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Cartas de Minas

Alessandra Vieira: A grande massa só recebe informação de seus próprios algozes

08 de junho de 2017 às 16h45

UM BALDE DE ÁGUA FRIA

Por Alessandra Vieira, reproduzido no blog do Dimas Roque

Os nazistas mantinham os judeus em fome constante. Assim, os judeus se ocupavam apenas de uma única tarefa durante o dia todo: procurar alimento, sobreviver, matar a fome imediata e urgente.

Não tinham tempo e nem energia para organizar conspirações, rebeliões e planos de fuga. A vida se resumia a uma luta individualista, egoísta e solitária pela mera subsistência.

De modo análogo, a maioria dos brasileiros se ocupa apenas da sobrevivência e da dura conquista do básico: moradia, comida, escola e saúde. E mesmo os poucos que conseguem manter esse básico (especialmente a classe média) não têm tempo para se preocupar com mais nada: acordam muito cedo, trabalham mais de 8 horas, retornam exaustos, assistem o Jornal Nacional e vão dormir para reiniciar a labuta no dia seguinte.

A vida se resume a uma luta individualista, egoísta e solitária pela manutenção do básico.

E as TVs, os jornais e revistas reforçam e martelam diariamente essa ideologia do individualismo e do trabalho maquinal: pense apenas em você; invista apenas em você; é cada um por si; não reclame, trabalhe; não seja vagabundo, trabalhe até o fim da vida; sempre foi e sempre será assim; com esforço você conseguirá vencer; a meritocracia fará você vencer; os sindicatos não servem pra nada; a política não presta; o coletivismo é um sonho; o socialismo morreu; os empresários vão melhorar sua vida; o capitalismo selvagem e sem grilhões é o futuro.

E tudo isso é mostrado ao público através de um lustro acadêmico e profissional. A propaganda é tão intensa e tão bem feita que poucos conseguem perceber a grande farsa que existe por trás dessa forma de pensar.

Diante desse cenário, a grande maioria dos brasileiros pouco se importa se o país está passando por um golpe de estado, se os direitos humanos já foram pro vinagre, se não existe mais democracia, se a constituição foi rasgada, se existe prisão política, se haverá uma ditadura militar, se os pobres da cracolândia estão sendo tratados como lixo.

Para quem a sobrevivência é a única preocupação, essas questões parecem supérfluas, um luxo desnecessário que só se justifica em países ricos.

Tudo isso se apresenta como uma névoa de acontecimentos, um falatório confuso, um ruído de fundo na vida cinzenta e maquinal dos trabalhadores.

Querer que essa multidão de autômatos se levante para lutar pela democracia é ser totalmente irrealista, romântico e ingênuo.

A grande massa de trabalhadores sem sindicatos, desorganizados e desinformados, apenas perceberão que algo mudou no país quando forem terceirizados, quando não mais tiverem direito a férias e décimo terceiro, quando a carga de trabalho aumentar e o salário diminuir, quando descobrirem que não irão mais se aposentar.

A grande massa de trabalhadores não aprende pela informação (pois a única informação que possui vem de seus algozes), aprende pela prática do dia-a-dia. Quando a grande massa de trabalhadores descobrir que tudo mudou, já será tarde demais para mudar.

PS do Viomundo: É por isso que, no primeiro Encontro de Blogueiros, em 2010, o discurso do criador deste espaço focou na necessidade de produção de conteúdo próprio, para o qual seria necessário financiamento através de uma política pública e/ou formação de uma cooperativa de blogueiros, que iria em grupo e diretamente ao mercado publicitário. Sem depender de governos de turno.

Em vez disso, vimos a SECOM dos governos Lula e Dilma pulverizar a publicidade oficial, beneficiando os parceiros locais e regionais dos grandes grupos de mídia, que seguem a mesma linha política de O Globo ou do Estadão, republicam os mesmos colunistas e servem aos coronéis regionais.

Vimos a “mídia técnica”, que significa basicamente manter os gigantes bem nutridos para esmagar os fracotes. Vimos omelete na Ana Maria Braga e um prefeito petista achincalhado por um “historiador” chinfrim da Jovem Pan. Vimos o senador Humberto Costa nas Páginas Amarelas da Veja. Ou seja, muito pouco mudou em 12, eu disse DOZE anos do PT no poder.

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5 Comentários escrever comentário »

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Allex

15/08/2017 - 19h38

Absolutamente excepcional. Sei que estou atrasado dois meses, mas não posso deixar de me manifestar. Marx (Karl) e Max (Weber) devem estar aplaudindo de pé.

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Eu

11/06/2017 - 00h28

Bom e elucidativo artigo. Tenho pisado e repisado no fato de que, em um país com 206.081.432 pessoas espalhadas por 8.515.767,049 km² nada acontecerá de forma diferente enquanto houver hegemonia da informação, e que o tão falado “fim da imprensa escrita e televisionada” anunciado pela internet é balela em um lugar onde mais da metade da população nem tem acesso à rede, mas quase todos têm TV na sala ou dispõem de um vizinho que tenha.

E, lamento Azenha, mas deveria ser também uma fonte de reflexão para todos os comunicadores e repórteres do País. Enquanto não houver uma verdadeira estratégia de comunicação de massas não-alinhada ao poder do mundo corporativo-financeiro, tudo o que veremos é a partilha do povo entre uma parte alienada pela força da rotina de sobrevivência, como bem colocou Alessandra Vieira, e uma parte que já tem acesso à internet ser cooptada por redes sociais reacionárias aliadas ao poder da grana, que foi a única real mudança que atingiu a classe média-baixa brasileira. Enquanto isto, as TVs e jornalões continuarão mandando no orçamento e os blogs continuarão sua busca por mais financiamento, até que só sobrem os primeiros. Que tal este debate agora?

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Antonio Passos

08/06/2017 - 21h11

Muito pouco mudou para quem só olha para o próprio umbigo. Para 40 MILHÕES de brasileiros muita coisa mudou. Se o PT errou neste caso, outros também erraram muito mais. Como o Viomundo, que fez coro com a Globo no apoio às manifestações financiadas do exterior, que foram o início da derrubada do governo petista. Onde estão agora as Sininhos heróicas, lutadoras da liberdade ?

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José Luiz de Faria

08/06/2017 - 17h42

Esta reportagem vem de encontro com o que eu penso, realmente essa matéria de Alessandra Vieira dizendo no popular matou a pau noto em minhas andanças pela cidade de São Paulo/SP. nos trens, metro e ônibus e shoppings que me parece que em nosso País não está ocorrendo nada as pessoas não está nem aí, não estão dando importância pelo que os Políticos estão fazendo estão abertamente promovendo a destruição de nosso País e destruindo todo os nossos direitos, tirando tudo e o que é pior estamos sendo governado por uma quadrilha de bandidos e o povo não se manifesta de uma forma a intimidar e colocar receio nessa corja de bandidos que ali está em Brasília, acredito que se fosse em outro País o povão já estariam quebrando tudo e fechando o seu Parlamentos.

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    Maria Aparecida Lacerda Jubé

    09/06/2017 - 06h53

    A Globo nos preparou para isso durante seus 50 anos de existência, um povo alienado, cordato e, acima de tudo idiota

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