Maria Inês Nassif: Espelho distorceu imagem do PSDB

publicado em 1 de julho de 2010 às 10:27

Sem sorte, sem arte e sem bater um bolão

Maria Inês Nassif, no Valor Econômico, via blog do Nassif

Um velho amigo jornalista, o José Roberto de Alencar e Silva, resolveu ser setorista de paraíso há uns anos e de forma pouco leal: um cara que nunca teve saúde, convenhamos que não podia simplesmente ter se livrado da pouca que tinha sem preparar muito bem seu séquito de irmãos, irmãos tortos, amigos, ex-mulheres, namoradas, ex-namoradas, que continuam irredutivelmente órfãos dele. Pois bem, Alencar tinha um humor invejável e um texto maravilhoso, usados especialmente quando as situações eram muito ruins. Para contar histórias de “furos” – fantásticos, inacreditáveis, cujo script era sempre um “causo” comprido de narrador mineiro -, o Zezão escreveu o “Sorte e Arte”. Botava a sorte na frente da arte, para não parecer que se achava com mais arte do que sorte – coisa antipática esta, de achar que você é tão Deus do “furo” que ele chega à sua mão trazido pela sua genialidade, sem que nada se tenha interposto entre ela e o pedaço de papel que vai estar na banca amanhã, e depois de amanhã sabe-se lá que volta vai dar para cumprir uma outra função muito distante daquela de informar distintos leitores que os tempos são bicudos mas que as coisas podem melhorar – ou piorar, vai saber.

Nesses três últimos dias que o DEM e o PSDB se separaram mais uma vez (eles racharam em 2002, lembram-se?) fiquei pensando no Zezão. Será que ele atribuiria o fracasso da aliança do DEM com José Serra à falta de sorte, ou à falta de arte, do próprio Serra, na impossibilidade de atribuir a um jornalista a sorte ou a arte de dar um furo sobre o azar da aliança oposicionista? Acho que, na cabeça do Zé (o meu amigo), a avaliação seria a de que faltou inteligência, tato; sobrou uma certa arrogância; passou pela frente também um espelho daqueles de parque de diversões, que mostra pessoas e coisas muito maiores do que elas são. Se o Zé (o Alencar) não tivesse tido a infeliz ideia de ver se tem alguma notícia relevante no céu, acho que ele iria ficar pasmo com a falta de sorte e a falta de arte dos personagens das notícias aqui do nosso pedaço.

Aqui conversando com o Zé (Alencar, bem entendido), o que mais me intriga é o espelho de aumento. Quando puxaram o tapete do DEM, lançando pelo twitter do Roberto Jefferson (PTB-RJ) – vejam só, do Roberto Jefferson – o senador Álvaro Dias (PSDB-PR) para vice de Serra, o PSDB agiu como se o DEM não tivesse qualquer opção a não ser estar com ele, em qualquer circunstância. Isto é, que o ex-PFL era tão destituído de sorte e de arte que tinha mesmo era de comer o prato feito, e de sobremesa a observação do miniblog de Jefferson, de que “o DEM é um partido de m…”

Daí, a realidade, que não depende nem de sorte, nem de arte, em algum momento aparece. O DEM elegeu 65 deputados em 2006. O PSDB elegeu 66. Os dois têm direito rigorosamente ao mesmo tempo de propaganda eleitoral gratuita que o outro. O PTB, que agiu com toda a desenvoltura a que está acostumado Jefferson, carrega para a coligação 22 deputados. O tempo de televisão e rádio é proporcional à bancada eleita em 2006. Seria uma arte conseguir, por meio dessa aritmética esquisita onde os 66 do PSDB passaram a valer muito mais do que os 65 do DEM, uma aliança em torno de uma chapa puro sangue com Álvaro Dias, o senador do Paraná cujo irmão, Osmar, é do PDT e vai se coligar com a candidata do PT, Dilma Rousseff. Seria também uma baita sorte. Não foi nem uma coisa, nem outra. Nem azar foi. O espelhão do circo deu ao PSDB uma ideia muito maior do que a que tinha sobre si mesmo. O Serra agiu por impulso. E a candidatura de Dias durou alguma coisa próxima a três dias.

Pois bem, o Zé que infelizmente não está aqui veria também o lado do DEM. Como o espelho deles não os diminuiu; como o partido tem consciência de que ele e o PSDB estão em situações muito ruim (ninguém pode se gabar nem um pouquinho do outro); como não lhes sobrou muita alternativa senão brigar pela vice – e olha, tem gente que nem queria brigar nada, bastava continuar do lado do Serra -, o DEM deu a volta por cima e conseguiu um vice. Sem qualquer uso de sorte ou arte. No grito, simplesmente. Se tivesse feito arte, o resultado teria que ser melhor do que um Índio da Costa (DEM-RJ). Mas daí é pedir muito: é torcer para o dono da bola, José Serra, ser um artista, e para a bola, por pura sorte, ser depositada nos pés do time. É pedir demais.

Ainda mais sabendo que o candidato Serra agiu sem sorte, e sem arte, em 2002, com situações, aliás, tão favoráveis a ele, que um pouquinho de arte teria ajudado muito. No mês de junho de 2002, quando os partidos se preparavam para fazer as convenções que oficializariam os candidatos a presidente, Serra foi o alvo de uma campanha de correligionários, destinada a tirá-lo da disputa. Os fiéis aliados do mercado financeiro e do mundo da economia, que vinham de uma lua de mel com Fernando Henrique Cardoso, armaram um “balão de ensaio” para tirá-lo do páreo. O balão é um boato que você espalha na mídia para ver se cola junto ao eleitor e junto ao partido. Se colar, vira fato. Serra, que já havia passado por cima de uma candidatura do então PFL, a de Roseana Sarney (MA), e comprado uma briga feia com Tasso Jereissati para ser o candidato de seu partido à Presidência, bancou sua pretensão. O balão furou. Sem nenhuma sorte, e sem nenhuma arte.

 

15 Comentários para “Maria Inês Nassif: Espelho distorceu imagem do PSDB”

  1. jose b disse:

    eu moro no sul ,Paraná, aqui eles já iam perder, com o VICE, daqui, imaginem logo na semana que ele troca o VICE, DO SUL POR UM PLAYBOY CARIOCA, ele aumenta de 38 para 50% no SUL , AHHAHAHAHAHAHAHA, NEM O SERRA ACREDITA EM TAMANHA BESTEIRA, vai ti catá arruma outra , o BRASIL DA ELITE, JORNALESCA ACABOU, EXISTE A BENDITA INTERNET.,,,,,,,,,,,,,,,VIVA LULA ,

  2. Vinícius Vitoi disse:

    Eu DILMEI, tem muita gente DILMANDO…
    Muitos DILMARÃO….
    Essa eleição será DILMAIS…
    O verbo mais conjugado em 2010 será o verbo DILMAR que, no dicionário do futuro, significará voto certo, consciente, avanço político….

    • Maria José Rêgo disse:

      Concordo com voce Vinícius Vitoi. Pela manhã, desejo um 'Bom Dilma" para todos os colegas de trabalho que tenho certeza que simpatizam com a candidata petista.

  3. @marisps disse:

    É a matemática do Serra (o coiso como disse um comentarista aqui do Viomundo… KKKK): 66 é muuiiiito maior do que 65, assim como 66 + 22 também é maior que 66 + 65! Grande "professor" e "economista": economizou na arte e na sorte!

  4. [...] no Valor, pág. A4, sobre a batalha do vice: “Sem sorte, sem arte e sem bater um bolão” (ou leia aqui).(*) Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e [...]

  5. sergio disse:

    demotucanos vanguardistas do atraso.

  6. Vania Costa disse:

    E aqui no Rio Grande do Norte, fico a me perguntar: quando é que esse povo vai dar um chega prá lá no Agripino e na Rosalba? Nós não merecemos mais isso. Temos que evoluir.

  7. Adriano disse:

    Antes do amigo Zé (Alencar) da autora do texto, o Machiavel já dizia que ao político é necessário virtù (compreensão da situação histórico-política, da conjuntura) e fortuna (ter uma dose de sorte). Lembrava também que alguns políticos conseguem se manter no poder valendo-se de uma série de lances favoráveis da fortuna. Mas considerava enquanto grande político (condottiere) aquele que consegue valer-se da virtù para controlar a fortuna.

    Nassif deixou claro como falta ao Serra a virtù machiaveliana. Mais que isso: ao Zé Serra falta também a virtù dos romanos (aquelas virtudes cardeais – temperança, equilíbrio, altivez, magnificência, etc. etc.) que um César (um grande político) precisa ter e apresentar, já que ele é um espelho para a sua comunidade.

    A ausência da segunda, romana, lhe deu condições de se manter no poder, apunhalando, no interior do seu partido, os opositores/concorrentes aos/dos seus projetos pessoais de poder (Alckminn, Jereissati, Aécio, etc); a ausência da primeira, maquiaveliana, favoreceu suas ambiçoes pessoais de poder enquanto a roda da fortuna girava em seu favor.

    Todavia, como ele é um invertebrado político (ou seja, como ele não passa de um arrogante burocrata), incapaz de entender a própria correlação de força que existe no interior do seu bloco de aliados, quando a sorte (fortuna) lhe vira às costas, a ausência das duas virtù traz a nu a tacanheza de seu horizonte político e o atavismo "carlista" de sua prática.

    O mais interessante dessa eleição vai ser assistir o declínio moral, a decadência política e a bancarrota pessoal de uma personagem política já minúscula, que tanto mal fez ao povo paulista e brasileiro.

    E o mais gostoso dessa eleição vai ser poder dizer: Au revoir, José Serra, le petit.

    Adriano

  8. dukrai disse:

    O DEM elegeu 65 deputados em 2006. O PSDB elegeu 66 e no senado os dois partidos tem bancadas iguais, de 14 senadores.
    Onde está o grande diferencial do PSDB? Na imprensa paulista e na tucanada "se achar", com toda a credulidade, ajudado pelo estilo cachorrinho do DEM, que vem desde a sua infância na ditadura com a Arena atendendo ao velho ditado da zelite, "manda quem pode, obedece quem tem juízo".
    O DEM, que rachou com o PSDB em 2002, não conseguiu se livrar do abraço de afogado do Vampiro Brazileiro, vai junto para a cova e talvez renasça com o enterro de algumas das suas lideranças deletérias:
    "… Na avaliação de Queiroz, dos principais senadores oposicionistas que buscam um novo mandato, apenas três – Heráclito Fortes (DEM-PI), Demóstenes Torres (DEM-GO) e Tasso Jereissati (PSDB-CE) – estão em situação relativamente confortável. Já Arthur Virgilio (PSDB-AM), Sergio Guerra (PSDB-PE), José Agripino Maia (DEM-RN) e Marco Maciel (DEM-PE) enfrentam ao mesmo tempo os governos federal e estadual e contam com adversários fortes. …" http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_secao=1

    • Clarissa disse:

      Heráclito Fortes, cacique maior do DEM no Piauí, não está lá tão confortável assim. Esse ano enfrenta uma eleição contra o ex-governador petista Wellington Dias, que saiu do governo há poucos meses com índices de aprovação quase tão favoráveis quanto os de Lula. Também tem como adversário a piada ambulante chamada Mão Santa [ex-PMDB, hoje no PSC], que, sabe-se lá porque, ainda goza de grande apoio popular no estado. Três candidatos para duas vagas. A briga promete ser feia! E, quem sabe, finalmente nos livremos do último demo a ainda deter algum poder no Piauí [Como no restante do Brasil, o partido que já foi todo poderoso também naufragou por lá].

  9. AS parte em que ela trucida o Sérgio D'Ávila, expondo-o ao mais absoluto ridículo foi a melhor. Ele ficou tão desmoralizado que nem fez mais perguntas. Decerto estava tentando achar aonde enfiar a cara de tacho. O Heródoto, diga-se de passagem, foi, na melhor das hipóteses, um cretino. Ele não deixava a Dilma responde nem concluir raciocínios.

  10. Geysa Guimarães disse:

    Sem sorte, sem arte e sem bater um bolão. Traduzindo: Serra está afunhanhado.

  11. Jose Olavo disse:

    É de rir a observação do ex-presidente fhc, na televisão, minimizando a crise do vice: Política não se faz de afogadilho…
    Depois de tantos meses para escolher o vice, depois de inumeras sondagens, inumeros candidatos, a escolha do vice não se faz de afogadilho…Só pode ser piada ou edntão escledrose senil no velho fhc…

  12. Adriana Jota disse:

    Esse é o jeito Serra de fazer política… Sempre muito habilidoso e com muito tato. Sua vítimas estão espalhadas pelo Brasil: Roseana, Tasso, Aécio, Alckim. E sempre tam´bém com muito respeito, os xiita do PSDB vão destrossando reputações, nomes e sonhos nos 4 cantos do país.
    Até em Goiás, o insuspeito Caiado foi "vítima" (se é que é possível) da sanha tucana de Marconi Perillo novamente.
    Depois de ter jurado nunca mais compor com o antigo aliado que virou inimigo, Caiado entregou a convenção do DEM goiano de bandeja pra Marconi Perillo – tudo em nome (nova demominação de pressionado) da reeleição de Demóstenes Torres, o conservador e preconceituoso!!!!

  13. Pablo disse:

    Grande Zezão!! Que falta nos faz nas redações – e nos bares da vida.

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