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Cartas de Minas
Cartas de Minas

Brasil se torna modelo para países que o neoliberalismo afundou

10 de setembro de 2010 às 14h23

Nas minhas viagens internacionais mais recentes respondi muitas perguntas sobre o Brasil, feitas por estrangeiros curiosos. Na África, especialmente, eles queriam saber como foi possível ao país enfrentar a crise econômica sem cortar os gastos sociais, que era a saída mais “óbvia” proposta pelos neoliberais e por gente como José Serra, que disse que o Brasil estava “na contramão”  do mundo, lembram-se?

Equilíbrio entre governo e mercado é sucesso no Brasil, diz economista-chefe da OCDE

10/09/2010

E.M.Pinto, na BBC Brasil

O italiano Pier Carlo Padoan, secretário-geral adjunto e economista-chefe da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), vê o Brasil como uma “história de sucesso” no contexto da crise financeira global porque soube encontrar um novo equilíbrio entre o livre mercado e a intervenção do Estado na economia.

Em entrevista à BBC Brasil, Padoan diz que o “Brasil encontrou um equilíbrio importante entre o crescimento econômico e as questões sociais” embora possa crescer mais se houver melhorias na educação e no sistema fiscal.

Ele fala também dos desafios da Europa diante da crise econômica global e diz que essa “é uma oportunidade importante para mudanças positivas” no continente.

BBC Brasil – Por que o Brasil atravessou melhor a crise do que as economias ricas da OCDE?
Pier Carlo Padoan – Acho que o Brasil, como outros países emergentes, mostrou uma grande capacidade para reagir à crise atual. Isso é o resultado do aprendizado com crises passadas. Eu me lembro muito bem da transformação efetuada pelo Brasil na primeira metade dos anos 2000 porque trabalhava no Fundo Monetário Internacional naquela época. Agora, a performance do Brasil é muito favorável. No início de 2000, a taxa de crescimento da economia brasileira era muito baixa e atualmente é muito forte. Isso não é algo que possa ser obtido sem transformações importantes.

BBC Brasil – Quais foram as mudanças no Brasil nesse período?
Padoan – O Brasil é uma história de sucesso porque o país encontrou um novo equilíbrio entre a livre concorrência dos mercados e a intervenção do Estado na economia. É um caso muito interessante de sucesso, que é certamente permanente porque é o resultado de uma transformação estrutural da relação entre os setores público e privado na economia.

BBC Brasil – O senhor pode dar um exemplo dessa transformação estrutural?
Padoan – A questão fiscal e as relações entre o governo central e os dos Estados, discutida há alguns anos, é um elemento importante. O problema foi resolvido com uma solução nacional e é também uma lição para outros países que têm uma estrutura federal, como o Canadá, a Índia, a Suíça e também a Itália. Menciono também a vitalidade da indústria brasileira, sua capacidade para ter posições competitivas importantes em setores avançados, como a aeronáutica.

BBC Brasil – O que mais pode ser destacado nessa relação entre os setores público e privado no Brasil ?
Padoan – O Brasil encontrou um equilíbrio importante entre o crescimento econômico e as questões sociais. O país encontrou mecanismos de transferência de renda à população. É impossível encontrar soluções que sirvam a todos os países. Cada país deve refletir em função de sua história, de suas instituições e de sua cultura para encontrar soluções para os problemas estruturais.

BBC Brasil – No caso da Europa, quais são os principais desafios pós-crise?
Padoan – Os desafios da Europa são, ao mesmo tempo, econômicos e institucionais. O grande desafio econômico, que já existia antes da crise, é o de conseguir a retomada do crescimento. A Europa deve reforçar o motor do crescimento com uma nova interpretação do modelo de integração europeia, principalmente nas áreas das novas tecnologias ambientais. Do ponto de vista institucional, a crise na Grécia mostrou que a zona euro precisa precisa reforçar a governança econômica, que abrange também a competitividade dos países e a estabilidade financeira. É preciso maior crescimento para melhorar o bem estar social na Europa, mas também para assegurar a estabilidade das receitas fiscais, já que a crise econômica provocou a crise das finanças públicas.

BBC Brasil – A demora em socorrer a Grécia não demonstraria que a Europa ainda está longe de ter uma governança econômica?
Padoan – Vemos claramente que o governo grego, mas também Espanha, Portugal e Irlanda, que sofrem pressões para controlar os orçamentos, criaram programas de reformas muito ambiciosos, muito rigorosos. É uma nova demonstração de que as crises podem ser uma oportunidade importante para mudanças positivas. Não apenas dos governos individualmente, mas também em relação às instituições europeias. A Europa decidiu ativar novos instrumentos, sobretudo o Fundo para a Estabilização Financeira, que é uma forma embrionária de um fundo monetário regional, como também a revisão dos pactos de estabilidade (acordo que visa a evitar déficits públicos excessivos), com uma fiscalização mais rigorosa, e ainda aspectos em relação à competitividade para evitar que existam divergências entre os países da zona euro. Vimos claramente que uma zona monetária não pode sobreviver se os equilíbrios internos não são levados em conta. Estou otimista. A crise trará transformações positivas do ponto de vista institucional também.

BBC Brasil – Vários governos europeus questionaram as políticas de apoio econômico e lançaram planos de austeridade. Qual seria a solução? É preciso manter o apoio do Estado para evitar a recessão, ou planos de austeridade são necessários para evitar novas crises financeiras?
Padoan – A crise é grave e os ajustes também devem ser severos. A situação nos mercados ficou agora sob controle. Os mercados responderam positivamente aos planos de austeridade da Grécia e de outros países. Certamente, os planos de ajustes a médio prazo, para reconquistar a confiança dos mercados, terão um pouco de impacto sobre o crescimento econômico, mas é o preço que deve ser pago para haver credibilidade das políticas fiscais e monetárias. É um desafio para a Europa, mas também para outros países. O problema da dívida insustentável a longo prazo existe em todos os países ricos.

BBC Brasil – O papel regulador do Estado é hoje maior na Europa?
Padoan – O Estado tem muitos papéis. Claro que há o papel de apoio macro-econômico, que vai diminuir porque é preciso reduzir a dívida pública. O papel regulatório do Estado também é muito importante. O papel do Estado é o de definir regras e é também necessário ter instrumentos para aplicá-las. O exemplo mais evidente hoje é o da reforma do sistema financeiro, que deve ser, ao mesmo tempo, uma tarefa nacional, mas também internacional. O G20 deve ter um papel importante nessa questão.

BBC Brasil – Podemos dizer que há uma mudança na Europa após a crise? A presença do Estado em termos de regulação se tornou maior?
Padoan – A crise mostrou que há falta de regras e também de fiscalização. É preciso ter regras adequadas e colocá-las em prática. O Estado precisa ser reforçado em termos de novas regras, é isso o que representa a reforma financeira. Mas é necessário ter também instrumentos de fiscalização em relação às operações bancárias e dos mercados financeiros. A crise reforçou o papel das instituições internacionais, como o FMI, o Banco Mundial. Desse ponto de vista, podemos dizer que há mais presença, mas não quero dizer do Estado, prefiro utilizar a palavra governança.

BBC Brasil – A crise trouxe novas perspectivas para o setor privado?
Padoan – A crise colocou em evidência que é preciso mudar o modelo de crescimento econômico. Devemos encontrar novas fontes de crescimento – a inovação, a expansão das atividades ligadas às questões ambientais. É preciso mudar a utilização dos recursos e é preciso ter mecanismos para facilitar isso. Estamos desenvolvendo estratégias para o chamado crescimento verde. As mudanças climáticas também são uma oportunidade para mudar o modelo do crescimento.

BBC Brasil – Quais são as lições que o setor privado pode tirar com a crise ?
Padoan – O setor financeiro aprendeu que ter uma perspectiva de curtíssimo prazo, segundo a qual os lucros a curto prazo são o único fator importante, não é boa. O setor privado não financeiro aprendeu que é preciso ter regras e instituições mais eficazes para orientar os recursos com uma visão de longo prazo. O espírito empresarial deve ser reforçado. É uma lição para o setor privado, mas também para o setor público.

BBC Brasil – O senhor elogiou bastante o Brasil. Quais são os principais aspectos que o país precisa melhorar?
Padoan – O Brasil é um grande país com uma taxa de crescimento forte, que demonstrou sua capacidade para enfrentar uma grande crise melhor do muitos outros países. Há várias ações que podem ser feitas para melhorar a situação e aumentar a capacidade de crescimento. A OCDE divulgou um estudo chamado “Para o Crescimento”, que analisa os desafios estruturais dos países membros da organização e de outros não-membros, como o Brasil. No caso do Brasil, identificamos margens de crescimento potencial associadas à melhoria do sistema educacional, ou seja, do capital humano, e também ligadas à inovação do país. O Brasil pode melhorar seu sistema fiscal. Há margens para o Estado melhorar sua arrecadação e também ser mais eficaz na utilização dos recursos. Se houver progressos nessas áreas, haverá um crescimento forte a longo prazo.

BBC Brasil – O governo brasileiro atual não demonstra interesse em se tornar membro da OCDE. O sr. espera que o novo governo que sairá das urnas mude de posição?
Padoan – O Brasil não é membro da OCDE, mas fazemos muitas coisas juntos. A questão da adesão é bilateral. Os países membros devem se interessar em ter o Brasil como membro, mas o Brasil também deve ter o interesse de se tornar membro oficial permanente. É um objetivo de médio prazo. Para reforçar as atividades entre o país e a organização, é preciso demonstrar ao Brasil que a OCDE pode ser útil para a política brasileira e mostrar aos outros países que é importante ter o Brasil na família. Vemos, a cada dia, uma melhoria nas relações entre o Brasil e os outros países. O convite para ser membro é a conclusão de um processo diplomático de conhecimento recíproco. Esse processo já começou há muito tempo.

 

16 Comentários escrever comentário »

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GeorgeLuckas

11/09/2010 - 12h16

o brasil está bem, mas mudanças precisam ser feitas, e eu tenho a impressão de que em breve serão realizadas…acho que precisamos investir mais em tecnologia e em atrativos para cérebros…quantas mentes perdemos por ano para o estrangeiro do ITA ou do IME…falo porque tenho conhecidos que estão lá, que são muito inteligentes e que não pretendem permanecer no país…

um tempo para propaganda: o Ceará é o estado que tem a participação que mais cresce nas escolas militares, inclusive o ITA

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Leonardo

11/09/2010 - 10h48

Belo Trabalho, este não passa na grande mídia. Depois das eleições, vamos vêr como se compotará os colunistas dos grandes meios de comunicações. As justificativas das cabeças pensantes. Aguardo.

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augusto

11/09/2010 - 09h59

Simpatico, sr. Padoan.
Mas por favor dê nomes aos bois, chame as coisas pelos seus verdadeiros nomes.
Agencias multi laterais fica muito enfeitado pra designar uma coisa feia. Melhor como segue:
" BID" : outro nome pra jaula fraca e bamba pra ver se ainda pega animal pequeno e assustado.
"FMI" : nome ainda usado pra rede apodrecida mas de malha fina pra ver se pega ainda algum peixe pequeno.
"AIEA" Cavalo de troia que os tontos sitiados as vezes deixam passar por seus muros.

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Gerson Carneiro

10/09/2010 - 23h28

Recordar é viver.
Reviva o afundamento do neoliberalismo:
[youtube kx6WIG7ygdI http://www.youtube.com/watch?v=kx6WIG7ygdI youtube]

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Tomudjin

10/09/2010 - 23h27

À vezes tenho a sensação de que alguns empresários sentem inveja das crianças, que se alimentavam de barro, serem, hoje, beneficiadas pelo Bolsa Família.
Eles, que todos os dias saem com suas pilhas de documentos nas mãos numa odisseia incansável, com o único propósito de provar, para o Governo, que é possivel viver honestamente neste País, sentem-se vítimas de um irritante "assistencialismo selvagem".
Mas que razões há, na proposta de um Governo, se não o assistencialismo?
Os mesmos que criticam os altos lucros da indústria e dos Bancos, são os que condenam o nicho eleitoreiro que o incômodo do Bolsa Família provoca.
Deve ser por isso que a Mídia sempre esteve bem servida de "especialistas". Estes, sim, têm a solução pra tudo na ponta da língua, pois sabem que não serão cobrados se seus prognósticos não forem os certos.

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Baixada Carioca

10/09/2010 - 21h07

O mundo vê um Brasil que o PIG e a tucanada se negam a enxergá-lo. Que há muito o que fazer, sem dúvida, sobretudo na área educacional, como disse Padoan, e no sistema fiscal. Mas acho que estamos no caminho certo. Hoje mesmo um governador e um ex-governador foram presos por corrupção. Antes já teve o Arruda, o segundo careca na escala do tucanato, também preso por corrupção. Teve aquele prefeito em Dourados/GO e sua quadrilha também presos. Bom sinal. Antes do Lula nada disso era notícia. Tenho esperança de ver uma educação brasileira pra ser copiada pelo mundo inteiro.

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    Guilherme Souto

    10/09/2010 - 22h39

    Enxergam – mesmo porque contra fatos não há argumentos -, mas é que eles tem compromisso com outro modelo de gestão. São ligados aos interesses do império do irmão do norte – teoria da dependência – que por sua vez tem por trás o liberalismo – nos tempos atuais, neoliberalismo.

    Ou seja, são cretinos mesmo!

    Morvan

    14/09/2010 - 16h38

    "Irmãos do Norte". Referes-te aos mexicanos? Eh, eh, eh…
    Concordo com você. Se há algo que não se pode alegar, com relação aos "cabeça de planilha" (apud Nassif), é desconhecimento das causas. São entregões; inocentes, jamais.

    Morvan, Usuário Linux #433640.

Emília

10/09/2010 - 17h27

Nunca gostei do FMI e não vou gostar desse OCDE, eles gostam de ditar regras gerais que não dá certo pra todos os países. Cada país tem sua cultura e seu modo de vida, não se pode generalizar quando tratamos de um povo. O Brasil saiu da crise por pensar apenas no seu problema e no seu povo. Ajudar uns aos outros tudo bem, mas não podemos dá o mesmo remédio pra várias doenças. A sabedoria popular entende isso, falta os MBAs da economia entenderem também.

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Pedro

10/09/2010 - 17h13

Esse italiano aí fala de tudo e não diz coisa com coisa. Ele está mais para conselheiro Acácio, aquele personagem do Eça de belas frases sem conteúdo. Nem a crise, que é capitalista, ele trata como tal. Quer juntar de qualquer maneira os cacos que restaram da bancarrota do ano passado. Vamos avisar a ele que a cola que poderia colar esses cacos está em falta.

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Helcid

10/09/2010 - 16h44

… é bom lembrarmos quem foram os "vendilhões da pátria":
http://www.conversaafiada.com.br/brasil/2010/09/1

ah, uma observação aos trolls que estão negativando a maioria dos comentários aqui (e falo de comentários com conteúdo e bom senso): fiquem á vontade… mas tentem negativar nossas idéias em nossas mentes e corações !!

O DESAFIO ESTÀ LANÇADO !!

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monge scéptico

10/09/2010 - 16h19

O melhor será nos resguardarmos de ser modelo para algo. Nós temos nosso 'jeitim" mas, isso
tem muitos custos. O padrão social da europa não pode ser comparado ao nosso. Eles tem
muitos benefícios com os quais nem sonhamos ainda. Agora que foi um feito extraordinário
passarmos a "crise" sem arranhoes la'isso foi. É como somosUai!!.

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    Baixada Carioca

    10/09/2010 - 21h09

    A crise por lá não nos deixa atrás não monge. Apesar do padrão de vida, o que era "cor-de-rosa" tá amarelando para os europeus.

sergio

10/09/2010 - 16h12

Aprenda Serra, o pIG não vai nuna falar sobre essa entrevista.

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ZePovinho

10/09/2010 - 16h11

O EM Pinto,do site PLANO BRASIL,poderia aparecer mais por aqui falando sobre tecnologias de defesa.O cara é fera:
http://pbrasil.wordpress.com/

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