. Balbuciava que não era contra o seu “bebê” namorar uma “baiana” (pense no asco!), apenas que eu os respeitasse, não oferecendo carne de porco para ele. E que eu ficasse sabendo que o filho dela se casaria com uma muçulmana. Com baiana, jamais! Disse-lhes que a porta da rua era a serventia da casa e os escorracei!

Entendi ali como a elite paulistana, quatrocentona e xenófoba, consegue impor e perpetuar ideias de superioridade racial (racismo) e a renitente aversão a nordestinos: catequizando até imigrantes de outros países que “essa gente lá de cima” (do mapa) é erva-daninha! Na cidade de São Paulo, que tem suor “dessa gente lá de cima” em cada grão de riqueza, tudo o que alguém faz de errado ou que não presta, para xenófobos nativos caipiras e/ou letrados “sorbonados”, é “baianada”.

Chega, a postura xenófoba dessa gente mina os alicerces da República!

Publicado no Jornal OTEMPO em 16/11/2010

 

162 Comentários para “Fátima Oliveira: A xenofobia da pauliceia mina os alicerces da República”

  1. Fátima Oliveira disse:

    Agradeço a tod@s a leitura e os comentários!
    O comentário abaixo é parte de uma email/resposta à ira de uma paulista, professora de direito que reside em Beagá. Foi o deboche mais irado que já recebi em toda a minha vida. Estrilou, ameaçou… virou a muzenga!!! Desculpou a xenófoba (foi um momento impensado!) e disse que eu era bem pior!!!
    “Eu gosto de repetir que eu escrevo para tocar as pessoas. Nem mais e nem menos.
    De modo que recebo com satisfação qualquer comentário sobre o que escrevo, pois ele significa que além de ter lido o que escrevi, a pessoa empregou seu precioso tempo em comentar. É gratificante o retorno de quem me lê, mesmo quando a interpretação não tem absolutamente nada a ver com o que escrevi. Ou quando é de total discordância.
    Aprendo muito no contato com leitores/as. Sempre. E um dos grandes aprendizados é que sou obrigada a concluir que há gente com doutorado que é analfabeta funcional, infelizmente. Isto é, não compreende o que lê. Paciência, acontece não é?” (…)

  2. Augusto Guimaraes disse:

    Fátima, o seu texto relfete a mais pua verdade. Já estive em uma situação dessa em uma sla de aula em Minas Gerais com um colega paulista. Ele falou que um colega havai feito uma baianada. A coisa não prestou. Na ocasião, ele até falou, para aumentar a tristeza dele, eu sou baiano com muito orgulho.
    O mais interessante desde debate é que São Paulo, sobretudo a sua elite, acha que é a vanguarda do país. Ocorre que é justamente em São paulo que temos os exemplos de mais puro provincianismo e uma mente conservadora e preconceituosa.
    Moro no Recife há quinze anos. Nunca vi nenhuma cena de ataque a pessoas nas ruas pela sua condição de homossexual, pelo contrário. Vejo casais do mesmo sexo andando livremente pelas ruas e até mesmo nos shoppings centers. Afinal, quem são os atrasados?
    Penso que confundimos crescimento econômico com vanguardismo e superação de preconceitos.
    Lembrei agora e uma canção da Banda Paulista IRA "pobre São Paulo, pobre paulista". Para mim um hino xenófobo e preconceituoso.
    Pobre do Brasil, eu diria que tem um estado como São Paulo. Explico, conheço alguns paulista é tenho grande apreço por eles. mas São Paulo alcançou um tamanho, economicamente falando, que tornou-se um problema para o resto do país. Precisamos desconcentrar o desenvolvimento e a renda.

  3. Barbara_Luz disse:

    Cresci na periferia de São Paulo, pobre portanto, nada de elite. Mas de criança já ouvia dizer que tal coisa era "coisa de baiano", achava que os baianos gostavam de coisas coloridas mais que os paulistanos, e passei a gostar de "coisa de baiano". Existia na época o movimento tropicalista, e os baianos Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Betânia e Gal Costa. Adorava os baianos. Meio lerdinha, somente mais tarde vim a perceber que na verdade se tratava de um preconceito paulistano. Hoje penso que a questão é de fato ideológica, no sentido de que o preconceito é das elites, porém é incorporado pelas demais classes sociais como se fôsse a sua verdade. Adorei o texto, e estou aqui morrendo de vontade de comer batata doce com leite, eu comia mandioca cozida com açúcar (de lembrar me dá água na boca), será que é parecido? a gente amassa a batata com o leite?

    • Fátima Oliveira disse:

      Oi Bárbara, engraçado que, pelo menos, umas cinco pessoas escreeram perguntando como se comia batata-doce com leite.
      Tradicionalmente come-se batata-doce cozida, amassada com garfo e misturada com leite (à vontade). Uns gostam mais "fina" e outros mais "grossa".
      Sou viciada… Semanalmente compro batata-doce no sacolão, pois também a fazemos frita, cortada em rodelas (não tão finas…). Segredos de quem é da roça, não?
      Minhas filhas gostam de bater a batata-doce no liquidificador, mas eu não gosto, pois não fica com o mesmo gosto da amassada com o garfo e nem tem aqueles "pedacinhos" que desmancham na boca. Elas dizem que é porque eu saí da roça e a roça não saiu de mim. Pode ser, não é?

  4. Luís Alberto Furtado disse:

    BAIANADA
    Matheus Tapioca

    Eu me incomodo e não aceito quando usam, pejorativamente, a expressão “Baiano” em São Paulo e “Paraibano” no Rio de Janeiro. Não adianta justificar. Para mim, é melhor nem tentar, porque só vai piorar a situação.

    Quando as pessoas falam na minha presença, faço questão de recriminar. Acho uma tremenda falta de respeito. No Nordeste, carioca e paulista são substantivos, mesmo merecendo ser, muitas vezes, adjetivos. Já escutei de tudo como tentativa de amenizar:

    - É inconsciente coletivo!
    - Ou seria “preconceito coletivo”?

    - Não é por mal, não.
    - Por bem é que não é!

    - Nada pessoal.
    - Pra mim é pessoal, sim.
    (…)

    Mas a pior demonstração de preconceito que um amigo presenciou em São Paulo foi quando um pedreiro caiu de uma obra em frente ao escritório onde trabalhava e uma pessoa ao seu lado brincou:
    - Um baiano a mais ou a menos não faz diferença.
    http://farinhademandioca.wordpress.com/2009/08/24

  5. Marcos disse:

    É fato: a elite paulistana sempre foi xenófoba. Entretanto, isso não ocorre na periferia. Lá todos estão no mesmo barco. O problema da propagação desse bairrismo é que o povão paulistano, que não tem nada a ver com isso, acaba "pagando o pato", isto é, acaba levando nas costas as consequências do preconceito contra cidadãos de outras regiões do país, o que foi criado pela elite, não pelo povo em geral. Eu mesmo, que sou paulistano, já fui vítima de preconceito em outros estados da federação, inclusive, no Rio, que o leitor acima disse "que são todos cordiais". Preconceito existe em todo lugar, essa é que a verdade. A raiz disso não está no local que a pessoa nasce, mas, na imbecilidade humana. Não se pode achar que todos os paulistanos são preconceituosos. Parem com isso.

  6. J,C,CAMARGO disse:

    FÁTIMA: é impressionante! Sou paulista, tenho 65 anos, 23 de Interior e 42 de Grande São Paulo. Conheço dezenas e /
    mais dezenas de Nordestinos, que aquí vieram e venceram! Muitos ainda aquí estão e outros retornaram ao NE! Más /
    sempre retornam! Além dos milhões de nordestinos que aquí vivem, há outros milhares e milhares que nasceram aqui,
    pois suas mães vieram para cá para apenas Parto e seu preparo! Depois do nascimento, retornaram ao NE! Viajo de /
    vêz em quando para o NE e lá vejo o que? De cada dez pessoas turistas, pelo menos a metade é de paulistas! No en-
    tanto, eu já não aguento mais tanta crítica aos paulistas! Quanta ingratidão! Se não estão contentes aquí, mudem para
    o RJaneiro, Brasília, BHorizonte, etc! Respondo da mesma maneira: A porta é a serventia da casa!

    • Maria das Graças disse:

      Sr. Camargo, o senhor parece analfabeto funcional. O teor do artigo é outro. O que se fala é o que paulista e paulistano não devem fazer em termos de preconceitos. Falta educação aos xenófobos. Educação e solidariedade. E olhe a sua resposta! Enfim, na sua idade e com essa cabeça de onde saiu os eu comentário, dificilmente aprenderá mais alguma coisa. Por Porque não quer. O Sr. é um caso perdido, infelizmente. Ou o Sr. acha correto e bonito essa prática xenófoba? Até parece. Eu sou apulistan e acho deplorável. Combato sempre que posso.

    • Paulo Sena disse:

      Sou nordestino de nascença, de coração, de descendência, conheço todo o nordeste da Bahia ao Maranhão, nunca fui no sul nem sudeste, nem tenho vontade alguma de ir ou conhecer, afinal de contas não troco esse paraíso que é o nordeste por nada.Amo minha terra querida, sou de João Pessoa, Paraíba, lugar onde o sol nasce primeiro em toda a América, cidades mais arborizada do continente americano, lugar de belas praias, de clima quente, de águas mornas, de gente boa, de gente alegre, honesta e hospitaleira; de comida farta, de comida boa (macaxeira, pamonha, canjica, bata doce, carne de sol, tapioca…hummm delícia), o nordeste é terra de gente trabalhadora, e que trabalha para o crescimento de todos, adoraria ver o nordeste independente, assim não seriamos mais roubados pelos "europeus" paragauios do sudeste, EU AMO O MEU NORDESTE. Adoro essa música da Elba Ramalho, é linda e diz tudo "Já que existe no sul esse conceito
      Que o nordeste é ruim, seco e ingrato
      Já que existe a separação de fato
      É preciso torná-la de direito
      Quando um dia qualquer isso for feito
      Todos dois vão lucrar imensamente
      Começando uma vida diferente
      De que a gente até hoje tem vivido
      Imagina o Brasil ser dividido
      E o nordeste ficar independente

      Dividindo a partir de Salvador
      O nordeste seria outro país
      Vigoroso, leal, rico e feliz
      Sem dever a ninguém no exterior
      Jangadeiro seria o senador
      O cassaco de roça era o suplente
      Cantador de viola o presidente
      O vaqueiro era o líder do partido
      Imagina o Brasil ser dividido
      E o nordeste ficar independente

      Em Recife o distrito industrial
      O idioma ia ser nordestinense
      A bandeira de renda cearense
      "Asa Branca" era o hino nacional
      O folheto era o símbolo oficial
      A moeda, o tostão de antigamente
      Conselheiro seria o inconfidente
      Lampião, o herói inesquecido
      Imagina o Brasil ser dividido
      E o nordeste ficar independente

      O Brasil ia ter de importar
      Do nordeste algodão, cana, caju
      Carnaúba, laranja, babaçu
      Abacaxi e o sal de cozinhar

      O arroz, o agave do lugar
      O petróleo, a cebola, o aguardente
      O nordeste é auto-suficiente
      O seu lucro seria garantido
      Imagina o Brasil ser dividido
      E o nordeste ficar independente

      Se isso aí se tornar realidade
      E alguém do Brasil nos visitar
      Nesse nosso país vai encontrar
      Confiança, respeito e amizade
      Tem o pão repartido na metade,
      Temo prato na mesa, a cama quente
      Brasileiro será irmão da gente
      Vai pra lá que será bem recebido
      Imagina o Brasil ser dividido
      E o nordeste ficar independente

      Eu não quero, com isso, que vocês
      Imaginem que eu tento ser grosseiro
      Pois se lembrem que o povo brasileiro
      É amigo do povo português
      Se um dia a separação se fez
      Todos os dois se respeitam no presente
      Se isso aí já deu certo antigamente
      Nesse exemplo concreto e conhecido
      Imagina o Brasil ser dividido
      E o nordeste ficar independente

      Povo do meu Brasil
      Políticos brasileiros
      Não pensem que vocês nos enganam
      Porque nosso povo não é besta"

      VIVA O POVO NORDESTINO!!!!

  7. MAURO RMAOS disse:

    VIVA SAO PAULO.
    OS PAULISTAS TEM QUE SER ORGULHOSOS DE SUA CONDIÇAO VANGUARDISTA,PORQUE FORAM ELES QUE
    DERAM A HUMANIDADE ANATOLE FRANCE,BERTRAND RUSSEL,EINSTEIN,NEWTON,GOETHE,FREUD,FLAUBERT,SANTOS DUMONT,MACHADO DE ASSIS,SALVADOR DALI,BILL GATES,REMBRANDT,ADAM SMITH,KARL MARX,SPINOSA,HEGEL,GETULIO VARGAS,DRUMMOND,MANUEL BANDEIRA,DESCOBRIRAM O BIG BANG…,…,…,…..ETC,ETC,ETC!!!!!!

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