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Ignacio Delgado: Se houvesse regulação democrática da mídia no Brasil, talvez não tivéssemos o FHC II

20 de fevereiro de 2016 às 16h51

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Felonia, Hipocrisia, Canalhice: NOTA NADA ORIGINAL SOBRE COMPORTAMENTO PESSOAL E INTERESSE PÚBLICO

Ignacio Delgado, no Facebook

É possível admitir que as pessoas não dispõem de um centro regulador que torne suas atitudes, em diferentes dimensões da existência, absolutamente homogêneas.

Canalhas no trato das questões pessoais podem se revelar absolutamente éticos na vida pública. Artistas que revelam talento e sensibilidade em suas obras, por vezes são seres desprezíveis nas relações com familiares e amigos.

Por isso, a régua do julgamento profissional das pessoas, especialmente as que têm relação mais direta com a opinião pública, não pode levar rigidamente em consideração características pessoais, desde que essas não ultrapassem certos limites, legais ou éticos, que acabam por afetar sua atuação.

Parece a muitos que as revelações de Miriam Dutra atestam que Fernando Henrique Cardoso é um canalha. Esse possível elemento de sua personalidade tem servido para legítimas considerações sobre o fenômeno do machismo, expressas em alguns excelentes textos publicados na blogosfera. Ainda assim, não seria suficiente para impugnar o conjunto de sua atuação política.

O problema, como já foi apontado por diversos comentaristas, é que o desabafo de Miriam Dutra revela muito mais do que a vileza de um homem, como marido, pai e amante. A orquestração para esconder o caso, que envolveu personalidades de destaque da República, a maior rede de TV do país (concessionária de um serviço público), além de uma empresa que conheceu surpreendente desempenho durante os anos FHC, evidencia de forma cabal as deformações existentes no sistema de comunicações brasileiro e conluios inaceitáveis entre agentes públicos e interesses privados que, no mínimo, deveriam ser objeto de apuração pela justiça brasileira.

Afinal, a Rede Globo e a Brasif ficaram pagando mesadas a Miriam Dutra por serviços que esta não prestava, por quê? Ela sumiu da Globo nesses anos todos e a alegação de que recebia da Brasif para verificar preços de mercadorias em free shops é risível. Pode até ser que, tecnicamente, seja possível excluir FHC de qualquer responsabilidade, mas por que empresas contratam por valores bem razoáveis pessoas que não lhe prestam serviço algum?

Passado o susto, já se observa na mídia convencional nova operação abafa. Tudo virou um problema pessoal. E o é, em boa medida, mas toda a intrincada operação para calar Miriam Dutra teve como único propósito garantir a eleição e a reeleição de FHC. Boa parte dela foi orquestrada dentro do Palácio do Planalto. Há relação com a boa vida que garante à Rede Globo uma escandalosa impunidade, além de benesses generosas de organismos públicos? Há relação com o sucesso da Brasif?

O episódio Miriam Dutra não traz à tona o que de mais perverso FHC produziu no Brasil. Tangenciei este tema no artigo em anexo – que aproveito para novamente divulgar – e exploro em outros trabalhos que produzi. O “caso Miriam Dutra” é, entretanto, mais um desses episódios que gritam como é urgente no Brasil a regulação democrática da mídia e a garantia de aparatos policiais e judiciários não partidarizados.

Se os tivéssemos sequer, talvez, teríamos vivido o período FHC na presidência.

Ignacio Godinho Delgado é Professor Titular da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), nas áreas de História e Ciência Política, e pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia-Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento (INCT-PPED). Doutorou-se em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em 1999, e foi Visiting Senior Fellow na London School of Economics and Political Science (LSE), entre 2011 e 2012.

Leia também:

A estranha sociedade da Globo com a Brasif

 

6 Comentários escrever comentário »

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Messias Franca de Macedo

21/02/2016 - 01h34

[MAIS UMA ENTREVISTA BOMBÁSTICA DA SENHORA MIRIAM DUTRA]

MÍRIAN DUTRA AO DCM: “ME MANTER LONGE DO BRASIL ERA UM GRANDE NEGÓCIO PARA A GLOBO E A REELEIÇÃO DE FHC”

Por egrégio e intimorato jornalista Joaquim de Carvalho

20 de fevereiro de 2016

Esta é a primeira matéria da série sobre a reeleição de Fernando Henrique Cardoso. O projeto foi financiado pelos leitores através de um crowdfunding na plataforma Catarse. Fique ligado.

(…)

FONTE [LÍMPIDA!]: http://www.diariodocentrodomundo.com.br/mirian-dutra-ao-dcm-me-manter-longe-do-brasil-era-um-grande-negocio-para-a-globo-e-a-reeleicao-de-fhc/

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FrancoAtirador

20/02/2016 - 21h09

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Política e Economia
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“Se tá bom pra Globo,
é porque não presta”
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(https://youtu.be/ZvZd7DOY_HI)
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mineiro

20/02/2016 - 20h58

a nao , esse caso nao basta, entao que tal todo mundo lembrar o que fez esse cidadao asqueroso dos quintos a um pais chamado brasil. privatizaçoes , corrupçao , desemprego, miseria, criminalidade, violencia etc e etc. precisa de mais alguma coisa para demonstrar o carater desse asqueroso? quando a pessoa nao presta , nao presta na vida publica e muito menos na vida privada. pra min , nao tem esse negocio de ser uma coisa ali e outra dali. se tem carater tem , se é desonesto é .

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