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Cartas de Minas
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Heloisa Villela: De olho nos votos da “minoria” branca, Trump faz jogo interesseiro com neonazistas que perderam a vergonha

13 de agosto de 2017 às 16h56

por Heloisa Villela, de Nova York

Um carro avança em direção a um grupo de pedestres. Corpos voam. Uma mulher de 32 anos morre no local.

O veículo se choca com outros dois e em seguida arranca em marcha à ré com a frente destruída e foge. O motorista, de 20 anos, foi preso. Em qualquer lugar do mundo a cena seria descrita, por líderes locais e internacionais, com uma única palavra: terrorismo.

O termo, usado e abusado na última década e meia, não foi pronunciado pelo presidente Donald Trump nem por seu Secretário de Justiça, Jeff Sessions.

Depois de uma manhã confusa e explosiva na Virgínia, o presidente do twitter instantâneo só deu as caras depois da uma hora da tarde: “Nós condenamos de forma contundente essa demonstração escandalosa de ódio, intolerância e violência… de vários lados. Vários lados”.

Foi o máximo que ele conseguiu dizer. Até o conhecido conservador da Flórida, senador Marco Rubio, cobrou. Disse que Trump precisa descrever o que aconteceu na Virgínia como um “ataque terrorista de um supremacista branco”.

Trump passou ao largo de uma condenação mais explícita. Ele nunca teve um cargo público antes de se tornar presidente. Mas não é bobo.

Para chegar à Casa Branca, Trump mobilizou essa base que agora aflora e teme o dia em que será minoria no país. De acordo com o censo americano, em outras três décadas, o número de brancos será menor do que o de todas as minorias somadas.

A imagem chocante de um motorista arremessando o carro de encontro a pedestres não foi suficiente para Trump alienar a base que o sustenta. Ele não denunciou os grupos de ódio que parecem estar indo à forra agora, depois de oito anos da presidência de um negro norte-americano.

Ouvi esse comentário várias vezes: “eles tiveram que engolir um negro na Casa Branca por oito anos, agora estão descontando”.

O que será que Trump quis dizer quando afirmou: “isso vem acontecendo há muito tempo no nosso país. Não é Barack Obama. Não é Donald Trump. Isso vem acontecendo há muito, muito tempo”.

E a frase jogada ao vento ficou ali, sem maiores explicações.

No ano passado Trump recebeu o apoio de David Duke, ex-líder da Ku Klux Klan (pasmem, ainda existe nos Estados Unidos, em 2017), e nunca veio a público repudiar o apoio. Agora, ele pediu união, amor, patriotismo.

Evitou uma crítica aberta aos supremacistas brancos. Ainda assim, David Duke, que estava em Charlottesville, botou mais lenha na fogueira com um recado claro nas mídias sociais: “Eu recomendo que você dê uma boa olhada no espelho e se lembre que foram os Brancos Americanos que te puseram na presidência e não os radicais de esquerda”.

Dois grupos se enfrentaram nas ruas de Charlottesville durante toda a manhã e Trump condenou a violência de “vários lados”. Quantos lados ele conseguiu enxergar naquele embate? A polícia seria um terceiro? Os supremacistas brancos, neonazistas e membros da Ku Klux Klan desembarcaram na cidade da Virgínia preparados.

Além do uniforme militar, eles tinham até escudos improvisados, capacetes e produtos químicos engarrafados para abrir caminho na marra.

Eles prometiam unir a direita, “tomar a América de volta” e impedir que a Virgínia “nos substitua”, retirando dos espaços públicos os símbolos dos confederados.

A polícia demorou a agir. Não criou um cordão de isolamento que separasse os dois grupos como fez em maio, em outra demonstração de força da ultra direita na cidade. No sábado, eles foram semicerrados dentro do parque. Se estivessem dentro de um quadrado, três lados estavam ocupados pela polícia.

Havia uma única saída. E ao deixar o parque, eles estavam em rota de colisão com o protesto antirracista que vinha em direção oposta.

A Secretaria Municipal de Segurança prometeu investigar a estratégia desastrosa empregada ali. Houve tempo de sobra para agressões até que a polícia entrasse para separar a briga.

Há dois anos a prefeitura de Charlottesville discute se deve ou não retirar de uma das praças da cidade a estátua do general Robert E. Lee, o principal general dos confederados, o lado que perdeu a Guerra Civil americana no século XIX.

Ele comandou as tropas do sul, que se recusavam a fazer parte da União e defendiam os estados de agricultura baseada no trabalho escravo. Conhecido pelas táticas agressivas que custaram muitas vidas aos confederados, Lee se recusou a manter o estado de insurreição permanente, como muitos queriam, quando perdeu a guerra.

Ele se entregou e pediu a reconciliação do país. No sábado, montado no cavalo hoje verde de oxidação, ele assistiu velhas rusgas voltarem à tona e se enfrentarem no parque de onde está ameaçado ser expulso.

Esse movimento de “limpeza” histórica começou em alguns estados do sul depois que Dylan Roof entrou em uma igreja de Charleston e matou nove negros.

Supremacista branco convicto, ele confessou ter planejado o ataque com o objetivo de provocar uma guerra racial. Ele foi condenado à morte mas fez um acordo com a justiça. Admitiu todos os crimes e conseguiu a prisão perpétua em troca.

A guerra que ele queria detonar vive há séculos nos porões da cultura americana. Latente, quando surge uma brecha ela vem à tona.

Não é apenas Trump que precisa olhar no espelho e estudar com atenção a imagem que se reflete ali. O país se viu espelhado nas ruas de Charlottesville. E agora, América, o que fazer?

PS do Viomundo: O motorista do automóvel foi identificado como James Alex Fields Jr., de 20 anos de idade, que viajou de Ohio até a Virginia para participar do comício da extrema-direita. Ele apareceu em fotos junto a um grupo denominado Vanguarda, de bolsonazis norte-americanos. O grupo nega que ele seja filiado. A jovem morta no ataque é Heather Heyer, que trabalhava num escritório de advocacia e se juntou à coleção de movimentos que se organizam no antifa, militantes antifacistas dos Estados Unidos. Durante o fim-de-semana, milícias fortemente armadas de extrema-direita (imagens abaixo) caminharam por Charlottsville sem serem importunadas (na Virginia é permitido carregar armas em público). Um perfil do twitter, @YesYoureRacist, fez um trabalho de identificação dos fascistas e conseguiu a demissão de um ao informar ao restaurante onde trabalhava sobre a presença dele na marcha neonazista.

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Patrick

14/08/2017 - 09h08

Já aqui no Brasil, quanto o terrorista que tentou matar dezenas de skatistas em São Paulo, a imprensa correu para arrumar desculpas pro seu ato assassino.

Responder

Eu

13/08/2017 - 22h26

A marcha da insensatez avança, e a passos largos. Isto acontece simultaneamente a:

– um feio refluxo das extremas-direitas nacionalistas xenófobas no Velho Mundo. Neonazismo nos EUA? Ah, ah, ah, ah…Imitadores baratos que não durariam dez minutos frente aos verdadeiros. Os grupos que defendem de fato tais ideias estão mais fortes e sentindo-se mais e mais empoderados, frente a desagregação econômica da União Europeia e política dos territórios do Leste Europeu. E estes, ao contrário de suas imitações baratas, são verdadeiramente perigosos.

– a fragilização do mandatário estadunidense, que encontra-se em xeque como há muito não víamos um deles estar, diante do seu espetáculo de farsas e verborragia sendo desmascarado como tal. Há muito não vemos um líder dos EUA internamente acusado em praça pública de mentiroso e incapaz de se defender, seja pela força das evidências, seja pela própria incompetência.

– o diversionismo mais usual, a ação militar contra países menos capazes de se defender, pode ser um tiro pela culatra, pois as duas potências do Leste estão em posição de vantagem. Econômica para a China, política para a Rússia. E ambas têm novamente a capacidade de voltar a serem impérios regionais, lideradas por chefes de estado que, ao contrário do bufão republicano, sabem muito bem o que fazem e o que querem. E já demonstraram que não estariam dispostas a deixar aliados geopolíticos importantes serem trucidados pelo poder bélico norte-americano, como Putin no conflito sírio, e a declaração de Xi Zinping que qualquer tentativa estadunidense de extrapolar uma reação a um ato de agressão norte-coreano, ou de desequilibrar e derrubar seu governo, seria impedida pela China. Que está expandindo forte e rapidamente sua capacidade de intervenção no cenário asiático, principalmente no Mar Amarelo, e não tem interesse em conflitos unilaterais que prejudiquem-na em seus objetivos de longo prazo.

– para variar, o continente latino-americano está imerso em terrível confusão político-econômica graças às ações de seus agentes internos submissos aos interesses externos. Mas o jogo geopolítico também poderia ser diferente dos velhos scripts, pois hoje mesmo a frágil Venezuela está relativamente bem armada. Chávez foi o mandatário sul-americano que mais e melhor gastou em compras militares. Não o suficiente para almejar uma vitória contra um EUA, mas o suficiente para derramar mais sangue que gostaríamos de ver, e bem na nossa fronteira. Também o suficiente para tentar uma generalização desesperada do conflito pela América Latina, o que causaria problemas econômicos mundiais. Aí, novamente, a incógnita quanto à atitude de China e Rússia entra na equação e desarranja qualquer prognóstico lógico. Mas será que alguém duvida que Maduro poderia fazer qualquer coisa diante da perspectiva de uma humilhação política pública e, como Hussein e Khadaffi, um provável final de vida violento nas mãos de seus concidadãos? Ou que aceitaria tornar-se o Bashar Al-Assad do continente, sob um protetorado oposto ao seu agressor, para evitar tal destino?

Voltamos a viver um momento histórico onde ações equivocadas de alguns podem ter consequências terríveis sobre muitos. Podem ser tempos interessantes, mas nunca para os que neles vivem.

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