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Cartas de Minas
Cartas de Minas

A homenagem de Celso Amorim a Marco Aurélio Garcia

01 de agosto de 2017 às 09h32

Marco Aurélio Garcia, o homem que colocou Sartre contra a parede

por Celso Amorim, na CartaCapital

Ele foi o pensador responsável pelas posições do PT em política externa, personalidade generosa que ouvia argumentos e ajudava sempre nas boas causas

A frase – que repeti algumas vezes nesses últimos dias – é de um amigo comum, o psicanalista e autor brasileiro, radicado na França, Heitor Macedo, ao descrever o papel de Marco Aurélio Garcia e sua poderosa dialética em uma entrevista com o grande pensador do século XX.

Marco Aurélio e eu éramos da mesma geração. Lemos Sartre e Marx, frequentamos os mesmos cineclubes, gostávamos de Visconti e Eisenstein, admirávamos Georg Lukács e tomamos chope no Amarelinho.

Quando Marco Aurélio era vice-presidente da UNE, eu trabalhava como assistente de direção (na verdade, segundo assistente, pois o primeiro era Flávio Migliaccio) de Leon Hirszman em um dos episódios (Pedreira de São Diogo) do longa-metragem Cinco Vezes Favela, financiado pelo CPC, braço cultural da organização estudantil.

Levado por Leon, eu frequentava, juntamente com Migliaccio e Chico de Assis, reuniões – às quais Marco Aurélio também costumava ir – no apartamento de Alex Viany, crítico de cinema e militante político, situado no “conjunto dos jornalistas”, bloco de moradias de classe média, contíguo ao Jardim de Alá e à favela da Praia do Pinto, na zona sul do Rio de Janeiro.

Circunstâncias de vida levaram Marco Aurélio à luta clandestina contra a ditadura e ao exílio, enquanto eu ia parar na diplomacia, ainda à época da política externa independente. Anos mais tarde, quando minha filha, Anita, entrou para a Unicamp, nosso amigo Heitor sugeriu que ela procurasse o então já renomado professor de História, o que certamente contribuiu para nos aproximar.

Um episódio, à época da campanha para a eleição presidencial de 1994, fortaleceria ainda mais os nossos laços. Eu era ministro das Relações Exteriores de Itamar Franco, indicado por José Aparecido de Oliveira, originalmente escolhido, mas que não assumiu o cargo por motivos de saúde.

Em meados daquele ano, antes de o Plano Real ter embaralhado as cartas, tudo indicava que Lula sairia vencedor no pleito. Um amigo comum propiciou um encontro meu com Marco Aurélio, realizado meio às escondidas, em uma suíte do Hotel Maksoud Plaza, em São Paulo.

Do meu ponto de vista, tratava-se de apresentar ao principal assessor de Lula em matéria de política internacional a rationale de certas posições da diplomacia brasileira, em particular o Mercosul, visto por alguns como parte de um “projeto neoliberal”. O mesmo objetivo já me levara a convidar o então presidente da CUT, Jair Meneguelli, para um almoço privado no Itamaraty.

Havia também de explicitar certas políticas de Estado, caras à diplomacia brasileira, como a questão da reforma do Conselho de Segurança da ONU, não necessariamente uma prioridade, àquela altura, do Partido dos Trabalhadores.

Desde então, mantivemos sempre contato, especialmente em seminários e conferências. Quando Lula foi eleito, eu era embaixador do Brasil em Londres. Uma das primeiras pessoas a quem chamei para cumprimentar foi Marco Aurélio, então meu único contato realmente próximo no PT. Algumas semanas depois, o presidente eleito me convidou para ser seu chanceler. Marco Aurélio estava presente a esse encontro (o segundo que tive com Lula, em cerca de dez dias).

O diálogo que mantive com MAG (como também era conhecido na alta burocracia) foi constante, fluido e, creio, mutuamente enriquecedor. Como o próprio presidente Lula disse, na breve alocução durante o velório, nós tínhamos qualidades (ou características, para ser menos imodesto) que se complementavam.

Eu provinha da burocracia do Estado, fora ministro das Relações Exteriores, chefiara missões diplomáticas importantes e me tornara, um tanto por acaso, “especialista” em negociações comerciais. Marco Aurélio, além da intimidade com o presidente – de quem era quase um alter ego no que toca às relações internacionais –, fora o responsável pelas posições do PT em política externa e era profundo conhecedor dos partidos políticos (e não apenas os de esquerda) na América Latina e na Europa.

Tínhamos a mesma visão básica de como se deveria dar a inserção do Brasil no mundo, com ênfase na integração sul-americana, na solidariedade entre as nações em desenvolvimento e na busca, no plano global, de uma multipolaridade que favorecesse os nossos interesses e os de outros semelhantes ao Brasil, os Pobres da Terra.

Nesses anos de parceria, aprendi muito com a vasta cultura, a fina ironia e a aguda análise política do “Professor”. Juntos trabalhamos, sob a liderança do presidente Lula, para colocar o Brasil no lugar que, desde San Tiago Dantas, sabíamos ser de seu direito (e dever) ocupar.

Não vou aqui desfiar as iniciativas e ações, bem conhecidas, que, nas palavras do então deputado petista Chico Alencar, fizeram com que a política externa do presidente Lula fosse “admirada pela maioria e invejada pela minoria”. Algumas palavras-chave bastam: Unasul, Celac, BRICS, Ibas, África, Palestina, Declaração de Teerã, G-20.

Marco Aurélio era também uma personalidade generosa, um homem sempre pronto a ouvir argumentos e a ajudar nas boas causas. Com o tempo, cresceu e solidificou-se entre nós uma forte amizade, da qual me orgulho e que me fez sentir a sua morte como a de um parente muito próximo, um verdadeiro irmão.

Neste momento triste e sombrio da vida brasileira, em que os sonhos e as utopias vão sendo esmagados por interesses mesquinhos e decisões arbitrárias e persecutórias, em que figuras lamentáveis por seu obscurantismo ou por uma hipocrisia de fazer inveja ao Tartufo de Molière, a memória de Marco Aurélio Garcia continuará a nos dar força e a iluminar nossa trajetória rumo a uma sociedade mais justa e menos submissa.

E quando lá chegarmos, Marco Aurélio (o único ateu convicto que eu conheci), onde quer que esteja, estará sorrindo (aquele sorriso irônico, chegando quase ao sarcasmo, que era tão característico seu), como se dissesse, dirigindo-se aos golpistas de todos os matizes: “Não adiantou, malandros, o povo foi mais forte”.

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