VIOMUNDO

Alexandra Mello: Mais do que nunca as crianças precisam de um mínimo de coerência nossa

19 de março de 2016 às 17h17

crianças

Domingo 13

Alexandra Mello, no Facebook

Não quero falar da Angélica. Já foi falado tudo. De um lado, que é uma relação profissional, com salário justo, registro em carteira, impostos pagos, etc,etc,etc.

Do outro, que a imagem com a babá preta vestida de branco empurrando os dois filhos do casal branco vestido de verde e amarelo está carregada de simbolismos.

Tem sido assim: você precisa escolher um e, ao escolher, certamente será classificado e julgado pelo outro (ou coxinha ou petralha comunista). Mas quero falar é das crianças. Não só daquelas duas, no carrinho, pra quem viver ainda é uma experiência basicamente sensorial e aquilo era mais um passeio cheio de estímulos.

Mas também de outras que estavam lá no domingo 13, repetindo competente e alegremente o que os pais gritavam. Das que estão em processo de alfabetização e tentam ler tudo que encontram pelo caminho. Das que imitam os pais e ainda acham que o que eles dizem é a lei mais absoluta. Era uma multidão de verde e amarelo, protestando pacificamente pelo fim do governo e de sua corrupção.

Ouvi depois elogios e mais elogios ao civismo da manifestação. Provavelmente, atribuído ao fato de não ter havido nenhuma grande ocorrência que pudesse perturbar a ordem.

Neste caso, a atitude cívica teria sido de todos os brasileiros. Dos que estavam lá e dos ausentes que souberam respeitar o direito daqueles, de se manifestarem.

Fiquei pensando no significado da palavra civismo. Tentei lembrar das aulas de Educação Moral e Cívica que eu tinha no colégio de freiras. Particular. Também tentei lembrar das aulas de Estudos Sociais, sobre a ditadura no Brasil. Das de português, quando aprendi os Pronomes de Tratamento. Da professora Ceriza, de Religião. Essa me deixou de recuperação bimestral. Nunca me esqueço. Fui para o Guarujá (sim, meu avô alugava apartamento lá e nas férias eu encontrava a turma da escola, particular) e precisei levar a Bíblia para resumir um trecho dela e, quem sabe, me recuperar. Consegui.

Também me lembrei das aulas de Geografia. Nesta, eu tive uma vez que escrever 100 vezes a palavra Brasil. Com s. Eu tinha escrito com Z. Bem na prova. Essa, até que não foi mal. Aprendi que o Brasil é nosso.

Isso tudo me levou a pensar nas crianças de hoje, que escutam tantas palavras bonitas na escola (felizmente, não mais em aulas compartimentadas de Moral e Cívica e Religião) e nas ruas, num domingo 13, encontram cartazes onde o que está escrito é TÃO diferente. Tem também os desenhos. De uma mão com 4 dedos, por exemplo.

Mas eu não tinha que respeitar o amiguinho da classe que tem uma deficiência? E a Presidenta? Não é Vossa excelência? Posso chamar de vaca então? Achei que a ditadura tivesse sido ruim para o Brasil. Meus pais querem de volta? Quanta confusão! E na família então? Quanta animosidade! Quanto rancor! Fico me perguntando: será que não temos ressentimentos que saem enviesados, via discussão sobre a política? O que é democracia afinal? É sair às ruas e chegar em casa, chamando o parente de petralha comunista?

Quantas coisas nossos filhos têm escutado e a gente nem se preocupa que efeito isso pode ter. Eles é que poderão mudar nossa sociedade lá na frente. A gente sabe disso. Mas se continuarem escutando, lendo, vendo tudo que a gente têm mostrado a eles, não sei não. E o Bolsonaro que, explicitamente, discrimina a mulher, os negros, os homossexuais e foi aplaudido quando falou na manifestação que defende a democracia e a liberdade? Que liberdade? De quem? Para quê? Tá difícil!

E eu não sei como algumas pessoas conseguem comemorar cada nova prisão. Cada nova delação. Que haja sim punição para todos que merecerem. TODOS.

Mas não há o que comemorar, minha gente. Talvez seja um momento importante sim, mas de muita tristeza. E as crianças precisam mais do que nunca de nós e de um mínimo de coerência, entre discurso e prática.

Alexandra Mello é psicóloga e psicopedagoga 

Leia também:

É assustador ver crianças reproduzindo o fascismo dos pais

Investigação VIOMUNDO

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maria do carmo

20/03/2016 - 08h25

Alexandra Mello, concordo, numa dessas ultimas manifestacoes fascistas estava perto da av paulista, quando vi um casal, duas criancas e baba descendo do carro, o homem pegou uma crianca de uns dois anos ao colo e falava repetidamente Dilma p…, ate que a crianca passou a repetir, nesse momento, lembrei de quando crianca eu, meus pais e meus cinco irmaos, estavamos passendo de carro pela av. santo amaro na esquina da av morumbi do lado do Brooklim velho, quando nos deparamos com a comitiva do presidente Getulio Vargas que fora visitar uma fabrica, Getulio acenava e as pessoas tambem e batiam palmas, algumas pessoas mais afastadas faziam apupos, ao sairmos papai disse, que Getulio era o supremo mandatario do paiz que fora eleito pela maioria dos brasileiros e que portanto, mesmo os que nao votaram nele deveriam respeita-lo, nao precisavam aplaudi-lo, mas nao poderiam ofende-lo, e que era necessario que se respeitasse a maioria, que fazia parte da democracia.Papai nos ensinou fosse no futebol ou na vida, lutamos para ganhar, mas precisamos saber que um ganha outro perde e quem ganhou foi melhor, devemos nos preparar melhor, sempre tera um vencedor e um perdedor faz parte da vida!

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FrancoAtirador

19/03/2016 - 19h19

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Completando o Verso de Cazuza:
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“A Burguesia Féde” a Hipocrisia.
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