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O discurso antipolítica e a participação popular

publicado em 2 de março de 2011 às 8:18

por Luiz Carlos Azenha

Eu ontem reencontrei o Gilberto Maringoni, um amigo de longa data, dos tempos de Bauru.

E me lembrei do trecho de um livro que ele escreveu sobre a Venezuela (A Venezuela que se inventa), em que Maringoni reproduz trechos do que disse Edgardo Lander sobre o discurso antipolítica. É um discurso comum no Brasil, que aparece disfarçado (“Tiririca foi eleito e o mundo vai desabar”), com os mesmos objetivos: condenar as ações do estado.

Reproduzo:

“Um discurso antipolítica e antipartidos disseminou-se pela mídia, estabelecendo uma oposição maniqueísta entre Estado (caracterizado como corrupto, ineficiente e clientelista) e uma mítica sociedade civil (que inclui a mídia), entendida como uma síntese de todas as virtudes: criativa, cheia de iniciativas, eficaz, honesta e participativa.

O paradigmático novo sujeito dessa democracia de cidadãos, que substituiria a democracia de partidos, era o cidadão-vizinho, concebido com base na experiência das organizações de vizinhança das classes médias e altas urbanas. A preocupação central dessas organizações era a defesa da propriedade e a proteção diante das ameaças representadas pelos setores excluídos da população. O horizonte normativo para esta ideia conservadora de democracia é uma sociedade apolítica, livre de debates ideológicos, na qual a preocupação central dos governantes tem a ver com eficiência e honestidade administrativa, na qual a participação e tomada de decisões democráticas sobre o bem comum está claramente restrita a arenas locais. A economia deve ser vigorosamente protegida das reivindicações demagógicas e irresponsáveis, formuladas em nome da democracia. Todas as políticas sociais e redistributivas por parte do Estado são acusadas de ser populistas.

As organizações sociais e políticas — partidos e sindicatos –, que nas décadas anteriores serviram de canal de expressão para demandas populares, não somente estavam em crise, mas tendiam a ser consideradas, pelo novo discurso, como ilegítimas. A imagem paradigmática deste modelo de cidadania é a vizinhança de classe média e classe média alta, com sua capacitação profissional, acesso à mídia, relações políticas pessoais e uso da internet como instrumento de organização. Com a deslegitimação crescente de todas as políticas públicas distributivas e sociais, os setores não-privilegiados do país têm pouco espaço para a expressão e a articulação de seus interesses. Este modelo político poderia ser chamado de Venezuela imaginária, desconectada da Venezuela profunda, na qual está a vida da maioria da população”.

No Brasil, me parece que uma das formas de expressão do que escreveu Lander está na teledemocracia, na “sensação” de participação que as pessoas derivam de sua relação com a mídia, especialmente no caso dos programas de TV com os quais podem de alguma forma interagir.

 

26 Comentários para “O discurso antipolítica e a participação popular”

  1. qua, 16/03/2011 - 9:43
    Herbert Medeiros

    Bem sabemos que as classes dominantes do país (econômica, social e cultural) apostam conscientemente ou inconscientemente na desinformação e apátia politica do conjunto da população. A mídia como espaço de legitimação politica não quer ser apenas parte da sociedade civil, ela quer ser a própria sociedade civil. Quer se constituir como poder politico para barganhar seus projetos politicos, econômicos e financeiros. Então, a mídia tradicional, tende a ser deseducativa quando tematiza questões da política porque tem interesse em promover o déscredito do Estado e da classe política para legitimar-se como ator de peso no jogo politico.

    As Empresas de comunicação enxergam as relações sociopolítico pela lógica dos negócios. Nesse sentido, essas empresas jamais irão anunciar em seus discursos informações elogiosas levadas a cabo pelo Poder Público e agente políticos visto que estão alinhadas visceralmente com uma percepção de sociedade, Estado e Politica orientado nos principios da economia de mercado, ou seja, vale quem pode pagar pelos bens e serviços oferecidos pelas 'eficientes' e 'meritocráticas empresas.

    Agora convenhamos também que se as elites dominantes investem na cegueira politica da população, também na útlima década os setores populares e os movimentos sociais(sindicatos, organizações estudantis, de mulheres, negros, trabalhadores do campos, movimentos organizados urbanos etc) refluiram ou empacaram depois da dita ascensão do PT e demais partidos ditos de 'esquerda'. Simplesmente parece que a classe operária chegou ao paraiso depois da subida de Lula ao poder. Esses partidos 'progressistas' emcabrestaram as organizações sociais das quais exercem seu raio de influência.

    O PT mesmo sopra aos quatros cantos do mundo que a História do país começou a partir de 2003 e que o nível de 'desenvolvimento' que chegamos nos desobriga a não mais participar de manifestações de qualquer ordem por um Brasil melhor. Segundo eles (PT e alinhados), o Brasil melhor já consumou-se.

    Concordo com o comentário feito acima pelo Bruno, são nas variadas formas políticas que podemos construim um país democrático, inclusivo e com uma população ativamente atuante. Na atual conjuntura, o Estado é apenas agente protetor da iniciativa privada e esta só 'defende' a democracia e a cidadania na medida em que não conflitem com seus negócios privados. Somos nós, individualmente e coletivamente educando-se todo dia para ação cidadã, que temos que dá o tom da politica e não as forças do Estado nem do mercado que têm que guiar nossas ações.

  2. [...] Clique aqui para ler sobre o discurso antipolítica que acompanha as derrotas eleitorais da direita   [...]

  3. Parabéns pelo texto. Sem emendas.

  4. qua, 02/03/2011 - 14:42
    Alexandre Araújo

    Toda vez que eu ouço essas bravatas contra o poder constituído, repercurtido hoje pela mídia, de que tudo no poder público é corrupto e ineficiente, me vem à cabeção um certo austríaco de bigodinho a lá Carlitos que bradava isso pela Bavária nos anos 20.

  5. qua, 02/03/2011 - 14:26
    beattrice

    Azenha, a teledemocracia televisiva baseia-se numa premissa falsa de interação, pois qualquer pitaco que o telespectador opine ocorre dentro do quadrado delimitado pelo establisment midiático.

  6. qua, 02/03/2011 - 14:19
    Antonio

    Outro problema muiito sério é o que o PSDB fez com o Brasil e faz com SP. Sua política é o do quanto pior melhor. O caos social, a falta de emprego ou o trabalho em demasia pra se criar os filhos e ter um pouco de dignidade, faz com que as pessoas entrem em parafuso e fiquem extremamente perplexas, fatigadas e estressadas, afastando-as da vida política – veja como está SP hoje, dominada pelo crime organizado, os meninos estão drogados, o transporte coletivo é péssimo, a polícia é usada para descer o cacete no povo, quando esse tenta se organizar e reclamar, as escolas não ensinam nada e quando as pessoas ficam doentes, se não têm plano de saúde extremamente caro, não têm para onde correr, pois o serviço público é um caos. Assim, a ignorância criada pelos meios de comunicação como forma de ludibriar o cidadão e torná-lo apolítico mais o caos social fazem essa apatia e esse desconhecimento sobre política.

  7. qua, 02/03/2011 - 14:12
    Antonio

    Prezado Azenha,

    No Brasil, mesmo para a classe média, é difícil entender de política. As pessoas se instruem sobre política através dos meios de comunicação, como a Globo, a Veja e os jornais. Ocorre, que nesses meios, os políticos são construídos como são as mulheres de Playboy – são honestos, trabalhadores incansáveis, doutores preparados, tudo destituído de ideologia. Então, as pessoas vêem uma política na TV que não ocorre no seu dia-a-dia. Há uma dissonância e ninguém acaba entendendo nada, pois muita gente acredita que o que diz o meio de comunicação é a expressão da verdade. As escolas particulares, que são da elite, conspiram com os meios de comunicação e você ouve universitários e profissionais, às vezes inocentemente, dizerem tremendas barbaridades aprendidas na academia. Então, o povo perplexo, acaba escolhendo seu político como escolhe torcer por um time de futebol. Disso nascem as frases prontas que afastam as pessoas da política:
    1. Mulher, futebol e política não se discute;
    2. Não adianta discutir, político é tudo igual, todos roubam.

    • sex, 25/03/2011 - 22:37
      Fabiana Costa

      Olá, Antonio!
      Concordo em partes com o que você disse…. Entender de política realmente não é coisa fácil…. Mas o que não é difícil é saber que Globo, Veja e muitos jornais por aí, não devem ser fonte de instrução pra ninguém, né… É muito nítido que essas mídias são manipuladas e seus discursos não correspondem exatamente à realidade…
      Não sei se devemos sempre perceber as pessoas como "pobres indefesos, que acreditam em tudo e são enganados pela mídia…" Acho que tá na hora de fazer um "mea culpa" e se reconhecer como sujeito e atuar, né… Inclusive buscando outros tipos de informações em outras fontes….

  8. qua, 02/03/2011 - 12:16
    bruno

    Há que se lembrar, no entanto, que o Estado NÃO CONSTITUI arena para pessoas com pouca obstinação. Não são só “modelos da classe média e alta de sociedade civil” que se prendem a arena local e “ignoram” o estado: ribeirinhos, quilombola, indígenas e outras comunidades tradicionais pretenderam liberdades e políticas apenas locais e passaram (por séculos muito bem) longe do estado.
    Deveríamos então exigir mais obstinação dessas pessoas e cobrar que tomasses decisões políticas nacionais, mundiais, intergaláticas? Consideraremos o Estado o meio de emancipação humana? Uma instituição que no fim apenas afirma o monopólio da violência? Faremos de violência o meio de implementar algum modelo de equidade social?
    Concordo que as classes dominantes esvaziam a política, mas discordo que a saída passe por assimilar tudo na máquina estatal. Pois o estado não se opõe à sociedade burguesa – se opõe é à variedade de formas políticas. E nas variedades de formas políticas que vislumbro soluções menos opressoras do que o esquema legalista-representativo que pretende se alçar acima de todas as outras formas de convívio e decisão individual e coletiva. Estado não é bom pra política, bom pra política é amor e apreciação, o Estado é bom pra negar e cercear o outro, seja a mando de corporações privadas multinacionais ou de sindicatos vanguardistas.
    Confie nos outros antes de confiar na autoridade…

  9. Esse discurso que demoniza a política e os políticos é ótimo para que a elite possa fazer o que quiser sem a participação dos cidadãos.

    Os que eles querem é que o cidadão comum seja alienado. É mais fácil de manipular.

  10. qua, 02/03/2011 - 11:00
    Jayme Soares

    O PIG está satisfeito, pois a Dilma agora come no prato deles, inclusive omelete. Mas o pior é que Dilma até hoje só fez política contra aqueles que a elegeram, que votaram nela confiando em suas promessas de políticas públicas voltadas para os menos favorecidos; os aposentados que não têm grande poder de barganha não tiveram aumento prometido nem melhorias na política salarial de Dilma. Estamos muito decepcionados com Dilma. Ela agora é claramente da direita, e o povo que vá fazer companhia a lúcifer. Dilma e cadê a lei de regulamentação da mídia, e a decisão sobre o caso Batiste, que Lula já anistiou?O povo é enganado uma vez, mas não por muito tempo!

    • qua, 02/03/2011 - 11:18
      Ramalho

      Esta atitude de Dilma voltar-se contra os que a elegeram não parece aquela coisa que Groucho Marx denunciava, e que é "jamais serei sóciA de um clube que me aceite como sóciA"?

    • qua, 02/03/2011 - 22:13
      ebrantino

      Devagar, devagar Jayme, não percebí, ainda a " conversão à direita da Dilma", pelo contrário, ela vai indo reto pela estrada. seguindo, todavia pelo lado que permite uma conversão à esquerda. É claro que os da direita, inclusive a direita travestida d ultra-esquerda, procura baralhar os fatos, para facilitar o se jogo. Está bem claro.
      Ebrantino

  11. qua, 02/03/2011 - 10:58
    Ramalho

    É por aí, mas o fenômeno não é novo no Brasil. A desqualificação das reivindicações de fundo popular e sua despolitização com concomitante criminalização – que também ofende líderes e políticos desta vertente – vêm desde a ascensão da velha UDN, pelo menos. Outro não era o discurso de Carlos Lacerda, por exemplo, que com ele derrubou, induzindo-o ao suicídio, Getúlio Vargas. Jânio Quadros foi eleito sobre esta plataforma (pretensa corrupção, baderna popular, desordem) e, posteriormente, tais teses serviram de pretexto para o Golpe Militar de 1964, acrescidas de risco comunista, quebra de hierarquia e coisas de assemelhado jaez. A Ditadura o usou enquanto usurpou o poder. Arthur Virgílio, Sérgio Estelita Guerra (este “Estelita” não parece tratamento afetivo de Dilma quando esteve na clandestinidade?), Serra e até FHC também o usam , tendo Serra, com ele, tentado até cooptar chefias militares para a sua tomada do poder. O discurso da direita é repetitivo, e é o mesmo há 60 anos pelo menos.

  12. qua, 02/03/2011 - 10:44
    ZePovinho

    Até os americanos já estão acordando e descobrindo que vivem em uma pseudo-democracia oligárquica:
    http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/a-oposic

    A oposição à lei anti-sindicatos em Wisconsin

    Enviado por luisnassif, qua, 02/03/2011 – 10:23
    Por raq_uel

    Da Revista Fórum

    Além dos sindicatos, além de Wisconsin

    Como americanos de variadas profissões, religiões e estados estão se unindo em oposição à lei anti-sindicatos em Wisconsin – e cultivando um movimento que vai muito além das fronteiras do estado. Por Micah Uetricht [01 de março de 2011 - 12h02]

    Logo antes das 03h da manhã de ontem, enquanto eu me servia de um monte enorme de mantimentos doados, no Capitólio de Wisconsin, conheci Taylor Tengwall. Ele é um estudante do segundo ano na Universidade de Wisconsin (UW-Superior), que não tinha nenhuma ligação anterior com o movimento de trabalhadores – ou movimento algum, mais especificamente. “Eu nunca fiz uma coisa deste tipo em toda a minha vida”, me contou.

    Ele primeiro chegou a Madison, há uma semana, com alguns amigos, esperando ir embora dois dias depois. Mas Tengwall diz que foi tão tocado pelo que viu que disse aos seus amigos para voltarem para casa sem ele.

    ��É a experiência mais tocante e transformadora de paradigmas que eu já vivi”, diz, aparentando estar totalmente disposto, apesar da alta hora da madrugada. “Cheguei aqui muito indignado e furioso. Muitas pessoas chegaram assim. E estas pessoas formaram algo pacífico e tão significativo”. Ele percebeu “nós temos o poder”, conta………………………………………………………………………………………

  13. qua, 02/03/2011 - 10:33
    r godinho

    O neoliberalismo não propõe uma política "livre de Estado". Sem Estado, como um proprietário de capital poderia se proteger da turba faminta?
    Não é a ausência do Estado. É seu uso exclusivo naquilo que lhes interessa: repressão, repressão, repressão. Qualquer coisa que represente ameaça ao proprietário de capital e sua "liberdade" de explorar a sociedade é uma intolerável manifestação, que deve ser reprimida até a morte.
    A campanha toda que se vê, na imprensa e na política, não é a ascensão de um novo pensamento. É o pensamento derrotado pela revolução bolchevique – derrotado sim, pois precisou aceitar um welfare state em seu lugar – que se levanta do seu túmulo oitocentista, qual um Conde Drácula, para nos assombrar…

  14. qua, 02/03/2011 - 10:33
    Julio Silveira

    Esse discurso e para aproveitar e retroalimentar o caldo cultural de paternalismo, onde se estimula a figura do "povo incompetente para decidir seu destino", fazendo-se necessário sempre de um "letrado, bom administrador" para fazer esse papel de tutor.
    O cidadão precisa acordar e perceber que se não se envolver, se não participar, será manipulado e tratado como incapaz virando o "pato do conto do vigário".

  15. qua, 02/03/2011 - 10:04
    Elton

    Com certeza! A lógica do discurso "anti-política" é: "Enquanto as massas estão distraídas, decidimos o que queremos"…….é a velha história de se "votar em pessoas, não em partidos". Aqui em Santa Catarina, reduto ultra-conservador, vota-se no "administrador (supostamente) honesto e competente" e por isso o PSDB/DEM vence porque convence o eleitorado com este discurso. A lamentar!

    • qua, 02/03/2011 - 14:21
      beattrice

      Essa é a estratégia típica bicuda, que mantém a dinastia tucana no poder em SP há décadas, hj exemplarmente representada por AL-ckmin OPUS DEI.

  16. qua, 02/03/2011 - 9:59
    Rafael

    Nunca li antes uma descrição tão perfeita da mídia no Brasil. Vejo que é exatamente assim que se comportam os donos da m ídia.

  17. [...] *Publicado originalmente no Viomundo [...]

  18. qua, 02/03/2011 - 9:55
    Sami

    Coitado dos partidos, não é mesmo?

    Tão injustiçados.

    Políticos e organizações políticas querendo se colocar como coitadinhas é o fim da picada. Me dá vontade de vomitar quando vejo coisas assim.

  19. qua, 02/03/2011 - 8:39
    Gerson Carneiro

    O discurso antipolítica atinge o ápice quando este segura na mão da mídia e converge para receita de omelete em programa de culinária. Daí a participação popular torna-se adstrita ao acionamento do botão ON da tv.

    • qua, 02/03/2011 - 14:20
      beattrice

      Meus sinceros parabéns, excelente resumo do retrato atual da "interação do governo com os movimentos sociais". Próximo capítulo a ser gravado terá locações na ILHA de CARAS.

  20. Indo um pouco além disso, podemos lembrar que essa sociedade fragmentada e contrária a qualquer ação estatal é exatamente o proposto pelo ideólogo neoliberal Milton Friedman em "Capitalismo e Liberdade". Nesse livro, ele ataca sindicatos, políticas de inclusão, direitos trabalhistas, tudo o que se puder imaginar, sempre em nome da liberdade do capital, muito mal disfarçada de liberdade do cidadão. Essa "teledemocracia" seria uma espécie justamente da política "livre de Estado" do neoliberalismo.

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