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Emir Sader: Com vitória de Cuba, vira-se a última página da Guerra Fria

22 de dezembro de 2014 às 17h42

Bloqueio a Cuba

Painel em via que liga aeroporto ao centro de Havana. Governo jamais deixou de explicitar efeitos do bloqueio dos EUA à economia da ilha. Foto: Paulo Donizetti de Souza

Cuba e Berlim eram as duas esquinas mais tensas da guerra fria. A queda do muro tirou Berlim dessa condição. A normalização das relações entre Havana e Washington fará o mesmo com Cuba

Vira-se a última página da Guerra Fria, com vitória cubana

por Emir Sader, na Rede Brasil Atual

Cuba sempre considerou que um governo democrata em segundo mandato – quando já não depende tanto da colônia cubana na Flórida – era a maior possibilidade de que essa normalização se desse. Jimmy Carter não teve um segundo mandato. No final do segundo mandato de Bill Clinton, houve intensificação das ações terroristas contra Cuba – até com um avião jogando panfletos sobre Havana –, o que levou a que Cuba derrubasse um desses aviões, com a morte de dois tripulantes e, nos Estados Unidos, aprovação de leis ainda mais duras do bloqueio econômico.

Agora, intermediado por outros fatores – a prisão de um empresário norte-americano que levava materiais de comunicação a setores da oposição clandestina em Cuba e a campanha pela libertação de três dos cinco cubanos que ainda permaneciam nas prisões norte-americanas – confirmou-se a previsão: é um presidente democrata que protagoniza o restabelecimento das relações, no seu segundo mandato.

A ruptura de relações e o bloqueio, já há mais de meio século, eram instrumentos com os quais os Estados Unidos achavam que asfixiariam o então novo governo cubano. Havia um dogma até aquele momento segundo o qual “sem cota, não há país”. Isto é, se os Estados Unidos deixassem de comprar a cota de açúcar, o país faliria.

Quando os EUA suspenderam a compra do açúcar cubano, uma parte da burguesia do país trancou suas casas e foi para Miami esperar a queda do regime de Fidel Castro. Cuba sofreu duramente essas medidas. Todos os países da América Latina – com exceção do México, que manteve só relações diplomáticas com Cuba – fizeram o mesmo, rompendo relações com a ilha. Para qualquer compra que o país tivesse de fazer, teria de apelar para algum país europeu.

Cuba sofreu a tentativa de invasão de 1961, o cerco naval de 1962, uma enorme quantidade de ações de terrorismo, inúmeras tentativas de assassinato de Fidel, sanções econômicas que bloqueiam sua capacidade de desenvolvimento econômico. Mas conseguiu resistir.

Os Estados Unidos não contavam que a URSS os substituísse, comprando o açúcar cubano, além de fornecer o petróleo que Washington também deixava de entregar. A inesquecível imagem de um imenso navio soviético, com a foice o martelo, entrando no porto de Havana, era um gesto de audácia que começava a romper o bloqueio à ilha.

Com o passar do tempo, países da América Latina foram restabelecendo relações com o governo de Fidel, primeiro diplomáticas, depois comerciais, até que a situação se reverteu. Se Cuba havia estado isolada no começo do bloqueio, eram os EUA que passariam a estar isolados, de forma que nas votações da ONU de condenação do bloqueio, só contavam com o voto de Israel e de alguma ilha meio desconhecida do Pacífico; sendo a esmagadora maioria contra a posição de Washington. O isolador se tornava isolado.

Agora, ao mesmo tempo, Cuba consegue duas grandes vitorias: resiste ao bloqueio, rompe o bloqueio, não cede em nada frente às ameaças e ataques da maior potência imperial da história da humanidade, consegue o restabelecimento das relações diplomáticas, nos termos que sempre propôs – com o respeito entre iguais, como nações soberanas. E, ao mesmo tempo, consegue o retorno dos espiões cubanos que estavam presos nos Estados Unidos, condenados depois de serem descobertos em operações de investigações contra ações terroristas de anti-castristas da Flórida, com anuência de Washington.

Entre os temas das densas discussões que se desenvolverão a partir de agora, estará seguramente Guantânamo. Esse pedaço do território cubano apropriado pelos americanos quando desembarcaram em Cuba com o pretexto de pacificar o conflito entre a ilha e a Espanha, quando os cubanos estavam prestes a expulsar aos antigos colonizadores e se tornarem independentes. A apropriação de Guantânamo se deu no marco das sanções impostas pelos Estados Unidos à Espanha, junto com a incorporação das Filipinas e das Ilhas Gwan.

O que foi imposto como uma ocupação de um século, tornou-se permanente – diferentemente do Canal de Panamá, cuja soberania retornou aos panamenhos. Como a base militar de Guantânamo não tinha nenhuma importância, permanecia como presença soberba da potência imperial derrotada pelos cubanos. Até que mais recentemente tornou-se uma vergonhosa prisão fora de qualquer cobertura jurídica internacional para que os EUA procedessem aos selvagens interrogatórios e torturas que impuseram aos acusados – mesmo sem provas – de ações de terrorismo.

Agora não há nada mais que possa impedir que o presidente norte-americano transfira os mais de 160 presos que ainda permanecem lá, feche a base naval e devolva a Cuba o território que lhe pertence. Assim se terão normalizado totalmente as relações entre o país de Fidel e o de Obama.

Barack Obama teve de confessar que a estratégia norte-americana de tentar asfixiar a Cuba pelo bloqueio econômico e o assedio terrorista fracassaram. Os dois países voltam a ter relações diplomáticas, o imenso edifício voltado para Miami – na avenida costeira de Havana conhecida como Malecón – abrigará um novo embaixador dos Estados Unidos: e Cuba terá, no mesmo velho casarão, um embaixador no país vizinho.

Vira-se a última página da longa Guerra Fria do segundo pós-guerra. Talvez estejamos começando outra, com caráter e dimensões distintas, mas aquela agora está definitivamente terminada. E da melhor maneira possível para Cuba e para todos os que lhe apoiaram na luta contra o injusto bloqueio.

 Leia também:

Urariano Mota: Na falta de papel higiênico, vamos exportar a Veja para Cuba

 

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Morvan

26/12/2014 - 11h03

Bom dia.

Talvez não soe muito parcimonioso falar em fim da guerra fria, e sim em fim de modalidade, de configuração deste xadrez geopolítico; temos uma nova versão irrompendo e se reconfigurando. Rússia apronta o seu SimCity euroasiático, os BRICS, Rússia, claro, inclusa, redefinem a governança econofinanceira, os países da América Austral rearrumam suas economias, outrora relegadas a quintal dos EUA, e ora, pela primeira vez, com uma coordenação capaz de enxergar em si mesmos pontos de convergência e de relações multívocas. Na verdade, a guerra fria é uma imposição da própria lógica idem gélida da geopolítica: precisa-se de polarização. A própria indústria bélica não sobreviveria em um mundo uníssono. A reaproximação Estados Unidos & Cuba, antes de uma dádiva, decorre da necessidade de rearranjo dos atores deste tabuleiro, Washington bem ciente disto, ainda que Cuba não possa prescindir da oportunidade e se agarrar à oportunidade histórica com afinco, pois suas necessidades são inadiáveis. Toda a ventura aos nossos irmãos cubanos.

Saudações bolivarianas; {♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥}; “Dilma, Reforma do Judiciário Urgente; recompra as ações da Petrobrás e cala os coscignas. Xeque Mate; o Velho“.
Morvan, Usuário GNU-Linux #433640 (Fedora 21_x64). Seja Legal; seja Livre. Use GNU-Linux.

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    Mané

    08/04/2015 - 18h09

    kkkkkk….

    Mané

    08/04/2015 - 18h14

    Procura diversão? Pois, está no lugar certo! Leia 1/2 duzia de textos abaixo para garantir boas gargalhadas.

FrancoAtirador

24/12/2014 - 06h37

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A UNIÃO FAZ A FORÇA

É até engraçado verificar que depois que a CELAC escanteou a OEA,

com United States, Canadá e a arrogância imperial que havia dentro,

e após a bem sucedida criação do Banco de Desenvolvimento dos BRICS,

houvesse essa guinada norte-americana nas relações políticas com Cuba.

Apesar de todos os ataques sofridos pelos Blocos Não-Alinhados –

como MERCOSUL e ALBA – e embora a Venezuela tenha se desestabilizado

com o falecimento de Hugo Chaves, ainda que Nicolas Maduro vencesse,

mesmo assim houve no período grande fortalecimento político da UNASUL,

fundamentalmente pela verdadeira ressurreição da esquerda no Chile

somada à derrota da extrema-direita de Álvaro Uribe na Colômbia

e com as incontestáveis reeleições de Rafael Corrêa no Equador

e de Evo Morales na Bolívia, além é claro das recentes vitórias

de Dilma Vana Rousseff no Brasil e de Tabaré Vázquez no Uruguai.

Interessante também notar que o BraSil é fortemente atacado

no momento em que consolida e amplia sua Projeção Internacional

como Elo de Intersecção entre os Países dos BRICS e os da CELAC.

A Esperança reside no fato de que este País, pela potência que é,

já que exerce atualmente Protagonismo Econômico na América Latina,

finalmente resolva assumir o papel de Liderança Política Regional

para formar um Monólito de Resistência, juntamente com China e Rússia.

http://www.mercociudades.org/sites/portal.mercociudades.net/files/celac.jpg
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RETROSPECTIVA

(http://www.esquerda.net/opiniao/os-estados-unidos-contra-todo-o-mundo)
(http://jornalggn.com.br/blog/luisnassif/clipping-do-dia-487?page=1)
(http://novo.fpabramo.org.br/content/celac-brics-e-governanca-da-internet)
(http://blog.planalto.gov.br/wp-content/uploads/2014/01/LHumanite_Dimanche_Pages70_72.pdf)
(http://celac.cubaminrex.cu/es)
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Responder

    FrancoAtirador

    24/12/2014 - 06h50

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    31/01/2013
    Carta Maior

    Lula diz que EUA perderam guerra para Cuba e pede fim do bloqueio

    Havana – Em discurso na 3ª Conferência Internacional pelo Equilíbrio do Mundo, patrocinada pela Unesco e que acontece na capital cubana, o o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que os Estados Unidos perderam guerra para Cuba e pediu fim do bloqueio econômico imposto pelos norte-americanos ao país.

    “Não existe mais nenhuma razão de se manter o bloqueio [de Cuba] a não ser a teimosia de quem não reconhece que perdeu a guerra, e perdeu a guerra para Cuba”, disse Lula, ao discursar no encerramento da conferência.

    “Espero que [Barack] Obama neste mandato tenha um olhar mais igualitário e mais justo para a nossa querida América Latina”, defendeu o ex-presidente. “Como sou otimista, eu acredito que um dia os Estados Unidos vão rever a sua posição, e espero que seja no governo Obama, pois tem nenhuma razão para continuar com o bloqueio a Cuba.”

    A conferência é a terceira realizada em 10 anos e se propõe a debater internacionalmente a contribuição intelectual do herói da independência cubana José Martí. O evento coincide com os 160 anos de Martí e com o aniversário de 60 anos da invasão do Quartel Moncada, um importante marco da revolução cubana. Participaram cerca de 1500 pessoas, dos quais 800 estrangeiros de 44 países.

    Lula abriu o seu discurso pedindo um minuto de silêncio para as vítimas do incêndio em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, e fez uma homenagem a Hugo Chávez, que se encontra internado em um hospital de Havana para tratamento de um câncer na região pélvica em tratamento de saúde.

    O ex-presidente ressaltou a importância do evento para a integração latino-americana e criticou a imprensa. “Nem reclamo, porque no Brasil a imprensa gosta muito de mim”, afirmou.

    “Eles não gostam da esquerda, não gostam de [Hugo] Chávez, não gostam de [Rafael] Correa, não gostam de Mujica, não gostam de Cristina [Kirchner],não gostam de Evo Morales, e não gostam não pelos nossos erros, mas pelos nossos acertos”, disse. Para Lula, as elites não gostam que pobre ande de avião, compre um carro novo ou tenha uma conta bancária.

    *As informações são do Instituto Lula.

    (http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Lula-diz-que-EUA-perderam-guerra-para-Cuba-e-pede-fim-do-bloqueio/6/27326)
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    .
    Leia também:

    São Paulo – 31/01/2013 – 10h05
    Opera Mundi

    Em Cuba, Lula pede fim do bloqueio e afirma que EUA “perderam a guerra”

    Ex-presidente brasileiro participou de conferência na capital Havana
    em homenagem a José Martí e se encontrou com os irmãos Fidel e Raul

    (http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/26888/em+cuba+lula+pede+fim+do+bloqueio+e+afirma+que+eua+perderam+a+guerra.shtml)

    Vídeo teleSUR tv:

    LULA na III Conferencia por el Equilibrio del Mundo:

    “No hay motivo para mantener bloqueo a Cuba”

    (https://www.youtube.com/watch?v=glFGC09H4Fs)
    .
    .

    Vitorio Guilhermo Sorenzi

    25/12/2014 - 12h18

    Tá de sacanagem, né? Cuba ganhar guerra de EUA? Que falta de visão!! Até parece que uma ditadura militar seja exemplo para alguém quando o Brasil sério e progressista se levanta contra quem pede a ditadura de volta!

Luís Carlos

24/12/2014 - 00h32

A guerra fria jamais acabou. Os EUA permanecem seus ataques à Russia, vide situação forçada pelos ianques na Ucrânia visando desgastar russos. A ofensiva econômica de China e Russia na América Latina, por exemplo, com início das obras do Canal da Nicarágua certamente terá desdobramentos por parte dos EUA, bem como a criação do banco dos BRICS.

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Fabio Passos

23/12/2014 - 19h11

Viva Cuba!
Derrotou os ianques terroristas mostrando ao mundo que a ética e a solidariedade podem vencer a ganância ilimitada.

O tio sam é odiado em todo o planeta.
Os eua são os mais sanguinários ladrões em atividade no globo.

Já Cuba é nação respeitada em todo o mundo.

Chupa, PiG/psdb.
Perderam mais uma.

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lulipe

23/12/2014 - 18h19

Esses defensores da ditadura cubana são hilários!!!

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    Paulo Lopes

    23/12/2014 - 20h47

    O sonho de todos eles é o de morar em Manhattan e ganhar o Green Card.

    Coitados… urra urra urra, mas morre de vontade de morar ou pelo menos conhecer os EUA.

Marivaldo Antunes Netto

23/12/2014 - 17h50

Cuba sempre soube aliar suas convicções a estratégias que levassem à vitória política. Nunca abriu mão de sua independência política, que foi o motivo da guerra contra a Espanha. Jamais admitiu imperialismo em suas terras e soube, como ninguém, impor-se. Mesmo que à custa de privações no plano material. Quando uma elite dirigente consegue fazer com que as suas convicções sejam as mesmas da massa social, essa sociedade se torna indestrutível. Isso explica a longevidade do projeto cubano. Que sem o bloqueio, agora, vai poder percorrer caminhos mais gloriosos. Viva Cuba e os cubanos!!!

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Zanchetta

23/12/2014 - 16h40

Mas quem disse que acabou o embargo. O Obama está na fase do mandato que não manda nem em casa mais…

Vai ter que convencer muito republicano por lá ainda…

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Rodrigo Leme

23/12/2014 - 05h18

“…a prisão de um empresário norte-americano que levava materiais de comunicação a setores da oposição clandestina em Cuba…”

ADORO a casualidade com que isso é citado. A pessoa foi presa por entrar com bombas, armas? Não, materiais de comunicação! Todos sabemos que isso é motivo para se prender alguém, super normal.

E “oposição clandestina” é sensacional. Em regime de exceção, todas as oposições sao.

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FrancoAtirador

23/12/2014 - 02h01

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Calma, Professor Emir.

Aqui no braZil

ainda nem caiu

o Muro de Berlim.
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Responder

Brasileiríssima

22/12/2014 - 20h16

Muito bom: vivi para ver!!!!!!!!!!!!!!!!

Responder

Maria

22/12/2014 - 19h37

Atenção jornalistas. Vão a Cuba: fotografem, entrevistem, escrevam.

Não dará um ano para que possam fotografar crianças dormindo nas ruas, enormes disparidades salariais, só pra começar.

Cadê as notícias ótimas sobre a Rússia capitalista?

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