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Você, como um contínuo fluxo de recursos

publicado em 20 de abril de 2012 às 22:53

por James Meek, na London Review of Books, em 20.04.2012

As privatizações estão se acumulando. Primeiro foi o gás. Depois as empresas de telefonia, de petróleo, de eletricidade, as moradias públicas, distribuição de água, as ferrovias e os aeroportos. Existem medidas para obliterar o conceito de moradia social; os hospitais do NHS [o SUS britânico] serão construídos e gerenciados privadamente; agora o David Cameron quer que empresas privadas e governos estrangeiros ‘invistam’ nas rodovias do Reino Unido. O que isso significa? O caráter episódico da privataria — um setor à venda, pausa, outro setor à venda — esconde a metaprivatização que já atravessou a barreira dos 50%. Os bens essencialmente públicos que Margareth Thatcher, Tony Blair e agora Cameron vendem não são as estações, os trens ou hospitais. É o público, em si. Somos nós.

O bem que torna a água, as estradas e os aeroportos valiosos para um investidor, estrangeiro ou não, é o povo que não tem escolha. Não temos escolha mas pagar o preço que nos é cobrado nos pedágios. Somos um fluxo de receitas; somos locatários de nossa própria terra, definidos pela coleção de taxas privadas que pagamos para existir nela. Se não é óbvio que somos vendidos aos investidores, é parcialmente pela forma como a ideia de privatização nos é vendida, hipnoticamente familiar. Primeiro vem a desqualificação do serviço existente, como se uma verdade universal estivesse se manifestando: as escolas/hospitais/rodovias estão caindo aos pedaços/desabando/são de segunda classe. Então, vem a rejeição da responsabilidade governamental: não temos dinheiro, os burocratas são incompetentes. Finalmente, a solução: investimento privado.

E o investimento vem e as coisas ficam melhores. Com certeza se o setor privado não pagasse para trocar os encanamentos, reformar as rodovias velhas e as usinas de energia, seríamos obrigados a pagar mais impostos? A verdade é que já pagamos impostos mais altos. Só que eles não são chamados de impostos. Nosso sistema de distribuição de água está sendo reformado por causa de um grande aumento no preço dos impostos. Mas não é o que se diz. É chamado de “conta d’água”. Como Chris Giles explicou recentemente no Financial Times, as contas de água subiram duas vezes mais que a inflação desde a privatização. Pagamos um imposto ferroviário: é chamado de aumento de tarifa. Pagamos um imposto de energia, na forma de tarifas mais altas e assim por diante.

Ao embrulhar os cidadãos britânicos e vendê-los, setor por setor, a investidores, o governo torna possível manter os impostos tradicionais baixos ou até os corta. Ao sair de um sistema em que os serviços públicos são mantidos por impostos para um sistema em que são mantidos pelas contas pagas pelos usuários, deixamos um sistema no qual os ricos são obrigados a ajudar os pobres para um sistema no qual os de baixo bancam os serviços, como uma rede de estradas, que os ricos recebem pelo que, para eles, é uma pechincha.

Haverá uma revolta? Houve uma nos anos 90 na ilha de Skye. Ostensivamente, o setor privado ia construir algo que os ilhéus não conseguiriam de outra forma: uma ponte para substituir a balsa. Mas os ilhéus entenderam o que estava acontecendo. Eles estavam sendo vendidos como fluxo humano de recursos. Em vez da ponte ser construída por uma pequena porção do orçamento do governo, foi construída por uma empresa privada com a garantia de que ela poderia cobrar altos pedágios. Menos impostos para todos os britânicos, um grande imposto privado para os ilhéus. Uma grande campanha de desobediência civil terminou em 2004, quando os ilhéus, remando contra a maré, conseguiram que a ponte fosse nacionalizada. A ilha de Skye é pequena. A Grã Bretanha é uma grande ilha. O plano é o mesmo. Vamos ver o que vai acontecer.

PS do Viomundo: Não faz diferença se quem ‘vende’ a ideia é do PSDB, do PT, do PSOE, Tory ou do Tea Party. É vendedor, assim mesmo.

Leia também:

Nassif: Jogo sujo nada tinha de ‘faxina’

 

20 Comentários para “Você, como um contínuo fluxo de recursos”

  1. sáb, 21/04/2012 - 18:35
    Carlos Cruz

    Ou os ingleses mudam ou afundam seu Titanic, com todos a bordo! A ilha está em uma maré ruim de acontecimentos, explodem denuncias de corrupção, a economia vai mal (muito mal…), a ideologia capitalista naufraga, e não há mais colonias para manter a primeira classe do navio. Tentam a retomada do neo-colonialismo na Africa e Oriente Médio, mas a Líbia (em sua guerra civil pó-Kadafi), o Afeganistão, o Iraque, a Siria e o Irã mostram que não será facil invadir e dominar como antes. Ainda tem a China e a Russia aparecendo como um poder marginal e com interesses próprios…O Euro balança, a OTAN não é a mesma, os EEUUAA falidos, e o Titanic continua a viagem em busca de seu iceberg (ou será um rochedo?).

  2. sáb, 21/04/2012 - 17:59
    Luis Armidoro

    Caros Azenha e amigos do blog:

    será que David Cameron foi estagiário da "administração' (ou melhor, "jestão") tucana paulista?O que acontece na Grã-Bretanha é o que é posto em prática há 16 anos em SP. Logo vão querer vender o ar, porque não sobrou mais nada aqui

  3. sáb, 21/04/2012 - 17:14
    Messias Macedo

    Bomba: as capas da Veja.
    É PiG na cabeça
    O Conversa Afiada recebeu do amigo navegante Miguel Baia essa importante contribuição à História do Detrito Sólido de Maré Baixa, que a Globo transforma em Chanel # 5.
    Em http://www.conersaafiada.com.br
    Publicado em 21/04/2012
    #####################################################

    (LÁ VEM ‘A GRÁFICA MENTAL’ DO MATUTO!)

    Algumas (possíveis) manchetes nos prelos do PIG!]
    #Governo Dilma faz intervenção violenta nos Bancos Privados
    #Ações do Governo Dilma promovem redução nos lucros dos pobres banqueiros
    #Banqueiros são os novos alvos da presidente Dilma Rousseff
    #Dilma Rousseff e Cristina Kirchner: as mulheres e os riscos que incidem sobre a propriedade privada

    DUVIDAM?!

    República de ‘Nois’ Bananas
    Bahia, Feira de Santana

  4. sáb, 21/04/2012 - 15:18
    sergio m pinto

    "Primeiro vem a desqualificação do serviço existente, como se uma verdade universal estivesse se manifestando: as escolas/hospitais/rodovias estão caindo aos pedaços/desabando/são de segunda classe. Então, vem a rejeição da responsabilidade governamental: não temos dinheiro, os burocratas são incompetentes. Finalmente, a solução: investimento privado.

    E o investimento vem e as coisas ficam melhores. Com certeza se o setor privado não pagasse para trocar os encanamentos, reformar as rodovias velhas e as usinas de energia, seríamos obrigados a pagar mais impostos? "
    Acho que já ví esse filme. Se não estou enganado, aparecia um elefante por trás do apresentador….

  5. sáb, 21/04/2012 - 15:15
    Messias Macedo

    Dilma peitou os bancos.
    O FHC ia vender o BB e a CEF
    Em http://www.conversaafiada.com.br – ínclito jornalista Paulo Henrique Amorim
    ############################################
    … Os neoliberais são, por natureza intrínseca, conservadores, reacionários, entreguistas, antinacionalistas, inescrupulosos, verdadeiros lesa-pátria… Insistem em não se reciclarem, persistem indispostos a uma autocrítica, muito menos a elaborar um esforço de mea culpa… Obsoletos se vestem de fraque, usam cartola e exibem bengalas de ouro, ainda que invisíveis, deitados em berços esplêndidos… Se ‘a privataria tucana’ tivesse sequência, a Petrobras e o pré-sal escorreriam juntos com o BB, a CEF, o Banco do Nordeste, quiçá o BNDES, aves de rapina, a dívida pública aumentando e ‘nosotros’ cada vez mais “lenhados” em meio à crise internacional, gregos e baianos(!)…

    [... Dilma, A Magnífica!...
    'O poste', segundo a *DIREITONA!
    *(eterna) oposição ao Brasil, o cheiro dos cavalos ao do povo!]

    BRASIL NAÇÃO
    Bahia, Feira de Santana
    Messias Franca de Macedo

  6. sáb, 21/04/2012 - 14:40
    Gustavo Pamplona

    Pedagiar antes de tudo é uma "ferida" ao direito de ir e vir livremente mas quem disse que as pessoas se dão conta disto?

    Ou em outras palavras… é um cerceamento a liberdade individual de cada um.

    Segue uma "reporcagem" aí que passou despercebida do JN da segunda da semana passada
    http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2012/

    Olhem a que ponto chegou… pedagiar por quilômetro percorrido… isto até me lembra quando deixaram de cobrar o pãozinho francês por unidade e passaram a cobrar por quilo…

    —-
    Desde Jun/2007 indo e vindo livremente ao "Vi o Mundo"! ;-)

  7. sáb, 21/04/2012 - 1:36
    ricardo silveira

    O texto é claríssimo, bom para levar para a sala de aula do ensino médio. Obviamente lembramos do fim da CPMF, o único imposto que não havia como o rico sonegar e que era um aporte de 40 bilhões para a saúde, mas que os tucanos, com a ajuda da FIESP, achou que deveria tirar do governo LULA, para prejudicá-lo com a falta de recurso para a saúde. Esse é o fundamento neoliberal, o Estado mínimo, a sociedade cuja vida só é viabilizada para quem tem poder de compra, até mesmo para a satisfação das necessidades vitais.

  8. sáb, 21/04/2012 - 1:24
    ZePovinho

    Eu me convenci,mizifio Azenha.Estamos no século das mulheres.Elas exercem o poder com muito mais charme do que nós.Vote em uma mulher nas próximas eleições.Não precisa ser do PT.

    [youtube 1egERZ93r3M http://www.youtube.com/watch?v=1egERZ93r3M youtube]

  9. sáb, 21/04/2012 - 0:38
    marcosomag

    E o pior é que parte da camada média da sociedade, com sua mente devidamente manipulada pelos meios de comunicação, apóia o programa privatista. Partidos de direita defendem a privatização dizendo "falar à classe média". O que o público-alvo da lavagem cerebral midiática não sabe é que os neoliberais são reacionários ao extremo , abominam a classe média e suas pretensões de interferir nos destinos da sociedade.

  10. sáb, 21/04/2012 - 0:27
    Alberto Nasiasene

    Por que, Azenha, você não defendia estes pontos de vistas, mesmo que indiretamente, quando trabalhou na Globo? Não entendo. Nos anos 1990, quando se vendia o patrimônio todo, para sempre, não serviços, por tempo determinado; porque não se aliou tão contundentemente aos setores do PT que eram contra tudo isto? Era só dar um apoiozinho indireto, pelo menos, dos EUA (dentro da Globo, quem sabe, isto teria efeito maior naqueles tempos de hegemonia tucana inquestionável em que a internet não estava amplamente implantada, nem existiam ainda blogs). Agora é fácil, retoricamente, não ver diferença nenhuma entre PSDB, PT e PSOE, Ser PSOL é mais conveniente, porque dá mais audiência para um certo público juvenil de esquerda, mas não é capaz de fazer frente às poderosas oligarquias, inclusive as midiáticas. O que se dirá então de Cuba? E da China? Onde será que existe ainda este capitalismo estatal tão puro (ou será que existe algum lugar que seja um socialismo trotisquista como o PSOL defende)?… Gostaria de obter mais luzes de quem vê o mundo melhor porque é mais viajado do que eu.

    • Porque a gente aprende caminhando e, menos sábio que você, demorei mais para fazer a mesma trajetória. Mas, pelo menos, nunca perdi a vontade de aprender. Ah, e essa história de Psol é viagem sua. O texto fala em princípios e eu acrescentei que, nos dias de hoje, submeter o público ao privado pode ser feito por gente de qualquer "grife" partidária. abs

    • sáb, 21/04/2012 - 17:52
      francisco p. neto

      Não tenho procuração ou permissão do Azenha para compartilhar das suas posições e opiniões.
      Na maioria das vezes as opiniões dele acrescenta às minhas, até pelo fato dele ter maior experiência e conhecimento como jornalista que vijou e viaja mundo afora.
      Acompanho a carreira do Azenha desde quando ele trabalhou na saudosa TV Manchete do Adolpho Bloch. Procure saber um pouco quem foi esse judeu russo. Com quem ele andou. Quem eram o seus amigos. O que ele fez para o país, mesmo sendo um imigrante russo que tinha a intenção de vir para o Brasil para facilitar o seu destino preferido; EUA, mas acabou ficando no Brasil.
      Azenha nessa época, se destacava como um grande repórter correspondente internacional. Era o que eu observava. Com o declínio lastimável da Rede Manchete, Azenha foi para a Globo.
      Pelo o pouco que sei da vida do Azenha, lá na Manchete encontrou um "patrão" dígno e foi muito mais brasileiro do que muitos que nasceram aquí.
      Meu caro. A vida é um eterno aprendizado e Azenha soube trilhar o seu caminho como jornalista. E hoje ouso dizer que ele, para mim, está entre os dez melhores jornalistas desse país.
      Eu poderia chutar o pau-da-barraca e hostilizá-lo. Mas não. O momento político que nós vivemos não precisa de mais baixarias.
      Mas quando for falar do profissional Azenha, se olhe no espelho.
      Abraços.

    • sáb, 21/04/2012 - 20:00
      Jairo_Beraldo

      O PSOL aqui em Goias é aliado do Cachoeira. Pelo menos o "demostenes" do PSOL goianiense, vereador Elias Vaz, parece estar envolvido até o pescoço em fabricar escandalos para paralisar obras do governo municipal petista. Esta CPMI vai ser uma fantastica caça aos zumbis "anarquista da esquerda" que "cumprem ordens" da direita.

  11. sáb, 21/04/2012 - 0:11
    Alexandre

    Belo texto. A preocupação dos moradores do mundo desenvolvido é a mesma dos países em desenvolvimento.
    A opção por governantes neoliberais acelera este processo de privatização de bens essenciais e estratégicos para um país. Nos fazendo reféns, ad eternum, de grupos cada vez mais poderosos.

  12. sáb, 21/04/2012 - 0:01
    Gilson Rocha

    Eu acho que Privatizar é relativo.
    Parece que não é só no Brasil que
    os governos não fiscalizam a fim de
    ter certeza se o consumidor está pagando
    por um bom serviço e pagando o preço justo.
    A telefonia e a internet mesmo, na maioria dos
    países em que é Privatizada, o valor é justo.
    Como eu disse, é só uma falta de interesse do
    governo que paguemos o justo pelos serviços.
    A minha energia elétrica é estatal, nem por isso
    é das melhores e é barata.

    • sáb, 21/04/2012 - 3:58
      Bruno Leite

      Nos locais onde o serviço nasceu privado, a prestação TENDE, em tese, a ser muito melhor do que naqueles onde a corruptocracia dos gabinetes entregou a infraestrutura construída pelo ente público com recursos públicos a um operador privado. Nestes últimos, tal e qual na Repsol-YPF, a lógica do operador é sugar o máximo. Na maioria destes casos, os usuários não têm opção.

      Já nos primeiros, que começaram do zero, a lógica TENDE, em tese, a ser criar um negócio e fazê-lo crescer, atraindo cada vez mais clientes – mais próximo do que ocorre com outros negócios de serviço privado, como a padaria da esquina, exemplo equivocado que se houve com frequência pelos defensores dos esquemas de privataria.

      Exemplo prático: o PSDB privatizou as antigas empresas de telefonia fixa da Telebrás. Durante muito tempo o usuário ficou sem escolha e, não fossem os incríveis avanços na área de TI, não teríamos escolha até hoje. Essas empresas são hoje campeãs, ao mesmo tempo, de tarifas mais caras do mundo e de reclamações nos órgão oficiais de defesa do consumidor, inclusive judiciais.

      Paralelo a isso, no processo também foram vendidas concessões sem que houvesse empresa ou infraestrutura alguma já constituída (as empresas espelho e de telefonia móvel de bandas B, C, D e E). Estas, criadas a partir do zero, foram as "modernizadoras" do setor – precisavam atrair clientes, começaram a oferecer serviços melhores e preços mais baixos. Hoje, todas elas com dezenas de milhões de usuários, já se tornaram campeãs também naquelas modalidades acima referidas.

      Outro exemplo: o PT privatizou este ano – em um dia apenas – aeroportos que respondem por dois terços do movimento de passageiros e cargas do país. A militância se apressou em defender o ato, dizendo que não foram vendidos os aeroportos, venderam apenas concessões… o que é uma distorção óbvia, pois junto com essa tal concessão vai o aeroporto pronto, completo, com pista, terminal e torre de controle.

      Alguém pode por favor explicar pra militância do PT que vender só concessão é o que foi feito, por exemplo, na chamada "banda B"? É o que aconteceria se o governo vendesse concessões para a construção de novos aeroportos que ainda não existem.

      Mas a experiência brasileira mostra que, se por um lado a privatização pela via da concessão para novas empresas e serviços traz um impacto inicial positivo, a tendência, NA PRÁTICA, é que uma vez consolidada uma larga carteira de clientes, forme-se um oligopólio ou um cartel (isso, se já não for um monopólio desde o início), onde expansão e melhoria dos serviços são relegados e os esforços se voltam para sugar ao máximo o bolso do habitual freguês.

      Parece que os britânicos começam a perceber as coisas desta forma também.

      • sáb, 21/04/2012 - 4:09
        Bruno Leite

        Corrigindo:
        aeroporto pronto, completo, com pista, terminal, torre de controle e, MAIS IMPORTANTE, uma concentração absurda de usuários que não têm para onde fugir.

  13. sex, 20/04/2012 - 23:25
    Fabio R

    O neoliberalismo voltou no Reino Unido? Inacreditável.

  14. sex, 20/04/2012 - 23:14
    Cesar

    O feitiço contra o feiticeiro! Que pena! Talvez no retorno do bumerangue esse tipo de atitude seja revista e banida para sempre da humanidade. Tenho esperança ainda de ver a cpi da privataria tucana seguir a cpi do cachoeira!

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