VIOMUNDO

Dr. Rosinha e o cúmulo da hipocrisia: Netanyahu em ato em memória a vítimas do terror na França

04 de fevereiro de 2016 às 21h02

François Hollande e Mahmoudf Abbas, Ângela Merkele Benjamin Netanyahu.

Dr. Rosinha: Hollande, Abbas, Merkel e  Netanyahu caminham em memória das vítimas dos ataques terroristas contra o Charlie Hebdo; a hipocrisia é ​​Netany​a​hu,  a autoridade máxima de um Estado terrorista, participar

El mundo al revés, ou o mundo hipócrita
​​
Dr. Rosinha,  especial para o Viomundo

A Agencia France-Presse (AFP) distribuiu o livro “L’annuel AFP 2015: the world in photos”.

As primeiras fotos mostram um mundo conturbado, violento, sofrido, dando a impressão de que não há salvação. Ao vê-las, não sei por que razão (há alguma razão?), lembrei-me do livro “El mundo al revés”, de Eduardo Galeano.

Galeano inicia o livro com a seguinte afirmativa: “Hace ciento treinta años, después de visitar el país de las maravillas, Alicia se metió en un espejo para descubrir el mundo al revés. Si Alicia renaciera en nuestros días, no necesitaría atravesar ningún espejo: le bastaría con asomarse a la ventana”.

Galeano, hoje não é mais necessário entrar em um espelho ou mesmo ir até a janela para ver o mundo “al revés”. Basta ir ao computador ou assistir televisão. Ou mesmo esperar sentado na cadeira de seu escritório que os livros (de fotografia) chegam até você. O único trabalho é abri-lo e indignar-se. Indignar-se e se encher de dúvidas: tem o mundo salvação, ou melhor, esta civilização tem salvação?

O livro da AFP traz fotos de muitos fatos de 2015. Abre com fotos das manifestações de rua de 11 de janeiro de 2015 em Paris. São manifestações contra os atentados do início do ano passado, entre os quais ao Charlie Hebdo. Inclusive traz a foto (página 10) da hipocrisia. Pode-se dizer que é o retrato mundial da hipocrisia.

Uma das fotos desta página, feita em 11 de janeiro numa das ruas de Paris, mostra caminhando lado a lado François Hollande e Mahmoudf Abbas, Ângela Merkel e Benjamin Netanyahu. Caminham em “memória das 17 vítimas dos ataques terroristas contra o jornal Charlie Hebdo”.

A hipocrisia está no fato de que ​​Netany​a​hu é a autoridade máxima de um Estado terrorista, e a foto registra sua participação em um ato em memória a vítimas do terror.

A maioria das fotos do livro é de tristeza e é de lamentar o mundo “Al revés” que vivemos. A maioria é retrato de pessoas sofrendo. A dor se vê no gesto, na expressão de desespero das faces.

Na página 60 do livro está a foto do menino ​​Aylan Shenu, aquele que morreu afogado e foi encontrado em uma praia de Bodrun, sudoeste da Turquia. A família de Aylan fugia da guerra civil da Síria. Nesta fuga, além de morrer Aylan, morreram sua mãe e um irmão. A guerra civil da Síria começou em 2011 pelo governo dos Estados Unidos.

O argumento dos EUA para a guerra, como sempre, é a defesa da democracia. Dizem que lutam contra a ditadura de Bashar Al Assad, mas o que querem mesmo é dominar a região para ter o controle de trilhões de barris de petróleo e da trilionária produção de gás. Mais uma hipocrisia.

Não há foto, mas há o fato: o Charlie Hebdo não é só um jornal de humor, é também transmissor de preconceitos, ou faz o humor através do preconceito. Vejamos: na passagem do ano de 2015 para 2016 na cidade de Colônia, Alemanha, mais de seis centenas de mulheres foram vítimas de estupro ou de tentativa de estupro e a acusação caiu sobre migrantes, principalmente do oriente médio e África. O que faz o Charlie Hebdo?

Se no início de 2015 o jornal sofreu um atentado e o mundo todo se sentiu agredido, agora no inicio de 2016 o ​Charlie ​​Hebdo ​atenta contra a memória de uma vítima da (guerra) hipocrisia e, hipocritamente, coloca como charge de primeira página o menino Aylan, como adulto, perseguindo uma mulher europeia para estuprá-la.

O humor poderia estar à disposição da sociedade para condenar os estupros e pedir punição aos estupradores, e não para condenar as vítimas do egoísmo, do capitalismo e da hipocrisia mundial.

A mesma hipocrisia retratada na foto da página 60 está reproduzida na frase de Al Capone publicada no livro “El mundo al revés” de Eduardo Galeano:

“​H​oy en día, ya la gente no respeta nada. Antes, poníamos en un pedestal la virtud, el honor, la verdad y la ley … La corrupción campea en la vida americana de nuestros días. Donde no se obedece otra ley, la corrupción es la única ley. La corrupción está minando este país. La virtud, el honor y la ley se han esfumado de nuestras vidas”.

Esta frase não é de nenhum ju​i​z, promotor ou policial. É de Al Capone.

Hipocrisia pura, como se observa muito também no Brasil.

Dr. Rosinha, médico pediatra e servidor público, ex-deputado federal (PT-PR).

​​Leia também:

Boulos: Quando o jornalismo seletivo se transforma em linchamento

Investigação VIOMUNDO

Estamos investigando a hipocrisia de deputados e senadores que dizem uma coisa ao condenar Dilma Rousseff ao impeachment mas fazem outra fora do Parlamento. Hipocrisia, sim, mas também maracutaias que deveriam fazer corar as esposas e filhos aos quais dedicaram seus votos. Muitos destes parlamentares obscuros controlam a mídia local ou regional contra qualquer tipo de investigação e estão fora do radar de jornalistas investigativos que trabalham nos grandes meios. Precisamos de sua ajuda para financiar esta investigação permanente e para manter um banco de dados digital que os eleitores poderão consultar já em 2016. Estamos recebendo dezenas de sugestões, links e documentos pelo [email protected]

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lulipe

05/02/2016 - 15h37

Esse Rosinha entende tanto de política internacional quanto o lula de literatura russa.

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Nelson

04/02/2016 - 23h44

Se no comentário anterior recomendei um livro do Galeano, vou falar agora de um do Noam Chomsky: “Piratas e Imperadores, Antigos e Modernos: O Terrorismo Internacional no Mundo Real”.

Nele, o linguista e filósofo nascido nos Estados Unidos e descendente de judeus afirma: “As duas maiores organizações terroristas do planeta são o governo dos EUA e o governo de Israel”.

É preciso que repitamos isto tantas vezes quantas o descomunal aparato de propaganda ideológica do sistema tachar o árabe, ou qualquer outro povo ou governo, de terrorista.

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Nelson

04/02/2016 - 23h38

O livro citado pelo deputado Rosinha é, por seu título em português, “De Pernas pro Ar: A Escola o Muno ao Avesso”. Um livro fantástico, fenomenal, mesmo. Creio que pode ser considerado um verdadeiro tratado sociológico sobre o nosso mundo em sua idade moderna. Quem ainda não o leu está perdendo tempo.

De outra parte, lembro da Era Reagan na Casa Branca. Tempos de cinismo e hipocrisia nunca dantes vistos, que eu cheguei a acreditar que nunca seriam superados. Me enganei. Os homens ditos probos, respeitáveis, civilizados e modernos têm o dom de se superarem nestes quesitos.

Como se diz no popular, são daqueles que matam a mãe e vão chorar no velório. É impressionante.

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